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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Mai12

Música para cavalos

Maria do Rosário Pedreira

Confesso que, da primeira vez que ouvi o nome de Sandro William Junqueira, pensei tratar-se de um escritor brasileiro. O nome tinha um eco tropical, o que nem é estranho, agora que sei que este autor ainda jovem nasceu em África, mais propriamente na Rodésia. Não é que não goste de literatura brasileira, que fique claro, mas gosto de dar primazia aos novos romances portugueses e a verdade é que a geografia do parto não impediu Sandro William Junqueira de ser um escritor português. Tenho, pois, pena de não lhe ter prestado a devida atenção quando saiu o seu romance de estreia, intitulado O Caderno do Algoz, tendo-me estreado agora com o seu segundo, Um Piano para Cavalos Altos, publicado há poucos meses pela Caminho. Devo, desde já, avisar que não se trata de leitura para estômagos fracos, pois parte do encanto deste romance é justamente um lado violento e cru que é raro na literatura nacional. A história decorre numa cidade sem nome (a Cidade) onde há um muro que divide, grosso modo, os que vivem bem dos que passam mal. E, do lado pior, como se não bastasse, há ainda zonas definidas por cores – azul, amarela, castanha – com níveis de vida bastante diferentes. Existem também prisioneiros políticos, tortura, segredos, conspirações e revoltas; e, entre as personagens, todas identificadas por funções e/ou características (o Militar Coxo, o Ministro Calvo, a Ruiva, a Criada, o Operário, o Médico Loiro...), tece-se uma teia que é ao mesmo tempo pessoal e pública e que dá lugar a cenas muito dramáticas (o autor tem ligações ao teatro, e isso vê-se), caricatas, pesadas e até levemente nojentas (como aquela em que a Ruiva trata da candidíase introduzindo iogurte na vagina). Porém, apesar da violência que perpassa todo o romance, existe nele um lirismo devastador – achando eu que alguns dos pequenos capítulos, mesmo fora do contexto, funcionariam muito bem como poemas ou micro-narrativas poéticas para ler ou ouvir isoladamente. Por vezes, admito, senti-me um pouco incomodada, mas a sensação de que estava a ler um parente moderno de 1984, de George Orwell, e o desejo de saber o desfecho arrastou-me sem dar por isso até à derradeira página. E valeu a pena.

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