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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Jun10

Adjectivos literários

Maria do Rosário Pedreira

De férias no Algarve e já maior de idade, assisti pela televisão ao incêndio do Chiado, que me levou, além de muitas outras coisas, uma parte importante das minhas memórias de infância; o meu pai tinha escritório na Rua Nova do Almada, ligeiramente abaixo do lugar onde é hoje a entrada lateral da FNAC, e nunca esqueci os sumos de ananás da belíssima pastelaria Ferrari, as idas ao Eduardo Martins para comprar fazendas escocesas para kilts (ai, que saudades daquela espécie de livro de amostras) ou a escadaria de madeira envernizada dos Armazéns do Chiado, à porta dos quais uma senhora apanhava tranquilamente as malhas das meias. Sim, já sou bastante velhota, mas o que aqui me traz não é o saudosismo e, sim, a lembrança de, na reportagem do incêndio, o jornalista Carlos Fino não parar de dizer que se tratava de um espectáculo «dantesco». Dante e o seu Inferno acabaram, pois, por criar este adjectivo que hoje podemos utilizar sem sequer saber quem foi o poeta ou ter lido uma linha do que escreveu. E o mesmo se passa, por exemplo, com os adjectivos «homérico», «kafkiano» e «maquiavélico» (entre muitos outros) que hoje andam na boca de um mar de gente que nunca abriu um livro. Se, daqui por cem anos, já ninguém ler estes autores, pelo menos as línguas guardarão o seu vivo testemunho.

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