19
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (27)

Agora, que o Natal se aproxima, recebo, deliciada, um presente adiantado que é também um presente para os leitores das Horas Extraordinárias (em especial, para alguns dos seus comentadores mais prolixos e regulares). Daqui a uns meses ouvirão falar do autor da oferenda como escritor – estou certa –, pois é o autor de um dos romances finalistas do Prémio LeYa 2014 e dará que falar, até porque o seu livro é uma obra rara no panorama das letras portuguesas. Mas, antes disso, João Pinto-Coelho era (e continua a ser) arquitecto e, ao que descubro agora, também leitor assíduo deste blogue. Talvez por isso, foi acompanhando o que se passa nesta nossa sala de estar e identificando quem nela se senta e conversa todos os dias como se picasse o ponto. E vai daí resolveu dar-se ao trabalho de desenhar aquilo que podia ser um dia típico aqui no blogue, como se, em vez de falarmos virtualmente, falássemos ao vivo. O resultado é magnífico (vou emoldurar o original, claro). Não resisti, por isso mesmo, a partilhá-lo com os Extraordinários. Obrigada, João, pela sua boa ideia e pelo belíssimo trabalho. Já sabia, pelo livro, que tinha mão para as personagens, e agora só posso confirmá-lo. Para os ciumentos, que não se revejam aqui, esperem uns dias... E verão.

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18
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:22link do post | comentar | ver comentários (15)

Durante doze anos, trabalhou em minha casa uma senhora que não sabia ler. Arranjávamos sempre forma de comunicar através de objectos, porque eu não lhe podia deixar um bilhetinho a pedir que me fizesse a cama de lavado ou me apanhasse a roupa do estendal; mas encontrávamos códigos em que nos entendíamos e tive pena quando ela deixou de poder ajudar-me porque éramos (ainda somos, porque a visito frequentemente) cúmplices e amigas. Ela confessou-me muitas vezes que teria adorado ir à escola e eu ofereci-me para lhe ensinar as letras, mas respondeu-me que, naquela idade, já não valia a pena. Pois leio um interessante artigo no Público, no qual se diz que a aprendizagem da leitura se pode fazer em todas as idades e que, seja em que idade for, ela melhora o desempenho visual dos novos leitores, permitindo-lhes até detectar diferenças entre objectos de qualquer género, e muito mais depressa do que acontece aos analfabetos. Ao que parece, quando aprendemos a ler, o nosso cérebro reorganiza-se e essa reorganização acontece independentemente da idade de quem está a aprender e da língua que fale. E a literacia, segundo os autores do artigo científico referido no jornal, tem como efeito imediato o aumento do rigor na discriminação de objectos semelhantes, por exemplo, ou a capacidade de reconhecer imagens num espelho – coisa, ao que consta, mais difícil para os iletrados. Já sabíamos que a leitura era boa para a saúde e a alma, mas para os olhos é mesmo uma novidade!


17
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29link do post | comentar | ver comentários (8)

Às vezes, os professores de Língua Portuguesa do Ensino Básico dizem a um aluno ou aos pais que o menino ou a menina tem um inequívoco talento para a escrita. Nem todas as composições são originais e escritas com imaginação e primor – e é natural que, em cada turma, um ou outro aluno se destaque por escrever diferente e melhor. Também no seio das famílias, há por vezes um rapaz ou rapariga elogiado pela sua capacidade de escrita, mas como saber realmente se é apenas a afeição dos mais próximos a ver as coisas desse modo? Pois a verdade é que agora há uma boa bitola – e é de aproveitar o mês de Dezembro: a Associação Atrevida acaba de lançar um concurso literário para jovens lusófonos entre os 8 e os 14 anos. O tema é livre e os textos melhores serão publicados numa antologia, o que faz toda a diferença (os autores dos três melhores ainda receberão outros prémios: computadores portáteis e uma resma de livros). A associação lança o lema «Atreve-te a escrever» e declara não andar à procura de meninos-prodígio, mas tão-só querer estimular a escrita entre a miudagem, uma vez que as crianças não têm habitualmente um espaço para comunicar e partilhar as suas histórias. O projecto, que começou em Espanha em 2009, chegou a Portugal há três anos e foram já publicadas duas colectâneas: Ler É Bom, Escrever É Melhor e A Pátria É a Infância. Os elementos do júri deste ano ainda não estão definidos, mas em anos anteriores contaram-se entre os jurados os escritores Alice Vieira e Ondjaki, por exemplo, o director do Plano Nacional de Leitura e professores de vários níveis de ensino, além dos jovens vencedores das edições anteriores do concurso. Parece que costumam concorrer mais de 1000 textos originais, o que é um bom sinal. O regulamento pode ser consultado em http://www.culturaatrevida.com. E, se conhece jovens que queiram concorrer, avise-os de que vão ter concorrência à altura, pois o responsável pela iniciativa declara que as histórias até agora publicadas não são «histórias engraçadinhas», mas boa literatura, para crianças e adultos também.


