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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Jun10

A vida é bela

Maria do Rosário Pedreira

Fui sempre uma pessoa de letras e, nos meus tempos de estudante, as minhas notas a Ciências da Natureza eram apenas sofríveis (embora adorasse Botânica) e raramente tinham dois dígitos as que conseguia a Física e Matemática. Só descobri que a ciência podia, de facto, ser uma coisa apaixonante quando comecei a trabalhar no mundo da edição e me estreei numa editora que se dedicava especialmente à divulgação científica. Mas, entre todos os livros cuja revisão acompanhei nessa altura, houve um que me marcou para sempre – talvez até por estar ligado ao destino da espécie humana e à dose de acaso que fez com que pudéssemos aqui estar hoje, quando os dinossauros, que eram infinitamente maiores do que as pequenas criaturas donde provimos, foram extintos e passaram a lenda. Esse livro chama-se A Vida É Bela e foi escrito por um cientista, Stephen Jay Gould, que infelizmente morreu há alguns anos. Está maravilhosamente escrito, é de uma extraordinária clareza e lê-se como um romance de aventuras. Além disso, tem umas ilustrações belíssimas de uns seres assustadores que conviveram com os organismos nossos antecessores e que teriam dado cabo deles se não tivessem desaparecido mesmo a tempo. Vale a pena, ainda que nos consideremos pessoas de letras.

29
Jun10

Adjectivos literários

Maria do Rosário Pedreira

De férias no Algarve e já maior de idade, assisti pela televisão ao incêndio do Chiado, que me levou, além de muitas outras coisas, uma parte importante das minhas memórias de infância; o meu pai tinha escritório na Rua Nova do Almada, ligeiramente abaixo do lugar onde é hoje a entrada lateral da FNAC, e nunca esqueci os sumos de ananás da belíssima pastelaria Ferrari, as idas ao Eduardo Martins para comprar fazendas escocesas para kilts (ai, que saudades daquela espécie de livro de amostras) ou a escadaria de madeira envernizada dos Armazéns do Chiado, à porta dos quais uma senhora apanhava tranquilamente as malhas das meias. Sim, já sou bastante velhota, mas o que aqui me traz não é o saudosismo e, sim, a lembrança de, na reportagem do incêndio, o jornalista Carlos Fino não parar de dizer que se tratava de um espectáculo «dantesco». Dante e o seu Inferno acabaram, pois, por criar este adjectivo que hoje podemos utilizar sem sequer saber quem foi o poeta ou ter lido uma linha do que escreveu. E o mesmo se passa, por exemplo, com os adjectivos «homérico», «kafkiano» e «maquiavélico» (entre muitos outros) que hoje andam na boca de um mar de gente que nunca abriu um livro. Se, daqui por cem anos, já ninguém ler estes autores, pelo menos as línguas guardarão o seu vivo testemunho.

28
Jun10

A primeira vez

Maria do Rosário Pedreira

Aprendi as primeiras letras em casa, bastante cedo, com uma professora que dava aulas à minha irmã. (A minha irmã tinha sido operada e não podia ir à escola.) Já conhecia, pois, as vogais e algumas consoantes quando entrei para a primeira classe, com seis anos acabadinhos de fazer; mas lembro-me de aprender o resto com a ajuda da Cartilha Maternal, de João de Deus, num exemplar de grande formato que a professora pousava num cavalete para que todas as meninas da sala a conseguissem ver. Quando terminou o primeiro período e já conhecíamos o alfabeto inteiro e várias combinações de letras e sílabas, passávamos então ao livro de leitura. O meu chamava-se O Livro da Capa Verde e, para além de ter mesmo a capa verde, tinha a seguinte frase escrita na contracapa: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?» Pode parecer estranho que me lembre tão bem de uma coisa destas, mas a verdade é que recordo até hoje a minha primeira hora extraordinária. Sim, é isso mesmo, a primeira vez que li um texto, e não apenas conjuntos de sílabas ou palavras soltas. Intitulava-se (imaginem!) «Tourada à vara larga» e começava assim: «Pela vila vai movimento desusado.» Foi uma experiência marcante. Mas, se me perguntarem alguma coisa sobre a dita tourada, bem, disso é que já não sei dizer nada.

