30
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (10)

Já aqui vos falei do blogue da minha amiga Aldina Duarte, em que uma vez por semana se faz homenagem a quem não teve o reconhecimento que merecia pelo seu génio e talento. É sempre bom lembrar quem foi esquecido – e fiquei muito contente quando recebi há dias um press-release de João Morales, um jornalista que organiza festivais e encontros de escritores e teve agora uma belíssima ideia: a de, uma vez por mês, juntar dois convidados (escritores, pelo menos na primeira sessão) na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa (e que bonita livraria é), para recordar livros esquecidos. Por ano, são tantos os livros publicados que muitos passam injustamente despercebidos e, além disso, os mais antigos são difíceis de encontrar à venda e podem cair facilmente no esquecimento. Esta é, pois, uma boa maneira de ressuscitar uns quantos. Assim, amanhã, dia 31 de Janeiro, pelas 18h00, Bruno Vieira Amaral e Rui Cardoso Martins vão estar a conversar com João Morales sobre livros esquecidos. As próximas sessões ocorrerão no último sábado de cada mês, excepto em Fevereiro (será no penúltimo – e já me ponho aqui a pensar que João Morales não quer é faltar às Correntes d’Escritas que, neste ano, são mesmo no final de Fevereiro).


29
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29link do post | comentar | ver comentários (24)

Aqui há uns tempos escrevi (e escarneci) sobre uma «maluqueira» que alguém tinha inventado – um programa informático que permitia baralhar palavras e fazer de cada utilizador um poeta. Na altura, pareceu-me que era mesmo de loucos pretender que uma máquina fizesse poesia se lhe déssemos palavras para ela (des)arrumar, mas talvez tenha subestimado a relação que existe entre a composição numérica e a composição de palavras (talvez, no nosso cérebro, as combinações sejam todas uma única coisa, pelo menos). Digo isto porque sou surpreendida com uma proposta interessante do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no próximo dia 31 às 16h00: no âmbito do centenário do nascimento do escritor Joaquim Namorado e de uma exposição de obras suas (poético-matemáticas?) de pintura, o museu convida para uma conversa-palestra sobre Matemática e Poesia Eugénio Lisboa e Natália Bebiano: um crítico de literatura e ensaísta (mas com formação em engenharia, actividade que desenvolveu quase toda a vida), a outra doutorada em Matemática e professora catedrática em Coimbra (mas, ao que leio, especialista em matemática recreativa e uma referência no campo da literatura infanto-juvenil ). O assunto espicaça a curiosidade, naturalmente, e fico tentada a ir ouvir que afinidades têm duas coisas à primeira vista tão diferentes como a poesia e a matemática… Vamos ver, claro, se consigo ir até Vila Franca...


28
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:36link do post | comentar | ver comentários (16)

Eu bem sei que hoje não é dia de palavrinhas (nem de expressões em desuso), mas reparo nos originais que todos os dias inundam a minha secretária que a maior parte dos candidatos a escritores (e alguns escritores também) não sabem escrever a palavra «aselha», colocando um Z no lugar do S. Acho que eu própria, em miúda, pensava que o Z é que ficava lá bem quando chamava aselha a alguém, mas devem ter-me ensinado a ortografia correcta entretanto e não voltei a enganar-me. Uma aselha é, como sabem, uma pequena asa, uma pega, uma presilha; e vem seguramente da palavra «asa» que, segundo leio algures num blogue, já se escreveu em tempos «aza» (daí «azelha», que apareceu assim escrito em Camilo, por exemplo). Mas que ligação tem uma pessoa desajeitada a uma pega, não me dizem? Pois bem, nesse mesmo blogue alguém explica que em tempos que já lá vão, no Norte do País, se chamava aselha a um grande contentor de barro sem asas (coisa estranha nomear pela ausência, mas talvez seja verdade) e que de tal forma dava pouco jeito transportá-lo que passou a dar-se esse nome a qualquer um que se mostrasse francamente desajeitado ou, por outras palavras, a uma pessoa que não tinha por onde se pegasse. Justificação científica ou não, a história tem pés (de barro ou não). Mas é hoje uma completa aselhice pôr Z em «aselha».


