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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Jul10

Deixá-lo falar

Maria do Rosário Pedreira

Estava a escolher um excerto para a badana de um romance que publicarei em finais de Setembro – O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, de que já aqui vos falei abreviadamente – e, às tantas, já não sabia o que fazer: havia tantos possíveis que eleger um e sacrificar o resto tornou-se uma tarefa praticamente impossível. Pus então de lado os que me pareceram demasiado extensos, mas os quatro ou cinco que sobraram eram todos tão ricos, originais e divertidos que acabei por pedir a outra pessoa que escolhesse por mim. Agora, que a capa está já em execução, olho para esses excertos preteridos como para amigos que se despediram de mim e não voltarão. Então, lembrei-me de que melhor do que falar-vos do livro com palavras que nunca chegarão para o descrever, é deixá-lo falar. Espero, pois, que gostem do excerto que aqui reproduzo: «Djédji nunca fez caca na vida, nem sequer nos cueiros, como todos os nenés, mamou, tomou biberão, sopa na colherzinha, sumo na caneca, comida no prato, mas nunca fez, simplesmente aliviava-se arrotando fatias de luz como lua nova, acocorava-se como uma rã e, por cada coaxar, expelia uma lua, várias luas, que depois se amontoavam no céu como se fossem bolas de sabão, e sempre que o fazia, sobretudo depois das refeições, Djédji punha os cães da vizinhança a uivar como lobos aluados, à parte isso, Djédji foi durante toda a vida um relógio vivo para a comunidade, arrotava sempre na hora e, com o tempo, bastava que os cães começassem a ganir para o capataz anunciar a suspensão da empreitada e a hora da merenda, o sacristão badalava os sinos, no quartel rendia-se a guarda, no chafariz jorrava água das torneiras.»

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