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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

04
Set12

Jesus no Alentejo

Maria do Rosário Pedreira

Comecei as minhas férias com dias ventosos e cinzentos em Viana do Castelo – valeram-me as paisagens e, como sempre, a leitura. Mergulhei, pois, na cerveja, perdão, em Jesus Cristo Bebia Cerveja, o último romance de Afonso Cruz, cujo cenário é o Alentejo das raparigas pobres, dos pastores e dos velhos sozinhos, mas também uma região imaginária onde uma milionária inglesa compra uma aldeia inteira, que povoa depois com estranhas criaturas, entre as quais um professor-filósofo-cientista que mancha muros com versos arcaicos e se apaixona por Rosa, a menina protagonista que gosta de livros de cowboys e crescerá de forma bastante enviesada ao longo das páginas (e não acabará bem). Afonso Cruz é um escritor culto (dá gosto ver tudo o que sabe e o humor com que o revela) e por isso, embora possam parecer um pouco estranhos nas bocas de algumas personagens, os seus diálogos estão cheios de referências e ideias interessantes, como, aliás, a tese de que Jesus bebia cerveja, e não vinho (o da Última Ceia). A intriga que a contracapa anuncia (a recriação da Terra Santa em pleno Alentejo para satisfazer o último desejo da avó moribunda de Rosa) é que só começa já o livro vai a meio, tendo-me parecido o seu desfecho um pouco previsível quando nada mais o é no romance. Não nego que prefiro o Afonso Cruz da Enciclopédia da Estória Universal (que tem uma dose fascinante da herança de Borges), mas aconselho este delírio ficcional aos que gostam de personagens bem desenhadas, enredos inventivos, escritores com coluna vertebral e, porque não?, uma cervejinha gelada, mesmo em dias que parecem de Inverno.

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