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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Jul13

O escritor suíço

Maria do Rosário Pedreira

Quanto pensamos na Suíça, pensamos em queijos, bancos, relógios e chocolates antes de pensarmos em pessoas. Podemos pensar também na organização levada ao extremo – a minha irmã foi uma vez a um médico na Suíça e veio de lá a dizer que até a vaca estava arrumada na paisagem; outras pessoas que lá viveram contaram-me que, depois da meia-noite, ninguém pode puxar o autoclismo e que, quando alguém faz uma festa em sua casa à noite, tem de colocar um aviso junto das caixas do correio para que os vizinhos não chamem a Polícia. Naquilo que certamente não pensamos é em gente célebre – e a mim, mesmo fazendo um esforço, só me ocorre assim de repente o pintor Paul Klee, o psiquiatra Jung ou – aquele que hoje me traz aqui – Robert Walser, o escritor de língua alemã que foi um dos favoritos de Musil e Hermann Hesse e parece ter agradado bastante a muitos outros confrades, incluindo Kafka. Sobre ele escreveu, de resto, Gonçalo M. Tavares um dos seus Senhores (O Senhor Walser) e, para mim, é um autor dos mais desconcertantes em que pus os olhos, pois consegue a proeza de escrever uma coisa e o seu contrário sem que isso nos pareça estranho, antes louvável e original. Por exemplo, num livro de ficções curtas que li recentemente, A Rosa, uma personagem não só consegue discordar de si própria como, ainda por cima, se consola por causa disso. Os textos de Walser estão cheios de coisas inesperadas, frases que parecem aterrar neles vindas de um tempo mais moderno do que o seu, criaturas metidas em cenários que simplesmente não as pediam (um macaco numa taberna sem saber como se comportar com as senhoras), uma deliciosa desfaçatez que pode ser logo a seguir desarmada por um pedido aos leitores para que não levem aquilo a sério; enfim, têm uma pitada de loucura – o que, bem vistas as coisas, pode ter uma razão de ser, porque Walser esteve internado mais de vinte anos num asilo para doentes mentais (mesmo que alguns médicos achassem que ele estava bom, recusou-se a deixá-lo até à morte) e havia até uma história de doença mental na sua família. Mas não são todos os génios um pouco loucos? Mesmo na bem-comportada Suíça?

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