23
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27 | comentar | ver comentários (6)

Luis Sepúlveda, ficcionista chileno, é um dos autores que mais vende em Portugal; depois de um estrondoso sucesso com O Velho Que Lia Romances de Amor, atingiu de novo o zénite com um livro supostamente juvenil intitulado História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, reeditado posteriormente com ilustrações (concebidas para a editora alemã e reproduzidas em terras lusas) e «membro» de pleno direito do nosso Plano Nacional de Leitura. Mais recentemente, foi dada à estampa uma sua novela do mesmo tipo, História de Um Gato e de Um Rato Que Se Tornaram Amigos, esta ilustrada por esse artista genial que é Paulo Galindro, que reincide no agora publicado História de Um Caracol Que Descobriu a Importância da Lentidão, escrito para os netos em resposta à pergunta de um deles: Porque são tão lentos os caracóis? O protagonista, caracol sem nome, interroga-se sobre a lentidão da sua espécie e interpela os pares, que o acham bastante ousado e aborrecido e acabam por expulsá-lo do prado onde habita a comunidade. O Rebelde, assim baptizado mais tarde por uma tartaruga que o esclarece sobre a importância da lentidão, não fica, mesmo assim, ressentido e, quando sabe que as máquinas se apressam a destruir o prado verde onde estão os antigos companheiros para construir uma estrada, volta atrás – muito lentamente, como não podia deixar de ser – para os avisar dos perigos que correm. Uma aventura cheia de peripécias para mostrar que a rapidez nem sempre é uma vantagem. Até porque, para pensar, precisamos de tempo. Este livro é para todos.


22
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32 | comentar | ver comentários (17)

Publico agora na Teorema um romance muito original de uma autora chilena, Andrea Jeftanovic, intitulado Amar numa Língua Estrangeira. Ele conta a história da relação entre Sara e Alex, ela habitante do Sul terceiro-mundista, ele cidadão do Norte ultracivilizado. Conhecem-se num avião e acabam a beijar-se na sala de transferências do aeroporto antes de rumarem cada um ao seu destino – e a língua do beijo é a mesma, embora as suas línguas sejam muito diferentes. Ao chegarem a casa, sabem que, enquanto estiveram no ar, houve um terrível atentado e telefonam-se preocupados um com o outro; e a partir de então desenvolvem um relacionamento que, apesar da distância, é profundamente íntimo e erótico e dá origem a vários reencontros, nos quais o Norte se choca com o Sul poluído e vítima da escassez e o Sul se aflige com o asseptismo e o desperdício exagerados do Norte. Enquanto isso, a língua estrangeira da comunicação faz com que nunca se diga inteiramente a verdade e a língua dos beijos não deixará ninguém mentir. Mas o terror dos atentados que ocorrem durante o período que dura a história dos amantes invade a sua intimidade. E há também um terror pessoal, o de uma doença que se instala e afecta quem precisa de ser tratado e quem tem de tratar. Este é um livro que não se esquece, garanto, duro e ao mesmo tempo profundamente sensível.

 


21
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28 | comentar | ver comentários (16)

O jornalista João Miguel Tavares, cronista do Público e director-adjunto da revista Time Out, membro do Governo Sombra da TSF (e agora também da TVI 24), é pai de quatro filhos e autor de um blogue intitulado precisamente Pais de Quatro, no qual escreve sobre as alegrias, surpresas e dissabores (quase nenhuns) da paternidade. Foi justamente nesse blogue que encontrei um post engraçadíssimo sobre respostas erradas (mas altamente criativas e dignas de aplauso) que crianças norte-americanas deram em testes escolares. Algumas são notáveis do ponto de vista da lógica, como no caso em que a professora pediu aos alunos que fizessem um desenho de si próprios daqui a muitos anos, e um rapaz teve a ousada ideia de se desenhar no túmulo... Mas há outras fantásticas, como a de um teste de Ciências em que se diz que uma rapariga espreita pelo microscópio, mas não vê nada, perguntando-se de seguida aos alunos qual será o problema. Um deles, bastante expedito, responde que certamente a miúda é cega – e a professora não se deixa impressionar e anota à margem: «Boa tentativa!» A esperteza saloia chega, de resto, ao auge quando se pergunta o que é preciso fazer para converter centímetros em metros e um dos inquiridos responde simplesmente: «tirar o centí.» A melhor de todas está, no entanto, no teste em que se pede uma composição, sugerindo aos alunos que assumam o papel de um imigrante chinês em 1870 e escrevam uma carta a contar a sua experiência. O resultado aí vai. Genial!