27
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:41link do post | comentar | ver comentários (20)

A Academia Nobel, cinquenta anos passados das distinções de 1964, abre ao público os arquivos desse ano: actas das reuniões do júri, listas dos nomes propostos desde o início, etc. Desconheço se o faz sempre e em todas as categorias, mas na de Literatura tinha todo o sentido disponibilizar os documentos agora por uma simples razão: é que em 1964 Sartre recusou o Nobel (coisa rara e nunca vista) e, também por isso, a curiosidade do público era maior sobre a papelada referente ao galardão. Efectivamente, descobre-se que o existencialista francês tentou evitar o vexame da Academia Sueca, avisando-a por carta (concisa e delicada), uma semana antes da decisão sobre o laureado, de qual seria a sua posição se lhe atribuíssem o prémio. Ao que parece (há sempre fugas de informação), chegou de algum modo aos ouvidos de Jean-Paul Sartre que o seu nome estava na mesa e ele, com pinças para que não o vissem como presunçoso, correu a dizer que não podia nem queria aceitar a distinção honorífica com que eventualmente estavam a pensar brindá-lo por crer que isso acabaria por implicar a Academia nas posições políticas que assumia e que eram dele, e só dele. Havia já alguns anos que um ou outro jurado avançara o seu nome, e em 1964, pelos vistos, era o mais votado entre 76 outros escritores, como os poetas Auden e Celan, os dramaturgos Ionesco e Beckett ou os ficcionistas Borges e Mishima (tudo grandes figuras literárias). Ou a carta não chegou a tempo, ou a Academia fez orelhas moucas. Sartre foi o escolhido e disse que não, o que requer muita coragem, sobretudo quando está em causa uma quantia elevadíssima. E, não tendo conseguido evitar a fatalidade, depois da recusa as suas declarações já não foram tão simpáticas como a sua carta para o comité Nobel, criticando-o pela não atribuição do prémio a escritores como Neruda, Aragon ou Sholokhov e acusando-o de só distinguir «escritores do Ocidente» e «rebeldes de Leste»…


26
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:30link do post | comentar | ver comentários (14)

A Europa está de rastos, já o sabemos – e as ameaças que vêm de fora são muitas. Olhar para a Europa hoje e imaginar o que pode acontecer-lhe neste século é um exercício interessante, e foi exactamente isso que fez Miguel Real no seu mais recente romance, O Último Europeu, que acaba de sair para os escaparates. A obra tem como narrador um Reitor da Nova Europa, um enclave dentro de uma Europa que, com o esgotamento dos recursos, as guerras e a fome, se tornou um gigantesco baldio no qual imperam clãs violentos. Nesse pequeno reduto de calma, protegido do resto do mundo por um cordão de segurança, um grupo de sábios conseguiu, porém, construir uma sociedade perfeita, mesmo que algo fria, na qual os habitantes podem suprir todas as necessidades, desejar o desejável e viver em equilíbrio. As coisas correram maravilhosamente até ao momento da narração, o ano de 2284, mas agora a Grande Ásia, lutando com problemas sérios de demografia, reclama o espaço da Europa para arrumar os seus habitantes. E, então, aquilo que era um paraíso comandado por uma tecnologia de ponta, deixa de o ser. O Reitor, um dos poucos que ainda conhecem a história da velhinha Europa, encabeçará um grupo de pessoas em fuga para a replicação da sua utopia num outro território. Consegui-lo-á? Esta aventura, que só aparentemente é ficção científica, constitui uma reflexão extremamente actual que devemos acompanhar até para entendermos o que podemos fazer já pelo nosso futuro.

