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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

08
Jul10

Uma relíquia

Maria do Rosário Pedreira

Quando aqui fiz um post sobre dicionários e como eles me apaixonam, tive um número de comentários inesperadamente grande. Dando conta da minha paixão pelas palavras, encontrei muitos que, desse lado, queriam confessar-se afins e trazer o seu contributo. Quiçá para os compensar dessa generosidade, contarei hoje uma história cómica que tem que ver também com dicionários. Sou a mais nova de quatro irmãos e sempre me dei melhor com os meus irmãos do que com a minha irmã. Esta, mais velha quase cinco anos do que eu, dava-me beliscões, empurrões e outras carícias do tipo quando não estava ninguém a ver – mazelas das quais eu não me queixava imediatamente, mas apenas quando a minha mãe aparecia (e podia ser horas depois). Então, a minha irmã chamava-me normalmente queixinhas, mas um dia, sei lá porquê, chamou-me «bufa». E, embora isto se passasse no tempo dos bufos da PIDE, eu nunca ouvira a palavra e fui ao dicionário ver o que queria dizer. Deveria ter procurado, bem sei, o masculino «bufo», mas a verdade é que na altura ainda era uma amadora nestas coisas da língua. A definição que encontrei (acho que no Dicionário de Cândido de Figueiredo) ainda hoje nos faz rir a todos lá em casa quando nos lembramos dessa cena (pois tive de consultar os mais velhos para a perceber na sua plenitude): «Ventosidade que se escapa do ânus sem estrépito.» E ainda há gente que ache os dicionários um tédio…

07
Jul10

Banco Para Intelectuais

Maria do Rosário Pedreira

Quando comecei a trabalhar – e porque era, então, funcionária pública – abri conta no banco do Estado, como tinha de ser; mais tarde, depois de alguns anos a receber direitos de autor e pagamentos de outros trabalhos relacionados com a escrita, quis separar as águas e abri outra conta noutro banco. Escolhi o BPI – e a minha escolha, de certa forma, teve que ver também com leituras. Um dia, estava eu a ver a página do caderno de Emprego do Expresso e deparei-me com um anúncio do BPI para gestores de fundos de investimento. Nada que eu pudesse fazer, claro, mas algo me chamou a atenção no texto. Depois de informarem os potenciais interessados daquilo que ofereciam, diziam o que esperavam em troca; e, antes mesmo da licenciatura na área dos números ou da experiência profissional, o que esperavam dos candidatos era: «Que goste muito de ler.» Achei admirável! A seguir, diziam ainda que davam prioridade a quem fizesse voluntariado, tocasse um instrumento musical ou praticasse desporto de competição (presumivelmente, quem se dedica a tais actividades tem qualidades que também servem, pelos vistos, para gerir fundos de investimento). Até me apeteceu escrever-lhes uma carta a felicitá-los. Mas não, cingi-me a abrir uma conta numa das suas agências. O pior é que os fundos de investimento deram no que deram e, se calhar, todos esses leitores estão agora desempregados…

06
Jul10

Proust e a minha mãe

Maria do Rosário Pedreira

Não sou, como algumas pessoas que conheço, doida por Proust. Talvez porque tive de ler os primeiros três volumes de À la recherche… a mata-cavalos numas férias de Páscoa, metida na Biblioteca Nacional enquanto os meus amigos andavam a bronzear-se pelas praias, acho-o apenas extraordinário e, sim, tenho raiva dessa notável capacidade para, sem ser enfadonho, descrever uma igreja ou outra coisa qualquer em dúzias de páginas e associá-la a outras trinta mil coisas que a memória arquivou. Ao mesmo tempo, devo confessar que embirro ligeiramente com Marcel e que, nessas longas, longuíssimas, férias de Páscoa, pensei muitas vezes que lhe fizeram falta uns tabefes (e aqui estou eu agora a dar a face, ou mesmo as duas faces, por tê-lo dito). Ora, a minha mãe é muito dada aos detalhes (palavra que os revisores dizem que é galicismo e substituem sempre por «pormenores», muito mais feia) e, para dizer que atravessou a rua e foi ao Multibanco, conta absolutamente tudo o que viu, ouviu, sentiu, cheirou, supôs, pensou, concluiu… e ainda o que nem tem que ver com essa travessia, mas, por qualquer motivo, aparece naturalmente na conversa. Quando ela regressa de uma consulta médica, é um custo sabermos como está realmente a sua saúde. E, nesses momentos, o meu irmão mais velho, que é o mais impaciente de todos, costuma dizer-lhe: «Deixa lá o Proust e conta só o que interessa.»

