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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Set10

A imaginação

Maria do Rosário Pedreira

Há livros muito difíceis de classificar, e é talvez por isso que, frequentemente, nas listas dos livros mais vendidos, aparecem títulos na área da ficção que não são exactamente ficção, mas que também não são aparentados com aquilo que vulgarmente se designa por «não ficção». Li há muitos anos um livro esplêndido e inesquecível – A Louca da Casa, de Rosa Montero – que comprei como um romance, e não era um romance, mas que, parecendo um «ensaio» sobre um conjunto de memórias, soube, um dia, por razões que agora não vêm ao caso, tratar-se da mais absoluta ficção. Nesse livro celebrava-se sobretudo a imaginação – irmã de quase todos os escritores e, nesse livro, irmã gémea da autora, que a usa de forma brilhante, enganando permanentemente o leitor sobre o que já leu com o que vai lendo, nunca ficando este a saber o que foi, de facto, verdade e o que é apenas imaginação. Se gostar de livros que não são de nenhum género em concreto e conseguem ser quase todos, não hesite em ler este. Tenho a certeza de que não se vai arrepender.

29
Set10

Jesus de saias

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, falei com grande entusiasmo de um livro que ia publicar. Tratava-se de um romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, também músico, vencedor do Prémio Carlos de Oliveira em 2009, que o destino trouxe à minha mão por duas vias diferentes: conheci o Mário Lúcio em Brasília e ofereci-me para apreciar o livro; e, uns dias mais tarde, o seu agente, que mora no Porto, enviou-o para a Leya sem saber de nada, pedindo que considerássemos a sua publicação, uma vez que o júri aconselhara a edição numa chancela com larga distribuição nacional (pois, de contrário, o livro seria dado à estampa pela editora da Universidade de Coimbra e quiçá acabaria nos armazéns entre traças e musgo). Pois bem: o livro – de que eu então transcrevi um excerto – está nas livrarias desde sábado passado e chama-se O Novíssimo Testamento. E, sem querer dizer mais sobre a história (que é um delírio de imaginação), conta aquilo por que teve de passar uma mulher chamada Jesus, tomada, no seu leito de morte, por uma reencarnação do próprio Cristo. Se quiser passar momentos mágicos e divertidos, este é um livro para si. Senão, também.

 

28
Set10

Uma questão de ouvido

Maria do Rosário Pedreira

Quando Pinto da Costa começou a «dizer de que» e a «pensar de que» foi motivo de paródia em todo o lado; de tal modo que algumas pessoas, desconhecendo a língua que falam e escrevem, acreditaram que «de que» era um preciosismo e cortaram o «de» em todas as ocorrências em que, na verdade, era indispensável. Nos originais que todos os dias me vêm parar às mãos, estou sempre a encalhar nas ausências dos «de que» depois de verbos ou expressões como «aperceber», «ter medo», «estar convencido», «ter esperança», etc., e insiro eu própria o «de», com a esperança de que o autor aprenda com as minhas correcções. Porém, um dia destes, uma colega da Leya estava de cabeça perdida porque um dos seus autores (homem com muitos livros publicados) cortara, nas provas de um livro, todos os «de» que o revisor introduzira a seguir ao verbo «lembrar-se», dizendo que, simplesmente, não lhe soavam bem. Mesmo depois de lhe terem sido dadas as necessárias explicações, insistiu e quis que o livro fosse publicado sem eles. Bem sei que é o autor quem assina o livro, mas não deveria imperar a razão sobre o ouvido?

