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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Jan17

Domínio público espanhol

Maria do Rosário Pedreira

Todos os anos entram no domínio público as obras de um certo número de escritores. Que quer isto dizer? Que, decorridos 70 anos sobre a morte de um autor, os direitos deixam de ser devidos aos herdeiros, e qualquer editor em qualquer parte do mundo pode publicar a obra livre deste encargo (podem até publicá-la vários editores ao mesmo tempo, como acontece, por exemplo, com O Principezinho, de Saint-Exupéry, com várias edições portuguesas desde que entrou no domínio público). Ora, ao que leio num blogue, em Espanha estes 70 anos só vigoram para autores que morreram depois de 1987, mantendo-se para os que perderam a vida antes disso o período de 80 anos antes estabelecido. Razão pela qual este ano de 2017, no país vizinho, entra no domínio público a obra dos escritores mortos em 1936 – e não em 1946, como acontece em Portugal. E, porém, se este atraso de dez anos parecia uma desvantagem, não o é realmente. Porquê? Porque 1936 é o ano em que começa a Guerra Civil de Espanha e, como toda a gente sabe, esta provocou, sobretudo entre os intelectuais, muitíssimas vítimas e mortes violentas (ocorre-me desde logo García Lorca, que morreu justamente neste ano). A Biblioteca Nacional de Espanha disponibiliza uma lista com mais de 300 nomes e 77 páginas! Nela, descubro Miguel de Unamuno e Ramón del Valle-Inclán, por exemplo, outros dois nomes importantes. Mas muitos mais haverá nessa lista ceifados pelo franquismo. Para quem a queira «folhear», deixo o link.

 

http://www.bne.es/webdocs/Servicios/Informacion_bibliografica/autores-dominio-publico-2017.pdf

19
Jan17

Detroit-Figueira-Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

Como já vem sendo hábito, a Biblioteca da Figueira da Foz organiza sessões mensais, às 21h30 de uma quinta-feira, sobre autores e livros específicos, em que os escritores podem conversar com o público sobre a sua mais recente produção e responder a perguntas do moderador, o também romancista António Tavares, que tem, entre outros, o pelouro da Cultura na Câmara figueirense. Hoje à noite, será a vez de João Ricardo Pedro e do seu romance O Postal de Detroit, publicado em Abril de 2016; e lá estarei com ele nuns confortáveis sofás de couro preto para fazer uma pequena introdução à obra e lançar algumas questões para abrir o diálogo. Vai ser divertido sentar-me entre dois galardoados com o Prémio LeYa, já que não só João Ricardo Pedro o venceu em 2011 com O Teu Rosto Será o Último, que atingiu números de venda espectaculares para um romance de estreia e foi traduzido em cerca de uma dezena de países, mas também o próprio moderador viu o seu romance O Coro dos Defuntos contemplado em final de 2015 com esse mesmo prémio. A seguir ao encontro, há chá de limonete e bolinhos para convidados e público, o que é bom, pois a seguir temos de conduzir até Lisboa e é bom levarmos o estômago aconchegado. Apareça!

CARTAZ JOÃO RICARDO PEDRO.jpg

 

18
Jan17

Uma boa história

Maria do Rosário Pedreira

Uma aldeia situada a cerca de trinta e cinco quilómetros de Burgos saltou do anonimato para as parangonas dos jornais do país vizinho. É um lugar chamado Quintanalara, de apenas quatro ruas, casas de pedra de um só piso e, segundo o censo, uns míseros 33 habitantes (embora só nove vivam lá durante todo o ano). E, porém, ao contrário de aldeias e vilas de outra dimensão, acaba de construir uma biblioteca, e uma biblioteca de 16 000 volumes! Estes foram doados, na maioria, por particulares que herdaram bibliotecas de família que não cabiam nas suas casas, mas também por universidades, como a de Navarra, que se apaixonou pela iniciativa e mandou um camião cheio de livros. E o que é espantoso é que esta biblioteca, estando no meio rural, fica aberta dia e noite (sim, vinte e quatro horas por dia!) e não é um lugar de empréstimo, mas de troca: quem lá for buscar um livro tem de deixar outro, para que o número de volumes não diminua (a biblioteca está, de resto, incluída na rede de bookcrossing como um dos pontos de troca de livros mais bem apetrechados). Os responsáveis crêem que este pequeno templo milagroso atrairá pessoas a Quintanalara e projectam realizar ali conferências e apresentações de livros, não apenas para os habitantes locais (que não encheriam a sala) mas para gente das terras das redondezas que não têm grande oferta e para turistas e gente que ficou curiosa com a notícia. Propõem, aliás, o plano ideal para um fim-de-semana: visitar o património românico da zona e terminar o passeio na biblioteca, com uma boa história! Não sei porquê, mas já me estou a ver a ir a Quintanalara…

