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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Dez12

Portugal é nosso

Maria do Rosário Pedreira

A minha mãe conta que, quando a minha irmã era pequena – uns seis anos, se tanto –, iam as duas de metro para a Baixa quando, já perto da estação do Rossio, onde saíam, a terá avisado: «Agora é a nossa.» Mas, porque se estava numa época terrível e o salazarismo espalhava mensagens que todos ouviam (alguns sem perceber sequer o que implicavam), a miúda terá ouvido mal e repetido num tom de cantilena, para vergonha da minha mãe e consternação dos passageiros: «Angola é nossa! Angola é nossa!» Pois bem, o mundo mudou imenso desde então, e ainda bem, mas também não era preciso os factores inverterem-se… Não só a filha do Presidente Eduardo dos Santos detém importantes participações em bancos (BPI e Millenium BCP) e empresas portuguesas (a Galp ou a Zon), mas também consta que a RTP vai ser vendida a gente de Angola (e a dispensa do jornalista Pedro Rosa Mendes na sequência de uma crítica à subserviência da RTP a Angola já pode ter tido que ver com isso); o jornal Sol é de um grupo angolano, o mesmo se prevendo relativamente aos órgãos de comunicação social detidos actualmente pela Controlinveste, entre os quais se contam a TSF, o DN, o JN e alguns jornais desportivos – o que, a ser verdade, vai obrigar os que ali trabalham a pensar duas vezes antes de falar do país donde vieram milhares de portugueses em 1975. A Tinta-da-China, editora do livro Diamantes de Sangue – Tortura e Corrupção em Angola, do jornalista Rafael Marques – angolano, pois claro –, acaba de ser constituída arguida num processo instaurado em Portugal contra o autor por um grupo de generais que são acusados no livro e foram também objecto de uma queixa-crime de Rafael Marques em Angola pelas práticas de tortura e morte ocorridas nas minas de diamantes das Lundas (e arquivado entretanto  por falta de provas). A liberdade que conquistámos, que entre outras coisas serviu para libertar Angola do nosso jugo imperial, parece estranhamente estar a conduzir a uma situação de medo e subserviência que não é nada boa. Qualquer dia é Angola a dizer: Portugal é nosso...

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