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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

25
Jul16

O autor e o leitor

Maria do Rosário Pedreira

Hoje em dia os autores vão a todo o lado – escolas, bibliotecas, feiras, festivais – e não raro têm de estar na berlinda a falar com aqueles que lêem ou virão a ler os seus livros. De um modo geral, os escritores vão descontraidamente para esses lugares e respondem àquilo que lhes perguntam, mas há quem ache que esses momentos são determinantes para se conquistar o público e não devem ser desperdiçados. Num artigo de Jane Friedman, uma mulher com vinte anos de experiência editorial, ela aconselha aos novos autores cinco passos que os vão ajudar a ter êxito nestas actividades. Em primeiro lugar, pensar no que vão dizer e escrever tudo de fio a pavio (um texto para dez minutos de conversa e talvez outros dez de leituras, que podem ser intercaladas na conversa); se usar o humor, óptimo, mas só se for o tipo de pessoa que já recorre habitualmente a ele. Em segundo lugar, ler alto o texto até se sentir completamente confortável com ele (cortar tudo o que for complicado de dizer). Em terceiro lugar, transformar esse texto em notas, usando um tipo de letra maior e palavras-chave que recordem o texto completo: partir delas para a conversa. Em quarto lugar, Friedman aconselha que se varie o tom do que é dito e do que é lido e não se escolha nenhum excerto demasiado difícil – a linguagem escrita é uma coisa, a oralidade é outra. Por fim, o autor deve pensar em todas as perguntas mais plausíveis que lhe vão ser feitas e ensaiar as respostas. Assim, garantidamente, vai sair-se bem. Bons conselhos para quem começa.

22
Jul16

Dançar

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que dançar é uma coisa maravilhosa que faz bem à saúde física e mental. Eu delicio-me a ver dançar quem sabe e já não dou uns passos de dança há mesmo muito tempo, mas, quando se usava dançar, também me fazia sentir bem. A dança liberta – e é sobre isso também que fala o livro que hoje vos trago, Dança, assinado por um dos maiores ilustradores portugueses – João Fazenda, com quem já tive a sorte de poder trabalhar na minha biografia de Amália para os mais novos. Mas desta feita João Fazenda trabalhou absolutamente sozinho e conseguiu contar uma história em imagens – a de um homem viciado em trabalho que não se consegue descontrair nem arranjar um momento de pausa para dar um passinho de dança com a mulher. Este livro cheio de cores mostra bem a tensão do homem e a descontracção da mulher e foi muito justamente distinguido recentemente com o Prémio Nacional de Ilustração 2015, promovido pela Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, naquela que é a sua vigésima edição. Receberam ainda menções especiais do júri Yara Kono e Bernardo Carvalho – e já se sabe que por aí se diz que são sempre os mesmos a cativar o júri, mas a verdade é que todos eles são muito bons! Dance-se um pouco com este livro!

 

21
Jul16

Somar livros

Maria do Rosário Pedreira

Li um interessante artigo numa revista americana sobre o acumular incessante de livros por certas pessoas. Falava de alguém que entrava numa livraria sem intenção de comprar nada, mas saía sempre com três ou quatro livros novos – algumas vezes apenas novas e melhores edições de alguns títulos que já tinha em casa. Penso que todos os que visitam este blogue são um pouco assim, excepto os que têm o bom hábito de ir às bibliotecas (mas nem todos temos horários para isso), até porque há muitos livros que precisamos de consultar mas, na verdade, dispensaríamos ter. No entanto, já Walter Benjamin dizia que uma biblioteca com uma maioria de livros não lidos é muito mais inspiradora do que uma biblioteca de livros lidos. E, a este propósito, contava que, quando um homem rico e ignorante visitou um dia Anatole France, olhou para a sua biblioteca e perguntou se o escritor francês tinha lido todos aqueles livros; ao que ele respondeu que nem um décimo, mas que provavelmente o outro também não se servia da porcelana de Sèvres todos os dias...

 

20
Jul16

À procura da luz

Maria do Rosário Pedreira

Todas as pessoas têm problemas e contrariedades, embora nem todas os aceitem e resolvam da mesma forma e com igual resiliência. Há, mesmo assim, quem tenha visto a sua vida de tal maneira virada do avesso numa determinada circunstância que, forte ou fraco, precise mesmo de tempo para voltar a pôr-se de pé. É o caso das três protagonistas de As Histórias Que não Se Contam, de Susana Piedade, romance que foi finalista do Prémio LeYa no ano passado e sai este mês para os escaparates. Ana, Isabel e Marta sofreram (e sofrem) o indizível, tanto mais que não puderam sequer preparar-se para o que lhes aconteceu; e, assim, o seu desgosto, aliado à culpa de não terem conseguido evitá-lo, faz com que pensem que contar as suas histórias não vale de nada, pois ninguém que não tenha passado pelo mesmo poderá compreendê-las inteiramente. Mas, lá está, o acaso acaba por juntá-las, e da partilha das suas dores vai ser possível fazer nascer dias novos para cada uma delas e sobretudo impedir que algumas histórias realmente dramáticas se repitam. Muito actual nos temas e com um estilo poético e cuidado, este livro fala da importância de conversar sobre as coisas para que nos possamos libertar da escuridão e seguir em frente.

