27
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27 | comentar | ver comentários (12)

Dizem que as mulheres são boas doentes: metem-se na cama e querem é que as deixem em paz. Percebem que a febre é uma coisa passageira. Não fazem ondas nem chateiam especialmente os maridos, filhos, pais, quem com elas viva, enfim. Exceptuando as hipocondríacas, bem entendido. Já dos homens se diz o contrário, embora eu tenha sorte com o Manel, que é, até ver, um óptimo doente, inclusive porque recupera quase sempre com uma rapidez estonteante (uma aspirina e fica como novo). Mas, na generalidade, um homem com gripe é uma dor de cabeça para a família inteira, e quem o diz é o nosso Lobo Antunes, que escreveu estes versos deliciosos e muito a propósito:

 

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes, que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças,
Tigres sem listras, bodes sem tranças,
Choros de coruja, risos de grilo,
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo.
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes, que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.


26
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:21 | comentar | ver comentários (25)

O meu pai era um homem muito inteligente – e estou à vontade para o dizer porque levei a vida toda a ouvir quem o conheceu dizer-me a mesma coisa. Ainda hoje, quando alguém olha para o meu apelido e me pergunta se sou filha dele, à resposta afirmativa segue-se quase sempre uma frase atestando a genialidade do progenitor. Mas, apesar dela, o Luiz Pedreira tinha alguns problemas em atravessar ruas (levava uma eternidade), guiar automóveis (ia em segunda uma eternidade) e levantar dinheiro num multibanco (pedia à minha irmã). Conheci muita gente inteligente que nunca conseguiu tirar a carta de condução e acabo de ler no El País que Vargas Llosa não usa telemóvel nem correio electrónico (duas das razões que apontou para não poder aceitar o convite para dirigir o Cervantes). Cá em Portugal, lembro-me, por exemplo, de que Eduardo Lourenço continua a escrever à mão e já aqui contei uma história sobre ele e um fax que mostrava o seu pouco jeito para as máquinas. Um dia destes, contaram-me que Lobo Antunes só viaja sozinho se os voos forem directos, porque receia escalas e transbordos e não quer ficar perdido no meio do mundo; e o escritor Juan Goytisolo confessou num artigo que li recentemente que não fazia a mais pequena ideia do que era um iPad ou um iPhone e ainda escrevia com caneta, não tendo sequer passado pela máquina de escrever. É divertido ver como a inteligência tem tão pouco que ver com a destreza de carregar em botões... Assim, quando vemos um piolho ganhar um jogo de computador logo à primeira, não quer dizer que seja necessariamente inteligente.


25
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (10)

Tive uma gripe dos diabos na semana passada: febrão, dores no corpo, a garganta arranhada, falta de apetite, enfim, uma incapacidade de ser eu mesma por alguns dias – e, quando digo «eu mesma», estou a falar de uma pessoa que lê habitualmente coisas de jeito. Assim, os dias em casa não puderam ser aproveitados em grandes leituras, os olhos fechando-se ou lacrimejando a maior parte do tempo. Ao fim de quarenta e oito horas melhorei ligeiramente, mas ainda mantinha os sentidos embotados: consegui ler as gordas de um jornal diário sem absorver grande coisa e, percebendo que não valia a pena insistir, tirei do saco de jornais que o Manel trouxe da rua uma revista que, pelos vistos, vem com o El País aos sábados e é dedicada à moda e às mulheres (o Babelia teria de aguardar tempos de maior lucidez). Pois foi uma boa surpresa: embora se trate de material com pouco que ler, a dita revista, chamada S Moda (imagino que o S venha de sábado, mas não tenho a certeza), é um primor em termos de produção e fotografia de moda. Num artigo de fundo sobre os grandes da moda espanhola nos últimos vinte anos (Zara incluída), um conjunto de fotografias protagonizadas por estilistas, sapateiros, joalheiros e modelos arrumados como personagens em cenários belíssimos fez-me lembrar cartazes de bons filmes franceses, italianos e americanos de há décadas, baseados de preferência em bons romances. Uma outra secção, dedicada desta feita a chefs de cozinha, parecia recriar personagens de livros bastante conhecidos – da Recherche à Origem das Espécies, de Tintim às aventuras de Verne. Tenho de confessar que nunca tinha folheado a S, porque ela não costuma sair do saco (tira-se o Babelia e já está), e fiquei impressionada com o aspecto gráfico e a qualidade de impressão. Para a semana, vou ver se a coisa se mantém, se foi tudo um delírio da febre. É que ver arte e literatura numa revista para mulheres pode ser excesso de optimismo ou simplesmente miopia gripal...


