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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

19
Abr12

Un chico Almodóvar

Maria do Rosário Pedreira

Gosto muito do cinema de Pedro Almodóvar, embora nem todos os seus filmes me tenham deliciado do mesmo modo. Há, porém, na sua obra uma característica que me agrada especialmente e que se prende com a dignidade que consegue emprestar a figuras que, à partida, estariam nas margens e seriam desqualificadas pela maioria de nós – entre outras, o travesti de Tudo sobre a Minha Mãe e o enfermeiro que tem relações sexuais com a bailarina em coma em Fala com Ela (e de quem não conseguimos deixar de gostar). Encontrei há uns meses num romance de Juan Marsé, Rabos de Lagartixa, um adolescente que faria as delícias do realizador; mas há um autor português que consegue a proeza de Almodóvar com as suas personagens, trazendo para o «plateau» duas mulheres-a-dias irresistíveis em O Apocalipse dos Trabalhadores, um garoto pobre de espírito que perdeu a mãe e pinta céus para ver se a encontra em O Remorso de Baltazar Serapião (Prémio Literário José Saramago) ou, mais recentemente, uma prostituta anã e um «homem maricas» perdidos da vida em O Filho de Mil Homens. Como disse o humorista Pedro Vieira num post do seu blogue Irmão Lúcia, «ninguém como ele maneja a insustentável leveza da crueldade». Chama-se valter hugo mãe e, até há uns meses, não usava maiúsculas. Mas é para ler com todas as letras. O nosso chico Almodóvar.

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