27
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:39link do post | comentar

Entre o fado, o futebol e Fátima – três coisas que ao longo de muito tempo foram tomadas como as mais ilustrativas de Portugal – não podemos ignorar as belas das sardinhas; e elas estão por todo o lado, metem-se até em negócios de livros, como se verá por esta história deliciosa que uma colega editora (por acaso, também Rosário, mas Araújo) me contou recentemente durante um almoço na cantina. Não sei se já ouviram falar de Adolfo Simões Muller, um homem que devotou grande parte da sua vida à divulgação da literatura juvenil e da banda desenhada e foi responsável por vários fanzines e revistas (O Papagaio ou o Cavaleiro Andante, por exemplo) onde publicava muitos autores estrangeiros. Pois foi também ele que começou a publicar as histórias do Tintim em Portugal há muitos anos. E, numa entrevista que deu ao Jornal de Letras pouco antes da sua morte, quando o jornalista lhe perguntou como pagava os direitos de autor ao grande Hergé, a resposta foi a mais inesperada possível: «Em sardinhas de conserva!» Estranho, não? Mas tem uma explicação interessante: tudo isto se passava no início dos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial; e, ao que parece, Hergé tinha um irmão que fora feito prisioneiro dos alemães e estava num campo de concentração. Então, a mulher de Simões Muller comprava as latas de sardinhas e mandava-as para o campo através da Cruz Vermelha... Mais tarde, Simões Muller conheceu Hergé e ficaram amigos. Quem diria que alguns autores preferiam receber em géneros, hã?


26
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:40link do post | comentar | ver comentários (20)

Oiço habitualmente e há muitos anos a TSF no rádio do carro e, às vezes, quando não estou para aí virada, também a Antena 2 e a Smooth FM. Conheço um mar de gente que delira com o programa da manhã da Comercial, mas, sei lá porquê, nunca me habituei a ouvi-lo. E, todavia, leio por aí as letras que Vasco Palmeirim inventa a propósito de tudo e de nada (mas sempre a propósito), com sentido de humor, para que o dia de muitos comece com umas gargalhadas. A última que me passaram foi, pelos vistos, estreada no dia em que se tornou obrigatório o Acordo Ortográfico (ou seria melhor chamar-lhe Desacordo, para não lhe chamar Desortográfico?); e, mesmo que não seja das melhores, tem uma verdade intrínseca: com ou sem o AO, muita gente dá erros (eu decerto também). Pode ser que os Extraordinários se divirtam (com a música, garanto, tem mais graça), se bem que o caso é sério. Com sua licença, Vasco Palmeirim:

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes - ai Jesus, minha mãe. (2X)

 

Sei que às vezes eu pareço zangado,

Mas isto faz-me ficar preocupado.

Não quero ver nossa língua neste estado,

O Português anda a ser tão maltratado

Quando há faltas para amarelo,

entradas de pé de riste,

gente que em vez de "estiveste"

Pergunta "onde é que tu estives-te?"

Às vezes é deixar o hífen bem sossegado

E não pôr uma vírgula entre sujeito e predicado.

Eu não sou perfeito, não sou uma Edite Estrela.

Mas sei que não se pede uma "sande de mortandela".

Passam horas, dias, choro: fico muito triste

Quando "houveram novidades", porque isso não existe;

São raros os casos de plural do verbo “haver”

E são muitos os que compram um automóvel num stander

E isto não são histórias tipo "era uma vez",

Isto é o que se passa com o nosso português.

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes - ai jesus, minha mãe. (2X)

 

Se eu tivesse poderes, homens e mulheres

não diziam “quaisqueres” – eu sei

que é difícil distinguir o “à” do “há”

para onde é o acento? Qual deles leva o “h”? Ó mãe!

E acredita, rapaz, que toda a gente é capaz

De não escrever um “z” na palavra “ananás”

E era maravilha ver “você” sem cedilha

E que ninguém dissesse “há muitos anos atrás”.

