03
Set 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:19link do post | comentar | ver comentários (4)

A maior vantagem da leitura é que um texto, mesmo que não faça as nossas delícias (e uso a expressão porque vou falar de alimentação), quase sempre nos ensina qualquer coisa que não sabíamos. Eu sempre pensei, por exemplo, que expressões como «pôr a mesa» e «levantar a mesa» estavam relacionadas com o facto de, para comermos à mesa, termos de lá pôr em cima uma data de coisas, como pratos, talheres, copos, travessas, guardanapos – e, claro a própria comida – e as tirarmos de lá no fim da refeição. Mas não – e eis porque é tão bom ler! A verdade é que, segundo apurei numa tese que recentemente me veio parar às mãos na área da História da Alimentação, da autoria de Guida Cândido, as salas de jantar dos nossos dias só se tornaram comuns em Setecentos porque, antes disso, se comia em muitos sítios dos palácios, dependendo dos que vinham (se eram mais íntimos, se mais afastados), pelo que era necessário ir pôr a mesa nesses lugares e tirá-la, ou levantá-la, no final das refeições. Seguramente, muitas outras coisas de que estou convencida cairão por terra à medida que for encontrando informações deste tipo. Lendo, claro.


02
Set 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:18link do post | comentar | ver comentários (5)

Tendo em conta a quantidade de turistas que nos dias de hoje – e sobretudo no Verão – visitam Lisboa, a Casa Fernando Pessoa faz um forcing até 29 de Setembro e aumenta significativamente o número de visitas guiadas (mas qualquer lisboeta pode e deve aproveitá-las, claro). E não só organiza diariamente visitas em português e inglês, como se compromete a desvendar as memórias do poeta através dos objectos que a casa possui (mobiliário, quadros, manuscritos, coisas pessoais) e ainda a realizar itinerários mais sofisticados, para leitores exigentes, como o delineado pela relação entre Pessoa e Almada Negreiros (a partir do retrato do primeiro pintado pelo segundo) ou mesmo, para os mais românticos, aquele que pode ser seguido acompanhando as histórias de amor do poeta, seja na sua obra, seja na sua vida. Nunca conheceremos inteiramente um homem e um escritor como o mestre Pessoa, mas lá que podemos ficar a saber sempre mais qualquer coisinha, isso é inegável.


01
Set 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:12link do post | comentar | ver comentários (11)

Ora bom dia a todos – e espero que as férias (para quem as teve) tenham sido revigorantes, sobretudo em matéria de leituras. É mesmo por aí que começo e o melhor é ir direita ao assunto: 10:04, de Ben Lerner, saído recentemente para as livrarias portuguesas. Trata-se de uma obra que aparenta ser um romance, mas não é só isso, e que, num género que percebo estar agora em voga nos Estados Unidos (já aqui vos falei de Rebecca Solnit e do seu Esta Distante Proximidade, por exemplo), talvez seja mais interessante do que a maioria, pelo menos a avaliar pelos encómios dos pares do autor e pelas críticas positivas das publicações respeitáveis. Pois bem, dito isto, começa por estranhar-se e depois, como na frase de Pessoa, entranha-se. Livro em que narrador e autor são figuras que coincidem, em que personagens com nomes diferentes acabam por ser as mesmas, em que o livro que o narrador está a escrever e pelo qual lhe pagaram uma bela maquia é e não é o que estamos a ler, enfim, aqui as categorias da narrativa estão bastante baralhadas e podem baralhar-nos também a nós, se não estivermos suficientemente atentos. Mas, se estivermos, apreciamos as reviravoltas e proezas do autor, ou narrador, ou seja o que for, enquanto descobre uma deficiência na própria aorta, combina com a melhor amiga ser pai biológico do seu filho, faz uma residência literária no deserto do Texas ou ajuda um miúdo hispânico de uma família «sem papéis» a escrever um trabalho sobre um dinossauro que nunca existiu. O livro é bastante exigente e o tradutor fica um nadinha aquém; em todo o caso, para quem gosta de meta-literatura, vale a pena atrever-se a esta ficção/não ficção do aplaudido Ben Lerner.

