24
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (22)

Com o tempo, os intelectuais portugueses foram-se transformando – e hoje faltam-nos aqueles que eram realmente intelectuais completos. Falo por exemplo de Eduardo Prado Coelho, que podia escrever com a mesma profundidade sobre livros, dança e comida, ou do recentemente desaparecido Vasco Graça Moura que, além de poeta e romancista, era um homem cultíssimo em muitas artes (um melómano confesso, de resto) e um interessante opinion-maker, mesmo que não concordássemos sempre com as suas opiniões. Mas a sociedade Estoril-Sol, que é já conhecida pelo lançamento de dois Prémios Literários (Revelação Agustina Bessa-Luís e Fernando Namora, ambos atribuídos anualmente) e também pela publicação da revista Egoísta, não esqueceu o grande Vasco Graça Moura e resolveu homenageá-lo, tornando-o patrono de mais um prémio. Desta feita, o galardão contemplará a Cidadania Cultural e, digo eu, não podia calhar melhor.


23
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:36link do post | comentar | ver comentários (11)

Já aqui vos falei muitas vezes da Livraria Arquivo, em Leiria, um espaço muito bonito e acolhedor no que toca a livros e autores. Sempre que a oportunidade se apresenta, lá vou eu à Arquivo, acompanhada de um ou mais escritores, para uma sessão à roda dos seus livros para um público que costuma ser bastante interessado e participativo. Desta feita, a viagem far-se-á depois de almoço com a vencedora do Prémio LeYa em 2013, Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz, e, já na cidade de Leiria, iremos encontrar-nos com António Tavares, o autor de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, que, por viver na Figueira da Voz, faz a viagem no sentido inverso. A conversa promete ser boa, digo eu – sendo que aquelas a que tenho assistido na Arquivo o foram sempre. Se estiver pelas redondezas, vá fazer-nos companhia.

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22
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29link do post | comentar | ver comentários (25)

Muitos dos autores de ficção que publiquei ao longo da vida eram também poetas. Alguns, aliás, já eram poetas antes de se terem tornado ficcionistas (José Luís Peixoto e valter hugo mãe, por exemplo). Diz a crítica que é difícil jogar nos dois lados com o mesmo nível – e talvez por isso uma das artes impere sobre a outra, fazendo com que determinado autor seja sempre conhecido ou como poeta ou como prosador (Saramago foi um romancista de excepção, mas a sua poesia não é muito difundida). Em todo o caso, não convém generalizar: acabo de ler O Uso dos Venenos, uma colectânea de poesia de José Carlos Barros, e não a acho nem superior nem inferior ao romance que dele publiquei no ano passado – Um Amigo para o Inverno – que foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Vejo entre os dois livros pontos de contacto inequívocos, uma ligação às origens, à ruralidade, à memória. Até alguns objectos e palavras se cruzam nos dois volumes. Pedro Mexia, numa crítica ao poemário, fala de uma reunião de textos «com uma tonalidade humanista e melancólica que não teme o poético». Um exemplo, para que fiquem a conhecer melhor:

 

Ruína

 

Guardava a casa, o lume intemporal, como outros

guardam uma língua ou escondem da usura

alguns aspectos de uma biografia. Guardava a casa

como se não houvesse mundo além da escaleira

 

ou ao mundo não fosse dado entrar atravessando

a porta. É difícil compreender agora que a ruína

possa começar assim pelo lado de dentro, do interior

dos objectos que se chegou a supor imperecíveis.


21
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:37link do post | comentar | ver comentários (2)

Quando eu andava no liceu, uma professora de Português disse à nossa turma que Gil Vicente dava pano para mangas. É bom referir que o comentário vinha a propósito de uma adaptação muito pouco ortodoxa que tínhamos feito de A Farsa de Inês Pereira e que fora depois representada por vários alunos para toda a escola. Mas a senhora tinha razão – há autores que dão pano para mangas, suscitam facilmente a escrita de outros textos ou abordagens ditas artísticas. Outro caso assim é o de Agustina. Além das várias adaptações cinematográficas a que os seus livros já foram sujeitos, algumas delas do realizador Manoel de Oliveira, chegou agora a vez de um compositor, Eurico Carrapatoso, transformar numa ópera um texto inédito da escritora portuense intitulado Três Mulheres com Máscara de Ferro. A estreia, na Fundação Calouste Gulbenkian, aconteceu recentemente por ocasião do I Congresso Internacional dedicado à obra de Agustina Bessa-Luís, mas esperamos poder ver a ópera por esse País fora com brevidade.


