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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Nov10

Afinal, havia outra

Maria do Rosário Pedreira

Há uns dias, referi uma agenda perpétua recentemente publicada pela Babel que oferecia um verso por dia a quem quisesse usá-la na secretária ao longo do próximo ano (ou de outro qualquer). Alguém comentou – e muito bem – que o Poemário da Assírio & Alvim, pioneiro nesta matéria, servia os mesmos objectivos e, pouco depois, descobri que, em termos de agendas poéticas, afinal ainda existia outra, editada pela Dom Quixote. Chama-se Todos os Dias Felizes e, em relação às já citadas, tem a vantagem de se poder trazer na carteira, pois é fininha e maleável; além disso, tem espaço para telefones e moradas, umas quantas páginas para nos recordar dos aniversários mais importantes e ainda umas folhas de linhas no fim para escrevermos o que nos der na gana. E, claro, excertos de poemas portugueses. Por isso, se gosta de poesia, tem várias opções para passar o ano bem acompanhado.

 

29
Nov10

Uma correcção

Maria do Rosário Pedreira

Para os que não lêem os comentários: depois do meu post de quinta-feira, que desencadeou muitas reacções de indignação, uma funcionária da Livraria Bertrand esclareceu que podemos ir pôr no livrão livros infantis não comprados naquela cadeia desde que sejam novos. Tenho pena de que o anúncio que mencionei não o dissesse, mas fico obviamente contente que assim seja.

29
Nov10

Humor britânico

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que os ilhéus são muito diferentes dos continentais e que possuem características próprias. No caso dos Ingleses, é sabido que o humor constitui, de facto, uma das suas marcas distintivas (há umas semanas, ouvi até Pedro Mexia dizer na rádio que mais nenhum país se atreveria, como fez o Reino Unido, a dar um prémio como o Booker a uma comédia). Uma das séries de livros mais divertidas que encontrei até hoje – e que de modo algum poderia ser escrita senão pelos nossos velhos aliados – chama-se The Bluffer’s Guides e veio parar-me à mão há muito tempo, quando os jornais começavam a vender ou oferecer livros e a editora onde eu então trabalhava cuidou da produção de uma dúzia de títulos (tradução revisão, grafismo, capas, etc.) para esse fim. Não sei se o título que se arranjou na altura para a colecção (O Especialista Instantâneo) vingou, se permaneceu o original, mas ri-me a bandeiras despregadas com a ideia geral e cada um dos volumes. Tratava-se, afinal, de aprendermos o suficiente sobre um assunto de maneira a tornarmo-nos especialistas instantâneos e não fazermos feio num encontro de entendidos. A forma de o ensinar era, porém, hilariante, deixando-nos alegres com a aprendizagem, mais cultos do que antes e, mesmo assim, com a sensação de que tudo aquilo que líamos não passava do mais despudorado conjunto de mentiras... Agora, com as livrarias todas do mundo à distância de um clic nas teclas do computador, pode divertir-se muito com estes guias de temas tão variados como sexo, marketing, economia, filosofia, surf, James Bond, mulheres, Idade Média ou música. E, se nunca foi a Paris, experimente ler o correspondente Bluffer’s Guide e arrote postas de pescada junto dos que se julgam experts na cidade do charme.

26
Nov10

Veneza e Varanasi

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, fui jantar com um amigo a um restaurante entre o Terreiro do Paço e Santa Apolónia que tinha uma particularidade: servia comida indiana e italiana (e não outras). Nunca vira as duas cozinhas associadas em restaurante algum, nem consegui destrinçar por que motivo o proprietário tomara aquela estranha decisão de alimentar os clientes com duas gastronomias tão diferentes. Ignoro se o restaurante ainda lá está, mas o livro de que falarei hoje tem, curiosamente, como cenários a Itália e a Índia. Chama-se Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, escreveu-o Geoff Dyer, e li-o há talvez dois anos em inglês, ainda em versão PDF, mas sei que foi entretanto publicado em Portugal. A primeira parte, que decorre em Veneza, é a história de um daqueles encontros desiguais entre um homem e uma mulher: o homem tímido e discreto, nada good looking, para quem a coisa mais improvável do mundo é ter na sua cama durante os dias que dura uma bienal de arte em Veneza uma mulher que toda a gente aspiraria a ter nos braços. Para ele, é a história de amor da sua vida; para ela um intermezzo fogoso mas aparentemente inconsequente. A descrição é arrebatadora e arrasta-nos ao longo das páginas, desejosos de mais. Eppure, depois da despedida italiana, uma cortina atira-nos o homem para a Índia, mais exactamente para a cidade santa de Varanasi, num estado de declínio que não conseguimos atingir (há que esperar até ao final do livro para saber), perguntando-nos mil vezes se a mulher ali aparecerá para o salvar. Mais espiritual e escura, esta segunda parte irá esclarecer-nos sobre as reais consequências da experiência amorosa e o inescapável destino dos protagonistas. Escrito com dois ritmos inteiramente diferentes, tem uma estrutura bastante original e serve de aviso aos que – passe o paradoxo – se atiram, sem rede, para as redes da paixão.