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31
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:22link do post | comentar | ver comentários (16)

Antes de partir para férias (o blogue ficará interrompido até Setembro, lamento, porque esta guerreira também precisa de repouso), sugiro que leiam bons livros durante o Verão e despeço-me com uma sugestão, pois também eu a recebi de uma leitora que prezo. Trata-se de Os Anjos Morrem das Nossas Feridas, de Yasmina Khadra (um argelino que escolheu um pseudónimo feminino e cuja obra, muito premiada, está traduzida em mais de 40 países), romance belíssimo que conta a história de um rapaz muçulmano muito pobre na Argélia dos anos 1920 e 1930 (antes da independência, portanto) e que se inicia, curiosamente, com a sua condenação à morte em 1937 para nos trazer, como esse filme acelerado do passado que se diz chegar a todos na hora de sucumbirem, o relato da sua vida desde pequeno: a miséria terrível nas ruas fétidas, as amizades nem sempre bem escolhidas, os trabalhos duros de sobrevivência, as paixões frustradas e a sua opção de um dia, por causa de um desgosto de amor, se tornar boxeur – e uma vida de socos dados e recebidos não pode, claro, acabar bem. Retrato de época notável, fundo político, escrita realmente apaixonante, enredo e personagens de grande densidade, este é um livro de um autor a reter e a repetir, neste ou noutro Verão qualquer. Boas férias a todos. Em Setembro, cá estarei para fazermos juntos o ponto da situação.


30
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:19link do post | comentar | ver comentários (14)

De vez em quando, pergunto a algumas pessoas de fora deste meio, sobretudo se forem mais jovens, o que andam a ler. E, sim, respondem, mas resumindo o enredo e abordando os temas tratados, raramente indicando o título (que esquecem com uma facilidade surpreendente) e ainda mais raramente nomeando o autor (que nem chegaram a fixar). É para mim muito estranho, confesso, esta atitude «desprendida», porque, quando comecei realmente a entusiasmar-me com a leitura e descobria um autor ou uma autora que me caía no goto, queria ler absolutamente toda a sua obra e, a menos que me desiludisse pelo caminho, não descansava enquanto o não fizesse. Ainda hoje sou capaz de referir todos os títulos que li de determinados autores amados – e até os que não cheguei a ler e estão na minha cabeça como uma espécie de culpa que não se foi com o tempo. Os editores franceses são ainda dos poucos, no mundo inteiro, que respeitam a figura do autor; não raro, sobre as capas muito simples, claras e lisas, apenas com letras, colocam umas cintas largas com a fotografia (mesmo que se trate de alguém feio ou pouco atraente) e o nome do autor em maiúsculas, para que, entrando numa livraria, os leitores possam identificar sem trabalho que já saiu mais um livro do seu escritor favorito. Mas não conheço mais ninguém que o faça e talvez seja, afinal, pura perda de tempo e energia: muitas pessoas já não querem simplesmente saber quem escreve o que andam a ler.


29
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:35link do post | comentar | ver comentários (28)

Chegámos àquela altura do ano muito tola em que os jornais e revistas se multiplicam em listas de livros para o Verão, para as férias, para a praia, etc., como se o bom tempo ou um areal sugerisse um certo tipo de livro, e não outro. Enfim, faz-se em todo o mundo e não há como evitá-lo, mas, na verdade, há quem torne o artigo mais interessante, como o Guardian (mas o Guardian é habitualmente um jornal interessante), que resolve a coisa perguntando a autores conhecidos, como Ian McEwan, William Boyd, Antonia Byatt ou Chimamanda Ngozi Adichie (no Reino Unido são mesmo muito conhecidos) os livros que vão levar para ler nas férias. Na verdade, eu gostaria muito de saber o que alguns dos nossos escritores mais destacados vão ler nas férias, até porque isso pode dar pistas sobre o que andam a escrever e fornecer ideias para mim própria; mas tenho a suspeita de que, ao contrário dos britânicos e anglófonos (Chimamanda é nigeriana), que lêem livros acabadinhos de sair e de escritores jovens e menos conhecidos, os portugueses se apressariam a citar clássicos intocáveis ou livros de confrades bem estabelecidos. Pelo menos, é o que acontece quando perguntam a um escritor português numa entrevista o que anda a ler – e raramente é uma coisa recente. Porque será tudo tão diferente cá e lá?


28
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28link do post | comentar | ver comentários (14)

Supostamente, não deveríamos trabalhar durante as férias (eu quase nunca me escapo), mas é costume os professores marcarem os antipáticos «deveres» aos alunos, logo de pequeninos, no último dia de aulas, mesmo que no ano seguinte não estejam nessa escola para os corrigir e avaliar. Em todo o caso, leio por aí (já não me lembro aonde fui buscar isto, talvez ao Facebook) que um professor primário espanhol não fugiu à regra, distribuindo uma folhinha de tarefas a cada aluno, mas tornou-se a excepção justamente pelo que encomendou (e recomendou) às crianças, sem esquecer também umas achegas aos pais. Porque não vale a pena reproduzir ou parafrasear o dito professor, deixo-vos o link dos TPC em causa, comentando apenas – por razões que todos os Extraordinários certamente compreenderão – que o homem é cá dos nossos, já que a sua primeira recomendação é a leitura.

