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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Jul16

Férias à vista

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã vou de férias e suponho que a maioria dos leitores deste blogue também. Apesar de muitas alegrias (Portugal campeão da Europa de futebol e muitas medalhas no atletismo e no hóquei), o ano tem sido de muito trabalho, e não só estou a precisar de descansar fisicamente como a precisar de tempo para me concentrar num livro que espero começar em breve (depois conto). Não vou, por isso, regressar aqui a esta nossa casa comum antes de Setembro – e perdoem-me os Extraordinários a ausência, mas prometo trazer boas novas por essa altura (livros novos e outras leituras). E, porque vou para perto do mar, lembrei-me de me despedir hoje com o livro de John Banville, O Mar, que ganhou há uns anos o Booker Prize e conta a história de um homem que, depois de perder a mulher de uma vida inteira, decide regressar às memórias da infância (quase todos os velhos a buscam no fim da vida) e revisitar uma estância balnear onde passou férias em criança e teve a sua primeira paixão  (por uma mulher que devia ter a idade da sua mãe, mas na verdade não se parecia nada com ela, e uns dias depois pela filha dela). Quem não for para o mar, pode levar por isso O Mar no bolso e, se não vier bronzeado, virá, pelo menos, mais lido e mais rico. Boas férias a quem vai de férias! Bom trabalho a quem fica! O mais importante de tudo: leiam sempre!

 

28
Jul16

Boas ideias

Maria do Rosário Pedreira

Todos os que escrevem – julgo eu – gostam que os seus textos dêem origem a críticas, comentários e ideias interessantes. Não sou excepção. Há muitos anos, quando publiquei o meu primeiro livro de poemas, A Casa e o Cheiro dos Livros, contaram-me que um padre da igreja do Lumiar leu na missa de Quinta-Feira Santa um poema meu chamado «A Última Ceia» e fiquei admirada e contente; mais tarde, uma estudante de joalharia inspirou-se num texto meu para fazer um alfinete de prata que acabei por ver numa exposição colectiva (e que não resisti a comprar); e, entre muitas outras coisas que dão ânimo e alegria, fui há pouco informada de que uma mestranda de Arquitectura da Universidade do Minho chamada Carla Gonçalves Ferreira realizou uma tese intitulada «Casa Sentida: Proposta de um Exercício de Projecto a partir de Uma Antologia de Poemas» que reflecte o projecto de uma casa para um «cliente fictício». A originalidade está em que esse cliente é um leitor de poesia que fornece à arquitecta (para a inspirar?) uma antologia de poemas de vários autores portugueses nos quais é sempre abordado o tema da casa, directa ou indirectamente. Dois desses poemas eram meus, de dois livros diferentes (e, sim, a casa é talvez um dos temas que mais vezes trato) – e agora a Universidade (que, suponho, gostou muito da ideia) decidiu editar a antologia poética para oferecer a alunos e professores. Não são estas coisas que fazem andar a vida? Eu gostei – e agora quero ler a tese e descobrir a antologia de ponta a ponta.

 

P.S. Hoje, na FNAC de Santa Catarina, no Porto, plas 18h30, fazemos o lançamento do romance As Histórias Que não Se Contam, de Susana Piedade, finalista do Prémio LeYa em 2015. Apareçam!

 

27
Jul16

Escrever em Berlim

Maria do Rosário Pedreira

Na sequência da visita de editores alemães e ingleses a Portugal durante a última Feira do Livro de Lisboa, de que já aqui vos falei, a nossa diplomacia na Alemanha dá-nos mais uma boa notícia: a da criação de uma residência literária em Berlim, durante um ou dois meses, para um escritor português, com o apoio de uma associação local. Não só é sempre bom sair da rotina e das preocupações diárias e ser catapultado para um lugar onde a única obrigação é escrever, como estas residências têm habitualmente efeitos colaterais benéficos, pois permitem ao escritor-residente o contacto com confrades, agentes e editores do país onde está e ainda a hipótese de realizar leituras e encontros com o seu público potencial que, uma vez por outra, acabam por facilitar a tradução e a publicação da sua obra. Se escreve, tem obra publicada e gostaria de passar uma temporada em Berlim a começar ou terminar um livro, consulte o site da Embaixada de Portugal em Berlim para perceber se pode candidatar-se. Ou este link que, no fundo, dá toda a informação necessária sobre o assunto. E boa sorte!

 

https://www.berlim.embaixadaportugal.mne.pt/pt/a-embaixada/noticias/282-abertura-de-candidaturas-bolsa-de-residencia-literaria-em-berlim

 

P.S. Ontem, por causa do post sobre o desaparecimento das bibliotecas itinerantes, recebi o seguinte esclarecimento (importante) de José Manuel Cortês, da DGLAB: «Hoje estão em funcionamento mais de setenta bibliotecas itinerantes (agora chamam-se bibliomóveis) em todo o país que trabalham em articulação com as bibliotecas públicas municipais. Eu reconheço que são poucas para as necessidades. Mas também sei, segundo informações que tenho, que há tendência para aumentar. Estou à vontade para falar disto porque é uma inciativa fundamentalmente das Autarquias. Principalmente em áreas com povoamento muito disperso e com comunidades com dificuldades de deslocação.» São, portanto, boas notícias!

