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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Set17

Releituras

Maria do Rosário Pedreira

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

25
Set17

Escritor-Editor

Maria do Rosário Pedreira

Quando me pedem um depoimento sobre qualquer coisa, não é raro que debaixo do meu nome apareça escrito: Editora e escritora (ou vice versa). Não sou caso único em Portugal (lembro-me, por exemplo, de Francisco José Viegas, mas há outros exemplos); a mesma pessoa escrever e editar livros é, de resto, uma circunstância bastante comum no universo de língua inglesa. A grande escritora Toni Morrison (que ganhou o Nobel da Literatura) trabalhou muitos anos na Random House como editora, primeiro na área escolar e, depois de publicar o seu primeiro romance, no departamento de ficção. A canadiana Margaret Atwood teve a mesma função numa editora do seu país, tendo inclusivamente editado livros de Michael Ondaatje, o autor do famoso O Paciente Inglês. Também David Ebershoff, autor de livros como A Rapariga Dinamarquesa, foi até há bem pouco tempo editor e, ao que dizem, de muitos autores premiados, entre os quais Teju Cole, Joyce Carol Oates e David Mitchell. O mesmo acontece com o romancista Max Porter (não li ainda nada dele) que é, na Granta, o editor de autores como Rebecca Solnit e Han Kang e que diz que «o editor tem de ser parte revisor de provas, parte terapeuta». A lista inclui outros escritores, embora não muito conhecidos entre nós, dos quais destaco Gordon Lish, editor do celebérrimo Raymond Carver, que, segundo leio, tem peças de teatro que seriam uma boa réplica americana a Samuel Beckett e Thomas Bernhard, mas que é mais conhecido pelo seu trabalho na edição. Neste post, «editor» deve ser lido como pronúncia inglesa, pois não corresponde ao que publica, mas ao que lê e corrige o texto e organiza edições.

22
Set17

Oceanos

Maria do Rosário Pedreira

Com a venda da Portugal Telecom, o conhecido prémio literário PT, para obras em língua portuguesa publicadas no Brasil, esteve em risco de acabar, e valeu aos organizadores o Banco Itaú, que se tornou seu patrocinador, renomeando-o como Prémio Oceanos; com a mudança, o galardão deixou também de contemplar apenas livros publicados no Brasil, passando, a partir deste ano, a incluir títulos  publicados em Portugal nas categorias de poesia, romance e conto, tendo, de resto, uma curadora portuguesa (a jornalista Ana Sousa Dias). A primeira selecção está feita e há 51 livros na semifinal. Destes, 19 são de autores portugueses, desde logo os veteranos Lídia Jorge e Mário de Carvalho na categoria de conto. Na poesia, temos nada mais nada menos do que uma dezena de concorrentes de idades muito diferentes, de António Osório a Rui Lage ou Filipa Leal, a mostrar que os nossos poetas de todas as gerações se recomendam. Por fim, são sete os romances seleccionados – e fico muito contente porque publiquei três deles: Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, e Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo. Vão ombrear com livros de Ana Teresa Pereira, Jaime Rocha ou Afonso Cruz e, claro, com muitíssimos romances de escritores brasileiros. Agora, há que esperar e ter esperança.

21
Set17

Censura russa

Maria do Rosário Pedreira

Dois dias depois de ter visto um interessante documentário sobre as Pussy Riot (não sei se se lembram delas), leio no The Guardian uma história tremenda que mostra bem o estado a que chegou o preconceito e o autoritarismo na Rússia, cem anos passados sobre a Revolução. A inglesa V. E. Schwab é autora de uma trilogia de livros fantásticos, Shades of Magic, com a qual obteve um enorme sucesso no Reino Unido, tendo mais de 50 000 seguidores só no Twitter. Os livros, que contam as aventuras de Kell, um mago que viaja através de quatro versões paralelas da cidade de Londres, são pouco convencionais no seu género, uma vez que incluem, entre outras personagens, um príncipe bissexual e uma carteirista de sexo indefinido (penso que ela se terá inspirado nas 50 Shades (Sombras) of Grey...). Como em muitos outros países, a trilogia foi vendida na Rússia e lá publicada – e a sua autora ficou obviamente contente por a ver traduzida. Porém, depois de os livros terem saído por lá, e através de um leitor russo que conhecia ambas as versões, descobriu que lhe cortaram todas as cenas gay e reescreveram uma boa parte do enredo sem lhe pedirem sequer permissão… Uma lei assinada pelo senhor Putin bane todas as referências a relacionamentos sexuais “não tradicionais” e, como tal, a obra foi censurada… Será que também modificaram Reviver o Passado em Brideshead e outros clássicos? Não me admirava nada...