Aquilo que eu quero, como tu muito bem vês,

Sendo bem sincero – eu quero bom português

E tenho a certeza de que toda a gente consegue

Se até JJ sabe dizer Lopetegui.

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe. (2X)

 

Ohhhh... ai Jesus, minha mãe!...

“Há-des” – isto assim não está bem.

“Salchicha” – dito assim não está bem.

“Devia de haver” – isto assim não está bem.

E dizer “tu fizestes” também não está beeeeeem!

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei

Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe.


25
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (12)

Finalista do Prémio LeYa há uns meses, eis um livro que é um exercício de imaginação e que, assim mesmo, não desaproveita a matéria do real. O Dia em Que o Sol Se Apagou, de Nuno Gomes Garcia, recua ao reinado de João II e conta em simultâneo a história do seu espião – quase sempre disfarçado de mouro – Pêro da Covilhã (em demanda de segredos que permitam que os negócios do reino sejam o mais lucrativos possível para a coroa) e de um embalsamador albino, Salvador, que procura desesperadamente um par de olhos que devolvam a visão ao seu irmão morto (e embalsamado): Mil-Sóis, o menino de olhos de diamante que encandeava quem para ele se atrevia a olhar. Tanto Salvador como Pêro da Covilhã viajarão de Lisboa à Etiópia (não juntos), o segundo quase sempre enrolado com mulheres em bordéis, o primeiro mais discreto, mas com poderes para um dia apagar a luz de Portugal inteiro, fenómeno de que os Portugueses culparão, alternativamente, o inimigo espanhol e os judeus. Para a voltar a acender, talvez seja, porém, preciso que os olhos roubados de Mil-Sóis cheguem às terras do Preste João e sejam colocados na imagem de uma santa cega; ou que o menino embalsamado torne a ver com outros olhos, que até podem ser os da mulher de Pêro da Covilhã, paixão antiga do embalsamador. Muito rico em detalhes e absolutamente delirante, este romance inventa um improvável cataclismo para reescrever o período áureo da História de Portugal e responder a uma questão: É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?

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22
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:12link do post | comentar | ver comentários (13)

Hoje, a partir das 18h30, decorre na Galeria Carlos Paredes a sessão comemorativa dos noventa anos da Sociedade Portugues de Autores (SPA), fundada precisamente no dia 22 de maio de 1925, cerca de um mês antes de o regime republicano ter sido substituído por uma ditadura militar (foi por pouco). A SPA conta com cerca de 26 mil associados de todas as disciplinas criativas – de escritores a músicos, fotógrafos, artistas plásticos – e protege os Autores, cujo dia se celebra também hoje. Se eu não fosse sócia da SPA, não receberia provavelmente um cêntimo quando passam na rádio e na TV canções e fados para que escrevi as letras; não conseguiria saber quem anda a colocar poemas meus dentro de antologias sem me consultar, ganhando dinheiro à minha custa. E esta é apenas uma das grandes vantagens da SPA que, muito para lá destas rotinas, ajuda muitos artistas, especialmente na reforma. Hoje serão entregues medalhas a alguns criadores, como António Pinho Vargas, Carlos do Carmo, João Mota, José Luandino Vieira, Pacheco Pereira, e ainda os Prémios Pró-Autor, destinados a instituições que têm contribuído para preservar o nosso património cultural. Serão distinguidos a Biblioteca Nacional de Portugal, a Biblioteca da Universidade de Coimbra, o Cante Alentejano, a Casa da Música, a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, o Lisbon & Estoril Film Festival, o Programa Literatura Agora da RTP2 e as Curtas de Vila do Conde. Parabéns à SPA e a todos os Autores!