20
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:25link do post | comentar | ver comentários (16)

Leio num dos jornais de fim-de-semana que o filme Os Maias, de João Botelho – cineasta que é chegado à literatura e também já nos deu o Desassossego de Bernardo Soares, entre outras obras –, já foi visto por mais de 70 000 espectadores em Portugal. Parece, pois, que os portugueses perderam finalmente o medo do cinema português (melhor dizendo, o preconceito), ou então são os pais dos alunos que vão ter de ler a obra de Eça de Queirós durante este ano que os levam para que fiquem já com uma ideia da história e, se não chegarem a passar-lhe os olhos, possam mesmo assim debitar alguma coisa nos testes. A verdade é que também eu estava curiosa em relação a este Os Maias, e fui vê-lo, mas sem adolescentes. Gostei bastante dos cenários pintados e da interpretação dos actores, já menos da ligação dos episódios com voz off – que na maioria dos casos nem me pareceu necessária – e do final um pouco chocho, sem a graça que, na minha memória, tem no livro essa corrida para o americano. E apreciei obviamente o Eça, dito ali com todas as palavras que estão escritas por quem teve de as decorar ipsis verbis (opção do realizador que, digo eu, deve admirar o escritor) mas que antevejo de muito difícil compreensão para jovens de 15 anos que não leram a obra, sem hipótese de rebobinarem e voltarem a ouvir certos diálogos ou de irem ao caderninho de significados ver o que querem dizer determinadas palavras. Na sala onde vi o filme, a bem dizer, era tudo gente da minha idade. Mas talvez seja melhor assim. Sem terem visto o filme, alguns alunos sentir-se-ão obrigados a ler o romance, e isso é que é importante.


17
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:23link do post | comentar | ver comentários (17)

Num destes domingos em que havia sol fui almoçar com o Manel a um japonês que tem uma simpática esplanada ali para os lados da Expo. Na mesa ao nosso lado, ficaram dois casais jovens, um dos quais com a filha, uma menina muito pestanuda que tinha, quando muito, dois anos. Deram-lhe de comer de um tupperware trazido de casa antes de eles próprios se servirem (o restaurante é self-service) – uma massa de lacinhos com carne, que normalmente agrada às crianças; e, terminado o repasto, a miúda começou a ficar irrequieta e a pedir colo. Como os graúdos também queriam almoçar, o pai da menina perguntou à sua cara-metade se tinha trazido o telefone da filha. O telefone «dela», disse e eu ouvi muito bem. E, quando eu julgava que iria sair da enorme bolsa que as mães de filhos pequenos sempre trazem com elas um telefone de brincar, desses que tocam campainhas e têm muitas teclas coloridas, eis que aparece sobre a mesa um moderníssimo iPhone, logo entregue à bebezita que já sabia tudo sobre a geringonça e começou imediatamente a passar fotografias e a jogar, deixando os progenitores à-vontade para degustarem sushi e sashimi. Ora que diabo, pensei eu, então o telefone «dela», de uma criança de dois anos, era aquela máquina estupenda e caríssima a que tantos adultos aspiram? Porque não um livrinho, meus senhores, com bonecos, ruídos e até cheiros, que também os há? Irão estes meninos tecnológicos ser capazes de brincar a alguma coisa mais tarde e com alguém? Ou vê-los-emos sós durante toda a infância, diante de ecrãs de computador, sem abrir a boca para comunicar com os da sua idade, mandando apenas mensagens escritas ou apondo comentários em redes sociais? Um susto, é o que é...


16
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (6)

Ninguém imaginaria que Mafalda, a menina rebelde que odeia sopa e tem uma visão do mundo muito desassombrada, pudesse fazer este ano meio século. Na verdade, ela permanece igual, não envelhece apesar do correr do tempo que aos restantes traz rugas e cabelos brancos. E não envelhece sobretudo porque continua actual e oportuna num mundo que mudou imenso em muita coisa, mas é ainda o mesmo em quase tudo. Não consigo esquecer a lufada de ar fresco que foi descobrir este magnífico cartoon do argentino Quino (diminutivo de Joaquín) e as suas deliciosas personagens: além da própria Mafalda, claro, toda ela um programa, o Manelinho, o Filipe, o Miguelito, o Gui, a absolutamente irresistível Liberdade com a sua tartaruga Burocracia, e ainda a supremamente irritante Susaninha, capaz de me arrancar gargalhadas com as suas frases intempestivas. Numa tira desta banda desenhada, saindo de uma loja de artigos para o lar, vem um casal de braço dado; e a sempre romântica e sonhadora Susaninha observa o homem de alto a baixo, como se avaliasse mercadoria, e logo pergunta à senhora: Por quanto lho venderam? Mas a política nunca deixou de estar também presente nas notáveis histórias de Mafalda e abriu os olhos a muitos adolescentes, até em países com regimes ditatoriais, como era há cinquenta anos a terra natal do autor. Parabéns, Mafalda.