 

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23
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:46link do post | comentar | ver comentários (5)

Já aqui escrevi sobre o romance que venceu a mais recente edição do Prémio LeYa, O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral. É um texto surpreendentemente maduro para um escritor que conta apenas 24 anos (o júri ficou profundamente admirado porque acreditava que o autor tinha a idade do protagonista, 40 e picos) e cujo tema central é a relação, nem sempre fácil, por vezes bastante atribulada, de dois irmãos – o narrador e Miguel, este último portador de Síndrome de Down. A narrativa alterna presente e passado – uma viagem à aldeia do Interior onde os pais de ambos compraram em tempos uma casa e eles se refugiam agora por uns dias, procurando a paz necessária após um momento dramático; e as memórias de infância, momentos-chave que os dois viveram cumplicemente enquanto cresciam. Afonso Reis Cabral, embora natural de Lisboa, viveu no Porto até entrar na universidade. É por isso uma espécie de regresso a casa a sessão que faremos amanhã às 17h30 nas instalações da Cooperativa Árvore, com apresentação de Pedro Mexia. Se estiver no Porto ou lá perto, não falte.

 

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22
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:37link do post | comentar | ver comentários (14)

A minha sogra – que, desde que ficou viúva, viveu sozinha no Porto muitos anos, e morreu aos noventa –, sempre que o Manel lhe telefonava e iniciava a conversa com um «Tudo bem?», respondia, com alguma amargura, que o «tudo» era só ela... Na verdade, esta forma de cumprimentar é bastante recente em Portugal e foi claramente roubada às telenovelas brasileiras para nunca mais lhes ser devolvida. Antes disso, as pessoas perguntavam, por exemplo, «Como está?» ou «Como vai?» (um pouco como o How are you? inglês ou o mais engraçado Ça va? francês que, literalmente, quer dizer «Isso vai?» e que creio equivalente ao Qué tal? espanhol). Os italianos, de resto, ainda usam correntemente Come va?, embora a frase traduzida pudesse estranhamente suscitar também uma resposta do tipo: «De comboio.» Em português, porém, todas essas maneiras de perguntar pelo estado do outro, físico ou mental, caíram em desuso com a apropriação do coloquialismo brasileiro – e praticamente morta e enterrada está a fórmula «Como passou» (que era por vezes acrescentada ou substituída por um «Passou bem?»), a que o meu pai, que era um brincalhão, respondia: «Fui cabendo.» Não gosto de dizer «Tudo bem?» a pessoas que conheço mal, a pessoas a quem guardo respeito, a pessoas mais velhas, a pessoas com quem faço alguma cerimónia (e continuo a usar «Como está?» em todos esses casos). Mas creio que a minha geração será a última a conhecer estas expressões e que, no futuro, este «Tudo bem?» acabará por se tornar simplesmente um «Tá-se bem?» ou coisa do género.


21
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:42link do post | comentar | ver comentários (5)

Um dos problemas da política portuguesa assim que um governo toma posse é fazer tábua rasa de tudo o que foi feito pelo governo imediatamente anterior (do partido adversário, bem entendido), mesmo quando muitas dessas coisas eram francamente positivas. Na educação, então, nem é bom falar – e quantos alunos sofreram reformas sucessivas ao longo da sua vida escolar por causa disso… Fiquei, porém, bastante surpreendida quando, recentemente, o actual Secretário de Estado da Cultura nomeou para a direcção artística do Teatro Nacional D. Maria II Tiago Rodrigues: é que este actor e encenador é claramente uma pessoa de esquerda e foi até um dos principais oradores num encontro de apoio de gente da Cultura a António Costa quando este avançou contra Seguro. A seguir, nomeou como administrador do mesmo teatro Miguel Honrado, que até agora dirigia a EGEAC, empresa municipal encarregada da animação cultural na cidade de Lisboa e igualmente apoiante de Costa. Algum tempo mais tarde, Barreto Xavier nomeou Margarida Veiga para a Direcção-Geral das Artes – e lembro-me de Margarida Veiga estar no CCB na altura em que Guterres era Primeiro-Ministro, por isso calculo que seja próxima do PS. Não sei se o Secretário de Estado está a querer que o despeçam, se já está a preparar o futuro (diz-se que o PS tem tudo para ganhar as próximas eleições), se simplesmente não há na Direita ninguém que se aproveite para esses cargos; se, por último, decidiu fazer tábua rasa da tradição política portuguesa dos últimos anos e escolheu simplesmente quem lhe pareceu melhor.


