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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Set16

Digitalizar livros

Maria do Rosário Pedreira

Há ainda muitos livros impressos nas nossas estantes que são de um tempo anterior aos computadores e à paginação electrónica. Foram publicados no tempo dos caracteres de chumbo ou dos fotolitos e, por isso, não há ficheiros digitais nos quais estejam guardados. De vez em quando, alguém se lembra de que seria bom pô-los outra vez a circular no mercado e, quando isso acontece, dá muito jeito que alguém que tenha o livro em casa o empreste para ser digitalizado. Para dizer a verdade, fujo de o fazer; porque normalmente é preciso desfazer o livro, separá-lo da capa e digitalizar uma página de cada vez. Quando mo devolvem, é raro estar nas melhores condições… Mas parece que esse problema vai ser em breve resolvido: uma equipa de investigadores do MIT está a desenvolver uma tecnologia avançada que permitirá digitalizar livros inteiros – pasme-se! – sem ter de os abrir. Esquisito, não? Também me pareceu, mas leio que é possível com o recurso a radiação tetrahertz, que é absorvida pelo papel e pela tinta de uma forma especial. Não pesco nada da matéria (por isso vos deixo um vídeo, em inglês, que podem ver e ouvir), mas, se isto for para a frente, tenho a certeza de que muitíssimas bibliotecas do mundo ficarão gratas a estes investigadores.

 

26
Set16

Croquetes para um editor

Maria do Rosário Pedreira

O meu primeiro editor (sem contar com uma ninharia que assinei com pseudónimo e que, na altura, me permitiu comprar um frigorífico novo) foi Fernando Guedes, o senhor que mandava na Verbo e que, infelizmente, morreu há menos de um mês. Era um homem sábio, culto e divertido que, não tendo nunca abdicado das suas posições, tinha uma inteligência e uma abertura admiradas até pelos seus adversários. Foi na Verbo que publiquei os meus livros juvenis, o primeiro dos quais, escrito a meias com Maria Teresa Maia Gonzalez, ganhou o Prémio Verbo/Semanário. Quando fomos assinar o contrato, eu achei as condições bastante mazinhas (tendo em conta que era um contrato para uma colecção e que o primeiro livro dessa colecção recebera um prémio) e disse, quiçá um pouco desabridamente, que, para receber aquilo, talvez fosse melhor vender croquetes…  Fernando Guedes – que, mesmo não me conhecendo bem, deve ter intuído logo ali a minha falta de jeito para a cozinha – perguntou imediatamente se eu por acaso sabia fazer croquetes… Na reunião seguinte, levámos-lhe então uma caixa de croquetes magníficos (feitos, claro, pela empregada da minha mãe) para ele provar. E ele provou mesmo, dizendo que a nossa atitude demonstrava que tínhamos sentido de humor e que isso só podia ser bom para a colecção que nos encomendava. Resultado, acabou por concordar com a nossa proposta de contrato. Esse foi só o primeiro contacto com um verdadeiro senhor, com quem iria publicar duas colecções de livros ao longo de muitos anos. Fernando Guedes foi poeta, ensaísta, editor e muito mais. Vai fazer falta, tenho a certeza, a quantos tiveram a sorte de o conhecer.

 

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23
Set16

Mil livros até ao Natal

Maria do Rosário Pedreira

Uma aldeia portuguesa situada a mais de mil metros de altitude tem apenas cerca de 150 habitantes, dos quais 15 ou 20 são crianças e adolescentes. Mas não é por isso que não merece uma pequena biblioteca (foi, pelo menos, o que o dramaturgo Abel Neves, com casa no local, achou) e há quem esteja a lutar por ela com unhas e dentes. Em Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, a Junta de Freguesia quer pôr a sua gente a ler e até já tem algumas prateleiras cheias de livros que vieram de muitos lados, Brasil incluído, provando que os leitores são sempre generosos. A iniciativa Um Livro para Pitões foi lançada por Rui Barbosa, um bracarense apaixonado pelo Parque Natural da Peneda-Gerês, e tem uma página no Facebook (ver no fim da mensagem) que apela à doação. O objectivo é que se consigam 1000 livros até ao Natal para formar uma biblioteca que faz falta num lugar que é um pólo cultural muito interessante, no qual se realizam já as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Fiadeiro dos Contos e ainda a celebração do Entrudo, que leva milhares de forasteiros a Pitões. Os livros podem ser enviados pelo correio ou entregues em mão (o pretexto é, de resto, óptimo para visitar esta terra linda). De que está à espera com tanto livro lá em casa em que já não voltará a pegar?

