26
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (24)

Publiquei há muito um pequeno ensaio sobre a memória, de um professor de Oxford, que dizia que o nosso declínio começa quando nos falta o nome para a coisa; à mesa, por exemplo, pedimos que nos passem o... Pois, o sal, mas não nos lembramos da palavra. Acontece-me nos últimos tempos ficar muito triste por não me lembrar de um livro que li recentemente (embora me aconteça mais com filmes); ter, claro, uma ideia do argumento, mas ainda assim vaga, e já não saber o nome das personagens; de tal modo que por vezes tenho medo de falar desse livro de forma truncada, não vá o meu interlocutor achar que li apenas a sinopse ou as críticas, e não a obra. Já ouvi dizer que a leitura previne ou atrasa a doença de Alzheimer – Deus queira que sim, porque, com a minha profissão, estarei então imune; e, no entanto, não só me faltam os nomes para as coisas há já vários anos (e dos nomes para as pessoas nem é bom falar) como, mais recentemente, esqueço com grande facilidade o que leio, quiçá por ler demais (sim, todos esses livros que acabo por rejeitar e nem publico). Fico, pois, com pena de não ter lido todos aqueles livros importantes que devemos ler antes de morrer naquela idade em que nunca me faltava o nome para a coisa, pois, por mais que tente agora deitar-lhes a mão e lê-los numas férias, a verdade é que sei que não os reterei como seria desejável. E, por falar em férias, na semana que vem não andarei por aqui, lamento. Vou tentar apanhar sol por uns dias longe de Lisboa. E ler, claro. Vamos lá ver, se no regresso, recordo o suficiente para vos contar. Até dia 6!


25
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (4)

Há umas semanas reparei que, no mesmo fim-de-semana, aconteciam três festivais literários – e disseram-me que os jornalistas culturais andaram a correr de um para outro, tentando cobrir todos e não privilegiar nenhum. Ao mesmo tempo que o Governo se desinteressa cada vez mais pela cultura – houve até uma marcha de artistas e sindicatos protestando contra a falta de apoios do Estado às actividades culturais –, é bom ver que as nossas autarquias dão o passo em frente e organizam por todo o País festivais e encontros que podem ajudar a estimular o público para a leitura e que põem frente a frente leitores e escritores. Leio que entre os dias 4 e 5 do próximo mês se realiza uma maratona de leitura na Sertã – vinte e quatro horas ininterruptas! – que conta com a presença de vários autores, entre eles Francisco Moita Flores, Mário Zambujal e Valter Hugo Mãe. O encontro é aberto a todos os que queiram aparecer e servirá, segundo os organizadores, para partilhar gostos, interesses e experiências. Esta maratona homenageará ainda o designer dinamarquês Niels Fischer, cuja exposição dedicada a Hans Christian Andersen esteve patente na Sertã em 2009. Prevê-se que, nesse âmbito, seja, de resto, lido de hora a hora um conto do reputado escritor infantil.

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24
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26link do post | comentar | ver comentários (10)

Para começo de conversa, diria que nunca fui fã de Murakami (li dois romances e, como não me empolgaram, não reincidi), mas gosto muito da sua tradutora portuguesa. E não só como tradutora, mas como pessoa, que é o que mais interessa na vida (sobretudo na minha, que raramente preciso de tradutores). A Maria João Lourenço era minha colega na edição quando eu fui para a LeYa em 2010, mas pouco depois resolveu ir para casa traduzir a tempo inteiro e, por isso, falamo-nos e vemo-nos pouco. Nem isso, porém, a afastou do que faço e escrevo, e muito menos de ser a pessoa atenta e carinhosa que era antes. Um dia destes, numa daquelas entrevistas dadas ao telefone a correr, em vésperas da abertura da Feira do Livro de Lisboa, um jornalista do i fez-me umas quantas perguntas simples, entre elas, qual era o livro que eu nunca tinha conseguido comprar. Lembrei-me logo de A Faca não Corta o Fogo, de Herberto Helder, que outra ex-colega, a Ana Pereirinha, me emprestou por uns dias para lá pousar os olhos na altura em que saiu, mas que nunca tive na estante (nem o Manel). E um dia destes, vinha eu do almoço, encontro na minha secretária um envelope trazido em mão de casa da Maria João Lourenço pela minha colega Cristina Lourenço. Pois não é que era A Faca não Corta o Fogo? E ainda por cima com recortes de jornal com críticas ao livro, que a antiga dona juntou, dizendo que ficava feliz por me oferecer um livro muito lá de casa? Ainda estou sem palavras. E, agora, como é que se retribui um gesto destes? Além de boa tradutora, estamos perante uma boa pessoa, uma excelente pessoa. Tenho a impressão de que vou ter de ler todos os Murakami que traduziu para retribuir.


