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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Set10

Gaffes

Maria do Rosário Pedreira

Quase toda a gente conhece a gaffe de Santana Lopes (ou do seu assessor) ao pedir que agradecessem a Machado de Assis a oferta de um exemplar do Dom Casmurro (um romance delicioso) que lhe tinham enviado. Mas não é a única. Sei de várias histórias em que jornalistas pediram entrevistas a escritores mortos – e alguns destes jornalistas não eram estagiários, mas pessoas conhecidas e reputadas, que assinavam crónicas em jornais diários e apresentavam programas na televisão. Das que ouvi não posso jurar se são ou não verdadeiras; mas nunca me esquecerei de, no ano em que Portugal foi país convidado da Feira de Frankfurt, uma senhora alemã ter pedido uma entrevista com António Vieira. Pensámos que se tratava do etólogo e psiquiatra António Bracinha Vieira, que também é ficcionista. Mas não: a senhora queria mesmo encontrar-se com o defunto autor dos Sermões e outra obra vasta e maravilhosa. Como não organizávamos sessões espíritas, não foi possível…

14
Set10

O silêncio é de ouro

Maria do Rosário Pedreira

Joaquim Manuel Magalhães – o poeta que, infelizmente, resolveu retalhar a sua obra há pouco tempo, reduzindo-a a quase nada – foi meu professor na Faculdade de Letras durante três anos. Era, digam o que disserem, um excelente professor, com uma cultura abrangente e uma grande capacidade de fazer com que os alunos reconhecessem e gostassem de coisas boas (não só literárias). Esses anos de universidade foram muito sacudidos por greves e, volta não volta, os transportes resolviam parar todos ao mesmo tempo e os professores decretavam que não havia aulas (umas coisas arrastavam outras, mas, mesmo com greves, ninguém ficava por ensinar). No entanto, Joaquim Manuel Magalhães, já um pouco farto de interrupções no programa, quando uma nova greve se anunciou disse que tinha carro e que, por isso, viria dar aulas a quem aparecesse. Apareceram seis pessoas, as que viviam perto e podiam ir a pé. Claro que não tivemos aula, estivemos apenas a conversar sobre o que cada um andava a ler. Recordo que, na altura, eu lia, fascinada, O Silêncio, de Teolinda Gersão, que fora professora de Joaquim Manuel Magalhães (e é autora de vários livros notáveis e, quanto a mim, bastante subestimada pelos leitores portugueses). Foi por causa deste pequeno romance tão profundo e bonito que o professor me emprestou o meu primeiro livro de Duras (Moderato Cantabile, numa edição de bolso em francês), fazendo-me descobrir uma autora de quem nunca mais me separei. Mas não é só por isso que O Silêncio merece destaque. Recomendo-o vivamente a todos – calados ou faladores.

13
Set10

Já falta pouco

Maria do Rosário Pedreira

Miguel Real é o autor que há mais tempo me acompanha, pois, nas minhas mudanças de uma editora para outra, fui perdendo alguns autores pelo caminho – com grande pena minha, evidentemente; não só porque gosto deles como pessoas, mas porque, tendo feito a parte mais difícil em termos profissionais, que foi lançá-los como escritores quando ninguém sabia quem eram, me custou que fossem outros a aproveitar-se do seu sucesso. Miguel Real, porém, encontra-se entre aqueles que ficaram comigo e conta com a minha gratidão eterna. O seu próximo livro – As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia – está quase a sair (julgo que as livrarias o terão no dia 27) e, embora não traia o título e inclua mesmo as memórias da mulher de D. Carlos (fictícias, evidentemente), tem uma descrição do 25 de Abril que é dos capítulos mais fortes e surpreendentes da literatura portuguesa. Intitula-se «Um Rasgão no Tempo» e quem passou pela revolução não pode ficar indiferente (nem deixar de entender com a própria carne) esta descrição-consequência dos factos ocorridos naquele dia, numa espécie de enumeração interminável de altos e baixos entrançados de forma belíssima. Este episódio é, de resto, o ponto partida para a descoberta de um manuscrito com as memórias da rainha – «a francesa», como os Portugueses lhe chamavam – mas pode ser lido de forma independente pela sua intensidade.

 

11
Set10

Receios nenhuns

Maria do Rosário Pedreira

No seu blogue A Origem das Espécies, Francisco José Viegas responde ao meu post anterior, garantindo que os meus receios não têm razão de ser. Agradeço-lhe muito. Antes assim. Não quero ninguém zangado por minha causa.

10
Set10

Receios

Maria do Rosário Pedreira

Quando a gigante Porto Editora comprou o grupo Bertrand + Círculo de Leitores, houve muitas coisas que me preocuparam (até porque trabalho na concorrência, e o Manel trabalha na Porto Editora). Duas, porém, foram imediatas. A primeira tem que ver com o Prémio Literário José Saramago, atribuído a um romance em língua portuguesa publicado nos dois anos anteriores e assinado por um autor com menos de trinta e cinco anos. Quererá a partir daqui o grupo Porto Editora dar um prémio a um livro que, muito provavelmente, é de um concorrente? Pois não sei. Fazer desaparecer o Prémio Literário José Saramago, sobretudo depois da morte do Nobel português, seria, mais do que um acto de mau gosto, uma verdadeira afronta; mas, nos meus piores momentos, enceno a situação de o galardão passar a contemplar um inédito (e não um livro editado) que possa posteriormente integrar o catálogo de uma das editoras do grupo. Veremos. A outra preocupação prende-se com a revista Ler. Num país como o nosso, onde não há praticamente publicações literárias, seria uma machadada fortíssima acabar com ela, mas também acredito que os magros lucros que se calhar dá falem mais alto e dêem o golpe de misericórdia. A mim, que a leio desde o número zero, custa-me que desapareça. Mas também se diz por aí que o seu director é um dos nomes falados para a Cultura se o PSD ganhar as próximas eleições e o facto de ele ter estado na Universidade de Verão dos sociais-democratas pode ser um sinal de que não se trata apenas de um boato. Sem ele, a Ler seria a mesma coisa?