 


17
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26 | comentar | ver comentários (10)

Em véspera de feriado (fim-de-semana grande, para variar), meto o nariz em vários livros para ver se levo algum comigo para estes três dias livres que se avizinham. E, bom, reparo que, à beira de o 25 de Abril fazer 40 anos, saíram várias obras que tocam a matéria de diversas formas. Já aqui falei há uma semana ou mais em Os Rapazes dos Tanques (para ler e ver, porque as fotografias são geniais), mas há que referir também Os Memoráveis, de Lídia Jorge, romance que fala da revisitação da festa por alguém nascido muito mais tarde e noutro país; e também, pois então, a colectânea de poesia de Manuel Alegre cuja selecção aponta para a nossa revolução e se chama País de Abril. Mas não é tudo, porque também aliciante é A Flor e a Foice, de Rentes de Carvalho, publicado há muitos anos na Holanda e agora disponível igualmente para os leitores portugueses (o título, de resto, é suficientemente eloquente para podermos relacioná-lo logo com a efeméride); e, por último, Luísa Lobão Moniz, professora do primeiro ciclo há uma eternidade, produziu um livro para crianças intitulado A Escola dos Cravos, para ensinar aos mais pequenos como era a escola antes do 25 de Abril. Há-de haver outras coisas, evidentemente, sobretudo na área do ensaio, mas estou já demasiado indecisa, sem saber se me faço acompanhar por algum destes e como vou desempatar. O mais certo é levar a abrilada toda comigo de fim-de-semana. Uma Páscoa cheia de cravos, porque não?


16
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (9)

Já aqui disse que um dos meus livros favoritos é O Amante, de Marguerite Duras (não, não vou abrir uma livraria só para vender o livro na Baixa, como o leitor de que falei ontem, mas gosto mesmo muito do romance, bem como de outros escritos pela mesma pena). Pois a senhora Duras, se fosse viva, faria cem anos este ano (nasceu, como a Primeira Guerra Mundial, em 1914) e por todo o lado se festeja o seu centenário. Em França, vão-lhe publicar a obra completa na Pleiade, uma colecção de luxo, e um dos últimos suplementos Babelia, do El País, em Espanha, dedicava-lhe um razoável número de páginas. Mas também em Portugal não lhe somos indiferentes – e o Porto comemora-a com espetáculos, sessões de cinema, exposições, leituras públicas e até conversas sobre jornalismo cultural, promovidas por mais de duas dezenas de entidades, artistas e investigadores. Diz uma das organizadoras que o centenário da escritora que nasceu no Vietname e morreu em Paris, e teve uma vida bastante agitada pelo meio, é um bom «pretexto para dar a conhecer, ou para revisitar, uma autora carismática e de referência do século XX, que questionou fronteiras entre diferentes tipos de escrita». As livrarias da Invicta vão, pois, encher-se de livros de Duras e serão levadas à cena peças adaptadas das suas obras no Teatro Nacional de S. João e no Teatro do Campo Alegre durante este mês de Abril, que é o do seu nascimento. Tomara que tudo isso sirva para muitos que ainda não a conhecem passem a lê-la com regularidade.


