23
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:26 | comentar | ver comentários (8)

Na minha infância e adolescência alimentei-me de livros do Tintim em edições cartonadas, com lombada forrada a tecido, e muitos deles em francês, tendo talvez aperfeiçoado as minhas competências nesta língua com a leitura da famosa banda desenhada. Sempre me fascinou a figura de Tintim – com ar de miúdo por causa das calças curtas e do cãozinho, mas ao mesmo tempo repórter profissional em cenários de risco. Ainda hoje me lembro de ter tido um pesadelo por causa de umas páginas de Tintim – julgo que do álbum A Estrela Misteriosa – no qual uma aranha, tendo feito a teia na boca de um telescópio, sugeria a existência de um planeta com um enorme aracnídeo acoplado. Pois bem: tantos anos depois da morte de Hergé, o criador da figura, Tintim continua a render. Segundo leio, uma folha desenhada em tinta-da-china, em 1937, para servir de guardas a um ou mais álbuns, foi vendida por 2,5 milhões de euros num leilão em Maio passado, verdadeiro record no que toca a obras deste género. O anterior, de resto, já pertencia a Tintim – era a ilustração original da capa de Tintim na América e rendera 1,3 milhões.


22
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (18)

A arca de Pessoa, de quem aqui falei ontem, embora de raspão, parece inesgotável – e continuam a aparecer composições inéditas do poeta que criou e assinou com diversos nomes e estilos. Boas notícias para os amantes de Fernando & heterónimos, claro, pois é bom termos sempre coisas novas para ler de alguém que há muito partiu desta vida descontente. Razões de sobra para ficarem satisfeitos têm também agora os apaixonados pela poesia do chileno Pablo Neruda, vencedor do Nobel da Literatura, pois a sua Fundação surpreendeu recentemente o mundo literário com a descoberta de uma vintena de poesias inéditas que somam qualquer coisa como um milhar de versos! Saídas das caixas de manuscritos em que jaziam há cerca de quarenta anos, estas poesias verão a luz na América Latina neste final de ano pela mão da editora Seix Barral, pertencente ao grupo Planeta, e no próximo ano na Europa, crendo-se que venham a ser traduzidas e publicadas em muitas línguas. Ficamos, claro, à espera… e em ânsias.


21
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:32 | comentar | ver comentários (9)

Todos os estrangeiros que visitam o Brasil se esforçam por não falhar o Rio de Janeiro que, apesar de já não ser a capital, é uma das cidades mais belas e aquela onde parece que tudo está a acontecer. Mas, culturalmente, São Paulo tem bastante mais para oferecer a quem gosta de pintura, dança, cinema e museus. Entre um dos mais fantásticos, está o Museu de Língua Portuguesa, que já teve uma memorável exposição interactiva sobre Fernando Pessoa. A atenção aos escritores portugueses não ficou, no entanto, por aqui – e agora anuncia-se uma mostra dedicada ao nosso Eça de Queirós para 2015, segundo António Carlos Sartini, o director, que acrescenta que vai ser um trabalho de grande responsabilidade, dada a craveira do romancista e o interesse que sempre despertou dos dois lados do Atlântico, uma vez que Eça é considerado património de ambas as culturas, a portuguesa e a brasileira. Planeando férias para o Brasil no ano que vem, não falhe, pois, a beleza e as praias do Rio de Janeiro, mas preveja uma escapadinha à enorme São Paulo para ver uma exposição que promete ser muito interessante. Pode acompanhar os desenvolvimentos em www.museudalinguaportuguesa.org.br.


18
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:33 | comentar | ver comentários (16)

As férias aproximam-se – e, com a ideia da praia, muitas mulheres começam a preocupar-se seriamente com o corpo; matriculam-se em ginásios, fazem dietas radicais, sonham com plásticas, ou evitam despir-se, envergonhadas com os quilos a mais e a celulite. Lidar com o próprio corpo, quando este não é perfeito (o que acontece quase sempre) é uma carga de trabalhos para o sexo feminino, embora comecem a ser cada vez mais comuns rapazes e homens obcecados com o físico. Pois bem, Gostas do Que Vês?, de Rute Coelho, é um romance sobre a relação que duas mulheres muito diferentes – Natália e Cecília –, ambas com problemas de obesidade, têm com o próprio corpo. E, se uma vive amargurada com as dores nos joelhos, o peso dos seios que lhe entorta a coluna e o difícil relacionamento com o sexo oposto, pois a outra dá a volta por cima e tira claramente partido das suas curvas, virando as dificuldades a seu favor. O mundo contemporâneo é preconceituoso com a gordura, há discriminação e troça, os cânones da beleza feminina estabelecem como padrão corpos quantas vezes escanzelados... Na moda, já se criaram movimentos contra este tipo de manequins pele-e-osso, mas na vida de todos os dias, nas escolas e empregos, os gordos sabem muito bem o que se sofre. Este é um livro para eles – e para todos os que não estão felizes com o corpo que lhes calhou em sorte; mas é também um romance sobre as razões que nos levam a ter comportamentos estranhos – como o de comer demais – e sobre a forma de enfrentarmos os nossos dramas se queremos gostar do que vemos num espelho.