16
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28link do post | comentar | ver comentários (9)

Já aqui vos falei há tempos de um pequeno romance muito belo que é também uma homenagem à própria literatura e foi, em 2013, finalista do Prémio LeYa. Trata-se de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, de Antonio Tavares, e relata a infância e adolescência de um rapaz algo solitário nos anos 1960-1970, em Moçâmedes, Angola. Ao longo das suas páginas, acompanhamos o protagonista rodeado pelas fantásticas figuras do seu bairro, seja a belíssima Aninhas que não acaba bem, o Ivo que deixou de falar por causa de um coice, o Neca que é um traumatizado da Guerra Colonial e vive com uma senhora casada cujo marido está sempre ausente, a São modista, que ensina os números pela fita métrica, ou mesmo a Luísa, filha do sucateiro, que chupa limões e parece uma rapariga insensível e plana até descobrir o imenso encanto dos livros. Já apresentámos o romance na Figueira da Foz, onde reside o autor, com sala cheia, mas vamos fazê-lo de novo mais logo, em Sintra, com a colaboração de Miguel Real, que já escreveu sobre ele no Jornal de Letras. A sessão decorrerá com o apoio de Alagamares, que trata dos eventos culturais em Sintra, no Mu.sa – Museu das Artes de Sintra, às 18h00. Se quiserem aparecer, serão, claro, muito bem-vindos. Se não puderem ir, não deixem de ler.

 

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15
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (15)

Hoje era dia de palavras e expressões em desuso, mas a verdade é que andei a vasculhar uma palavra só e é essa que trago para a vossa extraordinária leitura. Pois bem, trata-se de «antipático», uma qualidade que não chega a sê-lo e faz de quem a tem alguém longe de nós. A palavra «antipatia» deriva do grego «antpathéia», criada pelo prefixo «anti», que não vou explicar o que significa porque todos sabem, e por uma palavra que ainda hoje uso muito, «pathos»; ora este pathos (que falta a tanta coisa que leio diariamente no trabalho) utilizo-o eu como qualquer coisa capaz de gerar ou evocar emoções; mas li algures que este sentido mais lato só lhe é, efectivamente, atribuído desde Descartes, pois antes disso o pathos era o que estimulava uma emoção, sim, mas triste, sobretudo de pena e compaixão (e daí o «patético» que, ao contrário do que muitos julgam, não tem que ver com nada apatetado na acepção de tonto, mas com algo digno de pena – claro que os patetas são dignos dela também). O antipático é, assim, aquele que tem feição contrária à minha, que sente de maneira oposta, fazendo do simpático o que sente como eu (em inglês sympathetic é solidário) e do apático o que não sente, pura e simplesmente. Mas este pathos mais antigo, ligado ao sofrimento, é curiosamente também a raiz da palavra «patologia» que hoje associamos à doença. A doença é, pois, coisa triste, sofrida e digna de pena, o que, de resto, faz todo o sentido; e, em última análise, também um grande sofrimento moral pode tornar-se uma doença, o que, aliás, Freud já sabia muito antes desta época em que a depressão é frequentemente tratada com químicos, tal como a gripe ou a diabetes. Isto para dizer que, quando encontrarem alguém antipático, essa pessoa, mesmo que em sofrimento, não vos vai parecer digna de pena…


12
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (23)

Peguei há dias num romance que foi publicado originalmente nos anos 1960, mas passou despercebido – ou não teve, pelo menos, o reconhecimento que merecia. Parece, no entanto, que há relativamente pouco tempo foi redescoberto e elogiado pela romancista francesa Anna Gavalda e que, desde então, tem sido traduzido em todo o lado e recebido os maiores encómios. Aliás, a sua capa está cheia deles, vindos de respeitabilíssimas personalidades do mundo das letras de várias gerações, desde Ruth Rendell a Breat Easton Ellis, passando por Julian Barnes ou Ian McEwan. Não é, de resto, estranho que McEwan afirme que não percebe como passou Stoner, de John Williams, praticamente incógnito tantos anos – embora se trate de um romance americano (e não sei dizer exactamente porquê, mas vê-se que é americano assim que se começa a ler), ele tem claros laços de afinidade com, por exemplo, A Praia de Chesil, do próprio McEwan. Mas, à parte a convergência, Stoner atravessa a vida de William Stoner, um rapaz do campo, criado por uma família trabalhadora e pouco afectuosa, que se torna, quase por artes mágicas, professor universitário de Literatura pouco depois da Primeira Guerra Mundial e se casa nos anos 1920 com uma estranha rapariga que, apesar de fria e capaz das mais inesperadas atitudes em relação ao marido e à filha, tem alguma coisa da histeria dramática que sobressai em O Monte dos Vendavais, o que é bom. Mas Stoner é um homem enfeitiçado pelo texto literário que, até certo ponto, constituirá sempre a sua salvação. Nem que fosse só por gostarmos também nós de literatura, já valeria a pena deitar a mão a este excelente romance. Mas ele é muito mais do que isso.