 

 https://www.facebook.com/Um-Livro-Para-Pit%C3%B5es-171390756597979/?fref=ts

 

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22
Set16

Folio

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há umas semanas, o director do Festival Literário de Ovar, Carlos Granja, dizia que os festivais deste tipo nunca eram demais; e, apesar de às vezes sentir que alguns autores não fazem senão andar de um lado para o outro a falar dos seus livros, em vez de escrever, a verdade é que todas as cidades merecem assistir a debates e conversas sobre literatura. Hoje é, de resto, a vez de começar o Folio – em Óbidos –, que tem neste ano a sua segunda edição com centenas de eventos em todas as áreas culturais e muitos convidados de peso. Falo, por exemplo de Salman Rushdie, o escritor perseguido e jurado de morte depois da publicação de Os Versículos Satânicos, ou de V.S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura. Mas haverá muito mais, claro, além destas vedetas: exposições (uma delas de Júlio Pomar); música (Camané vai cantar Tom Jobim, estou curiosa!); filmes (A Ópera do Malandro); conferências (Eduardo Lourenço vai falar sobre Vergílio Ferreira). É mesmo para todos os gostos, diria eu. E, para facilitar a vida a quem não tem carro e quer ficar em Óbidos até tarde, pois alguns dos eventos são à noite, o Folio fez um acordo com a CP e haverá um comboio de ida diário às 10h30, que parte da Estação do Rossio e regressa de Óbidos às 00h30. A viagem custa 10 euros, mas dá direito a leituras de poesia pelo caminho. O festival vai até dia 2 de Outubro e o programa completo pode ser consultado aqui:http://foliofestival.com/

 

21
Set16

Aconselhar

Maria do Rosário Pedreira

Existe uma panóplia de autores consagrados (Hemingway é um dos exemplos mais gritantes) que generosamente partilharam os seus conselhos e experiências com os que então começavam ou queriam começar a escrever. Recentemente, apanhei já não sei bem onde – creio que no site de uma escola que ministra cursos de Escrita Criativa – uma série de conselhos bastante úteis do escritor mexicano Carlos Fuentes que, entre muitos outros galardões, recebeu o Prémio Cervantes e o Prémio Príncipe das Astúrias pela sua obra. Pois além de afirmar que é preciso ter lido, e lido muito, antes de qualquer um se abalançar a escrever o seu próprio livro, Fuentes refere coisas curiosas, como a de que «não há inovação que não se sustenha na tradição» e que só assim um autor de antanho se converte em autor actual e o autor actual em autor de amanhã; e diz ainda que ninguém se deve deixar seduzir pela ideia do êxito e da imortalidade, até porque a maioria dos best sellers morre em pouco tempo e os seus autores logo caem no esquecimento. Refere que há que prestar muita atenção à categoria do tempo, pois é ele que transforma a história em poesia ou ficção, e que um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária. Outra das suas máximas – mas essa sabe toda a gente que escreve – é que, uma vez publicado, o livro deixa de pertencer ao autor. Boas dicas para futuros e presentes escritores.

 

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20
Set16

Um colóquio para O'Neill

Maria do Rosário Pedreira

Estamos há trinta anos e um mês sem Alexandre O’Neill, grande publicitário e poeta notável, além de autor de grandes fados (Gaivota é o mais conhecido). Mas ninguém o esquece – e o Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa vai dedicar-lhe um congresso inteirinho nos próximos dias 22 e 23 de Setembro na Sala de Exposições do Edifício da Biblioteca. Para falar do grande mestre da ironia estarão nestes dois dias muitos especialistas portugueses e estrangeiros, de Clara Rocha (sim, a filha de Torga) a Fernando J. B. Martinho, de Burghard Baltrusch a Fernando Cabral Martins (conhecido sobretudo pela sua obra sobre Pessoa), de Miguel Tamen a Pedro Mexia. Muitos serão os temas tratados – o medo, a sátira, a espiritualidade (que será tratada por José Tolentino de Mendonça, sacerdote e poeta) ou a Lisboa do escritor. A entrada é livre (grátis!), mas os interessados terão de se inscrever neste link:

https://docs.google.com/forms/d/1b5Se0-qpUtPnaK3uutZG1AiDfiSh_dZd6CBNPbx_ht8/viewform?edit_requested=true

Para mais informações, podem consultar o link abaixo. E bom Congresso!

https://ocoloquiodooneill.wordpress.com

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19
Set16

A melhor parte

Maria do Rosário Pedreira

 

