03
Mar 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:02link do post | comentar | ver comentários (12)

Ao longo dos anos, tenho-me dado conta de que os extraordinários comentadores deste blogue não têm uma especial atracção pela poesia; não que não gostem de a ler de vez em quando, mas talvez sejam mais chegados a um bom romance e, sobretudo, parecem desconhecer muito do que se vai fazendo na área nos últimos tempos. Uma boa maneira de remediar a lacuna é frequentar um bom curso que ensine a ler e compreender poesia – através de textos poéticos e teóricos – mas que forneça de igual modo nomes e correntes mais contemporâneas. Pois bem: há agora um desses cursos à disposição e começa já amanhã. As sessões terão como orientadores Marta Navarro, João Silveira e Rosa Azevedo e decorrerão em horário pós-laboral, das 19h00 às 20h00, às quartas-feiras, até ao dia 29 de Abril (dois meses é tempo para aprender tudo), na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, em Lisboa (Av. Dom Carlos I). Nas palavras dos organizadores, “A partir de algumas linhas de força (pensar a poesia, o poeta, a noção de escrita e de leitura) e da leitura de alguns poemas, este curso pretende criar leitores críticos, autónomos, livres de preconceitos e pré-leituras de cada texto. Não vamos ensinar a ler, não vamos ensinar a escrever; vamos, sim, abrir portas e caminhos múltiplos para que estes leitores criem com os livros um espaço de segredo, intimidade e absoluta autonomia.” Ora então, de que está à espera? O preço é de 45 euros mensais. O link para a inscrição aí vai: rosa.b.azev@gmail.com


02
Mar 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:08link do post | comentar | ver comentários (30)

Quando estava na Temas e Debates, nos primeiros anos deste século, publiquei um autor colombiano maravilhoso, de quem o grande García Márquez disse ser alguém a quem de bom grado passaria o testemunho. Os romances que dei à estampa foram Rosario Tesouras e Paraíso Travel e, já depois de eu ter deixado a editora, saiu ainda Melodrama, mas com a chancela da Quetzal. Tinha de algum modo perdido o rasto a Jorge Franco (que no meu tempo assinava Jorge Franco Ramos, mas deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro), mas ele agora ganhou um dos prémios de língua espanhola mais prestigiantes, o Prémio Alfaguara, e é precisamente o livro galardoado – O Mundo de Fora – que me encontro a ler neste momento. É bom matar saudades deste escritor que sabe contar uma história como ninguém e desenha personagens que ficam na nossa memória para sempre. Aqui, um ricaço – de castelo, limusina, criados para tudo e uma filha que é uma princesa de conto de fadas – é sequestrado por um gangue de rapazes aselhas que o fecham numa cabana, o remetem a um quartinho onde existe apenas um catre, e tentam pedir por ele um resgate. Mas nem Dom Diego colabora (não se deixa fotografar nem escreve um bilhete pelo seu punho para mostrar que está vivo), nem a sua família parece querer negociar com o chefe dos sequestradores – o absolutamente fantástico Mono, frustrado, mandão, cheio de devaneios sexuais mas com problemas de erecção com a namorada Twiggy (outra grande personagem), cansado da sua quadrilha de estúpidos e medricas e fascinado quer pela filha do sequestrado, quer por um rapaz que adora motos e relógios caros e o sabe levar como ninguém. Com saltos ao passado – para afinal descobrirmos porque Dom Diego tem a vida que tem e o seu castelo colombiano (um capricho seu, e não, como se possa pensar, um delírio de pato-bravo, porque o homem é um gentleman) – vamos acompanhando os dias e as conversas entre sequestrado e sequestrador, um mano-a-mano notável de que a esta hora ainda não sei quem sairá vencedor. Recomendo vivamente esta pérola.


27
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:07link do post | comentar | ver comentários (15)

Depois do atentado em França contra os jornalistas do Charlie, publicaram-se centenas de artigos de opinião em todo o mundo, muitos dos quais citavam Voltaire. O autor francês veio à baila, por exemplo, num texto muito interessante de Adolfo García Ortega no El País (abaixo fica o link para quem queira ler), no qual era citada a sua peça de teatro O Profeta Maomé e o Fanatismo (traduzo livremente, pois não sei se existe uma tradução portuguesa da peça); e também, mais recentemente, num artigo de Teresa Salema no Público que falava (além de muitas outras coisas) de Cândido («é preciso cultivar o nosso jardim»). Mas nenhum livro de Voltaire foi mais citado do que o seu Tratado sobre a Tolerância; de tal modo que a edição de bolso da editora Gallimard (a única, pelos vistos, que circulava em França) esgotou, em alguns dias, 120 000 exemplares (bem sei que só custava 2 euros, mas mesmo assim) e foi preciso reimprimir imediatamente, a tempo de estarem à venda no dia da marcha, outros 10 000 que, mesmo assim, se revelariam insuficientes. Neste período, o único livro com vendas equiparáveis foi o novo romance de Houellebecq, Soumission, que fantasia uma França islamizada (150 000 exemplares) e parecia ter sido feito de encomenda para os tempos terríveis em que saiu para o mercado. Mas, enfim, um texto com 250 anos concorrer com uma provocação de um autor vivo e polémico, sim, é obra!


