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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Jul10

O editor e o marketing

Maria do Rosário Pedreira

A edição mudou imenso nos últimos vinte anos, e costumo dizer que, se quando comecei a trabalhar como assistente editorial eram os autores que estavam no centro de tudo, pois agora parece que são os leitores que comandam as escolhas dos editores, levando-os, inclusivamente, a encomendar livros que julgam agradar a uma grande parcela da população. Talvez seja, porém, excessivo pôr as coisas nestes termos, pois, em alguns casos, terá sido sempre assim. Digo-o por causa de uma história que o Manel me contou, lida num ensaio francês sobre o marketing do livro. Ela aí vai: O senhor Hachette (esse mesmo, o fundador do monstro editorial Hachette) fazia, pela primeira vez, a viagem de comboio entre Paris e Deauville e, observando os passageiros calados e levemente entediados, chegou à conclusão de que aquele era um verdadeiro tempo de leitura, tanto para adultos como para crianças. Perguntou então à senhora que o acompanhava, ainda jovem, se seria capaz de escrever uma colecção de histórias para crianças. E a dita senhora – que não era senão a Condessa de Ségur – aceitou, nascendo dessa pergunta uma das colecções de livros para raparigas mais famosas de sempre. Como se vê, não é só hoje que os editores (espicaçados pelos directores de marketing) encomendam livros sobre este ou aquele tema a esta ou àquela pessoa. Na verdade, muitos editores já faziam marketing há décadas, mesmo sem conhecerem bem o que a palavra queria dizer.

19
Jul10

Quem escreve assim não é gago

Maria do Rosário Pedreira

Parece que as maiores receitas em Portugal na área da cultura advêm da edição (e é um dado curioso, sobretudo se pensarmos que esse é o sector que menos apoio tem do Estado). Para que alguns livros dêem dinheiro que se veja, contudo, editores de todo o mundo encontraram a fórmula de encomendar romances a políticos, actores, modelos, apresentadores de televisão e outra gente mediática. Em Portugal, ainda que as vendas deste tipo de livros sejam sempre muito altas, a verdade é que o saldo em termos literários tem sido confrangedor – razão mais do que suficiente para desconfiarmos de qualquer livro de ficção assinado por alguém que vem (mesmo que não só) do audiovisual. Mas, como sempre, convém não generalizar. Acabo de ter uma belíssima surpresa ao ler o magnífico romance de um actor (de teatro, pois claro, mas que já fez muita televisão). Chama-se Rio Homem e parece tudo menos obra de estreia (bem, o autor já ganhou o prémio da APE com um livro infantil). Trata-se de um romance de grande fôlego, denso e profundo, de alguém que leu certamente muitos livros antes de se atrever a começar o seu. Cruza a Guerra Civil de Espanha e a construção da barragem que submergiu a aldeia de Vilarinho da Furna. Fruto maduro, garanto, com anos de trabalho em cima. O seu autor é André Gago, que tem, para além do talento para a escrita e para a representação, uma voz belíssima que fica no ouvido (talvez lhe peça, mais perto da publicação do romance, que grave a leitura de excertos para vos mostrar).

Caso para dizer: quem escreve assim é Gago.

17
Jul10

Macho latino

Maria do Rosário Pedreira

Li no ano passado, durante as férias (que é normalmente quando consigo ler livros de outras editoras), A Arte de Amar, de Ovídio. Bem sei que, segundo os parâmetros dos nossos meios de comunicação, este não é exactamente um livro para as férias; mas, se me custa ver o tempo avançar sem ter lido isto ou aquilo, pois a verdade é que, quanto mais antigo é o livro, mais me sinto compungida a colmatar a lacuna. Assim sendo, li Ovídio debaixo do chapéu-de-sol, humedecendo de vez em quando as páginas com pingos de água que me escorriam dos cabelos, zangando-me com o vento que embaraçava as folhas, entre banhos de mar e de piscina – e concluí que é um título para todas as estações. Independentemente da vénia devida ao poeta (nem está em causa não a fazer – e quase beijo o chão), diverti-me imenso com os seus conselhos aos leitores masculinos sobre as armadilhas em que podem cair quando seduzidos por esses seres falsos, malignos e interesseiros que são as mulheres. (Hoje, Ovídio estaria em todos os telejornais a explicar-se sobre certas afirmações sexistas que faz, não duvido.) Talvez seja daqui que veio a expressão «macho latino»…