09
Set10

Simpatias

Maria do Rosário Pedreira

Nem sempre fiz exactamente o que gostava de fazer e nunca trabalhei nas editoras que eram os meus modelos antes de me iniciar no mundo editorial. Vinha de Letras e comecei a actividade numa editora conhecida e reconhecida justamente pela publicação de obras de divulgação científica e, embora tivesse adorado tudo o que lá aprendi (e foram nove anos), achava, na época, que seria muito mais feliz numa Assírio & Alvim, que publicava quase todos os livros de poesia que eu comprava e logo devorava. Criamos naturalmente simpatias por algumas editoras e antipatia por outras; e, neste momento, quero dizer que sinto uma grande simpatia-empatia pela Tinta-da-China, que não só faz livros bons, mas fá-los bonitos. Já tive ocasião, há mais de um ano, de ir a um programa de televisão elogiar a colecção de viagens dirigida pelo grande jornalista Carlos Vaz Marques. E, apesar de nessa altura ela só contar dois ou três títulos, a verdade é que não perdeu o pé e soube enriquecer-se com variedade e qualidade sempre que pôs nos escaparates um novo livro. Infelizmente, não consegui lê-los a todos e, dos lidos, continuo a preferir Na Pérsia, de Anne-Marie Schwarzenbach – viagem pela Pérsia que é também viagem interior belíssima e triste. Recentemente, porém, o Manel comprou (e está a ler) o Na Síria, de Agatha Christie, sobre o qual não escondo a minha grande curiosidade. Mas há que saber esperar, como noutras coisas da vida.

08
Set10

Traduzir o amor

Maria do Rosário Pedreira

Gosto de que pessoas em quem confio me aconselhem leituras e já aqui confidenciei que o meu romance de férias (um romance de peso, com mais de 500 páginas) me foi aconselhado por Ricardo Menéndez Salmón, autor de, entre outros, A Ofensa. Chama-se O Viajante do Século e assina-o um jovem argentino que dá pelo nome de Andrés Neuman. Costumo fugir dos romances extensos por pensar que, no mesmo tempo que preciso para um deles, posso despachar dois ou três. Mas, neste caso, não há arrependimento possível, pois trata-se de um dos melhores livros que li nos últimos tempos. De argentino, porém, não tem absolutamente nada; quando já tinha devorado cinquenta páginas, sentia-me a ler uma tradução de um autor checo ou alemão e, mais para a frente, nas cenas das tertúlias literárias (e não só), cheias de diálogos e pensamentos surpreendentemente ricos, pareceu-me até que podia estar metida num romance russo (mesmo que os russos tratem as mulheres de forma bastante diferente). Este viajante do século (Hans, um tradutor que trabalha enquanto viaja em pleno século XIX) chega a uma cidade donde, surpreendentemente, não consegue sair. Há várias razões que concorrem para essa impossibilidade, mas a mais tardia é a sua paixão arrebatadora por Sophie – uma personagem inesquecível que, tenho a certeza, faria as delícias de muitas feministas. A relação dos dois (carnal e literária) é dos episódios mais inventivos e poderosos que me passaram pelas mãos, pois os dois traduzem corpo e literatura ao mesmo tempo, sem nenhuma das actividades perder com a outra. Inteligente, culto e deslumbrante, este romance de grande fôlego é uma prova de que os jovens autores são capazes dos maiores feitos literários.

07
Set10

Pela boca morre o peixe

Maria do Rosário Pedreira

Tive o prazer, enquanto editora, de inaugurar o Fórum da FNAC Chiado com um lançamento. E nunca vi tantas cabeças voltarem-se quando, pouco antes do evento, a autora do romance quis ir à casa de banho e atravessou os antigos Armazéns do Chiado perseguida por um sem-número de olhares gulosos. Tinha quase um metro e oitenta, era bonita, chique e – pasme-se – de grande timidez e simplicidade. Chamava-se Carmen Posadas, ficara viúva havia menos de duas semanas e disse-me algum tempo depois que a viagem a Portugal fizera milagres pela sua disposição. Pela nossa boa-disposição fez também milagres o seu romance – Pequenas Infâmias – que era o segundo que escrevia e arrebatara naquele mesmo ano o Prémio Planeta. Tudo começa com um cozinheiro guloso, que não resiste a meter-se ao fim da noite na sua arca frigorífica para provar as magníficas trufas de chocolate que confeccionou umas horas antes e, zás, é lá encontrado enregelado e hirto na manhã seguinte. Quem matou o simpático chef e porquê? Pois bem, para isso será preciso ler este romance divertido, cheio de personagens deliciosas, onde – como em qualquer cozinha que se preze – também não faltam baratas, o que, em literatura, nem incomoda assim tanto.