15
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:22 | comentar | ver comentários (13)

Os livros provocam grandes paixões que ficam para sempre (ao contrário das paixões por homens e mulheres, que são normalmente temporárias, dando origem a decepções ou um amor mais tranquilo). Em Oslo, um leitor apaixonou-se de tal forma por um livro que considera o melhor do mundo que decidiu, mesmo que apenas por alguns dias, abrir no centro uma livraria chamada Bookstore of Intranquility e chamar a atenção para a sua enorme paixão, vendendo apenas... O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Christian Kjelstup, assim se chama o desassossegado-mor da Noruega, colocou centenas de exemplares da tradução do pessoano livro por todo o lado, escreveu o título em letras garrafais na montra e organizou, logo na noite da abertura, um serão à volta de Pessoa que, pelo que se sabe, foi bastante concorrido. Convidou um guitarrista português ali emigrado para abrilhantar o serão e para tudo contou com o apoio da Embaixada de Portugal, que deu o evento por bem-sucedido, pois teve direito a uma reportagem sobre o senhor Pessoa num dos canais televisivos com maior audiência. Kjelstup espera que deste modo muitos outros leiam o livro que ama. E nós, à distância, ficamos-lhe gratos.


14
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31 | comentar | ver comentários (25)

Há dias, contei que em 1984 assinei alguns poemas com pseudónimo. Há imensas razões para não se usar o próprio nome – mas, no meu caso, foi um poeta respeitável que me disse que, se queria publicar, devia pensar num nome literário (o que fiz, claro). Mais tarde, porém, quando comecei a escrever livros juvenis, o editor aconselhou-me a recorrer ao meu nome verdadeiro, uma vez que os meus alunos e ex-alunos (eu estava então no ensino) não me poderiam reconhecer pelo pseudónimo (o princípio do marketing, suponho). Achei, pois, melhor pôr o meu nome real em tudo, por pouco literário que fosse, em lugar de me chamar duas coisas distintas. Que leva alguém a assinar com um nome diferente do seu? Não gostar do que lhe deram? Talvez, mas Possidónio Cachapa ri-se de si próprio, dizendo que, com um nome assim, não precisa para nada de um pseudónimo. Por outro lado, o bancário José Fontinhas preferiu ser o grande poeta Eugénio de Andrade... Já Bocage usou um pseudónimo para arrasar quem quis sem se denunciar (esperto, sem dúvida, como, aliás, muitos jornalistas que, no antigo regime, aproveitavam a capa do nome falso para dizerem o que, se calhar, não diriam se assinassem com o seu nome). Também conheço quem tenha ficado em apuros por constar do seu passaporte nome diferente daquele em que a organização de um festival literário lhe tinha reservado o hotel e passado o cheque das ajudas de custo; e ainda quem continue a assinar com o apelido do ex-marido (quando se começa com um nome e se tem sucesso, é muito difícil voltar ao nome de solteira); e até sei de um senhor que foi convidado para um encontro só de mulheres por assinar com um petit-nom – Mia (Couto) – que noutras línguas é feminino. Enfim, haverá de tudo, mas eu, sei lá porquê, não tenho já muito que ver com o meu pseudónimo – e, sem querer, também já não consigo ler esses poemas antigos como se fossem (só) meus.


11
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31 | comentar | ver comentários (45)

Conheço uma escritora cubana que tem um gato às riscas, cor de laranja, muito gordo. Chama-se Horácio e foi comprado (ou adoptado) quando ela vivia em Itália, daí o baptismo. Porém, assim que o olhamos, ocorre-nos imediatamente o nome Garfield (é igualzinho ao boneco, até na sua propensão para dormir), porque, já se sabe, de Horácio, o poeta latino da Antiguidade, pouco lemos e não nos lembra nada de especial. Talvez as tiras de Garfield também se tornem um clássico daqui a cinquenta ou cem anos, mas é ainda demasiado cedo para o sabermos. Admito que não haja tempo para tudo – e queremos andar actualizados (eu sobretudo, que me dedico à literatura mais jovem) –, mas conheço muita gente que, a partir de certa idade, diz que só lê clássicos, pois, se vingaram após tanto tempo e continuam a ser publicados, é porque são seguramente livros bons. Recentemente, fui contactada pelo projecto Adamastor, que se ocupa da edição digital de clássicos da literatura, para responder a algumas perguntas sobre a importância dos clássicos. Antes e depois de mim, outros escritores, como Mário de Carvalho, Eduardo Pitta ou Rentes de Carvalho, também responderam à pergunta «Porquê ler os clássicos?». O link da minha entrevista vai aí abaixo, para quem quiser ler. Hoje, como disse um dia destes um dos leitores do blogue (e com alguma razão), estou a encher chouriços. Desculpem.

