01
Set 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (3)

Ui, que difícil é o primeiro dia depois das férias… E, como dia 1 calhou justamente a uma segunda, a semana vai parecer ainda mais comprida. Paciência. Temos de dar graças a Deus por termos um emprego a que regressar e podermos gozar umas boas férias (o tempo nem sempre ajudou, mas deu, pelo menos, para desligar). Agora é tempo de matar saudades dos Extraordinários e avisar que o blogue voltou ao activo. E, como hoje é dia de dizermos o que andamos a ler, falo, pois, de um livro – não do que está à minha espera em casa, mas do primeiro que li neste tempo de repouso: O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati. Era mais uma das minhas falhas e, como saiu agora com uma nova tradução de Nuno Camarneiro, não havia mesmo desculpas para não lhe lançar a mão. Trata-se de uma história de espera e desespero, sem amor nem mulheres (dizem-me que no filme de Zurlini com o mesmo título também só se vêem homens), pois o cenário é uma fortaleza e as personagens militares ansiando por um inimigo que justifique ali a sua permanência. Mas o inimigo parece não passar de uma miragem… E os dias tornam-se todos iguais para o tenente protagonista e todos os outros soldados, transformando-se a esperança em desespero e gastando-se a vida em coisa nenhuma – anos e anos em busca de um sinal, um indício, uma suspeita de ataque que, quando acontece, chega simplesmente demasiado tarde. Romance sobre uma juventude perdida, uma vida deitada às urtigas, sobre a frustração. Dito assim, parece desaconselhável. Mas não é. Bem-vindos mais uma vez às Horas Extraordinárias.


31
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:21 | comentar | ver comentários (32)

Como ontem falei de Paris aqui no blogue, hoje dou um título francês ao post. Até porque a despedida comum em português tem um ar de coisa definitiva e, na verdade, o que hoje queria dizer aos Extraordinários era, justamente: Até à vista. Isto porque, como é habitual de há uns anos a esta parte, vou iniciar as férias amanhã, 1 de Agosto, e estarei ausente das Horas Extraordinárias durante um mês inteirinho, regressando apenas em Setembro. Neste último dia, cumpre-me agradecer aos aficionados a companhia que sempre me fazem – e que fazem, sobretudo, uns aos outros com frequentes comentários e muitas trocas de impressões, algumas bem-humoradas, outras mais acesas. Eu confesso que vou sentir a falta deste diálogo com muita gente que nunca vi, mas é como se conhecesse há anos; contudo, férias são férias – e um bom descanso também serve para nos trazer ideias e histórias novas, com as quais espero alimentar este blogue lá mais para diante. E um mês, já se sabe, passa num instante. Desejo a todos um bom Agosto – aos que saem da rotina, como eu, e aos que ficam a trabalhar. E, por favor, leiam. É também, acreditem, o que vou tentar fazer. Au revoir!


30
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26 | comentar | ver comentários (24)

Aqui há uns meses um grupo de escritores de nomeada provindos de países e continentes vários assinou um manifesto inovador, propondo a criação de uma Cidade Internacional da Literatura. Entre os signatários do documento encontram-se autores tão diferentes como Paul Auster, Pierre Michon, Javier Cercas, Alberto Manguel ou Peter Esterházy – e a ideia, ao que parece, não caiu em saco roto, parecendo até que a França apanhou a bola e quer, decididamente, marcar. É verdade que o país tem bons motivos para se considerar literário: não só pela sua história (tantos grandes autores, caramba!) e por publicar anualmente um número impressionante de obras literárias (basta ver a quantidade de novos romances que saem na rentrée – e não estou a falar de falsa literatura), mas também porque tem uma quantidade incrível de livrarias independentes e livreiros empenhados, que lêem os livros e não raro colocam na montra as suas opiniões junto dos títulos que apreciaram, num diálogo franco com os leitores. Além disso, a França possui já cidades da música, da arquitectura, da BD e do Design, fazendo-lhe falta uma cidade da literatura; outros países e cidades, como a Itália e a Alemanha, têm, por exemplo, casas da literatura que dinamizam o encontro entre público e escritores, pelo que talvez fosse redundante tornarem-se capitais literárias. Mas o objectivo agora não é apenas a promoção de autores e livros, é, sim, a criação de um espaço internacional partilhado para o debate de ideias, uma plataforma de encontro e trabalho que resulte em acções em defesa do património literário e da forma de consciencializar todos do valor que os livros nos trazem. E, se A França se põe a jeito e diz que Paris bem merece tornar-se capital da literatura, quem sou eu para dizer que devia ser noutro lado?