27
Set10

Em branco

Maria do Rosário Pedreira

O Prémio Literário José Saramago – não há como negar – tem uma grande influência no sucesso e na divulgação dos escritores que o recebem. Como publiquei José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo, consigo avaliar a diferença – pelas vendas e pela atenção do público e dos meios de comunicação – entre o antes e o depois da atribuição do prémio. Contudo, da única vez que o galardão foi dado a um escritor estrangeiro (no caso, a escritora brasileira Adriana Lisboa), não teve exactamente as mesmas repercussões. O romance premiado, Sinfonia em Branco, era maduro e belíssimo – a história de duas irmãs e da relação de ambas entre si e com um pai abusador –, mas não vendeu mais do que qualquer romance não premiado. Publiquei, ainda na Temas e Debates, a obra seguinte de Adriana Lisboa, cujo título remetia para um verso de Manuel Bandeira – Um Beijo de Colombina – e esse, então, quase passou em branco, o que foi apenas mais uma injustiça. E a Quetzal editou não há muito o seu terceiro título – Rakushisha –, que não li, mas espero que dê à autora o reconhecimento que merece. Se nunca pôs os olhos num livro de Adriana Lisboa, não continue em branco.

24
Set10

Disponível e obrigatório

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se ainda se lembram, mas aqui há uns tempos, neste mesmo blogue, referi um livro publicado há vários anos, vencedor do Booker Prize, cuja leitura recomendo em absoluto. Intitula-se O Deus das Pequenas Coisas, foi escrito por Arundhati Roy e é, além de uma peça literária belíssima, uma das obras mais interessantes sobre o problema das castas na Índia que alguma vez li. Na altura, avancei que este título – esgotado há muito – iria ser reeditado na colecção BIS – a colecção de pequeno formato da Leya. Pois anteontem, ao passar por uma mesa onde se acumulavam os exemplares dos livros que vão sair esta semana, lá estava esta maravilha! E com um preço muito, muito simpático: 7,50 €. Não há, pois, desculpa para não ler.

 

23
Set10

Bragatela

Maria do Rosário Pedreira

Paulo Moreiras – um autor de quem publiquei vários livros (de ficção e não ficção) – encontra-se presentemente na Ledig House (uma residência de escritores nos Estados Unidos) e escreve-me regularmente de lá. As suas mensagens são sempre poderosas e não raro incluem descrições absolutamente suculentas de comida, pois trata-se de um autor que é também um bom garfo e um curioso da gastronomia (mesmo no país do hamburger). Disse-me, numa das últimas mensagens, que o seu lindíssimo Livro da Ginja está a fazer furor entre os seus colegas de residência – e não me admirei, pois o Paulo tem uma forma especial de nos fazer gostar de tudo aquilo de que ele próprio gosta e já os deve ter convencido a provar aquele elixir vermelho, escorregadio e saboroso. Mas o que sinceramente desejo é que este período na Ledig House o leve a iniciar (ou prosseguir) um projecto por que há muito anseio – o seguimento de A Demanda de D. Fuas Bragatela, romance picaresco sobre um herói medieval capaz de virar tudo do avesso e sair ileso das piores situações. Na crise em que nos encontramos, precisamos de obras com humor e inteligência – e já estamos há demasiado tempo à espera desta.

22
Set10

Gossip literário

Maria do Rosário Pedreira

Tenho esse enorme defeito de não ser curiosa, pelo que – com excepções, bem entendido – não me fascinam, como a tantos, as biografias. Mas gosto de saber coisas de escritores (e aconselho, desde já, as entrevistas da Paris Review recentemente publicadas pela Tinta-da-China; não é, porém, de aspectos tão sérios que falarei hoje). Há uns anos, li um livro de Javier Marías (nesse tempo muito menos famoso do que hoje, mas – recordo – já bastante arrogante) que reunia uma série de textos sobre escritores notáveis publicados, se não erro, num jornal espanhol. Chamava-se Vidas Escritas e trazia a chancela da Quetzal, quando esta era ainda dirigida por Maria da Piedade Ferreira. Despretensioso e ligeiro (não era um livro a que Marías desse uma importância por aí além), falava-nos de algumas idiossincrasias de escritores, contadas com humor, bom gosto e talento literário. Foi nesse livrinho que descobri, por exemplo, que Faulkner apostava fortunas em corridas de cavalos e Conrad deixava cigarros acesos por toda a casa, tendo-se livrado por pouco de alguns incêndios. Leitura boa para domingos sem ambições, que nos mostra que alguns monstros sagrados têm um lado tão humano como qualquer mortal.