 

http://historiascomvalor.com/professor-surpreende-todos-os-pais-com-estes-trabalhos-de-casa-para-as-ferias-de-verao/

 

 


27
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (18)

Muitos autores de todo o mundo, especialmente poetas, gostam de glosar textos dos seus antecessores. Gastão Cruz, um poeta muitas vezes premiado em Portugal, tem alguns livros em que, por exemplo, dialoga com poetas clássicos, como Sá de Miranda, usando versos de outros em itálico nos seus textos. É mesmo assim – e não se trata de roubo, antes de uma homenagem. Ora, um escritor argentino de 38 anos, Pablo Katchadjian, resolveu criar um projecto em que partia de três obras literárias publicadas e, conservando-as como núcleo, trabalhava à volta delas, acrescentando-as. E, entre outras, pegou n’O Aleph, de Jorge Luis Borges, e toca de criar o seu «Aleph Engordado», acrescentando 5600 palavras de sua autoria ao conto de Borges, reproduzido de fio a pavio. Ora com quem te foste meter… María Kodama, a viúva do escritor, achou isto um completo abuso e acusou-o nada mais nada menos de plagiar a obra do grande Borges (que, de facto, estava no meio da sua, e intocada), entrando com um processo na justiça. E, surpresa, o Tribunal deu razão a María Kodama e condenou o pobre Pablito a pagar uma quantia exorbitante… Já não se pode glosar...


24
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:04link do post | comentar | ver comentários (9)

Há dois meses fui fazer o lançamento do romance No Dia em que o Sol se Apagou, de Nuno Gomes Garcia, à Livraria Lello, na cidade do Porto; e, se a sessão não se tivesse desenrolado no primeiro andar, teria sido simplesmente impossível ouvir as palavras do apresentador, tantos eram os turistas que entravam e saíam do lugar e as exclamações entusiastas que proferiam ao mirá-lo. A Lello vem referida em todos os guias da Invicta como uma das atracções da cidade – e vale muito a pena visitá-la, mesmo a 3 euros – mas há outras que também estão nos roteiros turísticos de Portugal por razões diferentes; uma delas, conhecida como a «Livraria do Simão», nas Escadinhas de S. Cristóvão, ali à Rua da Madalena, em Lisboa, é, tanto quanto li, descrita como «a mais pequena livraria do mundo» e isso parece atrair para lá os turistas, a quem alguém diz – verdade ou não – que até está no Guinness Book! E eis que, diante disso, todos sacam da máquina fotográfica e do telemóvel para fazerem umas chapas que estão, afinal, entre as mais disparadas de Lisboa. O livreiro (Simão, claro) diz que, sem saber, criou «um monstro maior do que ele» - e é curioso utilizar a palavra «monstro», tratando-se, afinal, de uma livraria minúscula, quase claustrofóbica, com livros do lado de fora, pois já não cabem mais lá dentro. No entanto, foi nestas Escadinhas de S. Cristóvão que Manoel de Oliveira rodou A Caixa, por isso o espaço é ainda mais especial. Turistas à parte, se conseguir romper por entre a multidão, é de lá dar um salto e uma espiadela!


23
Jul 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (13)

Recentemente, foi publicado um estudo (link abaixo), capitaneado por um professor da Universidade de Chicago, que revela o quanto a nossa saúde pode melhorar se vivermos numa zona onde existam árvores, muitas árvores. A amostra era muito mais do que uma simples amostra, incluía mais de meio milhão de árvores na cidade de Toronto e os registos de saúde de cerca de 30.000 habitantes, concluindo os estudiosos que este cenário natural contribui também para muitas vantagens cognitivas e psicológicas (o oxigénio tem destas coisas) e que um aumento de dez árvores por quarteirão, por exemplo, pode aumentar cerca de sete anos a nossa vida. Sempre achei que Lisboa era muito carente de parques e jardins, sobretudo em comparação com outras cidades europeias cheias de espaços verdes e de alamedas. E, ironicamente, vivo rodeada de árvores, se pensar que os não sei quantos mil livros que temos em casa são oriundos de muitas, muitas árvores. O problema é que esses, com o pó, nos deixam respirar cada vez pior…

 

http://www.nature.com/articles/srep11610


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