20
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (26)

Toda a vida pensei que a nossa língua não tinha grande peso mundial por não ter um número de falantes suficiente e, sobretudo, por a maioria dos falantes do português estarem em países economicamente desinteressantes (pelo menos, até há pouco tempo, porque o Brasil já não é o que era). Como muita gente, achei que, se fosse jovem e tivesse tempo, ainda me poria a aprender chinês, tendo em conta o crescimento avassalador da China na última década e o poder que, se as coisas assim continuarem, eventualmente exercerá sobre o resto do mundo. Mas parece que a influência das línguas a nível global nada tem que ver, afinal, com a riqueza das nações ou a quantidade de pessoas que a falam. A revista Proceedings of the National Academy of Sciences publicou recentemente um estudo sobre a «língua do futuro» (entre os autores, figura um português, Bruno Gonçalves) que atesta que o que torna uma língua «franca» é a sua capacidade de mediar a comunicação entre línguas muito distantes entre si; ou seja, mapeando as redes que ligam as várias línguas mundiais (Twitter, Wikipédia e outras), os cientistas concluem agora que, mais do que o peso demográfico ou económico, o sucesso de uma língua deve-se à força dessas ligações. Assim, o chinês é falado por muitos, mas em regiões isoladas e, sendo igualmente de aprendizagem dificílima, não interage com os restantes idiomas e é considerado periférico. Já o português aparece na zona intermédia, ao lado de línguas como o sueco, do neerlandês e do dinamarquês, apesar de todas estas línguas serem muito menos faladas do que o chinês ou o árabe. O inglês lidera, claro, porque a maioria dos bilingues do mundo tem o inglês como língua materna ou segunda língua... Além de que, para se fazer entender em qualquer lado e qualquer situação, a maioria das pessoas usa o inglês. Parece que no Facebook, por exemplo, os portugueses escrevem imensas vezes em inglês nos seus murais.


19
Jan 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29link do post | comentar | ver comentários (6)

Todos os que leram Eça sabem que a comida tem uma grande importância em muitos dos seus livros – n’Os Maias, por exemplo, é descrito em pormenor um jantar em casa da Condessa de Gouvarinho, e alguns dos padres d’O Crime do Padre Amaro são mesmo uns lambões (lembro-me ainda dos arrotos de um deles no confessionário). Pois está de novo no mercado o livro Comer e Beber com Eça de Queirós, cujas receitas são assinadas pela grande Maria de Lourdes Modesto (que as elaborou tendo em atenção os vários pratos referidos na obra do romancista) e é prefaciado pela estudiosa Beatriz Berrini, que explica que, em Eça, a comida marca também, de forma decisiva, as diferenças de classe pela oposição da escassez à abundância (e como comem alguns, meu Deus!). Os 50 pratos incluem coisas tão populares como ovos com chouriço, cabidela ou bacalhau com grão (numa clara homenagem à cozinha tradicional portuguesa, que é a preferida das personagens aristocráticas queirosianas), mas também coisas bastante mais sofisticadas, como um consommé frio com trufas (para falar do exotismo de alguma gastronomia internacional, provavelmente saboreada pelo romancista em Paris) ou tão risíveis como, riam-se, os «folhados do cocó» E porque não experimentar também a comidinha de Eça, se ele nunca nos desiludiu noutros campos?

 

P.S. Já depois de ter escrito este post, encontro um artigo no Público em que a autora das receitas diz que nem sequer teve conhecimento desta reedição e pede que tirem o livro do mercado (a editora, por seu turno, diz que os direitos são da Fundação Eça de Queirós, mas que Maria de Lourdes Modesto estava ao corrente).


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