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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Set10

O livro dos mortos

Maria do Rosário Pedreira

A extensa obra de um autor tem sempre momentos menores, mas um bom número de livros publicados ajuda qualquer escritor a consolidar uma carreira. Estranho é que alguém que escreveu quase nada sobreviva ao tempo e sirva de modelo a tantos outros. Este foi, pode dizer-se, o caso de Juan Rulfo, autor mexicano de umas meras trezentas páginas que comoveram, influenciaram e deslumbraram os seus confrades, de Borges a García Márquez, de Onetti a Neruda. Diz-se até que foi ele o pai do «realismo mágico» com o seu magnífico Pedro Páramo – um desses romances em que, por atropelos constantes da vida, só agora pude pousar os olhos (e deixá-los lá). Mas nunca é tarde para milagres. O princípio do livro é tão intenso que – tenho a certeza – nunca o esquecerei; e empurra-nos literalmente para a leitura de centena e meia de páginas tão desconcertantes que uma vez por outra até voltei atrás, convencida de que talvez tivesse estado distraída por segundos. Porém, o magnetismo depressa me devolveu à obra, onde os mortos ratam na vida alheia, são tão bisbilhoteiros e maledicentes como eram em vida e quase nunca perdoam a Pedro Páramo – o homem de quem o narrador vai à procura depois de saber que é o seu próprio pai. Um livro sem «senãos», excepto, talvez, o texto da badana chamar sul-americano a alguém que nasceu no México…

03
Set10

A rever e a aprender

Maria do Rosário Pedreira

Tenho uma grande admiração pelos bons revisores e cada vez encontro menos pessoas capazes de fazer uma boa revisão em todos os sentidos. Conheci revisores que descobriam todas as distracções dos autores (um deles, recordo, emendou uma conta mal feita a Pacheco Pereira na biografia de Cunhal) mas deixavam ir uma nota de rodapé três páginas adiante da respectiva chamada; trabalhei com outros que tomavam o texto como entidade abstracta e o reviam na perfeição gramaticalmente, mas deixavam passar todos os disparates (Maio de 86 por Maio de 68!) desde que a frase estivesse correcta (um deles entregava o livro revisto sem ter a mais pequena noção da história que ele contava); e encontrei pelo menos dois que adoravam apontar erros de palmatória a professores universitários ou achincalhar escritores (gente muito frustrada, evidentemente). Sempre houve de tudo… e até revisores bastante ignorantes. O meu pai contava que, quando era estudante de Direito, um dos seus professores (Manuel de Andrade, julgo) se queixava de que um dos revisores dos seus livros tinha a mania de alterar coisas por mero desconhecimento e que, uma vez, já farto disso, a seguir a uma frase que falava de um facto que tinha sido demonstrado à saciedade, não resistiu a escrever: «À besta do revisor: é mesmo saciedade, e não sociedade, hã?» Bom mesmo é quando não damos pelo revisor quando lemos um texto…

02
Set10

Inveja

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, uma das leitoras deste blogue criticou o meu orgulho parvo ao confessar-me capaz de ler mais de mil páginas em quinze dias. Expliquei-lhe que não era bem isso, mas apenas satisfação por ter conseguido fintar o trabalho e ler só o que me apetecia nessas duas semanas. Contudo, quero que ela saiba (e também todos os leitores deste blogue) que não sou perfeita e, como toda a gente, tenho direito aos meus defeitos e pecados. Por exemplo, de vez em quando, sinto inveja – essa coisa sinistra – do que os outros andam a ler. Quando o Manel e eu vamos a uma livraria e compramos um livro que nos seduz a ambos, se ele começa primeiro, eu fico invejosa; não lho digo, mas gostava de o apressar e irrito-me quando ele abandona displicentemente o exemplar no braço do sofá para ver os resumos do futebol, enquanto eu para ali fico, como diz o povo, a aguar. Da última vez que isto me sucedeu foi com o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo. Era suficientemente pequeno para o poder ler todo num sábado, mas o Manel pegou-lhe nesse mesmo sábado. Fiquei invejosa. O livro tinha um início fortíssimo, que lera na livraria, e custou-me esperar. Levei-o uns dias depois numa viagem de comboio ao Porto e li-o entre a ida e a volta. É talvez o primeiro livro sincero e desapiedado sobre os nossos ex-colonos em África, contado pela filha de um deles. Politicamente incorrecto, claro, mas isso torna-o ainda mais interessante. A ler, evidentemente.

01
Set10

A música da fome

Maria do Rosário Pedreira

Prometi a mim mesma ler, durante as férias, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller. Ninguém ganha o Nobel da Literatura por acaso e sentia-me verdadeiramente ignorante por nunca ter lido nada desta vencedora nem ter ouvido falar dela até à atribuição do prémio. Mas Portugal tem destas coisas e, embora sejamos bastante proficientes em termos de línguas estrangeiras, a verdade é que parecemos capazes de traduzir apenas do inglês, do castelhano e ainda (mas cada vez menos) do francês. A literatura de língua alemã contemporânea é, pois, uma perfeita desconhecida para nós – e isso justifica, embora apenas em parte (porque havia, afinal, alguma coisa traduzida), o meu completo desconhecimento desta senhora. Perdão: desta Senhora, com maiúscula, porque basta ler este romance para perceber que estamos diante de uma escritora notável. Ela conta, de uma forma belíssima e horrível ao mesmo tempo (se tem estômago de princesa, é melhor nem se atrever a esta maravilha), a permanência de um jovem durante cinco anos num campo de trabalho na União Soviética. Um jovem de dezassete anos que acaba de descobrir a sua homossexualidade e parte para um castigo que não merece, achando até que lhe fará bem distanciar-se da família e do seu pequeno mundo. Um jovem alemão que tem o azar de morar numa Roménia que capitulou perante a Rússia e declarou intempestivamente guerra à Alemanha e que é levado, como milhares de conterrâneos, a pagar uma factura que não deve. Tudo o que tem leva consigo, é certo, mas o que encontra nesses cinco anos é apenas fome, uma fome que nunca passa e se torna o tema recorrente de uma narrativa poética avassaladora. O livro podia, inclusivamente, intitular-se (como o romance do Nobel de 2008, Le Clézio) A Música da Fome – que também é muito belo, mas chega mais tarde ao corpo e ao coração. E, baseado no testemunho de um sobrevivente que a autora acompanhou ao longo de vários anos, fornece uma informação preciosa que muitos de nós desconhecemos e que é preciso sabermos para que não se repita.

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