26
Jul16

O que deixa saudades

Maria do Rosário Pedreira

O jornal digital Observador publicou recentemente um artigo sobre as velhinhas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, afirmando que nunca nada em Portugal conseguiu fazer tantos leitores como elas e perguntando-se simplesmente porque não voltam. Pois bem, a verdade é que conheci enquanto estudante e enquanto editora – portanto, em dois tempos muito distantes entre si – muita gente que começou a ler por causa destas carrinhas ambulantes cheias de livros que passavam nas terras mais insignificantes e punham a miudagem toda a ler. (Em 1959, já havia mais de 80 000 leitores espalhados pelo País à espera das bibliotecas em 118 concelhos! E, para quem não saiba, os poetas Alexandre O’Neill e Herberto Helder colaboraram com o projecto, orientando leitores e tirando-lhes dúvidas). O serviço foi, porém, extinto ao fim de 44 anos, em 2002, por falta de público, uma vez que o Estado criou uma rede de leitura pública e construiu bibliotecas fixas por todo o País que, tanto quanto sei, são bastante frequentadas por muita gente, dos miúdos aos mais velhos que ali vão ler muitas vezes os jornais. Mas não é a mesma coisa, claro: a carrinha dos livros tinha o mesmo apelo da carrinha dos gelados. Leio que a Fundação Calouste Gulbenkian não pondera o seu regresso, mesmo noutros moldes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

25
Jul16

O autor e o leitor

Maria do Rosário Pedreira

Hoje em dia os autores vão a todo o lado – escolas, bibliotecas, feiras, festivais – e não raro têm de estar na berlinda a falar com aqueles que lêem ou virão a ler os seus livros. De um modo geral, os escritores vão descontraidamente para esses lugares e respondem àquilo que lhes perguntam, mas há quem ache que esses momentos são determinantes para se conquistar o público e não devem ser desperdiçados. Num artigo de Jane Friedman, uma mulher com vinte anos de experiência editorial, ela aconselha aos novos autores cinco passos que os vão ajudar a ter êxito nestas actividades. Em primeiro lugar, pensar no que vão dizer e escrever tudo de fio a pavio (um texto para dez minutos de conversa e talvez outros dez de leituras, que podem ser intercaladas na conversa); se usar o humor, óptimo, mas só se for o tipo de pessoa que já recorre habitualmente a ele. Em segundo lugar, ler alto o texto até se sentir completamente confortável com ele (cortar tudo o que for complicado de dizer). Em terceiro lugar, transformar esse texto em notas, usando um tipo de letra maior e palavras-chave que recordem o texto completo: partir delas para a conversa. Em quarto lugar, Friedman aconselha que se varie o tom do que é dito e do que é lido e não se escolha nenhum excerto demasiado difícil – a linguagem escrita é uma coisa, a oralidade é outra. Por fim, o autor deve pensar em todas as perguntas mais plausíveis que lhe vão ser feitas e ensaiar as respostas. Assim, garantidamente, vai sair-se bem. Bons conselhos para quem começa.

22
Jul16

Dançar

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que dançar é uma coisa maravilhosa que faz bem à saúde física e mental. Eu delicio-me a ver dançar quem sabe e já não dou uns passos de dança há mesmo muito tempo, mas, quando se usava dançar, também me fazia sentir bem. A dança liberta – e é sobre isso também que fala o livro que hoje vos trago, Dança, assinado por um dos maiores ilustradores portugueses – João Fazenda, com quem já tive a sorte de poder trabalhar na minha biografia de Amália para os mais novos. Mas desta feita João Fazenda trabalhou absolutamente sozinho e conseguiu contar uma história em imagens – a de um homem viciado em trabalho que não se consegue descontrair nem arranjar um momento de pausa para dar um passinho de dança com a mulher. Este livro cheio de cores mostra bem a tensão do homem e a descontracção da mulher e foi muito justamente distinguido recentemente com o Prémio Nacional de Ilustração 2015, promovido pela Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, naquela que é a sua vigésima edição. Receberam ainda menções especiais do júri Yara Kono e Bernardo Carvalho – e já se sabe que por aí se diz que são sempre os mesmos a cativar o júri, mas a verdade é que todos eles são muito bons! Dance-se um pouco com este livro!