05
Jul10

Juvenil ou nem tanto

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, muitos adultos consomem literatura claramente juvenil – Harry Potter e aquela saga dos vampiros muito em voga são exemplos disso. Pessoa escreveu que um bom livro para crianças deveria ser lido sem enfado por todos os adultos, mas nos casos que referi não creio que se trate exactamente disso (talvez avançasse com a infantilização de alguns leitores, mas também não estou completamente segura deste argumento). Sei, contudo, de alguns títulos que podem ser partilhados por leitores de várias idades e que todos o lerão, se não com o mesmo entusiasmo, pelo menos com igual interesse. Antes de mais, O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. Mas também A História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda, ou Os Capitães da Areia, de Jorge Amado (neste último, há uma cena inesquecível em que um menino ensina a outro a diferença entre um gato e uma gata, explicando que ele tem um saquinho de moedas e ela uma ranhura de mealheiro). E porque não Cão como Nós, de Manuel Alegre, que, sendo um livro escrito para o público adulto, pode e deve ser lido por adolescentes (sobretudo se estes tiverem perdido um animal de estimação)?

03
Jul10

Escrita criativa

Maria do Rosário Pedreira

Nunca frequentei cursos de escrita criativa e imagino que haja de tudo, do melhor ao pior. Como editora, sou muitas vezes vítima de maus cursos – ou maus alunos, que não conseguem aprender que descrever uma personagem não é exactamente dizer quanto mede e pesa (juro que já me mandaram um original que era exaustivo em relação a estes detalhes de cada vez que introduzia uma personagem). No entanto, concordo que há exercícios que podem ajudar alguém que já tenha algum talento a organizar as ideias e escrever melhor. Sobre exercícios, conheço, ainda assim, um livro que é a todos os títulos excepcional. Chama-se Exercícios de Estilo, foi escrito por Raymond Queneau e, embora o tenha em francês numa edição de bolso daquelas baratinhas, penso que já existe em tradução portuguesa (quase juraria que foi publicado na Âmbar ou na Sextante pelo João Rodrigues). Nele, o autor descreve mais de cem vezes o mesmo episódio, mas sempre de diferentes pontos de vista: probabilístico, metafórico, macarrónico, injurioso, olfactivo, exclamativo, precioso, animista, onírico... Uma maravilha para quem queira treinar as suas capacidades criativas (ou assistir às de outrem).

02
Jul10

Meia dúzia de páginas

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, no mundo editorial, debatemo-nos muitas vezes com um problema: quando nos enviam livros demasiado curtos, hesitamos sobre se devemos ou não considerá-los para publicação. Os livros pequenos desaparecem nas livrarias, onde todos os dias se acumulam títulos novos, muitos deles autênticos calhamaços, que logo os escondem; e, ao mesmo tempo (com a excepção da poesia), os leitores parecem preferir dar dinheiro por alguma coisa que se veja a gastá-lo em meia dúzia de páginas que, até chegarem a casa – se a viagem for de metro ou autocarro –, já estarão lidas. Mas, se calhar, devíamos emendar a mão, porque há textos curtos que são verdadeiras obras-primas. Lembro-me, a este propósito, de A Comunidade, de Luiz Pacheco, que é das coisas mais belas que li em toda a vida e possuo numa edição pobre, agrafada, nem sequer bem impressa. Mais tarde, comprei outra, ilustrada julgo que pela Teresa Dias Coelho, que ofereci a alguém de quem devia gostar muito. Neste livro com meia dúzia de páginas, há mais literatura do que, por vezes, se encontra na obra inteirinha de um autor. Ou de vários.

01
Jul10

Bebé sabe

Maria do Rosário Pedreira

Tenho um irmão que é professor universitário e sempre viveu rodeado de livros (quando, na infância, eu lia quadradinhos, já ele lia a História Universal da Verbo, em dez volumes, durante as férias). Esse meu irmão tem três filhas, a mais velha das quais foi um bebé voluntarioso e independente que nunca deixava que lhe fizéssemos nada (nem sequer dar de comer), empurrando-nos e respondendo apenas: «Bebé sabe.» Um dia, estava o meu irmão a fazer um trabalho importante com vários livros abertos sobre a secretária quando ela começou a mexer-lhes e a fingir que os lia. A princípio, ele achou graça, mas, ao fim de um quarto de hora, reparou que ela lhe tinha desmarcado as páginas e começou a ficar ligeiramente aborrecido. Mandou-a então ir brincar com os livros dela, que tinham bonecos, dizendo-lhe que aqueles livros que ali estavam só tinham letras e que não lhe serviam para nada, pois ela (então com dois anos e meio) não sabia ler. A resposta, contudo, foi a de sempre: «Bebé sabe.» Precisando de retomar o trabalho e querendo pôr fim às interrupções, ele decidiu que o melhor era desafiá-la, passando-lhe um livro aberto e dizendo-lhe: «Então, se sabes ler, diz lá o que é que está aqui escrito.» Contra todas as expectativas, ela não se deixou abater: acompanhou com o dedo minúsculo uma linha inteira do texto (como certamente já vira alguém fazer) e respondeu com ar maroto ao cabo de uns instantes: «O bebé pode mexer nos livros do pai.»

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