 

25
Nov10

Armados em bons

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, chamou-me a atenção um anúncio de página inteira com um ar pré-natalício publicado num suplemento cultural de um jornal diário. Tratava-se de uma campanha aparentemente a favor das crianças que não têm dinheiro para comprar livros e apelava ao nosso sentido de generosidade, caridade ou dever, propondo-nos que comprássemos um livro para essas crianças e o depositássemos num «livrão» – recipiente donde, em Dezembro, os livros seriam retirados e entregues a crianças de determinada instituição. Assim, à primeira vista, uma ideia louvável, claro; eu até tenho em casa muitos livros infantis repetidos ou dispensáveis que não me importaria de ir pôr no dito livrão – e também não me escusaria a comprar mais um ou dois nesse espírito de missão que se traduz em dar livros a quem quer mas não pode ler. O anúncio era, porém, de uma conhecida cadeia de livrarias portuguesa e, no livrão, afinal só podem colocar-se livrinhos acabados de comprar em qualquer das suas lojas... Sim, leu bem. Um negócio para a respectiva livraria, claro, mas disfarçado de acto beneficente... Sem contar com o custo do anúncio – que não se pode desdenhar em tempos de crise – e, provavelmente, da construção de livrões vários, tudo o mais é lucro limpo e sem osso. Nunca gostei muito dos que se armam em bons...

24
Nov10

Alisto-me

Maria do Rosário Pedreira

João Pombeiro – jornalista e editor – acaba de publicar um livro que é uma delícia e nunca se esgota, podendo ser quase infinitamente consultado. Chama-se O Livro das Listas e tem o curioso subtítulo Tudo o que sempre quis saber e não tem medo de perguntar. Alguns dirão que não serve exactamente para nada, mas a verdade é que se perde tanto tempo entre as nossas mãos que, pelo menos, nos afasta de livros maus ou outros trabalhos menos dignos e interessantes. E está cheio de informações divertidas, surpreendentes, originais (algumas listas são elaboradas por colaboradores como João Miguel Tavares, Pedro Vieira, João Tordo ou Salvato Telles de Meneses) e estapafúrdias. Falemos, por exemplo, dos 7 livros para deixar a bebida sem recorrer aos Alcoólicos Anónimos, dos 5 excertos de livros infantis que podiam ter traumatizado centenas de crianças, dos 12 produtos de uma despensa portuguesa de há cinquenta anos, dos 18 insultos para usar no dia-a-dia, dos 13 pedidos impossíveis de satisfazer numa livraria portuguesa, para além, claro, das goleadas deste ou daquele clube, dos carros ou discos mais vendidos em determinado dia ou ano e dos ciclistas que tiveram mais vezes a camisola amarela junto à pele. Mas a melhor lista de todas é, sem dúvida, a das 15 teses de mestrado e doutoramento sobre... o tremoço! A capa do livro, igualmente bem-disposta, mostra-se abaixo.

 

23
Nov10

Obrigada, obrigada

Maria do Rosário Pedreira

Hoje sinto-me um pouco como Amália a agradecer os aplausos depois de um fado. O Horas Extraordinárias fez seis meses e recebi as felicitações de um… Sapo. Mas estas felicitações dadas à «princesa» devem-se mais a quem consulta e lê do que a quem escreve e, por isso, quero agradecer a todos os que, desse lado – comentando ou em silêncio –, me têm feito companhia ao longo deste primeiro semestre e, sobretudo, me têm feito sentir que vale a pena estar na blogosfera. Não sei se estou a exagerar, mas os números parecem-me extraordinários, como convém a um blogue com este nome: houve mais de 100 000 visualizações e, pasme-se, os «leitores» vieram de 73 países. Cerca de 20% dos acessos fez-se de forma directa – o que quer dizer que já há visitas que vêm a esta casa antes de irem a outras – e cerca de 70% dos visitantes chegaram aqui através de blogues e sítios de referência (obrigada, amigos bloguistas). Os novos leitores também não param de aparecer – e mais de metade vem do Brasil, o que me deixa muito feliz, uma vez que me interessa mais o grande espaço lusófono do que o Portugal pequenino. Por tudo, muito obrigada. Espero contar convosco neste segundo semestre que agora começa.