17
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:30 | comentar | ver comentários (38)

Uma das razões por que é um verdadeiro prazer ler Mário Cláudio – já aqui o disse – prende-se com o número de palavras que aprendo ou reaprendo a cada nova obra que publico. Nunca me esquecerei, por exemplo, daquele «bazulaque» que encontrei em Tiago Veiga e que quer dizer, entre outras coisas, «gordo»; ou do «plumitivo» que havia muito não via escrito em lado nenhum, talvez porque as «plumas» e «penas» com que dantes se escrevia tenham sido substituídas por meras teclas com caracteres desenhados. Um dia destes, aliás, descobri com saudade que imensas palavras que ouvia em adolescente se evaporaram do discurso contemporâneo e correm o risco de se ver para sempre sepultadas, desconhecidas que são dos nossos jovens com trinta anos (sei do que falo), por mais engraçadas, sugestivas e vivas que sejam. Falo, por exemplo, de «amásia», forma evidentemente insultuosa de nomear a concubina de alguém (sobretudo de um homem casado), de «lambisgóia», «serigaita» ou «pespineta» (em pequena, a minha avó usava este termo muitas vezes), palavras que têm um mundo inteiro lá dentro, cheias de cores e formas, e dizem mesmo aquilo que queremos dizer quando pensamos em alguém. E, por isso, resolvi que, uma vez por mês, vou recuperar aqui no blogue uma dessas deliciosas relíquias, pedindo aos extraordinários que as usem por aí, não vão desaparecer sem deixar rasto. A última de hoje é «pindérico», substituída pelo actual «piroso», vocábulo que não tem, convenhamos, a mínima piada.


16
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28 | comentar | ver comentários (31)

Desde que me tornei editora de autores portugueses, publiquei vários géneros de romance, entre os quais aquilo a que se chama vulgarmente romance histórico. Mas, quando tento fazer uma espécie de retrospectiva, reparo que as obras dessa, digamos assim, tipologia são as que menos críticas receberam da nossa imprensa. Tenho consciência de que alguns desses livros não apresentavam grandes inovações estilísticas – assumindo-se como ficções informadas à roda de episódio ou personagem histórico, mas sem voo literário; mas existem outros que, partindo de determinado facto ou tempo histórico, são tão ou mais inventivos em termos de voz ou estrutura do que os romances que não usam a história como pretexto – e pergunto-me se bastará aos recenseadores olhar para uma capa com gravura antiga ou ler uma sinopse referindo um tempo passado para os afastar da leitura e os levar a acreditar que dali não vem decerto literatura a sério. Será um preconceito, dado que existem muitos romances históricos levezinhos, sem alma, escritos por autores que apenas usam a ficção para dar informações a quem não sabe? Será porque a História pareça a quem faz crítica um pretexto para escritores sem imaginação? Que diabo! Publiquei este ano dois livros belíssimos, Mal Nascer, de Carlos Campaniço, e O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais, e não vi quase ninguém escrever sobre eles, sendo que um crítico que se deu ao trabalho de ler o último afirmou que era um dos melhores romances históricos publicados desde sempre em Portugal. A história e a literatura não podem andar de mãos dadas, que logo vem alguém desconfiar do casamento?


15
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:24 | comentar | ver comentários (23)

Leio no New York Times um relato na primeira pessoa – «I Was a Digital Best Seller» – de pôr os cabelos em pé. Tony Horwitz, assim se chama a autora, já tinha publicado alguns livros em papel, mas quis dar uma oportunidade ao mundo online, mais ecológico, e aceitou uma encomenda de um livro digital para o The Global Mail. Como a investigação implicava uma viagem (o assunto era o petróleo), recebeu um adiantamento para despesas de deslocação que se esgotou uns dias antes de começar a escrever; mas, animada com o material que recolhera, produziu o texto do livro ao longo do Inverno seguinte, altura em que soube que o jornal negociara a co-publicação do seu livro com uma plataforma digital de renome, a Byliner, conhecida por já ter conseguido vender 75 000 exemplares de vários títulos. Findo o trabalho – e já depois de ter gasto o que não tinha numa garrafa de champanhe a celebrar o fim da tarefa e a sonhar com os lucros – recebeu, no entanto, um telefonema do The Global Mail, explicando que estavam com problemas financeiros e já não podiam publicar-lhe o livro; pior: que a co-edição com a Byliner não tinha, afinal, sido fechada... Neste passo, Tony decidiu (deveria tê-lo feito antes) contactar o seu agente, que conseguiu em 24 horas um contrato com a Byliner, mas um bocado miserável: um adiantamento muito baixo e um terço dos lucros para Tony, sendo que o livro seria vendido apenas a 3 dólares… Uns dias mais tarde, o livro estava na página da Byliner, é um facto, mas sem publicidade, sem comentários nem críticas, perdido entre milhares de outros. Tony apercebeu-se da tragédia e afadigou-se a telefonar a jornalistas e amigos para a ajudarem a publicitar o livro em rádios e jornais e, ao fim de um mês de trabalhos forçados, a obra encontrava-se no Top 25 da Byliner. Só que, quando Tony perguntou quantos exemplares se tinham vendido, recebeu como resposta uns envergonhados 700 ou 800. E, um mês depois, o livro desaparecera completamente da página, como muitos outros, evaporando-se para sempre. Nem a própria autora tinha um livro para pôr na estante – sendo que o texto lhe consumira seis meses de trabalho... Bom, pelos vistos, um best seller digital pode registar vendas de menos de 1000 exemplares, incluindo nos EUA (e portanto convém não nos impressionarmos com os Top das livrarias online); por outro lado, no negócio dos livros em papel, ainda se privilegia o contacto humano, que ajuda muito, e, além disso, os autores têm sempre direito a um certo número de exemplares físicos que podem pôr nas suas estantes.