20
Set17

Especialização

Maria do Rosário Pedreira

Sempre achei que, para escrever, é preciso ter talento – e que, por mais que os cursos de escrita criativa ajudem alguém a organizar-se e fazer opções mais sensatas e originais, tem de haver qualquer coisa inata em termos de génio e criatividade. Mesmo assim, não nego que partilhar ideias com um especialista ou alguém mais informado sobre literatura é certamente profícuo para quem queira dedicar-se à escrita – e, como tal, não deixo de partilhar neste blogue o anúncio de uma pós-graduação (penso que seja a primeira numa universidade portuguesa) em Escrita de Ficção, que terá lugar na Universidade Lusófona, em Lisboa, com direcção da escritora e jornalista Filipa Melo e colaboração dos Booktailors. Cito o dito anúncio: “O curso propõe aos estudantes um programa exclusivamente focado na escrita de ficção e visa proporcionar-lhes contacto com os principais momentos e conceitos da história da literatura, as técnicas e convenções mais relevantes da criação do texto ficcional e os elementos básicos da ficção.
 
A segunda fase de candidaturas decorre até 23 de setembro, com resultados a 28 do mesmo mês.” Se estiver interessado, pode consultar aqui:

 

https://www.ulusofona.pt/pos-graduacoes/escrita-de-ficcao?utm_source=booktailors&utm_medium=email&utm_campaign=assinatura

19
Set17

Atlas literário

Maria do Rosário Pedreira

A ideia é boa, embora me pareça que o trabalho seja interminável enquanto os escritores forem escrevendo livros passados em Portugal. Trata-se de um atlas da paisagem portuguesa que consta da literatura (O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, em execução), um projecto coordenado pela investigadora Ana Isabel Queiroz que compreende mais de 350 obras de mais de 170 escritores, do século XIX aos nossos dias, e pretende ser um “repositório de excertos literários” de livros escritos por autores do mundo inteiro (portugueses também – ou sobretudo) que incluam referências à paisagem portuguesa, assim permitindo aos leitores uma viagem pela literatura e pelo território ao mesmo tempo. A notícia dá como exemplo uma descrição da Praça do Comércio, em Lisboa, feita nada mais nada menos do que por Hans Christian Andersen, por causa de uma visita que fez à capital portuguesa em 1866; mas o atlas incluirá naturalmente muitos excertos de Viagens na Minha Terra, de Garrett, Portugal Pequenino, de Raul Brandão, Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, Contos da Montanha, de Miguel Torga, ou Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco – e só estou a mencionar o mais óbvio. O mapa deve ser trabalho para muitas mãos e desconheço quando fica pronto, mas lá que vou gostar de lhe meter o nariz, não nego.

18
Set17

Traduzir o paraíso

Maria do Rosário Pedreira

Quando ainda editava obras de não-ficção, publiquei a certa altura um livro de Bill Gates, no qual se dizia que o mundo tinha mudado mais nos últimos 50 anos do que nos 500 anteriores. Pois bem, o número de traduções desse longuíssimo poema do século XVII chamado Paradise Lost (Paraíso Perdido), de John Milton – considerado um dos melhores livros de todos os tempos (Harold Bloom incluiu-o em O Cânone Ocidental, que também publiquei na Temas e Debates) –, foi, nos últimos 30 anos, muito maior do que nos 300 anos anteriores. A obra (que está dividida em dez livros) tem cerca de 300 traduções em 57 línguas, das mais «normais» (francês, alemão, hebraico ou castelhano) às mais estranhas (tâmil, persa, tonganês, galês e frísio). Estudiosos em todo o mundo reuniram-se para perceber quantas são as versões e porque, em certos países, houve mais de uma, chegando a interessantes conclusões, tais como que a publicação da obra coincide frequentemente com períodos de nacionalismo exacerbado ou de rebelião (e tudo vai estar explicado num livro intitulado Milton in Translation). Publicado originalmente em 1667, o poema sobre a desobediência de Adão ao comer o fruto proibido está disponível em português na editora Livros Cotovia com tradução do poeta Daniel Jonas, mas a obra já tinha tido uma tradução de Fernando da Costa Soares e Raul Mateus da Silva (feita, julgo eu, a partir da versão francesa), que também ainda se encontra à venda pela editora Húmus, e, pelo menos, outra mais antiga, do século XIX, pela pena do doutor António José de Lima Leitão. O pecado original nunca passa de moda.

