10
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:27link do post | comentar | ver comentários (7)

Nunca pensei ver o nome de J. K. Rowling, a autora da famosa série Harry Potter, premiada com o PEN de Liberdade de Expressão, galardão que no ano passado distinguiu a revista satírica francesa Charlie Hebdo e que, em anos anteriores, foi já entregue Tom Stoppard e a Salman Rushdie. Mas a verdade é que a inglesa o receberá este ano “pelo mundo da fantasia sem preconceitos” presente na saga juvenil que criou, alegando a Associação Americana de Escritores que Rowling ensinou às crianças a importância de dizer o que pensam e de ouvir as opiniões dos outros. Além disso, a senhora que se tornou rica em poucos anos com a sua escola de feitiçaria é, ao que parece, uma activista da liberdade de expressão, bem como uma importante colaboradora de uma ONG que se dedica a proporcionar o reencontro de crianças abandonadas com as suas famílias. J. K. Rowling vai receber o prémio numa gala no Museu de História Natural, em Nova Iorque, a 16 de maio.


08
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:53link do post | comentar | ver comentários (3)

Quando comecei a ir à Feira de Frankfurt, tive várias reuniões com representantes de uma editora britânica chamada Weidenfeld & Nicolson, editora independente que, como muitas, seria comprada mais tarde pelo grupo Orion e ainda mais tarde pela Hachette (que comprou, julgo eu, todo o grupo Orion). Mas só agora, que leio a notícia da morte de Lord Weidenfeld aos 96 anos, conheço a história deste homem singular que publicou a Lolita de Nabokov no Reino Unido nos anos 1950 (ainda só havia a edição francesa). Era um judeu rico que, fugindo à anexação da Áustria pelos nazis, foi recolhido por cristãos no Reino Unido, onde se tornaria um dos sócios da editora que partilhava com Nigel Nicolson, filho de Vita Sackville-West, autora que pertenceu ao Bloomsbury Group (de que fez também parte Virginia Woolf; diz-se que Vita foi quem, de resto, inspirou Orlando). Weidenfeld foi feito cavaleiro pela rainha Isabel II, era um senhor que dava festas esplendorosas (a ponto de um antigo embaixador dizer que Kissinger e De Gaulle nunca saíam dos seus jantares antes do fim) e também um filantropo até ao fim, pois, quando o Estado Islâmico começou a sua acção terrorista, criou um fundo para trazer refugiados cristãos da Síria, alegando que tinha obrigação de pagar a dívida a quem o tinha salvo dos campos de concentração. Enfim, a Inglaterra fica sem o deão dos seus editores, mas é bom saber tudo o que de bom trouxe ao nosso mundo.


05
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:03link do post | comentar | ver comentários (5)

 Os filhos de uns amigos portugueses que foram trabalhar para o estrangeiro quando a crise lhes bateu à porta já não falam praticamente português; percebem tudo, e respondem aos pais com monossílabos ou dissílabos internacionais (Okay, Ja, Yes...) ou uns refilares bem lisboetas, mas entre eles e na escola já só comunicam em inglês, pelo que vão provavelmente esquecer a língua materna não tarda nada Acontece muito a quem vive e estuda fora desde pequeno e, mesmo que seja uma pena – eu cá sempre adorei o bilinguismo –, é quase inevitável. Nos EUA, onde há muitos luso-descendentes, mais concretamente em Brockton, no Massachusetts, uma escola resolveu, porém, tentar emendar a mão. Num programa que contempla exclusivamente crianças oriundas de famílias de expressão portuguesa, experimenta-se agora aquilo a que a directora chama a «imersão» no português, leccionando metade das disciplinas na nossa língua e a outra metade na língua do país de acolhimento e promovendo, assim, o verdadeiro bilinguismo. A proposta pareceu agradar a vários pais, pois, ao que leio, vai ser preciso fazer um sorteio para encontrar as 50 crianças felizardas que, divididas em duas turmas, vão poder desfrutar deste ensino bilingue. Talvez seja mais produtivo do que, como vi na Suíça, mandar os filhos aprender a língua dos pais apenas uma vez por semana – e, o que é terrível, no único dia em que não há aulas...


04
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:38link do post | comentar | ver comentários (7)

Já aqui trouxe a questão, é um facto, mas quase sempre a restringi aos maus hábitos do nosso pequeno Portugal. A verdade é que a política da borla, ou de fazer trabalhar de borla, no tocante aos escritores acontece pelos vistos em muitos sítios, e o Reino Unido parece ser um deles. O director do Festival Literário de Oxford (FLO), que em vinte anos não recebeu um centavo pela sua participação, explicando que, a princípio, a organização era pequena e não tinha verbas e trabalhou quase por patriotismo, cansou-se – e acaba de se demitir porque o FLO não quer pagar aos escritores convidados. Diz ele que hão-de pagar às senhoras da limpeza, aos designers, aos cozinheiros, aos motoristas, aos assessores de imprensa, enfim, a toda a gente que trabalha para que o FLO seja um sucesso… excepto aos escritores, que são a verdadeira razão do encontro, aquela que fará, na verdade, com que alguém compre um bilhete para ir ao certame. Como diz o senhor Philip Pullman na carta que escreveu a explicar os motivos da sua demissão: Enough is enough. Lá como cá.


