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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Dez16

Baobá

Maria do Rosário Pedreira

No tempo em que andei na escola, os cadernos eram todos feios e as borrachas não cheiravam a nada. Os lápis ou eram vermelhos ou brancos com a tabuada. Mochilas? Estavam a uma enorme distância temporal: usávamos pastas de couro com umas alças (mas também não andávamos carregados como os miúdos de agora). Até os livros infantis eram desengraçados ao pé do que hoje vemos nas nossas livrarias. E, embora as coisas tenham mudado muito e as obrigações estejam agora mais ligadas ao consumismo e ao prazer, a verdade é que não tínhamos ainda uma boa livraria dedicada especialmente aos livros ilustrados. Vai daí a editora da Orfeu Negro, que tem excelente catálogo de literatura infantil, saiu da sua zona de conforto e abriu recentemente a Baobá - numa referência a uma árvore originária de África, "sólida, ligada à memória e a lendas africanas e brasileiras. Inspira a muitas coisas fantásticas, tem um tronco enorme onde podia existir uma porta. No fundo, os livros são como a raiz", disse a fundadora do projecto. Este é um lugar aonde apetece entrar no bairro de Campo d’Ourique, em Lisboa, nem que seja para folhear formosuras e ouvir histórias bonitas. Mas não só: vem aí um serviço educativo que vai servir as escolas e as crianças do bairro. Só é pena eu ter crescido entretanto...

02
Dez16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Para ser completamente sincera, ainda não deixei de ler poemas que foram cantados no fado, pois estou a preparar um trabalho sobre a matéria. Mas, entre essas leituras e as do trabalho, ando agora a espreitar um livro para o qual a minha curiosidade foi despertada por uma reportagem de fim-de-semana publicada num dos nossos jornais. Trata-se de uma história que poderia chamar-se com propriedade Da Síria, com Coragem, mas se intitula apenas Nujeen, que é o nome de uma autêntica heroína: uma rapariga com paralisia cerebral que atravessou a Síria arrasada pela guerra de cadeira-de-rodas, na companhia da irmã, e juntas, usando o inglês que tinham aprendido nas séries de TV (a televisão às vezes faz milagres) fizeram mais de 5000 quilómetros até alcançarem a Hungria, com a esperança de conseguir asilo na Alemanha. Nujeen tem hoje 16 anos e conta-nos o seu êxodo e como é ser refugiada, narrativa em que foi ajudada por Christina Lamb, a escritora que já fora co-autora de um livro sobre outra menina-coragem: Malala Yousafzai. Se gosta de testemunhos empolgantes e lhe interessa o que se está a passar no mundo sob a indiferença de muitos poderosos, este é um livro importante para se pôr em dia, contado por alguém que esteve do lado de dentro da história.

30
Nov16

Uma família em Istambul

Maria do Rosário Pedreira

Já toquei o assunto deste livro na semana em que saiu para os escaparates, mas faz sentido trazê-lo de volta, uma vez que hoje fazemos o seu lançamento público em Lisboa. A Escada de Istambul, assinado por Tiago Salazar – um viajante que decidiu dedicar-se finalmente à ficção – fala-nos de uma família muito especial, a dos judeus Camondo que, sucessivamente expulsos das cidades onde se foram instalando ao longo do tempo (na Península, em Itália, na Turquia), acabaram por conseguir regressar a Istambul e praticar a filantropia e o ensino livre das religiões enquanto fabricavam fardas para a tropa do sultão otomano. No seu rasto, deixaram, entre colecções fascinantes de obras de arte e peças de mobiliário e decoração extremamente valiosas, duas escadas muito especiais, destacando-se a de Gálata, bairro da cidade turca, a que Tiago Salazar foi dar numa das suas viagens e cuja história o levou até este romance. E, quando atrás disse “rasto”, foi porque os rastos são tudo o que hoje podemos encontrar destes Rothschild do Oriente, ricos e sábios, mas infelizmente condenados ao desaparecimento nos tempos tenebrosos do Holocausto. O livro, não por acaso, é apresentado mais logo por Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Apareçam!