22
Nov10

Um ano de poesia

Maria do Rosário Pedreira

Há uns meses, pediram-me da Babel uns cinco versos de poemas meus para incluírem numa agenda que publicaram recentemente na sua colecção K4. Quem gosta de poesia pode, pois, orientar o próximo ano por esta agenda tão bonita e maneirinha, que fica bem em qualquer secretária e iluminará quem nela queira registar os seus afazeres com um verso por dia. Chama-se Dou-te Um Verso e tem um design bonito (faz pena escrever nela, mas para o ano há mais, uma vez que se trata de uma agenda intemporal que pode ser vendida eternamente). Inicia-se com um verso de Cesariny e vai por aí fora, citando imensos poetas, dos mais aos menos conhecidos, dos mortos aos vivos, dos consagrados aos mais jovens, até terminar... outra vez com Cesariny. No fim, lista os poetas participantes e oferece calendários até 2013. É baratinha (à roda dos 7,50 Euros) e dá um belíssimo presente de Natal.

 

 

19
Nov10

Fugir de nós

Maria do Rosário Pedreira

Um dos filmes que mais me marcaram foi o belíssimo Na América, de Jim Sheridan, no qual um casal irlandês a quem morreu um filho parte com as duas filhas vivas (excelentes actrizes de palmo e meio) para os Estados Unidos, em busca de uma vida que os redima dessa terrível morte que não teriam podido evitar. Não sei bem porquê – embora, evidentemente, haja pontos de contacto –, mas há um livro que estará para sempre associado na minha mente a esse filme doloroso e magnífico. Chama-se E Então Fomos Embora e foi escrito no dealbar deste século por Michael Kimball, a quem a crítica chamou, sem hesitações, “o sucessor de Faulkner”. Não deixando de ser absolutamente pungente no relato que faz da vida de uma família que atravessa a América com o caixão de um bebé (e o bebé lá dentro, claro) a caminho de um lugar digno para o sepultar, consegue escapar sei lá por que artes ao melodrama e à lamechice tão típicos do cinema americano de grande audiência. Descrevendo uma cidade atrás da outra através dos olhos de duas crianças que assistem ao desmoronamento dos pais e à perda total de bens e força para os conquistar ao longo do percurso, além de constituir um guia de viagem realista do interior dos Estados Unidos (que é, habitualmente, a parte que desconhecemos daquele país), transforma as maiores e mais penosas contrariedades em factos que as crianças, por serem crianças, aceitam com a maior das naturalidades. Na linha de Faulkner e Steinbeck, este é um livro de um autor a quem se deve prestar atenção, desde que os leitores tenham bons estômagos.

18
Nov10

Chocolate, um aviso

Maria do Rosário Pedreira

Hoje estarei no lançamento de um livro para o qual participei com um conto. É um livro de contos de mulheres à volta do chocolate para saborear num domingo à tarde – dia em que há tempo para experimentar receitas novas, porque cada conto inclui uma receita. Chama-se Chocolate – Histórias para Ler e Chorar por Mais e tem um design maravilhoso e suculento de Maria Manuel Lacerda. Em algumas livrarias, é vendido numa caixa com forminhas de silicone – coisa para mulher que gosta de pôr a mão na massa, como é bom de ver. Como não sou grande apreciadora de chocolate (gosto, mas quase não consumo), achei graça ser convidada – e aceitei com gosto até pela estranheza; e, como sou péssima cozinheira (o meu primeiro bolo ferveu em vez de cozer no forno), resolvi escrever justamente uma história sobre uma cozinheira exímia e os seus cursos de Culinária. Mas o que quero com este post não é fazer publicidade, mas tão-só avisar as eventuais leitoras de que não devem experimentar nenhuma das receitas da minha protagonista: são coisas inventadas para uma ficção, e não para a realidade, e podem dar mau resultado. A receita final, sim, é verdadeira – e fazia-a quando era criança por ser muito simples; mas, para quem gosta de cozinhar a sério – e de chocolate –, o melhor é ver o que produziram as restantes autoras (Alice Vieira, Catarina Fonseca, Isabel Zambujal, Leonor Xavier e Rita Ferro): em texto e em culinária.

 

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