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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Jun10

África minha

Maria do Rosário Pedreira

Em todos estes anos que trabalhei com novos autores de língua portuguesa, raramente me vieram parar às mãos livros de africanos. E agora, de uma assentada, apareceram-me dois – e ainda bem, porque têm sido mesmo horas extraordinárias de leitura. De um deles, O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, já aqui falei ao de leve e voltarei a falar mais perto da publicação; do outro, começo por dizer que é das coisas mais bonitas que li nos últimos tempos (e a autora condiz com o livro, garanto). O romance chama-se Os Pretos de Pousaflores, foi escrito por Aida Gomes da Silva, angolana, e conta a história de uma família (um branco com três filhos mulatos, todos de mães diferentes) que, depois de rebentar a guerra civil em Angola, vem para uma aldeia beata e atrasada de Portugal, encaixada entre serranias, ribeiros conspurcados e um frio de rachar. O choque é brutal (em Luanda a vida era então muito mais cosmopolita do que em Lisboa, imaginem numa aldeola) tanto para os que vêm de África como para os retrógrados da aldeia, para quem um preto é quase uma maldição. Contado a várias vozes (completamente distintas, e aí reside um savoir-faire invejável), deixa-nos acompanhar o futuro sempre periclitante das personagens e é, ao mesmo tempo, poético, comovente, informativo e, por vezes, muito divertido. Tornarei a este livro, claro. Agora foi só para destapar a pontinha do véu.

17
Jun10

Por falar em clássicos

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, na véspera de Natal, lembrei-me de que me faltava um presente para um amigo que, ao fim de muitos anos de ser advogado, resolveu ir tirar o curso de História numa dessas universidades privadas. Fui então à Baixa comprar-lhe a Breve História de Portugal, de Oliveira Marques (para a de José Mattoso, em dez volumes, era preciso ser mesmo o melhor amigo), a uma livraria onde, por esses dias, estavam a trabalhar jovens que faziam embrulhos bonitinhos, mas não pescavam nada de livros. Enquanto uma rapariga me embrulhava a minha compra, apareceu um senhor meio perdido, perguntando se tinham alguma coisa de Dickens. «O que é isso?», perguntou ela, mal levantando os olhos do que estava a fazer. «Ó minha senhora, é um clássico», respondeu o cliente, com um tom bastante condescendente. «Ah, se é um clássico, é ali naquela prateleira», tornou a rapariga, apontando com o queixo o lugar onde era suposto estar a obra de Dickens. Acompanhei-lhe o gesto e sorri: na dita prateleira havia livros de Eurípides, Ovídio, Homero, Virgílio e outras coisas gregas e latinas. De Dickens, nem sombra. Alguém podia explicar aos jovens que um clássico também pode ser da literatura?

16
Jun10

Não-ficção

Maria do Rosário Pedreira

Uma das minhas colegas na Leya, Sara Gomes, editora da Texto, fez-me um reparo completamente justificado, dizendo-me que neste blogue nunca apareciam livros de não-ficção. É verdade: os autores que mais me marcaram são romancistas ou poetas e, como me comprometi a falar apenas das minhas «horas extraordinárias» de leitura, tenho deixado o ensaio de fora. Ainda assim, há dois títulos a que, ao longo da vida, tenho recorrido frequentemente (e que li como romances). O primeiro é Introdução à História do Nosso Tempo, de René Rémond – uma panorâmica da história mundial de 1750 aos nossos dias para pessoas mais ou menos ignorantes (como eu) em termos históricos. O outro é Os Criadores, de Daniel Boorstin (que foi muitos anos director da Biblioteca do Congresso americana), no qual se destacam os grandes heróis da imaginação nas mais diversas áreas (literatura, pintura, fotografia, arquitectura) e abrange um período que vai dos pintores rupestres às vanguardas artísticas e literárias do século xx. Este último tenho-o, orgulhosamente, autografado e, embora não seja uma obra densa e profunda, dá-nos uma ideia excelente do que foi, realmente, a originalidade em todos os tempos.

