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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Jun10

Bíblia africana

Maria do Rosário Pedreira

Conheci Mário Lúcio Sousa Mendes em Março, na cidade de Brasília, aonde ambos fomos discorrer sobre o futuro da língua portuguesa. Dizia a papelada que nos entregaram que era um músico cabo-verdiano, embaixador cultural, ex-deputado e outras coisas assim. Que era também bom orador, fiquei a saber ao ouvi-lo. Mas do romance que escreveu – e que ganhou a última edição do Prémio Carlos de Oliveira – foi ele quem me falou (e fiquei, devo dizer, muito curiosa). O livro chegou por e-mail e estou contente por poder salvá-lo de uma edição mais ou menos institucional e universitária (prevista para os vencedores deste prémio) que o afastaria de um número imenso de pessoas que merecem lê-lo. Pois O Novíssimo Testamento (assim se chama a obra, e que obra!) é ficção em forma de delírio. Seguramente voltarei a ele mais para a frente neste blogue, mas para já vale a pena reter este teaser: E se Jesus tivesse ressuscitado mulher, hã? Prepare-se para acolher mais um escritor africano de mão cheia que, ainda por cima, vem a Portugal em Outubro lançar o seu próximo CD, no qual canta com Gilberto Gil, Harry Belafonte, Cesária Évora, Teresa Salgueiro e outros.

05
Jun10

Filho e pai

Maria do Rosário Pedreira

A relação das mães com os filhos ou as filhas enche milhares de páginas de todos os tipos de ficção (e muitos artigos de revistas – pois parece que agora a maternidade está de novo na moda). Mais rara é, porém, a relação pai-filho como assunto de livro – quiçá porque durante décadas eram as mães que ficavam em casa com as crianças, enquanto os pais trabalhavam fora e quase não as viam. Sublime entre tudo o que li sobre esse binómio mais invulgar é o romance A Estrada, de Cormac McCarthy (dizem que vem aí o filme, mas é muito difícil pensar num filme baseado nesse livro sem ficar de pé atrás). Seco e despojado como muita da literatura americana, um pontapé no estômago permanente, este texto belíssimo vira-nos as vísceras do avesso e nunca mais somos os mesmos depois dele. Num mundo que não queremos que nos aconteça (mas não será o livro também um aviso?), os sacrifícios do pai pelo filho comovem-nos e sacodem-nos em igual medida. Genial também como só duas personagens e os seus parcos diálogos chegam e sobram para nos encher a alma de espanto.

04
Jun10

Pai e filho

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas mais difíceis de sustentar numa narrativa, sem parecer forçada, é, sem sombra de dúvida, um narrador-criança. A coisa pode descarrilar pela inverosimilhança (quando as crianças falam como adultos, demasiado espertinhas e cultas) ou simplesmente porque o discurso infantil, sendo demasiado longo, pode ser extenuante e levar, por vezes, os leitores a sentir que estão a ler um livro juvenil. Mas há muitos casos bem-sucedidos em várias épocas e, recentemente, não posso deixar de referir o narrador de onze anos de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer – autor norte-americano que tive o orgulho de dar a conhecer em Portugal, ainda na Temas e Debates, com o romance (a não perder) Está Tudo Iluminado. Este menino precoce e sobredotado (boa forma de defender a auto-suficiência da personagem) perdeu o pai no World Trade Center no 11 de Setembro, embora ninguém soubesse o que fora ele lá fazer. Uma chave encontrada num envelope pode ser a chave para esse enigma. E o caminho para a descoberta é todo um programa de amor e redenção. Acho que até chorei em algumas partes (e ri muito noutras). Inesquecível.

03
Jun10

Outono-Inverno

Maria do Rosário Pedreira

O Inverno passado foi terrível – o céu sempre cinzento, muito mais chuva do que é costume e o frio prolongando-se para lá do aceitável. Para mim, que só fico bem com céu azul, chegou a ser depressivo. Não sei ainda se o Verão vai ser de jeito, mas o que posso é prometer um bom Inverno à beira do Outono. Confuso? Claro, mas eu explico: O Bom Inverno é o próximo romance de João Tordo e ficará disponível nas livrarias logo no início de Setembro. Tem como protagonista e narrador um jovem escritor hipocondríaco e combina de forma aliciante balões de ar quente, mortes, inveja, excentricidades, Itália e recordações de infância na África do Sul. Encha o peito de ar e espere, mas não desespere: o Verão, se for bom, passa num instante e depois vai ter João Tordo no seu melhor.

02
Jun10

O operário em desconstrução

Maria do Rosário Pedreira

Com a deslocalização das fábricas para países onde a mão-de-obra é mais barata e uma certa mudança de paradigma no Ocidente, os operários, tal como os conhecíamos, estão em extinção – e quem enche agora as nossas (e as outras) manifestações são, grosso modo, os funcionários públicos (o que até é paradoxal, uma vez que são os que têm o emprego «mais» garantido). Às vezes interrogo-me se os jovens de hoje (em suma, os menos cultos) terão uma pálida ideia do que foi o operariado. Talvez Dickens lhes possa dar uma ajuda, ele que trabalhou em fábricas na infância e retratou nos seus livros uma classe trabalhadora que quase se sumiu. Dickens é um grande autor injustamente esquecido e, segundo creio, um excelente nome para aproximar os jovens da leitura. Fiquei, pois, contente quando Ricardo Araújo Pereira incluiu na colecção de livros de humor que dirige na Tinta-da-China Os Cadernos de Pickwick. Mas pode ser outro qualquer, o que importa é que não esqueçamos este precursor do mainstream.

01
Jun10

Contos: sim ou não?

Maria do Rosário Pedreira

No mundo editorial, diz-se amiúde que os contos são difíceis de publicar, em primeiro lugar porque os livreiros não gostam de livros de contos e compram poucos exemplares, em segundo lugar porque as pessoas não gostam de ler contos. Duvido (embora, como editora, admita que é muito difícil encontrar um livro de contos de um novo autor que seja profundamente equilibrado). Em todo o caso, há contos que li que nunca esquecerei (tantos como romances, estou convencida) e, num livro de D. H. Lawrence que a Assírio e Alvim publicou há uns anos – Amor no Feno e Outros Contos –, havia duas preciosidades inesquecíveis: O Homem Que Amava as Ilhas e O Homem Que Morreu. O primeiro, para abreviar, é o retrato de um homem destinado à solidão; o segundo, uma abordagem muito interessante da figura de Cristo ressuscitado (esse homem que morreu). Se gosta de contos e encontrar ainda o livro, não dará seguramente o tempo por perdido.

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