Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

25
Mai12

Literatura e jogo

Maria do Rosário Pedreira

Já trabalhava na edição há uns tempos quando assisti à fantástica campanha de lançamento de um livro infantil (mas com o qual muitos adultos se divertiram) chamado Onde Está o Wally? Tratava-se de um livro-jogo no qual, entre densas multidões em vários contextos, tínhamos de encontrar o Wally, um rapaz de óculos, barrete e camisola às riscas. Conheci na Feira de Frankfurt o editor canadiano, que me contou que em Montréal puseram um Wally em tamanho natural à porta das livrarias com a seguinte inscrição: «Vai lá dentro à minha procura!» Foi, ao que parece, um êxito – e a esse primeiro livro sucederam-se muitos outros, que se venderam como pãezinhos quentes por todo o mundo. Vem isto a propósito de ter recentemente descoberto que a literatura também não está isenta de jogo. O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, agraciado com o Prémio LeYa, inclui um episódio em que, num determinado museu austríaco, uma personagem feminina copia de um quadro de Brueghel (e os quadros deste pintor têm por vezes semelhanças com os livros do Wally no caos de figuras) uma mulher de muletas com um lenço na cabeça. Ora, aqui no blogue apareceu um leitor que já tinha andado à procura dessa senhora em muitas das telas do pintor e andava meio perdido, de tal forma que o autor lhe propôs um encontro na Feira do Livro para o esclarecer (e ele foi). Uns dias mais tarde, foi a vez de o jornalista Manuel Jorge Marmelo escrever no Público que estava convencido de que a figura mencionada no romance tinha transitado para um outro quadro de Brueghel que não o que o autor referia. Também no Facebook, uma leitora confessou, depois de ler esse artigo no jornal, ter procurado em vão a tal mulher de lenço e muletas naquele quadro, mas estar desconfiada de que a encontrara noutro (afirmando, porém, que esse não se encontrava num museu austríaco). Enfim, a menção de um pequeno detalhe acabou por levar uma data de gente a perder tempo com a pintura de Brueghel, o que é muito positivo, já que não é todos os dias que observamos uma obra de arte ao pormenor e com atenção redobrada. Provavelmente, por muito que cresçamos, nunca deixaremos de gostar de brincar – e a literatura é, pelos vistos, uma forma excelente de não nos esquecermos de como se brinca.

10 comentários

Comentar post