17
Jan17

A nossa luta

Maria do Rosário Pedreira

Defendo que não há nada pior do que tentar apagar o passado, por pior que tenha sido, e creio que assistir a determinados documentários ou ler a verdade sobre o Holocausto, por exemplo, leva a que lutemos para que esse tipo de horrores não volte a acontecer. E, porém, fiquei um bocado assustada com a notícia de que Mein Kampf (A Minha Luta), a obra de Adolf Hitler que já não era publicada na Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial, foi um dos livros mais vendidos naquele país contra todas as expectativas (aliás, a primeira tiragem foi de apenas 4000 exemplares e já se venderam 85 000!). O Instituto de História Contemporânea de Munique, que organizou um grande número de debates e apresentações à volta da obra, informa, porém, que esta edição anotada por especialistas do manifesto anti-semita do líder nazi, apesar de nunca ter saído do Top de vendas de livros de não-ficção desde que foi distribuída, tem servido sobretudo para promover o debate por toda a Europa sobre as consequências nefastas dos regimes autoritários e está longe de inflamar o neo-nazismo e a ideologia de extrema-direita que a obra expressa. Numa altura em que existe uma onda de xenofobia por toda a Europa, especialmente no que toca aos refugiados oriundos do Médio-Oriente, espero que seja mesmo assim: a nossa luta contra a luta de Hitler.

16
Jan17

Ignorância e cultura

Maria do Rosário Pedreira

Fui recentemente convidada para participar com duas outras pessoas – Carlos Mendes de Sousa, um professor especialista em Sophia de Mello Breyner, e Isabel Capeloa Gil, a reitora da Universidade Católica Portuguesa – naquele programa de televisão da autoria de Anabela Mota Ribeiro chamado Curso de Cultura Geral de que aqui falei e muitos dos Extraordinários viram e não gostaram (pelo menos, do primeiro «episódio»), mas, para o que aqui me traz hoje, tanto faz. O tema prendia-se com o que é hoje «ser culto» e, nos dias que decorreram entre o convite e a gravação, pensei muito no assunto e cheguei à conclusão de que, quanto mais cultos somos, maior é a noção que temos do que ainda nos falta saber. Por outras palavras: quanto mais coisas sabemos, mais ignorantes nos sentimos. Uns dias depois de o programa ter sido gravado (e como foi bom conhecer e ouvir os outros convidados, pessoas com tanto para dizer e tão interessantes!), li com curiosidade uma entrevista feita no site escritores.online a Bruno Vieira Amaral, o autor de As Pequenas Coisas (de que aqui já falei), romance galardoado com, entre outros, o mais recente Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. E, à pergunta sobre o que era para ele um bom livro, o escritor respondeu desta forma: «Qualquer um que nos revele a verdadeira dimensão da nossa ignorância.» Que bom que não seja só eu a pensá-lo. Para quem queira ler toda a entrevista, aqui vai o link:

 

http://escritores.online/entrevistas/bruno-vieira-amaral/

 

13
Jan17

Premiar a persistência

Maria do Rosário Pedreira

Pouco depois de o poeta Vasco Graça Moura, uma espécie de príncipe da Renascença dos nossos tempos, ter morrido, foi criado, para o homenagear, o Prémio de Cidadania Cultural com o seu nome, visando pessoas especialmente activas e empenhadas na divulgação da cultura. Nesta segunda edição (na primeira o prémio foi entregue a Eduardo Lourenço), o galardão foi atribuído ao conhecido jornalista José Carlos Vasconcelos, um veterano da acção cultural, que o júri definiu como «um dos raros exemplos de persistência na imprensa portuguesa de âmbito cultural» e é, desde há muito, a alma do Jornal de Letras, Artes e Ideias, um das poucas publicações periódicas dedicada à cultura que tem conseguido sobreviver a todas as intempéries. José Carlos Vasconcelos é também poeta, com cerca de uma dezena de livros publicados, fez Direito em Coimbra, onde presidiu à Associação Académica da Universidade, foi chefe de redacção da Vértice, uma revista emblemática que haveria de dar a conhecer muitíssimos autores, e ainda actor do teatro universitário quando estudante. Depois ingressou na carreira jornalística – Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal, Visão… – mas sem nunca perder o pé à luta pela liberdade de expressão, tendo sido dirigente sindical e presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa. A sua ligação ao Brasil é conhecida e, nesse âmbito, foi membro da Comissão de Honra das Comemorações dos 500 Anos da Descoberta do Brasil e é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Tem 76 anos e continua a trabalhar todos os dias na divulgação de escritores e artistas de todas as áreas. Parabéns, José Carlos Vasconcelos, pela sua persistência.

12
Jan17

Que há-de ser de nós

Maria do Rosário Pedreira

Anabela Mota Ribeiro é imparável: escreve livros, organiza festivais, faz entrevistas, grava programas de TV, alimenta um blogue… Ufa! Há gente que tem um enorme talento para organizar o próprio tempo! As sessões Ler no Chiado, na Livraria Bertrand, são também da sua responsabilidade uma vez por mês, e hoje os versos da canção de Sérgio Godinho «Que há-de ser da longa batalha/ que nos fez partir à aventura?/ que será, que foi/ quanto é, quanto dura?» servirão de mote para uma conversa que se adivinha bem interessante, até porque, em tempos de «trumpismo», são chamados a dividir as suas opiniões sobre «o que vai ser de nós» o escritor norte-americano-português-de-alma Richard Zimler – um excelente comunicador –, o professor de Direito Eduardo Paz Ferreira (um homem cujo saber é profundamente abrangente e publicou recentemente o livro de ensaios e crónicas Por Uma Sociedade Decente) e a escritora e jornalista muito premiada Ana Margarida de Carvalho. Modera quem? Ora, Anabela Mota Ribeiro. É às 18h30, na Bertrand do Chiado.