Há histórias reais que davam mesmo bons romances – e, se forem histórias de romancistas, melhor. No ano passado, depois de anunciados os finalistas do Prémio LeYa, soube-se que dois deles eram namorados… Entre tantos originais a concurso, foi uma bela coincidência... Um desses escritores, o Paulo M. Morais, quis porém rever a sua novela e apresentar-me, em vez dela, um livro de não-ficção que tinha praticamente concluído. Era este Uma Parte Errada de Mim, de que hoje vos falo; e, quando iniciei a leitura, dei por mim, muitas horas depois, com mais de 150 páginas lidas sem ter feito uma pausa. Trata-de de um testemunho absolutamente notável (e nada lamechas nem sensacionalista, como às vezes acontece) sobre uma experiência terrível: no mesmo ano em que ficara sem emprego, se separara e tivera de voltar para casa de uma avó com quem vivera na infância, o Paulo descobriu de um dia para o outro que tinha um linfoma (a médica de família achava que era tudo uma depressão). Mas esta sua «parte errada», a cujo tratamento assistimos também neste livro, foi aquele desvio que o conduziu ao lugar certo e o ajudou não só a fazer um corajoso balanço de vida (o passado torna-se fulcral quando ignoramos se temos futuro) mas igualmente a corrigir muita coisa que lhe permitiu ir suportando os maus fantasmas e ir encontrando forças (e também alguém muito especial) para resistir. Uma Parte Errada de Mim, na tradição de livros como o de Rebecca Solnit de que aqui falei já (Esta Distante Proximidade), não é, pois, MAIS um livro sobre o cancro, mas uma reflexão magistral sobre a condição humana, que se lê com a fluência de um romance com final feliz. A não perder.

 

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16
Set16

A Vegetariana

Maria do Rosário Pedreira

E pronto, A Vegetariana já está na rua! Vencedor do Man Booker International Prize há uns meses, eis o livro de Han Kang que destronou obras de Elena Ferrante, José Eduardo Agualusa e até o Nobel Pahmuk e desde então vendeu cerca de meio milhão de exemplares só na Coreia, país natal da autora. É a história de uma mulher que era absolutamente normal. Nem bonita nem feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E essa sua renúncia à carne – que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu – acabou por desencadear reacções extremadas da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros – o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano… Um romance mesmo bom, de que Ian McEwan disse merecer todo o  sucesso que alcançou. A tradução é de Maria do Carmo Figueira. Leiam, leiam.

 

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15
Set16

Livros de graça

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que venho um pouco tarde, porque hoje é o último dia para poderem aproveitar esta dádiva, mas pode ser que morem ou passem pela Freguesia de Arroios, em Lisboa, e ainda cheguem a tempo. (E, embora não seja o caso aqui no blogue, a verdade é que não deve haver assim tanta gente interessada, digo eu, sabendo o nível de hábitos de leitura dos portugueses.) A história é esta: uns quantos livros foram espalhados por vários locais de Arroios no âmbito de uma acção conjunta da Biblioteca de S. Lázaro (a mais antiga de Lisboa) e da Junta de Freguesia de Arroios; e podem ser sessenta só num dia! Aparecem nas piscinas, em bancos de jardim, em esplanadas de cafés, em quiosques, e no fundo o que querem é alguém que lhes deite a mão, os leve para casa e, evidentemente, os leia. Há de tudo, de policiais a poesia, de livros portugueses a literatura traduzida. E o que se pretende é que as pessoas percam o medo aos livros, lhes peguem e experimentem ler… De graça, ainda por cima! Em anos anteriores, a oferta de livros acontecia na própria biblioteca, mas, claro, aparecia pouca gente, iam sempre os mesmos – e esses eram quase todos leitores firmados. Assim, sempre pode surgir alguém que queira tentar … e goste. É sempre assim que começa.

 

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14
Set16

Quintas especiais

Maria do Rosário Pedreira

Falo muito neste blogue (e não só) das Quintas de Leitura, um espectáculo de poesia que costuma acontecer uma vez por mês no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Mas, como a Feira do Livro está a decorrer naquela cidade, as Quintas deste mês serão amanhã no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, instalada nos jardins do Palácio de Cristal, no mesmo local onde tem lugar a feira. Esta sessão vai ser dedicada ao grande editor Vítor Silva Tavares, que morreu recentemente, tendo-nos brindado em vida com a sua belíssima &etc, uma editora de excepção que publicou numerosos poetas, entre os quais Herberto Helder, António Ramos Rosa, João César Monteiro, Adília Lopes, Rilke, Sade ou Salvador Dalí. A sessão chama-se A xapharika &etc, uma editora no subterrâno 3, inclui uma conversa entre Eduardo de Sousa, Cláudia Clemente e Isaque Ferreira, sendo este último também um dos diseurs que fará leituras, a par de Nuno Moura (poeta que foi publicado pela &etc.), e Sandra Salomé. A imagem está a cargo de Bárbara Assis Pacheco, que realizou muitas das capas da editora de Vítor Silva Tavares, e asseguram a parte musical J. P. Simões e Joana Bagulho, que toca cravo. Não se esqueçam: às 22h00 de amanhã, um certamente imperdível espectáculo!

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© Bárbara Assis Pacheco