24
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31 | comentar | ver comentários (31)

Os artigos a favor e contra o Acordo Ortográfico, vindos de quem usa a caneta profissionalmente e de quem nada tem, à partida, que ver com as questões da língua, mas quer, mesmo assim, dar a sua opinião, têm-se multiplicado nas últimas semanas. Só para dar dois exemplos, no mesmo sábado escreveram sobre o assunto nos jornais Pedro Mexia e Bagão Félix, ambos contra o dito. Não escondo que também não me agrada o acordo e continuo a escrever à maneira antiga (as coisas antigas têm certo charme, de resto, mas não é por isso), embora a publicar alguns autores que já usam a nova ortografia. Mas agora fui colocada perante um dilema. Encomendaram-me um livro para crianças (de que falarei oportunamente), e o meu computador, que reclama actualizações semanalmente, começou a corrigir-me os "supostos" erros. Era realmente meia dúzia de palavras que perdiam o C (como espectáculo e electricidade) e pouco mais; mas, antes de lhes devolver a consoante desaparecida, pus-me a pensar que as crianças daquela idade já têm os manuais e livros de leitura com a nova ortografia e se calhar só lhes vou arranjar sarilhos numa idade em que precisam é de aprender a ler e escrever com o mínimo de ruído possível. Devo ser consistente ou volátil? Egoísta ou altruísta? Reservar a ortografia do meu coração só para quem a aprendeu nos bancos da escola e usar a nova para os fedelhos? Que fazer, em suma?


23
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 10:07 | comentar | ver comentários (7)

Prometi voltar quando tivesse o livro lido e cá estou eu. Os Malaquias – assim se chama o romance vencedor do último Prémio Literário José Saramago – ainda não está disponível em livraria, mas, se por acaso é sócio do Círculo de Leitores, não hesite, pois, além de uma leitura de qualidade, terá um objecto bem bonito nas mãos. Partindo de um episódio real que aconteceu na família da autora, Andréa del Fuego – a história de três irmãos que ficam órfãos na noite em que um raio fulmina os seus pais num casebre da Serra Morena –, a obra mistura a vida difícil de três miúdos que acabam por separar-se (e cujo futuro se adivinha penoso e triste) com um toque de realismo mágico que, entre outras coisas, faz viajar no corpo de um deles gente que morreu e acabou por transformar-se em partículas de pó, gás, suor, o que for. Escrita de forma muito especial, poética, ternurenta, mas também cruel quando é preciso, esta saga – autobiográfica ou não – convence e é mais parecida no tom com o Jorge Amado dos Capitães da Areia do que com a literatura brasileira contemporânea, mais desprendida e desconcertante. Mesmo achando que o fim precisava de um jeitinho, recomendo.


20
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:22 | comentar | ver comentários (9)

Fiquei extremamente feliz quando a Unesco considerou o Fado Património Imaterial da Humanidade há pouco mais de um mês – e só não escrevi logo um post entusiasmado porque na altura estava no México, na Feira do Livro de Guadalajara, e no meu hotel as tecnologias funcionavam mal e às vezes precisava de esperar 40 minutos para receber um email. Tenho desde pequena uma grande ligação e amor ao fado, sobretudo porque o mau pai era um boémio e levava-nos muitas vezes a ouvi-lo ao vivo. E, na medida do possível, vou acompanhando o que se faz e ouvindo o que sai. Foi com muito medo que fiz as minhas primeiras letras para o Carlos do Carmo e a Aldina Duarte, mas agora tomei-lhe o gosto e tenho um prazer imenso em escrevê-las, mesmo que umas me saiam melhor do que outras. Há algumas semanas, estive a «produzir» para o António Zambujo, que tem uma voz belíssima e uma afinação invejável, e estou mortinha por ver o resultado. Neste ano, também sairá um disco da Mísia, para quem fiz a letra de um fado que, afinal, não é um fado, mas uma espécie de tango. Dei ainda algumas letras ao Ricardo Ribeiro, que pensava fazer um álbum com o Pedro Jóia, mas ainda não sei se o projecto – ou as letras – vai para a frente. A fadista Carminho também mostrou interesse em que, no próximo disco (gravou um agora mesmo), eu trabalhe para ela. Enfim, se a edição deixar de precisar de mim, talvez o fado me queira.


19
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:20 | comentar | ver comentários (15)

Conhecia romances gráficos – até Paul Auster escreveu um – e, no fundo, não são muito diferentes da banda desenhada. O que não conhecia até à data era um romance em imagens, fotografias sobretudo, que compõem uma colecção com ar de poder ser vendida em leilão. E é exactamente assim o livro que tenho na mão, intitulado Artefactos Importantes e Objetos Pessoais da Coleção de Leonore Doolan e Harold Morris, Incluindo Livros, Roupa e Acessórios, publicado como um catálogo dos Leiloeiros Strachan & Quinn (quiçá os nomes são os dos autores). Folheando-o brevemente, parece o que anuncia: um catálogo com grafismo de catálogo, muito cuidado, com fotografias de pessoas, objectos, roupa, bilhetes de amor e respectivas legendas classificativas. Mas, bem vistas as coisas, é um romance, a história de amor entre duas pessoas. Ainda não li de fio a pavio, mas parece-me uma ideia inegavelmente interessante e original, se não mesmo a explorar. Parabéns a quem a teve, evidentemente. Espreitem, que vale a pena, e não se fiquem por ver, pois a leitura muda tudo.