15
Set17

Possuir

Maria do Rosário Pedreira

O Manel costuma dizer que, lá em casa, eu sou a leitora e ele o bibliófilo – e talvez tenha razão. Não tenho espírito de coleccionadora e o que amo acima de tudo nos livros é o texto. Claro que não sou indiferente a uma bonita edição de determinado livro ou a uma colecção bem feita obedecendo a um tema ou estratégia. Mas do que gosto mesmo é de ler e não me importaria de alienar parte da minha biblioteca se tivesse, por exemplo, de mudar para uma casa mais pequena e soubesse que não voltaria a ler esses livros. Não sou também, regra geral, agarrada às coisas, que substituo sem grandes desgostos, ou sequer possessiva. Talvez por isso me custe entender porque há malucos que pagam fortunas para possuir uma peúga de John Lennon; talvez por isso me custe ver agora que os herdeiros do meu poeta favorito – o irlandês William Butler Yeats – vão leiloar centenas de cartas de amor (incluindo 130 manuscritas enviadas à primeira namorada), livros, quadros, móveis e objectos pessoais do escritor que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1923. A mim, que o venero, nunca me passaria pela cabeça possuir os seus originais (contentar-me-ia em lê-los), e menos ainda a poltrona onde terá posto o rabo. Mas a Sotheby’s vai de certezinha absoluta facturar – e muito, porque nem todos somos iguais e há quem goste simplesmente de possuir.

14
Set17

Desinformar

Maria do Rosário Pedreira

Durante muito tempo, os jornalistas não escreviam ao de leve sobre o que não sabiam – e, se lhes calhava terem de escrever sobre a realidade de um país que não conheciam, investigavam e liam para não dizerem disparates. Mas hoje, postos um pouco de lado os livros, a Wikipédia é muitas vezes a principal fonte de pesquisa de um jovem jornalista – e a Internet, como todos sabemos, apesar de muito útil, está cheia de incorrecções e imprecisões. Daí que, de vez em quando, alguns jornais e televisões (não falo só dos portugueses) nos ofereçam visões completamente redutoras de determinados países. Penso, por exemplo, que a maior parte do público que não lê livros nem sabe de História, influenciada pela narrativa do terrorismo actual veiculada pelos media, imagina a maioria dos países islâmicos como uma espécie de terra de bárbaros entalada no deserto, sem água nem luz e com camelos em vez de automóveis… Chama muito justamente a atenção para este problema o meu colega blogger Ricardo Jorge Pereira em Uso Externo, indignado com o facto de lhe apresentarem tantas vezes o Irão como berço de terroristas e país de selvagens quando o país (ah, a velha Pérsia e a sua longa história) já tinha, por exemplo, uma taxa de literacia que rondava os 80% há dez anos e tem hoje a maior livraria do mundo, que fica em Teerão. Também o fotógrafo Alfredo Cunha descreveu há pouco tempo ao Manel a parte curda do Iraque como incrivelmente organizada e interessante, mas acho que não é essa a ideia que costumam passar-nos. Por isso, vale sempre a pena confirmar e completar dados e não tomar a parte pelo todo. Os livros dão, claro, uma boa ajuda.

13
Set17

Venha o Diabo e escolha

Maria do Rosário Pedreira

É bom quando uns livros nos levam a outros – e foi isso que me aconteceu recentemente: o livro de Isabel Lucas sobre a América através dos livros – Viagem ao Sonho Americano (de que falarei também aqui um dia destes) – acabou por nos levar (ao Manel primeiro e a mim depois) até um autor que não conhecíamos: Donald Ray Pollock, um homem que foi quase toda a vida operário numa fábrica do Ohio e que de repente tirou um curso de Belas Artes e começou a escrever. A uma colectânea de contos muito aplaudida pela crítica, seguiu-se Sempre o Diabo, o romance que aqui me traz hoje e que é realmente um caso sério de boa literatura. Se gosta dos filmes mais violentos de Tarantino (ou, vá lá, com menos humor), de Natural Born Killers, de Oliver Stone, ou mesmo algum David Lynch mais sórdido (e, porque não?, de algum Cormac McCarthy), então adorará este livro cheio de «feios, porcos e maus», entre os quais um casal de serial killers que dá boleia às suas vítimas nas férias de Verão (as férias são só para isso, de resto), um veterano da Segunda Guerra Mundial que sacrifica animais para salvar a mulher de um cancro, ou a estranha dupla de pregadores Roy-Theodore (um deles deficiente e gay) que testam a sua fé de maneiras bastante estranhas (com aranhas, por exemplo). É difícil encontrar neste livro alguém que seja bom e inteligente, excepto Arvin, por cuja vida tememos até à última página; mas, apesar do permanente pontapé no estômago, este é um romance sobre a vida precária de uma certa América que, no meio da tragédia, consegue passar laivos de uma estranhíssima humanidade. Autor a acompanhar, evidentemente.