29
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:20 | comentar | ver comentários (19)

Não é preciso gostar especialmente de textos diarísticos para pegarmos nos Diários de George Orwell, o famoso autor de O Triunfo dos Porcos. Estes incluem muitos episódios vividos pelo seu autor entre 1931 e 1949 (morreria tuberculoso no ano seguinte) nas mais de setecentas páginas da tradução portuguesa agora publicada, incluindo as viagens que realizou na juventude; mas são também reflexões muito importantes em termos de observação social (condições de vida dos mineiros, por exemplo) feitas por um homem que, relativamente bem-nascido na então Birmânia, decide ainda jovem abandonar o bem-bom familiar e expiar a culpa da sua «superioridade» vivendo entre mendigos e operários nas ruas de Londres e nos bairros de lata de Paris. Porém, as páginas dominantes nesta longa compilação dos seus cadernos – onze, para ser mais concreta – são as de comentário político, nomeadamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, em que o jornalista e escritor britânico assistiu ao dealbar dos regimes totalitários na Europa – na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler e na União Soviética –, que acabaram muito provavelmente por inspirar e servir de preâmbulo às suas obras mais emblemáticas entre nós: a atrás referida e, acima de tudo, a conhecida distopia 1984; aliás, falta neste volume um conjunto de textos apreendidos pelos esbirros de Estaline que contêm seguramente anotações preciosas – ao que parece, um diário da sua permanência na Guerra Civil espanhola – e que ainda hoje estará guardado nos Arquivos de Moscovo. Orwell combateu em Espanha ao lado de uma milícia de tendência trotskista, tendo sido ferido no pescoço. Não podendo alistar-se na Guerra Mundial em 1939 por causa da sua saúde débil, foi como correspondente da BBC Índia que, posteriormente, comentou o conflito, num momento em que já era um conceituado jornalista, famoso pela denúncia das injustiças sociais e grande opositor do totalitarismo. Portanto, para quem se interessa pela história da Europa no século XX – mesmo que não seja um grande apreciador de diários –, esta é uma boa sugestão de leitura.

 


28
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:30 | comentar | ver comentários (10)

Vem aí o Centenário da Primeira Guerra Mundial e prevêem-se comemorações de peso em todo o mundo. Os nossos jornais já começaram, de resto, a fazer reportagens sobre a participação dos militares portugueses na Flandres, onde muitos acabaram mortos e gaseados depois da tragédia que foi a batalha de La Lys, e também em Angola e Moçambique, onde estacionaram tropas portuguesas durante um dos mais sangrentos e mortíferos conflitos da História da Europa. Aparecerão, estou certa, muitos livros sobre a matéria – de ficção e não ficção –, mas nunca é demais lembrar os que publiquei aqui na LeYa que, de uma maneira ou de outra, se debruçavam sobre a guerra de 1914-1918. O primeiro foi finalista do Prémio LeYa, escreveu-o Cristina Drios, e gira à volta de um estranho soldado português, avô da narradora (Os Olhos de Tirésias). O segundo (A Segunda Morte de Anna Karénina), embora fale sobretudo de um casal desavindo nos princípios do século XX, marido e mulher actores de teatro, reproduz uma interessante correspondência entre dois jovens portugueses, um dos quais se alistou no Corpo Expedicionário Português para fugir a uma relação ilícita, acabando por perder a vida. Nestes dois romances, é importante salientar que a descrição da guerra de trincheiras é notável pelo rigor informativo, dando uma ideia muito verosímil do que foram os horrores da Grande Guerra.


25
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27 | comentar | ver comentários (17)

Quando chegamos a certa idade, a memória começa a atraiçoar-nos. Embora saibamos perfeitamente quem é aquele actor que está no ecrã de televisão, não conseguimos pura e simplesmente recordar-nos do seu nome, nem do título do filme, que por acaso até vimos quando estreou, há coisa de cinco anos; se é que nos lembramos do enredo, o que vai sendo cada vez mais raro... Pois, é uma chatice – mas não há nada a fazer e o melhor é aceitarmos que a idade não perdoa. Com os livros, custa mais, evidentemente – e os que lemos há menos tempo são, curiosamente, os que desaparecem primeiro, tal como as recordações de infância são, frequentemente, aquelas que permanecem mais vivas na memória de um velho. Mas agora há um objecto muito útil à venda, que pode dar uma ajudinha e servir-nos de bengala nos momentos em que estivermos desesperados por já não sabermos de que tratava determinada obra. É uma espécie de caderno que podemos trazer sempre connosco, chamado Diário de Leituras, e no qual podemos anotar os títulos que nos vão passando pelas mãos, os seus resumos, as frases preferidas – e bem assim atribuir-lhes pontuações, o que evita que se vá reler um mau livro por não nos vir à ideia se dele gostámos da primeira vez. O preço é apenas de 7,5 euros e vende-se, tanto quanto sei, nas Livrarias Bertrand. Eu vou ser cliente, de certeza absoluta.