15
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:29link do post | comentar | ver comentários (19)

Hoje é dia de falar de palavras e expressões que os nossos jovens provavelmente já não usam e que é importante que apareçam de vez em quando em textos e conversas, para que não morram. Um dia destes, por exemplo, a minha mãe contou-me que tinha ido de escantilhão ao supermercado e que estava cansada porque andara toda a semana numa fona (note-se, tem 90 anos, mas ainda não está a cair da tripeça). Como a arenga não parecia terminar, achei por bem pôr-me na alheta. Há pessoas muito mais novas do que ela que são um pelém (adoro esta, usada frequentemente pelo escritor Mário Cláudio e que me cheira a infância, pois a minha avó paterna aplicava-a a meninos que adoeciam por tudo e por nada, sempre queixosos). Outra palavra que desapareceu do uso corrente – e se calhar ainda bem – é enjeitadinha, originalmente referindo-se a criança rejeitada ou abandonada pelos pais e presente em muitos fados da primeira metade do século XX. Tal como a expressão a esmo, que eu aprecio pela sonoridade estranha e que é hoje quase sempre substituída por «ao acaso», «à toa» ou «indistintamente». Um dia disse a uma rapariga que cortara o cabelo que lhe tinha feito bem ir ao baeta; ficou na mesma, não conhecia a expressão. Por fim, três outras palavras que só as pessoas de alguma idade ainda usam: pífio (já ouvi o professor Marcelo dizê-la a propósito de uma remodelação governamental insignificante); flausina (o mesmo que sirigaita) e capitosa (que vem de capo, cabeça, e significa «obstinada», mas sempre a ouvi designar louras que causam impressão indelével). E pronto, para o mês que vem, há mais.


14
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (3)

Uma das vantagens de se ser convidado para um festival literário fora do País não é conviver com os conterrâneos do mesmo ofício, uma vez que a esses temos acesso todo o ano, se o quisermos, e a verdade é que não queremos assim tantas vezes, até porque podemos não simpatizar com alguns deles ou com as suas obras e preferimos não ter de o dizer. A vantagem é, na verdade, conhecermos os nossos confrades de outros lugares, pessoas que não têm qualquer ideia do nosso trabalho e por isso estão naturalmente abertas e curiosas como, aliás, nós sobre elas. Quantas vezes não me aconteceu ler um jovem autor completamente desconhecido para mim só porque o ouvi falar na mesa de um encontro de escritores a quilómetros de casa e me pareceu que só podia escrever livros interessantes? Aconteceu-me em França, num festival de poesia, travar conhecimento com um poeta espanhol que leio até hoje e um dia gostaria até de traduzir. Pois agora é a vez de uma autora que publico, Ana Margarida de Carvalho, ir representar Portugal a Porto Rico no Festival de la Palabra, que se realiza anualmente naquele país e cujo director é José Manuel Fajardo, um romancista espanhol residente em Lisboa. Será a única escritora portuguesa do cartaz e terá a oportunidade de se encontrar com colegas das letras de todo o mundo, maioritariamente de língua espanhola – colombianos, mexicanos, espanhóis (Javier Cercas e Rosa Montero, óptima companhia), entre outros – mas também alemães, haitianos e norte-americanos, além dos muitos porto-riquenhos que estarão a jogar em casa. Fico muito contente que tenha sido ela a escolhida este ano e tenho a certeza de que, com a sua presença, Porto Rico ficará ainda mais rico.


13
Out 14
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26link do post | comentar | ver comentários (2)

Nada como começar cedo nestas coisas da arte e da literatura. Uma autora de livros infantis que já publiquei em duas das editoras por onde passei, Marina Palácio, também ilustradora de excelência, é, além disso, de 2009 para cá, uma fervorosa construtora de projectos interessantes para crianças em várias áreas, desenvolvendo regularmente catorze oficinas de leitura e criatividade, nas suas palavras, «laboratórios para a criação da consciência da identidade “Nós e o Mundo” (...) cruzando expressões artísticas, ciência, humanismo, natureza, e promovendo ideias criativas e inovadoras». As oficinas (Como Nasce Um Livro? Jardineiros das Madrugadas, Educar pelo Livro, Oficina das Árvores e dos Avós, entre muitas outras) têm lugar em escolas, bibliotecas e outras instituições culturais em todo o País e recebem crianças entre os 3 e os 17 anos para formar leitores que se tornem elementos activos na sociedade. Deixo-vos, pois, os links do seu vídeo de apresentação e espero que inscrevam os mais pequenos em alguma destas actividades.

 

http://www.marinapalacio.blogspot.pt/


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