26
Jun10

Livro e filme

Maria do Rosário Pedreira

Raramente um filme baseado num bom romance que lemos nos agrada. Temos a escrita demasiado dentro de nós para conseguirmos separar duas linguagens distintas – e o mais frequente é falarmos logo do que não aparece no filme. No entanto, mesmo sacrificando cenas, partes, estrutura, linguagem, ideias, há filmes que nem são nada maus e, entre eles, poderia, por exemplo, citar A Insustentável Leveza do Ser, O Paciente Inglês ou, mais recentemente, Expiação. O do meio pareceu-me uma notável adaptação de um livro que nunca esquecerei: O Doente Inglês, de Michael Ondaatje. Claro que todas aquelas viagens pelo deserto a sós que existem no romance seriam um tédio na tela – mas senti a falta delas; claro que, no livro, a história de amor é só mais um episódio numa narrativa muito cheia sobre um homem apaixonante – e tenho a ideia de que a personagem da enfermeira é bem mais importante que a mulher amada (no filme, a actriz que o desempenhava venceu o Óscar de melhor actriz «secundária»). Em todo o caso, não podemos generalizar nem ser injustos com os realizadores e os argumentistas. Às vezes (raras, bem sei), eles fazem grandes filmes de grandes obras.

25
Jun10

Poetas não publicados

Maria do Rosário Pedreira

Nos anos 80, a editora Assírio e Alvim desafiou poetas não publicados a enviarem textos (três a sete) a um júri por ela escolhido (o poeta Al Berto era um dos jurados). Os textos que o júri considerou mais aptos foram posteriormente publicados num volume intitulado Anuário de Poesia Inédita e, dele, saíram alguns nomes que hoje publicam regularmente. Era uma montra – e uma boa montra: mesmo entre os muitos que nunca mais voltaram a publicar (pelo menos, com o nome com que ali assinavam), havia textos de grande qualidade, entre os quais recordo um poema em prosa muito à Borges – a história de dois irmãos e de um caderno de viagens –, cujo autor se autodenominava justamente «Jorge Luís». Tenho pena de que a Assírio não tenha prosseguido com essa aventura e que hoje não haja ninguém que tome a iniciativa de repetir a dose. O mais parecido que encontrei foi a revista Criatura, que também nos dá a ver jovens poetas, portugueses e não só, mas que, por um lado, repete bastante os autores, por outro não tem o crivo de uma editora por detrás a atestar a qualidade. Em todo o caso, se a encontrarem, espreitem. Tem sempre coisas que valem a pena.

24
Jun10

Pronto, eu vou contar

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse que associava um dos nomes maiores da cultura portuguesa (para mim, o maior) ao papel higiénico, a propósito de um post que escrevi sobre estranhas associações. Pois bem, depois de alguns pedidos, vou explicar porquê de uma vez por todas. Quando me despedi da editora onde trabalhava em 1996, fui arregimentada como directora de publicações pelo gabinete que então organizava a presença de Portugal como país-convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. A dada altura, tinha de reunir e editar textos para um livro sobre o que de melhor se fazia em Portugal (falo de literatura, pintura, música, dança, etc.) e um desses textos era… nem mais: de Eduardo Lourenço! Eduardo Lourenço escrevia sempre à mão (creio que ainda o faz) e, além disso, o e-mail mal tinha saído da pré-história. Recebi o seu texto pelo correio e, apesar de ninguém perceber a letra, eu cheguei lá rapidamente (não me vanglorio, era apenas parecida com a do meu pai) e bati o texto no computador. Porém, quis certificar-me de que não metera a pata na poça e enviei-lho por fax. Mas o nosso querido professor dizia que só recebia folhas brancas… Fizemos um brevíssimo brainstorming e chegámos à conclusão de que ele colocara mal o papel no aparelho de fax. Dissemos-lho. «Mas há mais de uma maneira de colocar o papel?», indagou, admirado, ao telefone. Pensei no assunto e respondi-lhe: «Senhor professor, pense num rolo de papel higiénico: há pessoas que gostam de puxar a folha de cima e outras que preferem puxá-la de baixo.» Percebeu imediatamente, e o texto chegou-lhe em três tempos, com todas as letras na folha branca. Mas agora, quando estou sentada num certo sítio e estendo a mão para o rolo de papel higiénico, em quem penso eu? Eduardo Lourenço. Não é uma injustiça de todo o tamanho?

23
Jun10

Palavras, palavras, palavras

Maria do Rosário Pedreira

Adoro palavras, sobretudo palavras novas, pois, com a idade e as leituras, cada vez há menos vocábulos desconhecidos. Gosto de saber de onde vêm, como se formaram, em que língua ou país foram, pela primeira vez, utilizadas. Se não me tivesse distraído aos 17 anos, muito provavelmente teria ido para Clássicas e estaria hoje mergulhada nas maravilhas da etimologia (talvez até tivesse um blogue muito diferente deste). A verdade é que vivo rodeada de dicionários, que tenho prateleiras cheias deles (de rimas, de lugares, de nomes próprios…) e que me divirto a consultá-los como a ler poesia ou ficção. E, como não cheguei a estudar latim e grego (e agora é tarde para isso), acabo sempre fascinada quando descubro, por exemplo, que a palavra «desastre» significa aquilo que acontece quando os astros não estão connosco («des» é «não», como em «des-fazer», e o resto já todos perceberam, não vale a pena explicar). O meu dicionário preferido, aquele que guardo e acarinho como um desses romances que nunca vou esquecer, é o Dicionário Houaiss. Tenho-o em casa em três volumes gordos e, na Leya, em dezoito mais franzinos e fáceis de consultar, numa edição especial que foi vendida com um jornal. E não há dia em que não o abra. Gostava de ter o senhor Antônio Houaiss aqui à mão, com o seu sotaque quente do Brasil, a dizer-me o que quer dizer isto e aquilo e porque é que «atarraxar» se escreve assim, e não com «ch», como durante tanto tempo pensei. Não podendo, resta-me o seu dicionário quase perfeito.