24
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28 | comentar | ver comentários (12)

Já aqui falei aos extraordinários leitores deste blogue do mais recente romance de João Rebocho Pais, que se estreou nas lides da literatura há dois anos com O Intrínseco de Manolo. Mas regresso ao assunto porque hoje temos festa para o livro novo – um lançamento que conta com a apresentação da actriz, e também escritora, Ana Zanatti. Dizem Que Sebastião, seleccionado pelos jornalistas do Expresso como um dos livros a ler este Verão, deixa-nos bem-dispostos e confiantes de que, no futuro, os homens ainda se hão-de dar conta de que não podemos viver apenas dos números (o capitalismo financeiro, como já se viu, deu asneira da grossa) e é urgente que demos de novo às letras a devida importância. É isso, de resto, o que acontece a Sebastião – o protagonista da obra – que andava arredado das leituras havia demasiado tempo, tendo-as trocado pelos ficheiros Excel. Resultado: não tinha nadinha de jeito para dizer fosse sobre o que fosse que não incluísse estratégias de venda, o que lhe custou um enorme arraso de uma rapariga durante um jantar memorável e hilariante. Estamos, porém, sempre a tempo de corrigir os nossos erros – o que Sebastião fará (dizem) com a ajuda de livros e de escritores (nem sempre vivos, mas sempre prontos a partilhar com ele as suas histórias). Uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa. Se quiser fazer-nos companhia mais logo, a sessão é na livraria Buchholz, às 18h30.

 


23
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26 | comentar | ver comentários (9)

Na minha infância e adolescência alimentei-me de livros do Tintim em edições cartonadas, com lombada forrada a tecido, e muitos deles em francês, tendo talvez aperfeiçoado as minhas competências nesta língua com a leitura da famosa banda desenhada. Sempre me fascinou a figura de Tintim – com ar de miúdo por causa das calças curtas e do cãozinho, mas ao mesmo tempo repórter profissional em cenários de risco. Ainda hoje me lembro de ter tido um pesadelo por causa de umas páginas de Tintim – julgo que do álbum A Estrela Misteriosa – no qual uma aranha, tendo feito a teia na boca de um telescópio, sugeria a existência de um planeta com um enorme aracnídeo acoplado. Pois bem: tantos anos depois da morte de Hergé, o criador da figura, Tintim continua a render. Segundo leio, uma folha desenhada em tinta-da-china, em 1937, para servir de guardas a um ou mais álbuns, foi vendida por 2,5 milhões de euros num leilão em Maio passado, verdadeiro record no que toca a obras deste género. O anterior, de resto, já pertencia a Tintim – era a ilustração original da capa de Tintim na América e rendera 1,3 milhões.


22
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (18)

A arca de Pessoa, de quem aqui falei ontem, embora de raspão, parece inesgotável – e continuam a aparecer composições inéditas do poeta que criou e assinou com diversos nomes e estilos. Boas notícias para os amantes de Fernando & heterónimos, claro, pois é bom termos sempre coisas novas para ler de alguém que há muito partiu desta vida descontente. Razões de sobra para ficarem satisfeitos têm também agora os apaixonados pela poesia do chileno Pablo Neruda, vencedor do Nobel da Literatura, pois a sua Fundação surpreendeu recentemente o mundo literário com a descoberta de uma vintena de poesias inéditas que somam qualquer coisa como um milhar de versos! Saídas das caixas de manuscritos em que jaziam há cerca de quarenta anos, estas poesias verão a luz na América Latina neste final de ano pela mão da editora Seix Barral, pertencente ao grupo Planeta, e no próximo ano na Europa, crendo-se que venham a ser traduzidas e publicadas em muitas línguas. Ficamos, claro, à espera… e em ânsias.


21
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32 | comentar | ver comentários (9)

Todos os estrangeiros que visitam o Brasil se esforçam por não falhar o Rio de Janeiro que, apesar de já não ser a capital, é uma das cidades mais belas e aquela onde parece que tudo está a acontecer. Mas, culturalmente, São Paulo tem bastante mais para oferecer a quem gosta de pintura, dança, cinema e museus. Entre um dos mais fantásticos, está o Museu de Língua Portuguesa, que já teve uma memorável exposição interactiva sobre Fernando Pessoa. A atenção aos escritores portugueses não ficou, no entanto, por aqui – e agora anuncia-se uma mostra dedicada ao nosso Eça de Queirós para 2015, segundo António Carlos Sartini, o director, que acrescenta que vai ser um trabalho de grande responsabilidade, dada a craveira do romancista e o interesse que sempre despertou dos dois lados do Atlântico, uma vez que Eça é considerado património de ambas as culturas, a portuguesa e a brasileira. Planeando férias para o Brasil no ano que vem, não falhe, pois, a beleza e as praias do Rio de Janeiro, mas preveja uma escapadinha à enorme São Paulo para ver uma exposição que promete ser muito interessante. Pode acompanhar os desenvolvimentos em www.museudalinguaportuguesa.org.br.


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