21
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:55link do post | comentar | ver comentários (3)

Se gosta de postais e nunca foi ao Rio de Janeiro ou quer conhecer melhor a cidade, nada como ler Postais dos Trópicos, de Hugo Gonçalves, que lançámos recentemente apenas em versão digital ao preço módico de 98 cêntimos! O autor, que viveu na Cidade Maravilhosa quase quatro anos e escreveu mais de uma centena de textos ao longo desse tempo, junta as suas melhores crónicas escritas e vividas a sul do Equador. O livro é, assim, um mosaico de experiências de um português à solta no Brasil, revelando a paixão que os trópicos podem suscitar nos estrangeiros, mas também aquilo que não se vê a olho nu num lugar que pode ser tão exuberante como cruel. Com a compra deste ebook vem, também, um bónus: um cheirinho do próximo romance do autor, o fascinante O Caçador do Verão, que sai para as livrarias em Junho – e em papel! Irresistível, por todas as razões.

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link para o ebook

 

 


20
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:14link do post | comentar | ver comentários (7)

No mesmo mês em que saiu para os escaparates um romance que escrevi para ser um CD (e são dois, por acaso – os Romance(s), de Aldina Duarte), leio num blogue que as vendas dos audiolivros subiram vertiginosamente em todo o mundo e duplicaram em cinco anos no Reino Unido. Segundo me contaram há muito tempo, as inglesas gostam de ouvir histórias contadas pelos seus actores de eleição enquanto cozinham e passam a ferro – e eu cá acho esta actividade bem mais interessante do que dar atenção a programas estupidificantes de rádio e televisão (credo, até podiam queimar o assado ou a camisa do marido em alguns casos). De qualquer modo, decerto não são estas as vendas que justificam a multiplicação (mesmo que haja mais desemprego em toda a Europa, as donas de casa do Reino Unido dificilmente duplicaram em cinco anos). Pergunto-me, pois, quem compra – além dos cegos, claro, para quem são essenciais – estes CD de literatura lida em voz alta (nem sempre literatura séria, bem sei); e de repente lembro-me de um amigo flamengo que tive há muitos anos, que ouvia livros e fazia cursos de línguas no carro (foi assim que aprendeu a falar espanhol) por ser obrigado a filas de horas no trânsito de todas as manhãs. É uma bela hipótese, enfim, para quem fica trancado entre automóveis sem conseguir avançar – e talvez seja o que acontece a muitos dos que trabalham em Londres, por exemplo, mas têm de viver bastante longe da capital, em locais onde têm vivendas ou ainda podem pagar a renda e a gasolina.


19
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:51link do post | comentar | ver comentários (39)

Agora, quem quer candidatar-se ao ensino (a dar aulas) e tem menos de cinco anos de serviço, é obrigado a fazer uma prova de avaliação de conhecimentos e capacidades (mais conhecida por PAAC). Muitos acham um ultraje e uma humilhação terem de submeter-se a tal coisa, até porque uma instituição universitária lhes deu um diploma e isso prova que podem ensinar; mas não é essa a questão que venho hoje aqui discutir. O que me interessa é a notícia de que, dos 106 professores que fizeram (contrariados ou não) a prova de Português em Março último, mais de 60% tiveram nota negativa e a média no total dos candidatos foi de 46,2%. Li que na disciplina de Físico-Química aconteceu ainda pior, e não muito diferente na de Biologia e Geologia do Secundário, mas, como nunca fui boa a matérias científicas, aceito talvez melhor estas falhas. No entanto, que pode ser tão complicado na prova de Português que faça chumbar tanta gente? A interpretação? A ortografia? As regras gramaticais? A capacidade de escrever um texto coerente? Sinceramente, não faço a mais pequena ideia, mas a verdade é que encontro cada vez mais gente incapaz de escrever algo que faça sentido e com um mínimo de correcção. Até nos jornais tenho frequentemente de ler duas vezes o título da notícia para perceber de que estão a falar... Que se terá passado com o ensino da língua materna na escolas, incluindo a universidade? Há uns anos, uma professora universitária da área científica escreveu um texto, para publicação num catálogo que eu iria rever, que começava assim: «A ancestralidade das baleias dista de há muito tempo.» (No comments.) Não sei como esta senhora chegou a professora universitária, mas, se tivesse passado por uma PAAC, não teria chegado... Ninguém devia estar na Academia, muito menos a ensinar outros, sem conhecer bem a língua materna. Ninguém deve ensinar outros em qualquer grau de ensino sem saber a sua língua.