03
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:18link do post | comentar | ver comentários (8)

Ocorreu no passado mês de Janeiro o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, um dos mais marcantes escritores portugueses do século XX, conhecido sobretudo pelos seus livros Aparição (que fazia parte das leituras obrigatórias no Ensino Secundário, não sei se ainda faz) e Manhã Submersa, mas autor de uma obra extensa e notável que não pode ser esquecida. Das celebrações fazem parte exposições, conferências e também edições novas de alguns dos seus livros. A Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, distrito de nascimento do romancista, dedica-lhe por exemplo uma exposição de fotografia e uma conferência, e organiza uma viagem literária à terra natal do autor pela mão de António Dias de Almeida. Serão lançados pelos CTT os selos comemorativos do centenário e, no Centro Cultural de Belém, terá início este mês o ciclo «Vergílio Ferreira e Mário Dionísio: Literatura, pensamento e arte», com coordenação da professora Maria Alzira Seixo. Nas Correntes d'Escritas, que decorrem de 23 a 27 na Póvoa de Varzim, a Quetzal assinalará igualmente o centenário. Na Universidade de Évora haverá um Congresso Internacional dedicado à obra de Vergílio Ferreira. O vencedor do Prémio Vergílio Ferreira, que distinguiu já autores de nomeada como Mário Cláudio, Eduardo Lourenço e Lídia Jorge, será entregue a João de Melo em Gouveia a 1 de Março, data em que se assinalam vinte anos sobre a morte do escritor. E tudo isto será pouco para um autor tão grande.


02
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:03link do post | comentar | ver comentários (12)

Vivemos numa Europa em decadência, mas ainda é a Europa em que podemos acreditar no Deus que escolhermos ou em nenhum. Na Arábia Saudita, um poeta palestiniano, Ashraf Fayadh, foi condenado à morte simplesmente por renunciar ao islão, e o seu pai morreu de ataque cardíaco ao ter conhecimento da notícia. Centenas de outros escritores juntaram-se então numa acção de protesto a nível mundial para o apoiar, realizando leituras públicas dos seus poemas numa campanha organizada pelo Festival Internacional de Literatura de Berlim. O objectivo principal era pressionar os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido para que intercedessem a favor de Fayadh, impedindo que as autoridades sauditas cumprissem a pena. Os poemas foram lidos na quinta-feira 14 de Janeiro em 122 eventos de 44 países numa acção convocada na semana anterior à divulgação do veredicto de um recurso interposto pelo poeta, no qual Fayadh argumentava que a sua condenação fora baseada em alegações falsas ou não provadas. No início do mês, os organizadores do Festival de Berlim enviaram uma carta a Barack Obama, David Cameron e ao governo alemão, assinada por 350 autores e associações, pedindo-lhes que interviessem no caso e que a ONU suspendesse a Arábia Saudita do Conselho de Direitos Humanos. Entre os autores que subscreveram o pedido estavam os prémios Nobel Mario Vargas Llosa e Orhan Pamuk. Até agora, nada. Que bom, enfim, ser escritor na Europa.


01
Fev 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:40link do post | comentar | ver comentários (19)

O Luto de Elias Gro, romance de João Tordo publicado há cerca de um ano com o selo da Companhia das Letras, foi, curiosamente, escrito por Lars D., personagem do mais recente O Paraíso segundo Lars D., também de João Tordo. Confusos? Não fiquem. O que quero dizer é que, neste novo livro de Tordo que ando a ler – e que tem como personagem Lars D., um escritor doente e terrivelmente amargurado –, aprendemos que ele deixou um livro terminado antes de desaparecer de casa num belo dia e que essa obra tem o título do romance que João Tordo publicou há um ano (e que ainda não li). Esta é, porém, apenas uma marca deste autor que, desde que me lembro, gosta de usar personagens de uns livros noutros livros e de ligar romances que, às vezes, não têm outros laços além de um pequeno pormenor como esse. O Paraíso segundo Lars D. conta a história de uma ausência demasiado presente – a de Lars, um homem de meia-idade que encontra uma rapariga bonita a dormir dentro do seu carro e que, oferecendo-se para a levar à estação de comboios por sugestão da mulher, para que ela encontre um caminho que já perdeu, não mais regressa a casa. É esta mulher abandonada que nos narra a história, não a do que realmente aconteceu ao marido depois de ter saído com a rapariga (essa ser-nos-á relatada por um narrador impessoal numa segunda parte e tem momentos muito fortes), mas a do seu casamento de anos com o escritor e a da grande cumplicidade que encontra num jovem vizinho, estudante de Teologia, com quem acaba por partilhar o drama que está a viver. Um livro sobre o medo e a solidão e sobre a incapacidade que alguns têm de viver a alegria.