21
Set10

O amor

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada, aconteceu-me no mesmíssimo dia assistir a duas esplêndidas declarações de amor. Uma delas foi a entrevista de Pilar del Río, viúva de Saramago, a Constança Cunha e Sá na TVI 24: brilhante, forte e comovente. A outra, um agradecimento de Helena Marques ao marido no final da sessão de lançamento do seu mais recente romance, O Bazar Alemão: sincera, cúmplice e engraçada (o marido estava escondido na sala, presumivelmente corado). Fico sempre com a lágrima ao canto do olho e ao mesmo tempo cheia de fé nas pessoas quando ouço alguém falar sem problemas da pessoa de quem gosta, porque os portugueses, habitualmente contidos, parece que têm vergonha de mostrar o que sentem, e a excepção é realmente uma lufada de ar fresco. Deve ter sido por isso que, quando publiquei um dos meus livros de poesia, alguns críticos escreveram que aquele era um acto de grande coragem. Pois não acredito que nenhuma destas duas senhoras tenha precisado de coragem para falar dos amores da sua vida. E eu também não.

20
Set10

Para cima ou para baixo?

Maria do Rosário Pedreira

Há uns anos, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros enviou uma circular que traduzia uma qualquer directiva, se não me engano, da União Europeia, segundo a qual os editores portugueses deveriam, a partir de então, escrever os títulos e autores nas lombadas dos livros de forma que se lessem de cima para baixo. Deste modo – que os ingleses já praticavam há anos –, um livro pousado numa mesa com a capa para cima teria o texto da lombada na posição correcta, e não, como antes acontecia, de pernas para o ar. Ainda hoje deixo passar este «erro», e é a Madalena, que trabalha comigo, quem dá por ele e me avisa (os designers das capas também o deixam passar frequentemente). No entanto, um destes dias, à procura de um livro de determinado autor na estante, verifiquei que, para as lombadas se poderem ler todas na mesma direcção, muitos dos volumes estavam, literalmente, de costas para mim… Além disso, como pessoa baixa que sou, habituei-me a ler de baixo para cima. Porque é que não deixaram as coisas como estavam?

17
Set10

Auto-ajuda

Maria do Rosário Pedreira

Sempre me intrigaram os chamados livros de auto-ajuda; das muitas vezes que estive deprimida, triste, com um tédio profundo e por aí além, preferi sempre a ajuda dos outros à auto-ajuda. E li, claro, livros que me ajudaram a esquecer a neura, mas eram sobretudo obras de ficção e poesia. Não era claro para mim como podia alguém acreditar que, só por ler os conselhos de um suposto especialista, curava as mágoas e afins; e tinha dificuldade em compreender porque faziam tanto sucesso alguns títulos e autores. Até que, quando estava na Temas e Debates e editávamos parte do catálogo da editora Rocco do Brasil, veio parar às minhas mãos uma série de livros intitulada «Marte & Vénus», de John Gray (um tipo com carinha de parvo que dedicava todos os livros a «Bonnie, my wife»), cujo primeiro volume, Os Homens São de Marte, as Mulheres de Vénus, esteve 259 semanas seguidas no Top Ten da New York Times Review of Books. E então percebi que este género não faz mais do que repetir e registar todas as coisas que toda a gente sabe, mas pensou que não tinham passado pela cabeça de mais ninguém (por exemplo: que, quando preocupados, os homens preferem ficar calados e as mulheres desabafar). É numa espécie de identificação com o leitor comum, que se sente menos só nas suas cismas e descobre que, afinal, não é burro porque os «especialistas» pensam exactamente como ele, que me parece residir o segredo do sucesso. Eu continuarei a preferir os amigos, os outros livros e até, se for preciso, os psiquiatras…

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