18
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:31link do post | comentar | ver comentários (6)

Uma vez, encontrando-me num quarto de hotel em frente de um espelho, perguntei-me quantos rostos se teriam visto nele ao longo dos anos. Muitos, certamente... Os hotéis terão memória de quem passou a noite nos seus quartos? Se pudessem falar, sem ser através dos seus funcionários (que terão igualmente recordações sobre muitos hóspedes), quanto na verdade poderiam dizer e revelar? Este é o ponto de partida do novo livro de Nuno Camarneiro – Se Eu Fosse Chão –, uma colecção de textos que formam um todo e correspondem à experiência dos hóspedes que passaram, em três épocas distintas (1928, 1956 e 2015), por um Plaza Hotel em Portugal (quase me apetece adivinhar onde). Diplomatas, viúvos, actores, veraneantes, recém-casados, putas, refugiados, clandestinos, homicidas e até alguns fantasmas vão, assim, contar-nos a sua noite passada num hotel em que as paredes têm ouvidos, mas não bocas para reproduzir o que por lá se disse e viveu. Num quarto de hotel, pode começar uma história de amor ou acabar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou sentir-se a dor de uma perna amputada, perdida na guerra, pode cometer-se um crime de sangue ou investigar-se um caso de adultério. Neste livro, como na vida, tudo pode suceder.

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15
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:00link do post | comentar | ver comentários (2)

Não, não se trata do ensaio para nenhum espectáculo de fados, mas de um programa da Rádio Renascença, conduzido por Maria João Costa desde há vários anos, com o nome de  Ensaio Geral. Para resumir, é uma entrevista a duas pessoas de profissões diferentes, uma delas, normalmente, ligada às letras. E essa entrevista, que é feita na bonita Livraria Férin, ali ao Chiado, é gravada ao vivo, diante do público que queira acorrer e escutar ao vivo os intervenientes (jornalista e convidados). Porém, numa segunda parte, já fechados os gravadores, os microfones permanecem ligados para que o público, em querendo, faça perguntas aos convidados ou os interpele. Pois bem, hoje à tarde, pelas 18h30, mais coisa menos coisa, estarei com a Aldina Duarte à conversa com a Maria João Costa sobre o último CD da artista (como já expliquei aqui, as palavras são da minha autoria) - e assim acabo mais uma semana de trabalho. Se quiserem, apareçam. (O programa Ensaio Geral é uma iniciativa conjunta da Livraria Férin, da Rádio Renascença e dos Booktailors.)

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14
Mai 15
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:54link do post | comentar | ver comentários (49)

Cada vez há mais gente a querer publicar o que escreve – nem há já editoras suficientes para tanto livro; e esta invenção da Internet ajudou muito à criação da autopublicação, que está a tornar-se em todo o mundo um autêntico fenómeno e gera livros atrás de livros. Paginar uma obra sem ilustrações não é difícil, arranjar um amigo com jeito para desenho que faça uma capa em condições é mais difícil, mas não impossível. O problema é depois encontrar onde vender o rebento, sobretudo se for um livro não digital, pois plataformas deste tipo há muitas, mais do que chapéus; mas as pessoas ainda vão gostando do papel e de tirar um volume da estante para mostrar aos outros do que foram capazes. Pois bem: leio que nos EUA já existem livrarias exclusivamente para estes autores independentes. Alugam-se prateleiras a 60 dólares o trimestre e recolhem-se os lucros, ao que parece, a 100%, sem dar qualquer percentagem ao livreiro. Claro que o autor tem de gerir as faltas, o stock, a reposição. Mas é melhor do que não ver à venda o seu mais-que-tudo, com que quer impressionar conhecidos e familiares. Aqui ainda não fomos tão longe, embora haja umas tantas editoras que vivem apenas de fazer livros de encomenda (mas ganham muito dinheiro com isso). Uma fotografia de uma dessas livrarias norte-americanas, a Gulf Coast Bookstore, só para dar um cheirinho do que aí vem.

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