 

Escada istambul_convite.jpg

 

29
Nov16

Madrid me mata

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes precisamos de uma boa notícia para nos animar – e uma boa forma de internacionalizar a literatura portuguesa, que é a que eu mais pratico, é vê-la ser destacada e celebrada num país estrangeiro. Melhor ainda é isso acontecer num país que não parece ter-lhe ligado grande coisa durante muito tempo, quiçá devido a inimizades ancestrais (quando eu andava na escola, a Espanha ainda era descrita como um país inimigo, calculem) ou a qualquer outra razão que agora não importa desenvolver. Portugal e Espanha já se deixaram disso e andam actualmente muito mais próximos, tendo havido nos últimos tempos mostras várias da cultura portuguesa na capital espanhola. E a boa notícia é que Portugal será o convidado que se segue da Feira do Livro de Madrid, a 76ª, que terá lugar no Parque do Retiro em 2017 e será uma óptima oportunidade para os editores portugueses apresentarem os seus autores no país vizinho. O único senão? As datas: é que esta feira acontece mais ou menos ao mesmo tempo da Feira do Livro de Lisboa (entre 26 de Maio e 11 de Junho) e eu não estou bem a ver como ser ubíqua... No entanto, vai ter de dar para tudo, que ocasiões como esta não se podem perder.

28
Nov16

Tinto ou branco?

Maria do Rosário Pedreira

Vem aí mais um festival literário, desta vez em Viseu, que tem como objectivo celebrar a velha relação entre o vinho e a literatura (desta vez, nada tem que ver com escritores que bebem, mas com a referência a vinhas e vinhos nas suas obras). Integrado num programa intitulado «Vinhos de Inverno», este Tinto no Branco (vejo aqui uma associação à tinta no papel) inicia-se já no próximo dia 2 e vai até dia 4, tendo por mote o romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e como convidados, entre outros, os escritores Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Daniel Jonas, Frederico Lourenço, Inês Fonseca Santos, João Tordo, Paulo Moura e o jornalista Pedro Marques Lopes. Haverá sessões de leitura de poesia «às cegas» (tal qual como as provas de vinho), e o ilustrador Paulo Galindro vai levar o vinho até à sua paleta para certamente nos surpreender. Pode-se lá perder uma festa destas…

25
Nov16

Relembrar

Maria do Rosário Pedreira

O jornalista Joao Morales quer tirar muitos livros do esquecimento, uma vez que as livrarias já não coseguem mostrar senão as novidades e há títulos e autores que correm  o risco de não voltarem a ser lidos e falados, uma espécie de morte completamente imerecida. Vai daí criou uma actividade que decorre mensalmente na Livraria Almedina, ao Saldanha, em Lisboa, para a qual convida normalmente duas pessoas que ali vão partilhar com o público as suas leituras desde a infância e alguns livros que leram e dos quais já pouco gente se lembra. Sim, é uma espécie de «ressurreição» de obras literárias e, por isso, Morales chamou à iniciativa Recordar os Esquecidos (na qual já participei há coisa de um ano com João Paulo Cotrim e pilhas de livros). Amanhã às 18h00 quem vai estar a mostrar os seus livros equecidos são dois autores da nova geração: Nuno Costa Santos e Nuno Camarneiro. Vale a pena irmos ouvir os seus livros lembrados.

 

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24
Nov16

Leitores cegos

Maria do Rosário Pedreira

Tenho um grupo de amigos desde há muito, e uma dessas amigas, que tem um terrível humor negro, um dia decidiu inventar que todos nós iríamos envelhecer mal – excepto ela, evidentemente, que ficaria generosamente a tomar conta dos outros... A mim vaticinou-me uma espécie de cegueira progressiva (ela lá sabia que eu, sem ler, não conseguiria ser feliz); e, não contente com isso, ameaçou que, mesmo que eu aprendesse a ler livros em braille, mos passaria a ferro se eu me portasse mal… Com amigos assim, quem precisa de inimigos? Mas não se escandalizem, fazia tudo parte de uma brincadeira de velhos amigos (e garanto-vos que rimos até já não podermos com dores de barriga). Lembrei-me dela, aliás, por ler que a Secretária de Estado da Inclusão de Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, ela própria cega, prometeu que tudo fará para que no Plano Nacional de Leitura, mais cedo ou mais tarde, sejam incluídos livros em braille, uma vez que o PNL ainda não abrange «crianças invisuais» e estas têm tanto direito a ler como quaisquer outras. Uma boa decisão, digo eu (de que até poderei beneficiar se os vaticínios da minha amiga se concretizarem).