29
Jan 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:19link do post | comentar | ver comentários (9)

Terry Pratchett, que morreu no ano passado (creio que tinha Alzheimer), foi um ídolo de muitos jovens no Reino Unido e em muitos outros países devido à criação de uma série de livros de ficção científica de grande sucesso – Discworld. Nunca li a série, por não ser uma grande apreciadora do género, mas espreitei um dos volumes que se publicaram numa editora em que trabalhei e recordo a grande tartaruga sobre a qual se deslocava o planeta. Ao que parece, Pratchett tinha uma imaginação prodigiosa que os seus leitores não esqueceram. E recentemente, por ter sido descoberto mais um elemento químico (o 117), a adicionar em breve à Tabela Periódica, os fãs propuseram que o seu nome fosse “Octarina” em homenagem a Pratchett, sendo esta “Octarina” a sombra de Disworld que é apenas vista por feiticeiros e gatos e que é também uma espécie de cor da magia (Colour of Magic é, de resto, o subtítulo de um dos volumes da colecção). Criaram uma petição e esta conseguiu 112.000 assinaturas só em dois dias... Os químicos acharam, aliás, graça; e muitos deles não se opõem à escolha do nome, justificando a sua concordância com o facto de Terry Pratchett ter feito um trabalho incrível para despertar o interesse pela ciência entre os jovens. Uma bela homenagem póstuma.


28
Jan 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24link do post | comentar | ver comentários (17)

No dia em que se soube da morte de David Bowie – completamente inesperada, uma vez que acabara de gravar um CD e escondera muito bem o segredo da sua doença, fosse ela qual fosse – os jornais, as redes sociais, o espaço dos nossos ecrãs de computador, enfim, todas as linhas em que pudéssemos pousar os olhos, encheram-se de lamentos, de espanto, de luto, de elogio, parecendo que o mundo parara para dar, e chorar, aquela notícia. Para quem não fosse apreciador do Camaleão, seguramente um fartote – eu, que até fui ouvi-lo ao Estádio de Alvalade nos anos 1990, estava quase a pedir que parassem com aquilo. Porém, no dia seguinte, ainda houve muito Bowie em todo o lado, e um jornal resolveu publicar uma lista dos 100 livros preferidos do músico que, pelos vistos, era um leitor voraz e lia praticamente um livro por dia. Há de tudo (em cem livros, é natural) e os temas são muito variados, fazendo crer que o artista se interessava por distintas áreas do conhecimento e lia todos os géneros – teatro, poesia, literatura de viagens, autobiografias, ficção, ensaio (e livros sobre música, evidentemente, incluindo um de John Cage) . Passando os olhos pelos romances, reparo que Bowie gostava de O Leopardo e de Lolita, de Pela Estrada Fora e de A Laranja Mecânica (faz sentido), de um dos primeiros McEwan (Entre os Lençóis) e de Don DeLillo. Mas a lista é extensa e vale a pena ser apreciada na totalidade. Deixo-vos, pois, o link.

 

http://www.telegraph.co.uk/culture/music/music-news/10347410/David-Bowie-reveals-his-favourite-100-books.html


27
Jan 16
publicado por Maria do Rosário Pedreira, às 09:25link do post | comentar | ver comentários (10)

Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto. Porém – e apesar de a Academia manter em segredo os finalistas em cada ano –, soube-se recentemente (ao fim de cinquenta anos os ficheiros deixam de ser secretos) que o autor português mais indicado para o Nobel terá sido Miguel Torga. Indicado várias vezes entre 1959 e 1962, parece que chegou à final no ano de 1965 – em que o galardão foi entregue a Mikahil Sholokov –, proposto por um professor universitário de Upsala; nesse ano, a acta da Academia refere outros escritores nomeados, como Yourcenar e Borges, Nabokov e Somerset Maugham, Auden e Moravia (como poderia o nosso homem ganhar, digam-me!). Consta da biografia de Torga uma nova nomeação em 1978 (confirmaremos em 2028 se chegou à final), ano em que comemorava 50 anos de carreira literária. Nunca ganhou, como sabemos, e também não viu ganhar Saramago em 1998 por ter morrido três anos antes com a bela idade de 87 anos (pelo menos, não sofreu de inveja). Mas, nem que seja pela quantidade de vezes em que o seu nome foi ventilado, vale a pena voltarmos aos seus escritos.


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