11
Jan17

Viagem literária

Maria do Rosário Pedreira

É óbvio que só podemos visitar Avalon, Oz, a Atlântida ou Macondo através dos livros dos autores que criaram esses mundos, mas há bastante ficção à roda de lugares reais – e um dia destes, em conversa com amigos, decidimos que haveríamos de começar a visitar cidades, vilas e aldeias de que ouvimos falar desde sempre mas que, na verdade, não conhecemos senão dos títulos e enredos de certos romances. Por exemplo, eu não sabia onde ficava a Casa Grande de Romarigães (a do Aquilino, bem entendido) até ir ao Google e ver que era perto de Paredes de Coura (hei-de lá ir depois de ler o romance, o que ainda não fiz), nem que Prazins (a da Brasileira, de Camilo) pertencia ao concelho de Guimarães. Vai daí o Manel teve a ideia de irmos a Tormes (a Tormes do absolutamente notável A Cidade e as Serras), onde Eça de Queirós não chegou a viver (pernoitou apenas), mas que hoje alberga a Fundação com o seu nome, parte da sua biblioteca e os móveis que, depois da morte do escritor, vieram da sua residência em Paris. Além da visita guiada à casa, em que se fica a saber muita coisa sobre Eça e a família, existe um restaurante que serve os petiscos queirosianos, pelo que não falhámos a ementa que foi, pelos vistos, ali servida ao próprio Eça quando visitou Tormes: canja, frango alourado com arroz de favas e creme queimado. Estamos agora a pensar que lugar dos livros vamos visitar a seguir…

10
Jan17

Estímulo à natalidade

Maria do Rosário Pedreira

Sou, com muito gosto, membro da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), até porque, sozinha, nunca conseguiria apurar os direitos que geram as letras que escrevo para fados e canções. Recebo, por isso, quase diariamente, uma newsletter que a SPA envia a todos os seus membros e, pouco antes do Natal, fiquei muito bem impressionada como uma das medidas recentemente tomadas pela cooperativa: a de dar a todos os seus funcionários com filhos até aos sete anos a quantia de 100 Euros por mês, também como estímulo à natalidade, num país em que quase não nascem bebés. Claro que não se cria uma criança com 100 Euros mensais, mas considero esse valor uma boa ajuda, inclusivamente porque a SPA já oferece aos respectivos trabalhadores os manuais escolares para os filhos em todos os graus da escolaridade obrigatória. Diz o texto do comunicado: «Compatível com a disponibilidade financeira da cooperativa, esta medida de apoio social irá contemplar de imediato um total de 30 crianças, o que representa um encargo mensal para a SPA de 3000 euros, contributo dos autores portugueses para o crescimento e desenvolvimento dos filhos dos trabalhadores da cooperativa que os representa e defende.» Sendo eu autora e membro da SPA, sinto-me orgulhosa por poder contribuir.

09
Jan17

Leitores e livreiros

Maria do Rosário Pedreira

À semelhança do que acontece em outros países do mundo, em que livreiros elegem uma obra entre todos os livros publicados em determinado ano (o Prémio FNAC em França, por exemplo), a cadeia de Livrarias Bertrand resolveu criar o Prémio Livro do Ano Bertrand para uma obra em prosa (romance, conto ou novela) publicada entre Novembro de 2015 e Novembro de 2016. O júri é composto por todos os livreiros da rede Bertrand e bem assim pelos Leitores Bertrand, aqueles que possuem o cartão de fidelização da livraria. A selecção dos livros, que são 55 no total e podem ser vistos (capinhas e tudo) no site da Bertrand, contou com o apoio dos jornalistas Anabela Mota Ribeiro e José Mário Silva, que recomendaram cinco livros cada um (não fosse ficar alguma coisa importante de fora), e foi grande o meu contentamento quando vi que a lista contemplava quatro títulos que publiquei (A Vegetariana, Um Postal de Detroit, O Coro dos Defuntos e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato), pois considero que, com tanto livro a sair todas as semanas por tantas editoras, ter lá um quinto da minha produção anual é francamente bom. Até dia 15 deste mês, os portadores do cartão Bertrand podem votar (só uma vez cada um) no seu livro preferido (deixo abaixo o link para os interessados) e, no final do mês, surgirá então a lista dos dez títulos finalistas, dos quais nascerá um pouco mais tarde a obra vencedora. Essa terá a sorte de ter exposição nas livararias do grupo durante todo o ano de 2017. Pode ser que me calhe essa sorte...

 

http://www.bertrand.pt/premio-livro-do-ano-2016