22
Jun10

A minha vida verdadeira

Maria do Rosário Pedreira

A minha vida (como a de todos, provavelmente) está marcada por muitos recomeços. O «meu» primeiro livro na Leya é, evidentemente, mais um desses recomeços – e estou contente por recomeçar justamente com um novo escritor: novo, porque ainda jovem e com muito para dar à literatura portuguesa; novo, porque desconhecido da maioria do público leitor. No dia 24, quinta-feira, às 18h30, Daniel Sampaio apresentará na Livraria Barata A Vida Verdadeira, de Vasco Luís Curado, e a essa hora sentirei que a minha vida, verdadeiramente, recomeça. Estão todos convidados: para o lançamento, claro, mas, sobretudo, para ler um romance fascinante sobre um homem maduro que nunca deixou de ser criança, não por se ter recusado, mas simplesmente porque as circunstâncias em que «cresceu» não lho permitiram. E não conto mais. Desejo-vos apenas horas extraordinárias de leitura, tão extraordinárias como as que tive ao ler este livro.

 

21
Jun10

Crianças que sabem o que querem

Maria do Rosário Pedreira

Passei horas extraordinárias na barraquinha da Gradiva durante muitas feiras do livro de Lisboa; desse «balcão de livraria», acreditem ou não, aprendi muita coisa sobre os leitores. Mas a mais extraordinária dessas horas foi há muitos anos, num Dia da Criança, quando tínhamos de abrir a feira logo às 9 da manhã e éramos visitados por bandos de crianças de bibe e panamá, mesmo quando nada tínhamos que lhes pudesse interessar. Pelo menos, era o que eu pensava até que, nesse dia, um casal de crianças pequenas, com cinco ou seis anos, pareceu demorar-se no nosso pavilhão mais do que seria normal, ficando o rapazinho praticamente hipnotizado diante de um livro de um Prémio Nobel da Física, Richard Feynman. Atribuímos o seu interesse ao facto de a capa ter uma caricatura do físico e de esse divertido desenho o poder ter levado ao engano. Mas enganados estávamos nós. O garotinho perguntou, timidamente, o preço do livro. Lembro-me de que custava 1040$00, quantia que ele, infelizmente, não tinha (nesse tempo, 1000$00 ainda era bastante dinheiro, sobretudo para uma criança). Então, perante o seu ar desolado, o colega que estava a fazer a feira comigo quis consolá-lo, dizendo-lhe que não ficasse triste, uma vez que se tratava de um livro muito difícil que, decididamente, não era para a sua idade. Surpreendentemente, a menina que o acompanhava (e tinha ar de irmã mais nova) largou-lhe a mão de repente e aproximou-se do pavilhão, confidenciando-nos: «Sabem? É que ele quer ser cientista.» Acabámos por lhe oferecer o livro, evidentemente.

19
Jun10

Lembrar, sempre lembrar

Maria do Rosário Pedreira

Fiquei arrepiada quando ouvi dizer que, no Reino Unido, o Holocausto tinha sido banido dos programas de ensino porque podia ofender os muçulmanos. O mundo está louco, pensei. Como podemos passar assim uma borracha num genocídio como aquele? Lembrar o Holocausto e os seus horrores às novas gerações parece-me a única medida inteligente para prevenir réplicas (mesmo que os norte-americanos tenham muitas teorias sobre os perigos de os jovens repetirem o que vêem). A este propósito, há um livro que me parece fundamental: trata-se de O Comprador de Aniversários, de Adolfo García Ortega (escritor e editor espanhol), romance curto que traz para o seu centro uma criança que Primo Levi refere ter encontrado em Auschwitz no seu livro Se Isto É Um Homem. O livro é um pontapé no estômago, claro, mas é belíssima a forma como Adolfo García Ortega inventa a esta criança uma vida, companheiros e, sobretudo, um passado (porque o futuro já sabemos todos qual é) que vai até à forma como os seus pais se conhecem e apaixonam em Varsóvia pouco antes de serem confinados ao gueto donde partirão para o campo de extermínio. A lembrar, claro. Por todas as razões.

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