 

http://projectoadamastor.org/tag/maria-do-rosario-pedreira/


10
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28 | comentar | ver comentários (6)

Está à venda há dois dias o romance que venceu a última edição do Prémio LeYa, pela primeira vez atribuído a uma mulher. Trata-se de Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, que vive há vários anos em Londres com o marido e os filhos e se estreou no romance com este texto a várias vozes. A narrativa cobre um século de História de Portugal a partir das estórias de várias pessoas presentes em momentos-chave, como a implantação da República ou o 25 de Abril, e gira em torno de um homem que foi decisivo para a elevação de Estremoz a cidade, trazendo a luz e o comércio às ruas e educando um sem-número de sobrinhos sem posses. Teremos, assim, os relatos de um adolescente muito cómico, de uma noiva com dúvidas, de uma mãe que esconde uma relação escandalosa, de um universitário que enfrenta uma tragédia por amor, de uma prostituta que se recusou a casar com o homem que amava para não o prejudicar – e, depois de se calarem estas vozes, também a voz do protagonista através de um diário arrancado às cinzas por uma descendente muitos anos depois. A primeira apresentação pública será já no sábado, em Estremoz (where else?), com a presença do Presidente da Câmara, no Teatro Bernardim Ribeiro. Uma espécie de regresso às origens. Se estiver por perto, faça-nos companhia.

 


09
Abr 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29 | comentar | ver comentários (15)

Quase ninguém sabia que me estreei na publicação de poemas em 1984 (muito antes de ter saído o meu primeiro livro de poesia, que é de 1996). Excepto aos mais próximos, não falei disto, até porque na altura assinava com pseudónimo; mas recentemente saiu um artigo no jornal Público a contar tudo e, portanto, não merece a pena estar a manter o segredo. A editora Assírio & Alvim, então dirigida por Manuel Hermínio Monteiro, um dos mais festejados editores nacionais (e que saudades me traz), lançou nesse ano longínquo um projecto que foi marcante para a edição portuguesa. Tratava-se de convidar poetas não publicados a enviar os seus poemas (na altura, um máximo de sete), para serem apreciados por um júri com vista à publicação numa obra colectiva chamada Anuário de Poesia Inédita. Essa iniciativa deu frutos, pois uma boa percentagem de poetas dados a conhecer no anuário desse ano e dos que se seguiram (até 1987, data do último anuário) acabaram por tornar-se nomes importantes da literatura portuguesa (não estou a falar de mim, mas de Adília Lopes ou de José Eduardo Agualusa, por exemplo). Porém, muitos mais foram os que ali viram poemas publicados e que, não sendo conhecidos hoje pela poesia, são nomes fortes na nossa cultura, como Jorge Vaz de Carvalho (tradutor, autor e cantor lírico), João Pinharanda (crítico de arte), Joana Pontes e Manuel Mozos (cineastas) e até, ao que parece, Pacheco Pereira, que assinou «Abrupto» e, assim descoberto pelo nome do seu blogue, não confirmou nem desmentiu, o que quer dizer que era mesmo ele. Pois agora a Assírio & Alvim resolveu tirar o anuário das cinzas e voltar a publicá-lo trinta anos depois, celebrando o Dia da Poesia do próximo ano com a saída de um volume de inéditos. Quem quiser, pode mandar dez poemas para a editora e tentar a sua sorte. Uma excelente notícia.


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