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19
Jul16

Vamos ler um fadinho?

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns dez anos, desafiaram-me para escrever as minhas primeiras letras de fado. A princípio, foi difícil: o espartilho da métrica e da rima era um mar menos livre do que aquele em que me acostumara a nadar, e as primeiras tentativas levaram dias e dias a ser concluídas. Mas, de repente, foi como um regresso à poesia que escrevia na adolescência e funcionou um pouco como o andar de bicicleta que, segundo dizem, nunca se desaprende. Nunca mais parei... Escrevo sempre para pessoas que me pedem e muito raramente para ninguém, ou seja, é raro fazer uma letra só porque sim. Mas admiro quem as escreva assim no abstracto, sem nem saber se virão a ser cantadas, e sei de um livrinho de letras de fado – Fado Maior, de Hélder Joaquim Gonçalves – que é justamente um conjunto de poemas para fados com melodias tradicionais ainda não cantados, mas, curiosamente, com a indicação da melodia que os poderia acompanhar. Uma vez que tantos fadistas cantam hoje cá dentro e lá fora, se alguns quiserem actualizar o seu reportório, têm neste livrinho muito com que se entreter...

18
Jul16

Um escritor do lado de fora

Maria do Rosário Pedreira

Habitualmente, quem ganha os principais prémios literários (nacionais ou internacionais, tanto faz) são os escritores conhecidos ou consagrados; mas já aconteceu por várias vezes um escritor arrebatar um galardão de respeito com a sua obra de estreia. Esse escritor será, no entanto, quase sempre alguém que já conhece o meio, que trabalha nele ou escreve em jornais, que segue o mercado de perto e sabe como as coisas funcionam. Mas, embora raramente, aparece às vezes uma pessoa que vem de fora do meio, desconhece quase tudo dele, viveu a vida sempre à margem da actividade literária e, de repente, chega e vence inesperadamente um dos mais cobiçados prémios da literatura. Foi este o caso de DBC Pierre, por exemplo, que confessou que a primeira vez que viu um escritor ao vivo foi no vestíbulo da sua editora britânica no dia em que foi assinar o contrato para o livro Vernon Little, O Bode Expiatório, que viria a ganhar o Booker Prize. Até esse momento, tinha sido de tudo um pouco, mas não escritor, e considera que foi a sua experiência de vida como actor, consumidor de drogas, cartoonista ou candidato a toureiro que o levou a escrever, e nada mais. Agora, aos aspirantes a escritores, diz: “Comecem a escrever e, ao primeiro sinal de algo inesperado, parem. Depois, comecem o livro nesse ponto.”

 

15
Jul16

Lisboa ao virar da página

Maria do Rosário Pedreira

Lisboa está na moda – e os turistas enchem todos os dias as suas ruas, vindos dos quatro cantos do mundo. É, pois, necessário responder à sua presença com guias turísticos de qualidade e novas abordagens nas visitas à cidade, porque as pessoas não são todas iguais nem querem exactamente a mesma coisa de uma viagem. Recentemente, saiu um livrinho maravilhoso que devia ser rapidamente traduzido, Ler e Ver Lisboa, uma vez que oferece uma perspectiva da capital completamente inovadora, seja através das ficções de vinte autores sobre espaços lisboetas (das galerias romanas ao Padrão dos Descobrimentos, da Sé à Praça do Chile), seja pela paleta de outros tantos ilustradores muito talentosos. Como disse o crítico literário José Mário Silva, todos estes quarenta intervenientes estão “empenhados em sobrepor um mapa imaginário ao mapa real” e o resultado é simplesmente delicioso, literária e artisticamente falando. A variedade também ajuda muito: temos autores veteranos (Alice Vieira e Mário Zambujal) ao pé de escritores mais novos, como Joana Bertholo ou Valério Romão, e verdadeiros génios da ilustração, como João Fazenda, André Letria ou Alex Gozblau ao lado de outros menos conhecidos (pelo menos, para mim), como Gonçalo Viana ou Rui Sousa. Uma reinvenção da cidade para portugueses e não só, editada pela EGEAC e à venda nas lojas do Turismo de Lisboa.