18
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:19 | comentar | ver comentários (41)

Sou conhecida por alguns como a editora que, até hoje, mais Prémios Saramago arrecadou para os seus autores. Não é auto-elogio, porque em Portugal não são assim muitos os editores que se dedicam a procurar, como agulha em palheiro, a voz que faça a diferença; e, como eu adoro fazê-lo, é também natural que some mais autores novos do que conhecidos e consagrados. De qualquer maneira, na mais recente edição do prémio, não pude concorrer por não ter editado nos dois anos anteriores nenhum autor com menos de 35 anos. Fui, de qualquer modo, saber em directo quem era o premiado, não fosse algum colega ter começado a passar-me a perna. E fiquei a conhecer Andréa del Fuego, brasileira, autora de Os Malaquias, romance que mereceu o galardão e é inspirado num episódio que ocorreu na família da autora, como ela fez questão de avançar ao receber o prémio. O Círculo de Leitores lança-o para o mercado em Janeiro, mas logo depois ficará disponível em livraria com a chancela da Porto Editora. Ofereceram-me carinhosamente um exemplar antes de estar à venda e vou a meio. Lindíssimo, a lembrar um pouco um Jorge Amado dos nossos tempos. Quando acabar, decerto farei um post mais detalhado a propósito. Mas, para já, fiquem atentos.


17
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:14 | comentar | ver comentários (8)

Fui para a LeYa com a incumbência específica de publicar novos autores literários de língua portuguesa. Parece mentira, mas já lá vão dois anos... Em todo o caso, foi uma alegria ter podido dar à estampa, ainda no primeiro ano, o romance de estreia de André Gago, Rio Homem, que acabou por ser galardoado com o Prémio PEN Revelação, e o livro de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira; e, já no ano passado, os romances de Pedro Guilherme-Moreira, A Manhã do Mundo, de Nuno Camarneiro, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, e de Filipa Fonseca Silva, Os Trinta, este último mais fresco e comercial, mas muito divertido. Agora, com a crise, estava sem saber se podia continuar a fazer aquilo de que gosto, porque se diz que, sem dinheiro, os leitores apostam sobretudo em nomes feitos e têm, além disso, em casa muitos livros que ainda não leram. Mas o susto passou e anuncio que, neste primeiro semestre, vou lançar mais três autores que nunca publicaram nada: João Rebocho Pais, com O Intrínseco de Manolo, obra notável ao nível da recuperação da linguagem popular sobre um alentejano intrinsecamente bom que acusam de ser cornudo; João Ricardo Pedro, o vencedor do último Prémio LeYa, com o brilhante O Teu Rosto Será o Último, no qual a estrutura faz da história uma espécie de interessante quebra-cabeças, e Bruno Margo, com o francamente original Sandokan & Bakunine – o título é desde logo um convite à leitura –, que parece David Lynch em livro e tenho a certeza de que dará que falar. Claro que continuo com os «meus» autores de sempre, e neste primeiro trimestre voltarei a publicar Paulo Bandeira Faria, de quem já tinha dado à estampa As Sete Estradinhas de Catete, agora com um romance sobre fazer as pazes, a Guerra Civil de Espanha, as desavenças de um casal moderno, os movimentos independentistas galegos e bascos e, enfim, o amor na infância, na idade adulta e na velhice. Chama-se A Despedida de José Alemparte. Prontos para isto tudo? Espero que sim. Os autores precisam e eu também.


16
Jan 12
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32 | comentar | ver comentários (12)

Quando era miúda, houve um grande terramoto em Lisboa e a minha mãe e a minha avó acordaram-nos a meio da noite, nem sei bem se para nos levarem escada abaixo para a rua, seis andares a correr, se para morrermos ali todos juntos (todos, não, porque o meu pai, por acaso, estava a ouvir fados na Parreirinha de Alfama, que então ficava aberta até altas horas). Caíram dos nichos as santas e abriram-se rachas nas paredes, mas, graças a Deus, não nos aconteceu mal nenhum (nem ao meu pai, que ainda trazia caliça no casaco quando chegou a casa). Mas houve um terramoto bem maior do que este, todos sabem, em 1755, e é dele que fala A Voz da Terra, de Miguel Real, que acaba de conhecer a sua quarta edição (primeira na Dom Quixote) e estará disponível dentro de dias com uma nova e bonita capa. A reedição reveste-se de importância não só por se tratar de um livro bom e premiado que se encontrava esgotado, mas porque algumas das personagens que por lá deambulam pertencem também a A Guerra dos Mascates, que saiu em Setembro último, embora aqui estejam mais novas. E, porque não é bonito privar os leitores da sua história completa de vida, ou quase completa, aqui está o livro no qual se pode saber o que aconteceu a Julinho e Violante. O livro foi finalista do Prémio de Romance e Novela da APE e ganhou o Prémio Fernando Namora no ano em que saiu a primeira edição.

 


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