 

21
Jul16

Somar livros

Maria do Rosário Pedreira

Li um interessante artigo numa revista americana sobre o acumular incessante de livros por certas pessoas. Falava de alguém que entrava numa livraria sem intenção de comprar nada, mas saía sempre com três ou quatro livros novos – algumas vezes apenas novas e melhores edições de alguns títulos que já tinha em casa. Penso que todos os que visitam este blogue são um pouco assim, excepto os que têm o bom hábito de ir às bibliotecas (mas nem todos temos horários para isso), até porque há muitos livros que precisamos de consultar mas, na verdade, dispensaríamos ter. No entanto, já Walter Benjamin dizia que uma biblioteca com uma maioria de livros não lidos é muito mais inspiradora do que uma biblioteca de livros lidos. E, a este propósito, contava que, quando um homem rico e ignorante visitou um dia Anatole France, olhou para a sua biblioteca e perguntou se o escritor francês tinha lido todos aqueles livros; ao que ele respondeu que nem um décimo, mas que provavelmente o outro também não se servia da porcelana de Sèvres todos os dias...

 

20
Jul16

À procura da luz

Maria do Rosário Pedreira

Todas as pessoas têm problemas e contrariedades, embora nem todas os aceitem e resolvam da mesma forma e com igual resiliência. Há, mesmo assim, quem tenha visto a sua vida de tal maneira virada do avesso numa determinada circunstância que, forte ou fraco, precise mesmo de tempo para voltar a pôr-se de pé. É o caso das três protagonistas de As Histórias Que não Se Contam, de Susana Piedade, romance que foi finalista do Prémio LeYa no ano passado e sai este mês para os escaparates. Ana, Isabel e Marta sofreram (e sofrem) o indizível, tanto mais que não puderam sequer preparar-se para o que lhes aconteceu; e, assim, o seu desgosto, aliado à culpa de não terem conseguido evitá-lo, faz com que pensem que contar as suas histórias não vale de nada, pois ninguém que não tenha passado pelo mesmo poderá compreendê-las inteiramente. Mas, lá está, o acaso acaba por juntá-las, e da partilha das suas dores vai ser possível fazer nascer dias novos para cada uma delas e sobretudo impedir que algumas histórias realmente dramáticas se repitam. Muito actual nos temas e com um estilo poético e cuidado, este livro fala da importância de conversar sobre as coisas para que nos possamos libertar da escuridão e seguir em frente.

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19
Jul16

Vamos ler um fadinho?

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns dez anos, desafiaram-me para escrever as minhas primeiras letras de fado. A princípio, foi difícil: o espartilho da métrica e da rima era um mar menos livre do que aquele em que me acostumara a nadar, e as primeiras tentativas levaram dias e dias a ser concluídas. Mas, de repente, foi como um regresso à poesia que escrevia na adolescência e funcionou um pouco como o andar de bicicleta que, segundo dizem, nunca se desaprende. Nunca mais parei... Escrevo sempre para pessoas que me pedem e muito raramente para ninguém, ou seja, é raro fazer uma letra só porque sim. Mas admiro quem as escreva assim no abstracto, sem nem saber se virão a ser cantadas, e sei de um livrinho de letras de fado – Fado Maior, de Hélder Joaquim Gonçalves – que é justamente um conjunto de poemas para fados com melodias tradicionais ainda não cantados, mas, curiosamente, com a indicação da melodia que os poderia acompanhar. Uma vez que tantos fadistas cantam hoje cá dentro e lá fora, se alguns quiserem actualizar o seu reportório, têm neste livrinho muito com que se entreter...

18
Jul16

Um escritor do lado de fora

Maria do Rosário Pedreira

Habitualmente, quem ganha os principais prémios literários (nacionais ou internacionais, tanto faz) são os escritores conhecidos ou consagrados; mas já aconteceu por várias vezes um escritor arrebatar um galardão de respeito com a sua obra de estreia. Esse escritor será, no entanto, quase sempre alguém que já conhece o meio, que trabalha nele ou escreve em jornais, que segue o mercado de perto e sabe como as coisas funcionam. Mas, embora raramente, aparece às vezes uma pessoa que vem de fora do meio, desconhece quase tudo dele, viveu a vida sempre à margem da actividade literária e, de repente, chega e vence inesperadamente um dos mais cobiçados prémios da literatura. Foi este o caso de DBC Pierre, por exemplo, que confessou que a primeira vez que viu um escritor ao vivo foi no vestíbulo da sua editora britânica no dia em que foi assinar o contrato para o livro Vernon Little, O Bode Expiatório, que viria a ganhar o Booker Prize. Até esse momento, tinha sido de tudo um pouco, mas não escritor, e considera que foi a sua experiência de vida como actor, consumidor de drogas, cartoonista ou candidato a toureiro que o levou a escrever, e nada mais. Agora, aos aspirantes a escritores, diz: “Comecem a escrever e, ao primeiro sinal de algo inesperado, parem. Depois, comecem o livro nesse ponto.”