14
Jul16

Açores

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que os Açores são um dos mais belos lugares do mundo – e eu desejo lá ir, claro, mas ainda não se me apresentou a oportunidade. Enquanto estou com água na boca, entretenho-me, pois, a ler os Açores pela mão de quem os conhece bem– e, recentemente, saíram quase ao mesmo tempo três livros (dois não são novos, mas têm a cara lavada) dedicados a estas ilhas de sonho: dois deles são de açorianos, o terceiro de um escritor italiano que se apaixonou pelo arquipélago. Mas nenhum deles é um guia turístico, pelo que podem esperar de todos essa maravilha que é a literatura. A Vida no Campo, de Joel Neto, reúne crónicas publicadas em vários jornais que se debruçam sobre zonas afastadas dos centros urbanos e reflectem memórias do autor que regressou à terra-natal, a par de curiosas observações; Açores – O Segredo das Ilhas, de João de Melo, é uma reedição de um texto inicialmente publicado em formato de álbum que resultou de duas viagens realizadas pelo escritor sem destino certo nem plano, nas quais ele foi ouvindo pessoas e histórias. Por último, A Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi, é um relato de uma viagem real e ficcionada aos Açores em busca de baleias e naufrágios. Todos estes três livros – como os Açores de que falam – são especialmente bonitos.

 

13
Jul16

Limpar o coração

Maria do Rosário Pedreira

Javier Marías é considerado um dos grandes escritores actuais da vizinha Espanha. Não é um homem especialmente simpático – há muitos anos, em Lisboa, no Botequim de Natália Correia para o lançamento do seu livro Todas as Almas, disse ao público presente que o seu romance era certamente muito menos chato do que o apresentador (que falara mais de quarenta minutos) fizera crer... Mas um bom romancista não tem obrigatoriamente de ser uma pessoa agradável, claro. Marías tem, de resto, muitos bons livros – e um dos mais emblemáticos e premiados é Coração tão Branco, que tem um arranque notável com uma rapariga regressada da lua-de-mel a acabar com a vida na casa de banho da mesma casa onde decorre um almoço festivo. O narrador é justamente sobrinho dessa noiva infeliz, filho da sua irmã mais nova que, saberemos adiante, se casou com o jovem viúvo, seu cunhado. E é um narrador seguríssimo na sua actividade profissional (intérprete e tradutor que estica muitas vezes a corda em encontros de políticos), mas menos seguro relativamente ao próprio casamento, aos segredos que é preciso manter e partilhar e até ao seu pai, que nunca explicou muito bem porque, antes de se casar com a sua mãe, teve duas mulheres que morreram prematuramente e alguns negócios em torno da arte um tanto escusos. E, já se sabe, um coração que não está limpo pode ser um grande problema... Altamente recomendável.

12
Jul16

Os novos plagiadores

Maria do Rosário Pedreira

Todos sabemos como é difícil a um escritor desconhecido arranjar quem lhe publique o primeiro livro – e é certamente por isso que já há muitas empresas a fazerem dinheiro à custa disso, algumas das quais publicam tudo o que vem à rede desde que o autor financie a edição, nem que seja mediante a compra de um certo número de exemplares que cubra o investimento necessário para fabricar o livro. Mas nem toda a gente tem dinheiro para isso ou vai na cantiga, pelo que muitos dos que escrevem um primeiro texto, não conseguindo interessar nenhuma editora mais convencional, preferem apesar de tudo recorrer à auto-edição e divulgar ou vender a obra na Internet. Acontece, porém, que – sem o crivo de um profissional – podemos encontrar textos lastimáveis à disposição do público, gratuitamente ou a preços módicos, seja em termos de redacção, estrutura ou mesmo ortografia… Mas agora descobriu-se, além disso, que estes escritores que se auto-editam muitas vezes também plagiam os consagrados ou minimamente conhecidos com grande à-vontade. Nos Estados Unidos, parece que os escritores estão a braços com dezenas de situações em que alguém «rouba» os seus romances, muda uma coisa aqui e outra ali, superficialmente, e os vende depois como seus, alterando-lhes o título e fazendo crer aos leitores que se trata de uma coisa nova. No mundo de hoje, em que é fácil a qualquer um pôr um livro à venda na Amazon, têm-se repetido histórias deste tipo e descoberto, inclusivamente, que os pretensos autores se dão ao trabalho de cortar cenas mais picantes ou eróticas, como se fosse disso que devessem ter vergonha… Uma questão que, suponho, ainda vai dar muito que falar.