15
Jun10

Medidas de austeridade

Maria do Rosário Pedreira

Em época de crise, as editoras também atravessam dificuldades e, logicamente, há que apertar o cinto como em qualquer outra actividade. Métodos para isso? Hum… Alguns realmente surpreendentes. No site das Publicações Europa-América descobri uma medida de contenção de custos que, segundo creio, ainda não passou pela cabeça de nenhuma outra editora. Um dos netos de Francisco Lyon de Castro (o fundador da empresa), que costumo ver nas feiras internacionais a comprar direitos e julgo que é hoje um dos responsáveis por aquela casa editorial, posa como modelo em mais do que uma capa. Na que aparece na página de abertura do site encarna um pai rodeado da sua prole num título de auto-ajuda que ensina os pais divorciados a serem pais decentes. Não posso, obviamente, assegurar que as crianças também pertençam ao clã Lyon de Castro, mas quase apostaria que sim, porque a ideia deve ser mesmo poupar. Com tanta gente jovem e bonita que há na Leya, não sei porque a administração ainda não se lembrou disto…

14
Jun10

A lógica infantil

Maria do Rosário Pedreira

Sou co-autora de uma série de livros juvenis, chamada O Clube das Chaves, cujo sucesso de vendas, sobretudo nos primeiros anos, me permitiu viajar pelo mundo todo. Quando esta colecção tinha apenas uns cinco ou seis títulos publicados, convidaram-me para ir dar autógrafos à Feira do Livro de Faro. Estava um dia quentíssimo, tudo se passava ao ar livre e puseram-me atrás de uma mesinha, sobre a qual estavam pousadas várias pilhas de cada título. Às tantas, um menino de uns sete anos aproximou-se, tirou o primeiro livro de cada pilha e voltou a pousá-lo no lugar. Depois perguntou-me com um ar desconfiado: «Foste tu que escreveste estes livros todos?» Respondi-lhe que sim. Pensei que ficaria admirado, mas não. Olhou-me com um certo desprezo, suspirou e atirou-me esta: «Então porque é que fizeste tantos iguais?» A lógica infantil é, decididamente, genial.

12
Jun10

O esplendor do normal

Maria do Rosário Pedreira

Quando vi o filme Lost in Translation, de Sofia Copolla, uma das coisas de que mais gostei foi do ar nunca aperaltado e sempre confortável da protagonista, que nos faz sentir irremediavelmente próximos dela. Nunca a belíssima Scarlett Johansson aparece de lingerie de renda (talvez um realizador masculino não resistisse), mas apenas de cuecas e T-shirts de algodão com um ar completamente humano (o que, numa mulher muito bela, por vezes até é mais difícil). Este lado cómodo mas irresistível seria difícil de representar por palavras num romance, no qual uma mulher assim nos pareceria quiçá ligeiramente desmazelada e sem graça. Mas há excepções, claro, e nesse livro maior que é Ruído Branco, de Don DeLillo, Babette, a mulher do protagonista – uma gorducha de fato de treino e pantufas, um tanto new age, muitas vezes com o filho mais novo pendurado nela –, consegue ser bastante mais sexy do que seria de esperar e atrair as atenções dos homens para a sua normalidade esplendorosa. Talvez isso aconteça porque o narrador é o marido, e está decididamente apaixonado por ela. Ou porque DeLillo é, na verdade, um escritor muitos pontos acima do normal.

11
Jun10

Ups!

Maria do Rosário Pedreira

Ricardo Menéndez Salmón, autor espanhol do aclamado A Ofensa, esteve em Lisboa na altura da Feira do Livro para autografar o mais recente A Derrocada. Porque sou casada com o seu editor português, jantámos juntos uma noite, por sinal bastante fria. Conheço a sua editora em Espanha – uma mulher muito bonita que todos dizem estar a fazer um óptimo lugar na Seix Barral, que é a mais interessante chancela do grupo Planeta. Mas Ricardo comentou que lhe havia encontrado algumas lacunas surpreendentes – por exemplo, ela não tinha lido Hermann Broch. Ups! Hermann Broch? Pois é, lá tive de engolir o sapo. A verdade é que também nunca li Hermann Broch (e o pior é que nem sequer estava na fila à espera de um momento livre). O Manel disse-me que tínhamos cá em casa, numa tradução francesa, A Morte de Virgílio (que ele lera numa certa época, mas também não tinha a certeza de ter concluído, são três volumes). Consolou-me (sem me desculpar) o facto de quase ninguém que conheço ter lido Hermann Broch (apostaria que o leram o José Afonso Furtado, a Ana Pereirinha e o Luís Filipe Castro Mendes, mas ninguém mais). Vou, pois, tentar encontrá-lo na estante do Manel e pô-lo à vista, a ver se ganho coragem. Mas o mais triste é que deve haver uma data de sapos iguais a este…