26
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:45link do post | comentar | ver comentários (7)

Sim, é hoje que começa o encontro de escritores mais aguardado do ano: as nossas queridas Correntes d’Escritas! E, enquanto estiverem a ler este post, se tudo correr bem, eu estarei na Póvoa de Varzim, desta feita a acompanhar dois escritores: o grande Mário Cláudio, que lança este ano o delicioso O Fotógrafo e a Rapariga, e o espanhol Carlos Castán, de quem excepcionalmente (porque quase nunca faço livros estrangeiros) publico Má Luz, um romance belíssimo sobre dois amigos. Mas haverá muitos mais autores e celebridades a ouvir por estes dias, entre eles Eduardo Lourenço, José Tolentino de Mendonça, Guilherme d’Oliveira Martins (que fará a palestra de abertura Quem tem medo da Cultura?), o cubano Leonardo Padura, o colombiano Jorge Franco (de quem publiquei em tempos dois romances muito bons, Rosário Tesouras e Paraíso Travel, e que vou certamente gostar de rever), Ana Luísa Amaral, Paulo José Miranda (o vencedor da primeira edição do Prémio Literário José Saramago), Afonso Cruz, Bruno Vieira Amaral e até o brasileiro Martinho da Vila. Haverá muitos lançamentos de livros, mesas-redondas, cinema, exposições, enfim, um mar de coisas interessantes para encantar olhos e ouvidos. E este ano as sessões decorrerão maioritariamente no Cine-Teatro Garrett, arranjadinho de novo para nos servir de casa ao longo do festival. Vai ser mesmo bom!


25
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:25link do post | comentar | ver comentários (21)

Os Passos em Volta é um conhecido livro de Herberto Helder, cujo título foi agradavelmente corrompido por duas jovens poetas e jornalistas – Filipa Leal e Inês Fonseca Santos – para dar nome a uma série de tertúlias que decorrem desde o ano passado na Casa Fernando Pessoa. Trata-se, no fundo, de discutir questões que andam por aí à nossa volta, desde o 25 de Abril ao Génio, passando pela Guerra, a Confissão ou o Bem e o Mal. Amanhã, pelas 19h00, um heterógeno painel de convidados - Gonçalo Galvão Teles (cineasta), Maria Flávia de Monsaraz (astróloga) e Nuno Camarneiro (escritor e físico) – estará na morada do grande Pessoa a falar dos Espaços em Volta do Futuro com as duas moderadoras, numa troca de ideias certamente dinâmica e variada. Neste ano, em que se estreia mais um capítulo de A Guerra das Estrelas e o filme O Novo Mundo (a história de Pocahontas realizada por Terrence Malick) faz dez anos, a sessão dará ainda a conhecer obras de ficção científica em que 2015 era mesmo um futuro longínquo para questionar se a ficção alguma vez se torna realidade.


24
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28link do post | comentar | ver comentários (5)

Já aqui falei mais de uma vez da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero, autora dessa pequena obra-prima que é A Louca da Casa, um livro magnífico sobre a imaginação. Recentemente, Rosa voltou a Portugal para falar do seu último livro cá publicado – A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te –, um magnífico texto não ficcional sobre uma afinidade: a vida de Maria Curie e a sua, sobretudo desde que ambas perderam os maridos. Partindo da grande história da única mulher duas vezes nobelizada (e em categorias diferentes!) e de um seu pequeno diário escrito ao longo de um ano, na sequência da morte de Pierre Curie, Rosa Montero dá-nos a conhecer a cientista polaca que se tornaria francesa (a sua infância, a sua juventude, a sua garra, o seu trabalho de loucos) e, paralelamente, o que a une a si própria como mulher emancipada, trabalhadora, marginalizada, viúva. É um texto belíssimo do ponto de vista literário, mas também muito claro e informativo sobre uma mulher (ou duas) como há poucas. Lê-se de um fôlego, como um desses romances imparáveis, e mexe connosco a cada página, ao mesmo tempo deslumbrante e perturbador.