14
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:22 | comentar | ver comentários (25)

Embora nunca tenha sido exactamente uma apreciadora do género (há, claro, excepções), sou de uma geração que assistiu a um boom de livros de ficção científica. Era o tempo em que se imaginavam mundos alternativos, vida extraterrestre, viagens a Marte, robots que nos livrassem das tarefas domésticas, guerras interplanetárias. E mais: telefones sem fios nos quais fosse possível ver o rosto de quem nos ligava, telecomunicações rápidas entre quaisquer países, envio instantâneo de imagens... Ora, muito do que lemos nesses livros proféticos já aconteceu, e o avanço tecnológico das últimas décadas frustrou, de certo modo, a criatividade dos autores que inventavam universos sofisticados e marcianos verdes. Ficou, de súbito, difícil falar do futuro, quando o futuro nos surge todos os dias em pequenas invenções que, há quarenta anos, pareciam apenas possíveis na imaginação de certos escritores. Em todo o caso, os leitores estavam precisados de se consolarem com outros mundos que não este – e foi talvez por isso que vingou um género literário que hoje tem muitos seguidores, a chamada Fantasia, que, ora recriando o passado, ora projectando um futuro no qual os humanos convivem com estranhas criaturas, oferece uma dose respeitável de magia a quem dela precisa. Continuo a não ser apreciadora, mas admito que estas sagas são um óptimo negócio.


11
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:28 | comentar | ver comentários (14)

Já todos vimos livros à venda com ofertas: de lápis, echarpes, perfumes, leques e sei lá que mais. Mas, na generalidade, trata-se de romances levezinhos, de componente romântica, vendidos a senhoras que gostam de histórias da carochinha e que, se não comprassem livros, comprariam as revistas de sociedade (que, não por acaso, também oferecem malas, faqueiros, bolsas de praia e tralha de cozinha). Só que agora vem aí um livro supostamente sério (bem, pelo menos, o autor é mencionado sempre que estamos à espera de saber quem ganha o Prémio Nobel da Literatura – o que considero um exagero, mas há quem não concorde) e traz uma folha de autocolantes de brinde para os leitores enfeitarem as páginas do romance... Não, não é brincadeira: trata-se do próximo livro de Haruki Murakami e a dita folhinha inclui ilustrações de cinco artistas japoneses famosos. Ao que parece, o nome do protagonista – em japonês, Tsukuru – significa «construir» e, assim, é dada ao leitor a possibilidade de ir construindo qualquer coisa ao longo da leitura, colando aqui e ali um dos bonitos stickers. Não sei se a ideia foi do marketing editorial, se do autor, porque os japoneses, ao que sei, apreciam brinquedos na idade adulta (vi uma reportagem sobre a matéria há uns anos e lembro-me de um administrador da SONY que coleccionava Barbies, tinha mais de 300); também não sei se aqui na LeYa os autocolantes se irão manter, mas lá que me parece mais uma forma de infantilizar o leitor, parece. Um dia destes, ainda vendem o Roth com páginas para colorir. Nem quero imaginar quais vão ser as ilustrações...

 


10
Jul 14
Por Maria do Rosário Pedreira, às 09:30 | comentar | ver comentários (4)

A pessoa de Pessoa não pára de inspirar estudiosos e professores – e em todo o lado se organizam encontros à roda desta figura ímpar da literatura portuguesa, que se desdobrou em muitas. Desta feita, a começar já amanhã (uma semana mais tarde haverá outra sessão), a Casa Fernando Pessoa promove um Ciclo Internacional de Conferências subordinadas ao tema Fernando Pessoa: entre Filosofia e Literatura, que conta com a participação de uma especialista no espólio do poeta (objecto, aliás, do seu pós-doutoramento), chamada Cláudia Souza e professora na Universidade de S. Paulo, que falará sobre Pessoa e Novalis (as ressonâncias); Nuno Ribeiro (igualmente brasileiro, mas da Universidade Federal de São Carlos), que se debruçará sobre a Dramatização do Pensamento Filosófico em Pessoa; e – os últimos são os primeiros – Paulo Borges, professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa (e cabeça do Partido dos Animais, além de budista), cuja conferência terá como centro o heterónimo Álvaro de Campos. As palestras c omeçam às 18h30. Se quer saber ainda mais sobre o nosso Fernando, esta é uma boa altura para aumentar os seus conhecimentos.


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