16
Jul10

O eterno candidato

Maria do Rosário Pedreira

A Dom Quixote está a reeditar (com capas de que gosto muito) todos os livros de Philip Roth. Para mim, Roth é um dos eternos candidatos ao Nobel da Literatura que, se calhar, morrerá sem o ter. Merece-o, sem dúvida, embora haja também quem pense (Paul Auster, por exemplo) que Don DeLillo está antes dele na fila de escritores norte-americanos com capacidade de o arrecadar. Não li todos os livros de Roth (infelizmente, não chego para tudo), mas entre os que li aquele que até hoje mais me marcou foi A Mancha Humana (não por acaso «mancha» e «marca» são, de certa forma, sinónimos). Detesto histórias previsíveis, preferindo ser habilmente enganada pelos narradores (e/ou autores), e foi assim que me fui sentindo ao longo de toda a leitura por descobrir que o protagonista do romance era sempre contra uma coisa que ele próprio também era. Não posso ser mais clara, lamento; se contar, perde completamente a graça. Há que ler, este título ou qualquer dos outros – e esperar que dêem a Roth o maior prémio literário de todo o mundo antes que seja demasiado tarde.

15
Jul10

Um thriller português

Maria do Rosário Pedreira

Conheci o Pedro Garcia Rosado na Temas e Debates onde publiquei o seu primeiro romance policial (Crimes Solitários). Passaram-se vários anos em que cada um seguiu o seu caminho e, no ano passado, voltámos a encontrar-nos por causa de traduções, uma vez que ele é também tradutor. Nessa altura, desafiei-o a escrever uma série de policiais, passados em Portugal e com personagens portuguesas, que reflectisse com realismo o que cá se passa em matéria de crimes (já não somos um país completamente seguro) e da respectiva investigação e, ao mesmo tempo, que tivesse um herói ao qual o leitor se pudesse afeiçoar de um volume para outro. Surgiu então A Cidade do Medo, que a ASA acaba de publicar e é o primeiro volume da série «Não Matarás» (prevê-se um livro por ano). Esta primeira história, introducing o inspector da Polícia Judiciária Joel Franco – homem marcado por um crime ocorrido na adolescência e pronto a vingá-lo em cada morte que investiga –, debruça-se sobre um serial killer que espalha o pânico pela cidade de Lisboa com o intuito de castigar o presidente da Câmara, por causa de uma história (corrupta, pois claro) relacionada com vendas de terrenos da OTA (em que ambos estiveram envolvidos, mas um se saiu melhor do que o outro). Fazendo lembrar trafulhices que todos conhecemos, é paradoxalmente original. Espero que gostem.

 

14
Jul10

Editing

Maria do Rosário Pedreira

Não sei o que se passou com a comunicação social, mas de repente toda a gente me pede entrevistas por causa de uma coisa chamada editing. Tenho gosto em falar do que faço, evidentemente, mas sinto que me transformaram numa espécie de arauto do editing, como se fosse a única pessoa em Portugal a praticá-lo. Por isso, além de gostar de que os nossos jornais se debrucem sobre o meu trabalho, gosto de poder explicar realmente o que faço, porque muita gente tem a ideia errada de que escrevo nos livros dos outros e sou uma santa milagreira capaz de transformar livros maus em livros que ganham prémios importantes. Nada disso. Acredito que existam editors no Reino Unido ou nos EUA que escrevam partes de livros em vez dos autores; e creio que, em Portugal, quando se encomendam romances a figuras públicas que nunca escreveram antes, em alguns casos deve haver alguém que escreve por elas ou dá, pelo menos, umas pinceladas, recebendo o suficiente para se manter anónimo (em Espanha chamam a estes ghost writers «negros», calculem). Não é, porém, o meu caso – e, se o livro não for bom, não há como salvá-lo (podemos salvar-nos não o lendo nem publicando, e é tudo). O editing que pratico passa sobretudo por uma conversa e é apenas uma pequena ajuda de um leitor profissional a um escritor que é bom comigo ou sem mim, não mais do que isso – e muitos autores portugueses, se não a têm dos seus editores, tê-la-ão seguramente de amigos e confrades habilitados a dar-lhes uma opinião que, antes de tudo, se baseia no bom senso e na experiência de leitura. Não é, como vêem, uma questão de varinha mágica: se o autor não tiver talento, nada feito.