23
Nov16

Acordo, desacordo

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns anos, quando se «instalou» o malfadado Acordo Ortográfico, uma das coisas que mais celeuma levantou foi o facto de se tirarem os «c» e os «p» em palavras como «acto», «tecto» ou «excepção», por exemplo. Esse rasgão, dizia-se, afastaria as palavras da sua raiz latina («ato» seria igual à forma verbal da primeira pessoa do singular do verbo «atar» no presente do indicativo…). Ficámos todos com a sensação de que o que se pretendia era aproximar a ortografia portuguesa da brasileira e que, de alguma forma, havia aqui um lado de «submissão» do país pequeno ao país maior por razões que agora não interessa explicar (mas não eram as pertinentes). Num livro de um autor português que uma editora brasileira quis publicar, afadiguei-me, pois, a tirar estes «c» e «p» a mais (com o acordo do autor, claro) antes de mandar o ficheiro (e um pouco em troca de não me mudarem mais nada); mas, quando chegou o texto paginado para nossa revisão, vi enfim a tolice daquele propósito do AO de aproximar as duas ortografias… É que eu tinha tirado os «c» e os «p», mas os editores brasileiros voltaram a pô-los em palavras como «expectativa», «perspectiva» e «espectro» (em que pronunciam o «c») e em palavras como «decepcionar», «recepção» e «excepcional» (em que pronunciam o «p»). Enfim, para que foi aquilo, afinal?

22
Nov16

Invasores

Maria do Rosário Pedreira

Leio um interessante artigo de José Carlos Fernandes no Observador sobre a rapidez com que muitos vocábulos de língua inglesa estão a invadir o português, alterando o sentido que dávamos a palavras da nossa língua. Diz o autor que, por exemplo, «antecipar» sempre significou o contrário de «adiar», mas que, por causa do «antecipate», o verbo é agora usado por muita gente com a acepção de «prever», «esperar» ou «adivinhar», e não raro os nossos economistas «antecipam» a descida das taxas de juros e os promotores de espectáculos «antecipam» o sucesso de um concerto… Outa expressão que já entrou no nosso uso é «por defeito», uma tradução atabalhoadíssima de «by default» (que o Oxford English Dicitionary define como «por falta de oposição»); a expressão «por defeito» em português é muito antiga e significa «um valor aproximado e inferior àquele que é tomado como referência», portanto, nada que ver com defeitos de qualquer espécie. Há mais casos, claro, e o que me mais me põe os cabelos em pé é o «realizar» no sentido de «aperceber-se»… Vamos por isso fazer um esforço para não importar mais vocábulos invasores e usar os nossos, que ainda se extinguem. Combinado?

21
Nov16

Uma dúzia

Maria do Rosário Pedreira

A revista Estante, da FNAC, pediu recentemente a um grupo de cinco pessoas que elegesse as obras maiores da narrativa portuguesa dos últimos cem anos. Estes cinco elementos do júri eram as jornalistas Clara Ferreira Alves e Isabel Lucas, o professor da Universidade de Coimbra Carlos Reis, o editor (e, por acaso, meu marido) Manuel Alberto Valente e o crítico Pedro Mexia (não fiquem já de cabelos em pé as feministas, que as mulheres até estavam bastante bem representadas para o que é costume). Lamento dizer que não li o primeiro – A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro (mas ainda vou a tempo) – e, em relação aos outros onze escolhidos, não posso senão assinar por baixo e recomendá-los aos leitores aqui do blogue, mesmo que um ou outro não me encha as medidas (mas o problema deve ser meu). Então, aqui vai a lista: O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; Para Sempre, de Vergílio Ferreira; Sinais de Fogo, de Jorge de Sena; Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio; Húmus, de Raul Brandão; Finisterra, de Carlos de Oliveira; A Sibila, de Agustina Bessa Luís; Os Passos em Volta, de Herberto Helder; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes; O Delfim, de José Cardoso Pires; O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Uma dúzia de livros para ler e reler.