10
Jun10

Ai, os escritores

Maria do Rosário Pedreira

Li algures (num livro que nem tinha muito que ver com literatura) uma história absolutamente inesperada que não posso deixar de partilhar. Proust e Joyce foram, como se sabe, contemporâneos, o primeiro uns dez anos mais velho do que o segundo; a diferença de idades, de línguas, de países, de estilos, não impediu, porém, que cada um fosse admirador do outro (Proust deveria ser também admirador de si próprio, Joyce não sei). Mas a verdade é que o acaso não quis que os dois se encontrassem senão quando já estavam «velhotes» (maneira de dizer, claro, porque provavelmente não seriam mais velhos do que sou agora – mas neste século XXI somos jovens até mais tarde). Alguém promoveu um jantar em Paris no qual os dois escritores ficariam frente a frente e poderiam finalmente conhecer-se e elogiar-se. Muitos se fizeram convidados para o dito jantar, querendo presenciar um diálogo de génios que, provavelmente, não se repetiria. Surpresa das surpresas: postos assim na proximidade um do outro, os dois gigantes não disseram uma palavra sobre a escrita… Queixaram-se, isso, sim, de enxaquecas, achaques, reumatismo, más digestões… Um fiasco para quem esperava um encontro de intelectuais.

09
Jun10

A minha mãe

Maria do Rosário Pedreira

A minha mãe não estudou grande coisa porque teve de começar a trabalhar bastante cedo, mas sempre gostou muito de ler e sempre leu muito. Agora, que tem 85 anos e tempo de sobra, lê mais ainda, incluindo o jornal de ponta a ponta (necrologia e tudo). Passa, por isso, a vida a pedir-nos livros emprestados e comenta-os connosco (às vezes, diga-se de passagem, severamente). Há uns tempos começou, porém, com aquela conversa (lá chegaremos) de que não lhe déssemos coisas que a aborrecessem, pois tristezas já a vida tinha de sobra. Descobrimos, então, cá em casa um desses romances leves para senhoras que se vendem bastante bem nos dias de hoje, passado em Itália e romântico, que, por ser comprido, achámos a ia entreter por umas semanitas. Como fomos ingénuos… Às primeiras páginas, já ela estava a ligar para nós, francamente indignada, protestando que aquilo era de baixíssima qualidade e não tinha chegado à idade a que chegou para voltar a ler literatura juvenil. Devolveu-o sem o acabar, claro. Lição aprendida.

08
Jun10

Estranhas associações

Maria do Rosário Pedreira

Não contarei porque associo um grande nome da literatura nacional (quiçá o maior) ao papel higiénico (ou sim, contarei, mas noutro dia; em todo o caso, não é nada do que estão a pensar). De qualquer modo, de cada vez que vou à depilação, não consigo deixar de pensar em Juan José Millás. A associação é estranha para quem não sabe, claro; mas este autor, de quem publiquei tudo o que pude publicar na Temas e Debates, tem um livro no qual a protagonista está a depilar as pernas quando lhe telefonam a dizer que a mãe morreu – e atravessa todo o romance com cera numa perna. O livro chama-se Assim Era a Solidão e ganhou o Prémio Nadal no país vizinho. Vale a pena como todos os livros do autor, embora eu prefira A Ordem Alfabética (delirante para quem gosta de letras e palavras) ou O Mundo (uma obra-prima que já não fui eu a publicar). Neste último, há uma personagem chamada Vitaminas – mas, curiosamente, não me lembro de Millás quando tomo vitaminas…