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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Abr12

Geografia do gosto

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando comecei a trabalhar na edição, recebíamos na Gradiva, entre outras publicações, a New York Times Review of Books. Hoje é fácil ter acesso a ela com uns meros cliques no teclado do computador ou, simplesmente, comprando-a num quiosque (aquele onde consumo jornais, pelo menos); mas nessa altura ela vinha pelo correio dobrada com uma tira de papel mais grosso a envolvê-la e era todo um ritual esticá-la e lê-la de ponta a ponta. Porém, o País era mais analfabeto e o mundo menos globalizado, e nem sempre o que constava dos Top de vendas da NYTRB funcionava cá, como o provaram, de resto, umas quantas experiências que fizemos e se revelaram verdadeiros flops. Ninguém nesse tempo parecia apreciar verdadeiramente os thrillers ou as obras de auto-ajuda e as séries que acompanhávamos então na televisão raramente eram as que os norte-americanos produziam, não se vendendo, pois, como hoje acontece, os romances que lhes haviam servido de base. As coisas mudaram bastante nesse sentido e, nos tempos que correm, somos todos cada vez mais iguais em qualquer parte do mundo dito civilizado. É, no entanto, curioso verificar que, sem o apoio do cinema ou da televisão, alguns autores continuam a ser vítimas de uma certa geografia do gosto e, se em Portugal podem ser extremamente bem-sucedidos, em Espanha registam vendas diminutas e, no Reino Unido, são ilustres desconhecidos. Quando, por vezes, falamos de um autor de sucesso em Portugal a um amigo leitor que vem do país donde esse é oriundo, podemos inclusivamente levar com a frase surpreendente: «Nunca ouvi falar.»

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