23
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:20link do post | comentar | ver comentários (39)

Para os autores portugueses, que vendem livros para um mercado bastante pequeno (e o Brasil ainda não conta, essa é a verdade), a internacionalização é extremamente importante. Se um romance for comprado por vários países e traduzido em diversas línguas, o autor não só ganha notoriedade fora de portas como pode conseguir rendimentos importantes. Hoje, enquanto estiverem a ler-me, encontro-me em Bruxelas (ou a caminho) para ver David Machado receber o Prémio de Literatura da União Europeia pelo seu romance Índice Médio de Felicidade. Feliz fiquei quando soube do galardão, mas ainda mais feliz quando comecei a receber pedidos do estrangeiro para apreciarem o livro e logo a seguir ofertas para a sua tradução. É muito bom ver que um livro extremamente actual sobre uma Europa em crise faz o seu caminho, abrindo as portas a um autor ainda relativamente jovem, que terá certamente muito mais para nos dar. Sinto-me orgulhosa por poder lá estar a vê-lo ser recompensado pelo seu trabalho sempre tão solitário. Parabéns, David Machado!

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22
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (17)

«Um povo sonâmbulo é um povo que vive no presente, como acontece com as populações em estado de guerra ou que sobrevivem sob ditaduras férreas, constrangidas a acreditar na propaganda do Estado, que assim lhes esvazia o cérebro, forçando-as a não crer na existência de alternativas. Hoje, os portugueses são, de facto, um povo sonâmbulo: vivem o presente sem saber porquê e para quê […]» Este excerto de Portugal: Um País Parado no meio do Caminho (2000-2015), de Miguel Real, reflecte sobre os efeitos da interrupção do processo de modernização europeia de Portugal a partir do início deste século e o que representam para diferentes grupos sociais figuras como Siza Vieira e Olga Roriz, Joana Vasconcelos, Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Um ensaio que vale a pena ler pela sua originalidade e pela dura análise dos últimos quinze anos de governação em Portugal.

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19
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (5)

Já aqui vos falei várias vezes das Quintas de Leitura, do Teatro do Campo Alegre, um espectáculo de poesia, música e outras artes, porque a imagem é sempre assegurada por um artista, seja pintor ou fotógrafo, que acontece uma vez por mês no Porto e, normalmente, é dedicado a um poeta e às suas palavras (ditas e escritas). De vez em quando, porém, juntam-se as poesias de dois (ou mais) numa só sessão, tornando-a menos pessoal, mais variada e mais susceptível de agradar a gente de gostos distintos. É o que vai acontecer na próxima quinta, dia 25, numa sessão que dá pelo nome de Máquina de Lavar Corações, em que o actor João Grosso apresentará logo no início uma performance com textos de Bocage, Verlaine e Cesariny com o bombástico nome «Para Continuar Tudo com Cara de Caralho» (ups!). Seguem-se leituras dos escritores portuenses Daniel Maia Pinto Rodrigues e Renato Filipe Cardoso (de poemas dos próprios), com acompanhamento musical, aquilo a que chamaram «Máquina de Lavar Dióspiros». O folheto promocional promete intensidade poética e muito humor e especifica que o espectáculo é desta feita para maiores de dezasseis (muita malandrice, calculo). Deixo-vos, então, um pequeno poema de amostra, de Renato Filipe Cardoso, e o bonito cartaz da sessão. Divirtam-se os que forem.

 

Senhoria

 

A alta renda

da sua cuequinha

moveu-me

uma acção de despejo.

 

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18
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (8)

Um livro por dia. Não, não estou a falar de ler, mas de imprimir em casa, com uma máquina trazida de uma tipografia que a achava obsoleta, um livro por dia – e não um livro de texto, mas um verdadeiro objecto de arte. O italiano Alberto Casiraghy, ex-tipógrafo, poeta, artista plástico e até construtor de violinos, desde 1982 já imprimiu cerca de 9500 livros de forma artesanal – com caracteres móveis, claro, e cosidos à mão, homenageando autores de todas as línguas, incluindo portugueses, como Pessoa ou Graça Moura. A estes livros de poucas páginas em formato A5 chamou Pulcinoelefante (à letra, pintainho-elefante) e começou por fazê-los com aforismos e poemas da sua eleição, ilustrados por si ou por amigos com desenhos, pinturas ou fotografias, para oferecer ou vender aos mais próximos. Estava longe de imaginar que essas preciosidades (a tiragem nunca foi superior a 35 exemplares, reparem bem) acabariam por se tornar conhecidas em todo o mundo, tendo constituído, por exemplo, uma exposição na nossa Biblioteca Nacional no final do ano passado e valendo ao italiano o epíteto de mago. E já lá vão 9500... O que começou por ser um divertimento doméstico (e a máquina ocupa metade da sua sala) acabou por transformar este amante dos livros num artista singular, por trazer muitos pintores e intelectuais a sua casa (que tem sempre as portas abertas), desejosos de serem parte de um pintainho-elefante, e, mais recentemente, por fazer de Casiraghy um militante do livro em papel. Uma vida apaixonante que nem todos se podem gabar de ter, mesmo os que, como os Extraordinários, gostam muito de livros. Deixo-vos algumas imagens para perceberem melhor esta história de dedicação.