 

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11
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (17)

A nossa literatura foi, ao longo de décadas, contida e envergonhada em matéria de sexo e corpo. Até recentemente, os nossos escritores eram incapazes de reproduzir por escrito uma cena de sexo com naturalidade, tornando às vezes ridículo e nada visual o que descreviam nos seus livros, ou simplesmente contando que aquilo se tinha passado, e pronto, estava dito que os protagonistas tinham tido relações sexuais. Já houve, aliás, quem fizesse um levantamento de «pérolas» literárias contemplando o relacionamento íntimo de personagens, trazendo à luz algumas metáforas bastante risíveis ou até de mau gosto. Lembro-me da lufada de ar fresco que foi para mim ler há muitos anos Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, que, talvez pela sua parte africana e quente, descrevia como ninguém uma cena de amor físico. Mas parece que, com a geração mais nova (que vive, e ainda bem, uma sexualidade mais descomprometida e sem tabus), a literatura ganhou nesse sentido, e agora fala-se muito do romance O Meu Amante de Domingo, da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho, vencedora com a sua obra anterior do Grande Prémio de Romance e Novela da APE. A protagonista, revisora de texto, resolve vingar-se de um homem que podia ter amado escrevendo um romance sobre um suposto amante, mecânico de profissão, com violência e até, ao que leio numa entrevista, palavrões... É caso raro e fico curiosa, não por causa do sexo, claro, mas por causa do que é novo na literatura portuguesa.


10
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (50)

Há quem defenda que, para escrever, tem de se estar inspirado – e que esta inspiração é claramente algo transcendente e externo ao escritor que nem sempre aparece. Sim, acredito que haja para cada pessoa um momento ou um tempo mental mais propício à escrita, embora não tenha a certeza de que as mãos sejam guiadas (como Lobo Antunes diz que lhe acontece) por qualquer força divina ou energia desconhecida. Por outro lado, alguns alegam que é tudo trabalho (transpiração versus respiração), mas conheço muitos pretensos escritores que são perseverantes e disciplinados e que, ainda assim, não produzem nada de notável. Michael Cunningham, o norte-americano que escreveu As Horas, esse belíssimo e premiado livro, esteve recentemente em Lisboa e diz que a única coisa que sabe é que não há regras para se escrever. Mas adianta que um escritor tem de estar em contacto com a escrita (seja do que for) todos os dias – vá lá, descansar ao domingo, quando muito. E contou que o truque é sentar-se à secretária e escrever a mesma frase uma dezena de vezes ou mais até parecer que não está assim tão mal. É verdade que é esta oficina que torna um mero escrevente um escritor, o problema é que há muita gente com pressa de acabar um livro e não se dá a «transpirações». Pior ainda se não tiver «inspiração», digo eu.


09
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:34link do post | comentar | ver comentários (13)

Nunca fui a Moscovo, mas visitei Sampetersburgo no final dos anos 1990 e fiquei absolutamente rendida à beleza do metropolitano. Dizem-me que em Moscovo é igualmente bonito – se não mais – e, assim mesmo, é possível acrescentar-lhe beleza com palavras. Como? Uma ideia gira! As estações de metro vão em breve disponibilizar uma biblioteca virtual de autores clássicos da pátria: as obras de Tólstoy, Pushkin ou Chékhov, por exemplo, poderão ser descarregadas pelos vários milhões de passageiros que viajam diariamente no metropolitano de Moscovo. O projecto está pensado para, em pouco tempo, ser também estendido aos eléctricos e autocarros da cidade, e os moscovitas estão a ser encorajados a aconselhar outros títulos  além dos primeiros cem que farão parte da iniciativa. Não é a primeira vez que o metropolitano de Moscovo se torna plataforma cultural, tendo tido já pequenas galerias de arte montadas nas suas várias estações, num diálogo artístico com o público que nem sempre tem tempo para visitar exposições. Ventos bons da Rússia dos nossos dias. Para variar.


05
Dez 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (24)

Se nos perguntam lá fora sobre a poesia portuguesa, há um nome que nos vem aos lábios sem quase pensarmos: Herberto Helder. Se pedem que indiquemos o nome de um autor português que deveria ser proposto para um superprémio literário, dizemos logo Herberto Helder, embora sabendo que o recusaria (porque ele é mesmo assim). Herberto – como se lhe referem quase todos – pode ser um homem peculiar e difícil, mas julgo que se diverte muito a, de tempos a tempos, reformular a sua obra completa, oferecendo-nos um novo volume, que não é de modo nenhum o anterior acrescentado com o que escreveu entretanto, mas um livro do qual cortou o que quis que não voltássemos a ler e a que somou alguma coisa. Este gesto tem sido objecto de muita reflexão e crítica, mas tenho simpatia por um autor que decide sozinho sobre a própria obra e só permite que dela se leia o que, em determinado momento, lhe dá na gana (bem sei que tenho volumes anteriores da obra reunida e talvez por isso me sinta menos lesada do que muito boa gente). Isto para dizer que temos de novo uma antologia da poesia de Herberto Helder, desta vez com o título Poemas Completos. Um excelente livro cartonado de capa sóbria com 700 e tal páginas de poesia a não perder (e a guardar, pois pode desaparecer na próxima edição). Não sei qual foi a tiragem, nem se haverá uma espécie de caça doentia aos livros, mas lá que dava um bom presente de Natal, se chegasse até ao Natal, lá isso dava.


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