13
Jul10

Empatia

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei há cerca de um mês aquele que foi o meu primeiro livro na Leya – A Vida Verdadeira, de Vasco Luís Curado. Quando aqui escrevi um post sobre ele, recebi um comentário de uma leitora que dizia ter a estranha sensação de que o romance fora escrito para ela, de que o livro a escolhera «para o desassossego ou a provocação». Fiquei contente, porque o romance é francamente bom e merece ter leitores que com ele se identifiquem (espero que haja muitos por essa blogosfera fora – se ainda não leram, estão a tempo, mostro-vos a capa para o encontrarem mais facilmente). Mas o que queria, pegando nesse comentário, era dizer que, de facto, há livros com os quais temos uma empatia muito especial, cuja leitura nos leva inclusivamente a pensar que foram escritos para nós, ou, pelo menos, para alguém como nós. Há uns bons anos (talvez quinze) li um livro exactamente assim. Chama-se Resta a Noite, escreveu-o a espanhola Soledad Puértolas (que viria a ganhar o Prémio Planeta muito mais tarde) e tinha uma personagem que, na época, podia ser eu – com o mesmo tipo de aflições, amigos semelhantes, os mesmos hábitos, as mesmas viagens, até uma relação sentimental (fracassada) que evocava a minha a cada página. Tenho medo de o reler (ou medo de recordar maus momentos?) por causa dessa possibilidade de a empatia já não estar presente tanto tempo volvido. Mas seria sempre um bom livro, tenho a certeza.

 

12
Jul10

Paul Auster sem espinhas

Maria do Rosário Pedreira

Essa coisa de ter um peixe inteiro no prato – com cabeça, rabo, espinhas e, por vezes, até o olho arregalado e gelatinoso –, não é para todos. Aos portugueses, habituados ao mar, às varinas e aos mercados, não faz mesmo nenhuma confusão. Mas, quando pedem a um menino de Nova Iorque para desenhar uma galinha, ele representa-a normalmente depenada e sem cabeça como a vê no supermercado – e, de peixe, também quase só conhece a posta de salmão e os filetes sem escamas e todos do mesmo tamanho que vê na prateleira dos congelados. Os peixes, tal como são enquanto vivos, raramente aparecem no prato de um norte-americano e, de uma das vezes que Paul Auster esteve em Portugal, ainda o Manel era editor dele na ASA, fomos comer peixe a um pequeno restaurante do Bairro Alto a seu pedido. O linguado tinha um ar fresquíssimo e o empregado aconselhou-lho vivamente. Mas, quando o trouxe no prato – de cabo a rabo, e não em lombos – e o pôs à frente do escritor, ele ficou estarrecido a olhar e perguntou, aflito: «Como é que isto se come?» A Paul Auster nem me custou muito tirar-lhe as espinhas…

10
Jul10

Liberdade

Maria do Rosário Pedreira

Vi nascer a primeira Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII, pelo que sou muito antiga. Tão antiga que ainda fui à feira na Avenida da Liberdade – e, garanto, mais do que uma vez. Foi, de resto, ainda nessa larga avenida de Lisboa que me estreei a comprar livros sozinha (quer dizer, sem a minha mãe, porque fui com uma amiga). Devia ter catorze ou quinze anos e lembro-me de ter comprado Os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, e os Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Já não estávamos em tempo de aulas, mas admito que tivesse sido a escola a aconselhar estes títulos, talvez para os lermos no ano seguinte (embora eu já tivesse lido Os Contos da Montanha). Engraçado é que ainda hoje consigo eleger um conto de ambas as colectâneas: «A Viagem» (no livro de Sophia), que era um texto sufocante em que alguém empreendia uma viagem e, sempre que decidia voltar para trás, encontrava tudo diferente; e «Mariana» (no livro de Torga), que era a história de uma rapariga da aldeia que tinha filhos de vários homens e, quando a menina «selo branco da virgindade» regressava da cidade e lhe perguntava quem eram os pais das crianças, ela respondia apenas: «Saiba a menina que não têm pai… São só meus.» Histórias de liberdade com L.

09
Jul10

Traições

Maria do Rosário Pedreira

Chamam muitas vezes «traidores» aos tradutores – e alguns são-no verdadeiramente. Ao longo de vinte anos a trabalhar no mundo editorial, encontrei de tudo: traduções excelentes, feitas por pessoas que pareciam ter nascido para a tarefa; boas, feitas por gente competente e trabalhadora; médias, a maioria; más, sobretudo as que mostravam permanentemente a língua de origem; e calamitosas, que não se deixavam ler e iam para o lixo por não terem salvação possível. Entre estas últimas, lembro-me, por exemplo, de um dos primeiros livros que veio à minha mão para eu rever (já lá vão mais de vinte anos) e cujo tradutor sabia tão pouco inglês que conseguiu traduzir «shake hands» por «sacudir as mãos». (Hoje o inglês entrou de tal maneira pelo nosso quotidiano que seria impossível alguém ir tão longe.) Mas até os tradutores competentes caem muitas vezes em esparrelas, e sabe-se que um dos nossos mais conceituados tradutores de castelhano, levado talvez pela pressa, cometeu o erro de traduzir «palomitas» (pipocas) por «pombinhas» (e, como se tratava de comer no cinema, o leitor estranhava). Também me contaram que, numa tradução brasileira, apareceu a expressão «vendedores de bestas» para traduzir «best-sellers». A ser verdade, uma traição maior.