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17
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:37link do post | comentar | ver comentários (38)

A Feira do Livro de Madrid começou no dia 29 de Maio – e apetece dizer «isto anda tudo ligado» porque as duas capitais ibéricas fazem as suas feiras praticamente ao mesmo tempo. Mas, se para muitos estas são uma excelente notícia, porque lá se podem comprar livros mais baratos, muitos deles a preço de saldo, a verdade é que, enquanto elas duram, as livrarias ficam às moscas e não facturam nada que se veja. O jornal El País decidiu então, para as compensar das perdas, falar de duas livrarias por dia enquanto decorria a feira de Madrid, até porque no país vizinho parece que, só num ano, 912 espaços de venda de livros (eram 4336 no total) tiveram de fechar as suas portas. E porquê? Bem, porque, com a crise, as vendas de livros baixaram drasticamente (cá também), caíram 18% desde 2011 – e estes 18% correspondem a mais de 870 milhões de euros, números impressionantes (que um dia gostaríamos de alcançar no nosso pequeno Portugal). Segundo as estatísticas, há 55% de espanhóis que declaram não ler, ou ler apenas um livro por ano (quantos serão cá, mais ainda?); e, além disso, o número de festivais culturais, nos quais participavam muitos escritores e se vendiam os respectivos livros, caiu 27% em seis anos (por acaso, julgo que em Portugal acontece o contrário e que o poder local está a saber agarrar as oportunidades de celebrar a literatura e os escritores). Enfim, lá como cá, a desgraça é grande para livreiros e editores, ameaçados todos os dias pela diminuição nas vendas. Que fazer para inverter a situação em dois países de tanga (e às vezes também da tanga)?


16
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32link do post | comentar | ver comentários (29)

Quando vou a qualquer lado falar da minha poesia, perguntam-me várias vezes se tenho gatos em casa (ou se gosto de gatos) porque há muitos gatos nos meus poemas. Na verdade, os poemas são o lugar onde acho que os gatos ficam melhor – e, na vida real, prefiro cães, embora raramente os use na poesia, porque de facto os gatos prestam-se mais a figuras literárias (têm mais fibra, digo eu). Aliás, como as crianças, os gatos gostam de ouvir ler histórias – e aqui no blogue já divulguei um programa que consistia em pôr crianças a ler para gatos (se não o leu, vai aqui o link http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/aqui-ha-gato-227321). Mas, embora o cão seja menos dado à leitura, parece que chegou a vez de o humanizar de outra forma: ouço no rádio que a Nikon inventou uma câmara fotográfica que, pendurada na coleira de um cão, dispara e tira fotografias sempre que o seu coração fica acelerado. Esta Heartography, assim se chama a maquineta (que ainda não se sabe, de resto, se vai ser comercializada), regista, como seria de esperar, imagens de seres humanos da cintura para baixo, pratos cheios de comida de cão, pombos, crianças e, claro, gatos, muitos gatos… No entanto, como se não chegasse tornar cães fotógrafos, alguém se lembrou de os pôr também a ver televisão; a Dog TV, um canal especial para cães que ficam muito tempo sozinhos em casa enquanto os donos trabalham, está disponível em Portugal desde 23 de Maio, com programas de relaxamento e estimulação com a duração de seis minutos e algumas imagens de rua para entreter. Enfim, o gato ouve ler, o cão vê televisão. Claro que, nos poemas, ficarão sempre melhor os gatos.


15
Jun 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:30link do post | comentar | ver comentários (19)

Uma vez convidaram-me para ir à Feira do Livro de Guadalajara, no México, e foi na sessão inaugural que ouvi Vargas Llosa dizer que se tornou leitor (e mais tarde escritor) porque teve uma infância difícil (a mãe, de quem ele era muito próximo, casou-se pela segunda vez e pô-lo num colégio interno porque ele e o padrasto se davam mal). A leitura permite-nos, de facto, ter outras vidas ou identificar as ficcionadas com a nossa (numa espécie de psicoterapia) e isso torna-nos mais flexíveis e compreensivos com os outros, ou seja, melhora as nossas relações sociais, até porque, como disse algures Shopenhauer, «ler significa pensar com uma cabeça alheia» – e, pondo-nos no lugar do outro, tornamo-nos menos egocêntricos. Leio num artigo de jornal que, por esta e outras razões, devemos tentar incutir o gosto da leitura nas crianças o mais cedo possível, incluindo porque a estrutura de uma história introduz conceitos como o da sequência de acontecimentos e a relação de causa-efeito e desenvolve a atenção – além de aumentar o conhecimento e o vocabulário e de ser uma actividade relaxante (ao que parece, é também por isso que muita gente acaba por adormecer a ler na cama). O que não sabia era que ler também era sexy... Diz o mesmo artigo que as estatísticas mostram que as pessoas que lêem são mais inteligentes e cultas, manejam melhor a língua, têm uma inteligência emocional mais desenvolvida, são mais compreensivas e que todos esses factores atraem os outros, inclusive sexualmente. E esta, hã? Este argumento pode convencer muitos fracos leitores, não?


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