23
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:50link do post | comentar | ver comentários (8)

Cada vez mais os autores se tornam uma espécie de estrelas pop e cada vez mais perto estão do público. Talvez por isso, a LeYa acaba de lançar (fui informada por uma newsletter interna que recebo todas as sextas) a primeira aplicação (devia dizer apenas app?) para iPhone, iPad e Android dedicada aos fãs de escritores de língua portuguesa publicados nas várias chancelas do grupo. Foi desenvolvida em parceria com a Info Portugal e o seu objectivo é tornar acessíveis aos leitores a biografia e a bibliografia do seu autor favorito, mas não só; vai ser também possível consultar a agenda do escritor (para saber se pode apanhá-lo em alguma escola ou biblioteca perto de casa para lhe pedir um autógrafo), ver fotografias e vídeos de entrevistas e programas em que ele aparece, e, claro, ler excertos de algumas obras e deixar os comentários que entender. Segundo o comunicado, mais do que fornecer informação, esta app (estou a modernizar-me) promove interacção e inaugura uma nova forma de comunicação entre leitor e escritor. A primeira a ser lançada, e já disponível na App Store e no Google Play, é a do escritor moçambicano Mia Couto, que – é bem verdade – tem mesmo muitos fãs.

 


20
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (10)

Excepcionalmente, publico um livro na Teorema, Má Luz, de Carlos Castán, um autor espanhol que só costuma escrever contos (género em que se tornou um escritor de culto no país vizinho), mas que, ao atrever-se ao romance, mostrou que era igualmente hábil numa ficção mais comprida. A história começa com a relação de dois amigos homens desencantados com a vida, naquela idade em que começam a perceber que viveram muito (copos, mulheres, filhos de várias mulheres, drogas), mas se calhar não guardaram disso nada que agora, que começam a envelhecer, lhes valha. Um dos amigos começa até a ficar paranóico e a dizer que o perseguem e lhe querem bater, mas o outro julga que ele está apenas perturbado até ao dia em que a Polícia lhe telefona a comunicar que, de facto, Jacobo morreu assassinado. E é notável como o narrador, ainda mais só do que antes, se apropria da vida do morto, não só porque essa é a única forma de fugir à sua, mas sobretudo porque precisa de descobrir quem matou Jacobo, uma vez que não foi capaz de o ajudar a salvar-se. Uma mulher estará, claro, no centro de tudo – salvadora ou castigadora? É preciso ler esta pérola, de que João Tordo disse ser «um daqueles livros que dificilmente se esquecem, que perturbam uma noite tranquila em casa, uma tarde num café ou uma viagem de comboio.» Deixe-se, pois, perturbar.

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19
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:40link do post | comentar | ver comentários (10)

Paulo Moreiras já confessou gostar tanto de escrever como de cozinhar; e eu acrescentaria que este meu autor também gosta bastante de comer e beber – sem isso não conseguiria, de resto, escrever tão apaixonadamente sobre comida. Mas é verdade que para ele as palavras alimentam tanto como uma boa refeição e a sua paixão por elas levou-o recentemente a uma ambiciosa aventura, a de coligir num volume tudo o que há de interessante para saber sobre pão e vinho: festas, adivinhas, provérbios, lendas, superstições, poemas, pequenas histórias, filmes… e muito mais. Amanhã vamos poder saborear uma vez mais o seu Pão & Vinho – entretanto galardoado com o Prémio Gourmand! – na Figueira da Foz, onde estarei também eu a participar em mais uma 5.ª de Leitura que, excepcionalmente, vai acontecer à sexta. Será às 21h30, na biblioteca da cidade, e crê-se que a audiência já vá jantada, porque as palavras do Paulo Moreiras costumam fazer fome. Se estiver por perto, apareça e de certeza que não se arrependerá!

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18
Fev 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:18link do post | comentar | ver comentários (12)

Mário Cláudio gosta do número 3 e, como tal, brinda-nos frequentemente com trilogias. O escritor do Porto tornou-se conhecido sobretudo com o romance Amadeu (sobre o pintor Amadeu de Souza-Cardoso) e logo completou aquilo a que chamou a «Trilogia da Mão» com os romances Guilhermina e Rosa. Mais tarde, olhou o céu inspirador e ofereceu-nos a trindade de romances Ursa Maior, Gémeos e Oríon. Quando publicou o delicioso Boa Noite, Senhor Soares (este Soares é o Bernardo do Livro do Desassossego), não sabíamos que se tratava do primeiro livro de um trio sobre a relação entre pessoas de idades muito diferentes. O segundo volume saiu no ano passado e era sobre Da Vinci e um discípulo (intitula-se Retrato de Rapaz) e o terceiro vem a caminho (quase nas bancas!) e é sobre a relação nem sempre clara entre Charles Dodgson e Alice Lidell; chama-se O Fotógrafo e a Rapariga. Pois para quem não esteja inteirado, eu esclareço: Charles Dodgson é, nem mais nem menos, o nome real de Lewis Carroll, o espantoso autor de Alice no País das Maravilhas, e a menina Lidell, provocadora q.b., uma Lolita em muitos aspectos, é tão-só a rapariguinha que inspirou o professor de Matemática e fotógrafo amador a escrever um dos livros mais famosos de todos os tempos. Esta pequena novela de Mário Cláudio é então sobre o encontro destas duas figuras imperdíveis – e, aqui para nós, nenhuma delas é inocente… Leiam, leiam – e não se arrependerão.

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