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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Nov10

Desporto em português

Maria do Rosário Pedreira

Divirto-me há anos a coleccionar «preciosidades» em língua portuguesa, melhor dizendo, calinadas fantásticas que fazem rir até às lágrimas; e troco-as todos os anos na Póvoa de Varzim, nas Correntes d’Escritas, com o Henrique Cayatte, que tem o mesmo passatempo e, embora viva em Lisboa, eu quase só o veja por lá. Tenho uma lista fantástica que juro partilhar aqui à medida que me faltarem ideias para o blogue, mas algumas das melhores saíram da boca de gente ligada ao desporto, cuja linguagem específica está, ela própria, carregada de vocábulos fascinantes como «esférico» para «bola», ou frases inesquecíveis como a que diz que «não se fazem prognósticos antes do jogo». Um dia, depois de ao fim de uma qualquer etapa da Volta a Portugal um jovem ciclista ter vestido a camisola amarela, correram a pôr-lhe o microfone debaixo do nariz; e a primeira coisa que ele soltou cá para fora foi um agradecimento sentido a todos os que tinham trabalhado «em prólogo» da sua vitória. Também o futebolista Jardel, por causa de uma qualquer pergunta incómoda que já não recordo, avançou com um ar muito sério que aquilo era «uma faca de dois legumes». E, depois de ter elogiado cem vezes uma determinada égua num concurso hípico e de a ter visto falhar logo o primeiro obstáculo, o senhor que cobria o acontecimento não arranjou nada melhor para dizer do que «era humanamente impossível ao cavalo» saltar aquela altura...

04
Nov10

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Maria do Rosário Pedreira

O João Tordo vai orientar um workshop de escrita de romance. Se se interessar por estas coisas, aí vai a informação.

 

04
Nov10

Sem palavras

Maria do Rosário Pedreira

A poesia é, quanto a mim, muito mais do que as palavras que contém. Se quisesse ser apressada – e agora dá-me jeito sê-lo – diria que, comparada com a prosa, a poesia diz normalmente mais com menos. Claro que nem toda a poesia é assim e nem toda a prosa é assado, mas há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos. Pode parecer estranho, bem sei, mas refiro-me a uma experiência única que vivi em Liège, num festival de poesia, na companhia do poeta José Tolentino de Mendonça (tenho, por isso, testemunhas). Estávamos já um bocado entediados com tanto discurso (era no tempo da guerra na Bósnia e toda a gente politizara as suas intervenções) e só nos apetecia sair do auditório e ir dar uma vista de olhos às livrarias (o conselheiro cultural, contudo, achou que não devíamos). Eis se não quando sobe ao palco um poeta da Eritreia – alto, magro, bonito, com modos de bailarino e gestos largos – e começa a ler um dos seus longos poemas. Mesmo sem percebermos uma palavra do que estava a dizer, o espectáculo foi tão mágico e electrizante que sentimos que o essencial daquele poema tinha passado para nós e para todos os que o ouviam. O feitiço da poesia na voz de um feiticeiro africano. Nas sessões de lançamento de romances, quando alguém se lembra de ler um capítulo em voz alta, quase sempre o público desliga ao fim de uns minutos. Porque será?

03
Nov10

Uma questão de pronúncia

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, falei aqui de uma espécie de abismo que se criou entre o português de Portugal e o português do Brasil numa situação que vivi no Rio de Janeiro. Todos os países lusófonos têm (e ainda bem) particularidades – e uma delas é a pronúncia (o Manel, que esteve dois anos em Angola nos anos 70, diz que distingue perfeitamente um angolano de qualquer outro africano lusófono quando ele abre a boca para dizer seja o que for). Contudo, esta «pronúncia» ou «maneira de falar» pode dar resultados bastante divertidos. Fui em 1995 a São Tomé e Príncipe fazer uma comunicação sobre autobiografias e descobri, nessa semana, coisas belíssimas (a expressão «leve-leve» para «molenga», por exemplo) e outras curiosas (a uma pergunta do tipo «Já arrumou a sua mala?», a resposta é apenas «Ainda» se houver roupa por arrumar, quando nós diríamos «Ainda não»; disseram-me que o «não» se omite porque, no tempo do império, os negros nunca podiam dizer «não» aos patrões brancos – calculem! – e o hábito foi ficando). Mas houve um noticiário a que assisti uma noite no restaurante do hotel quase hilariante. A data era justamente 25 de Abril, e o jornalista, enquanto mostravam imagens de festa em Lisboa – creio que junto à Fonte Luminosa –, relatava que, naquele mesmo dia, em Portugal, se comemorava a revolução dos... escravos. À mesa só havia portugueses e acabámos todos a perguntar-nos se não havia naquela notícia um fundo de razão...

02
Nov10

Guionismo

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, tive um brevíssimo encontro com o conhecido dono de uma produtora de cinema e televisão; no meio da conversa, ele avançou que em Portugal não se escrevem bons guiões e que conta muitas vezes com profissionais brasileiros, espanhóis e americanos para conseguir um argumento bem construído e realista. Claro que só começámos a produzir séries e novelas há uns dez anos, pelo que é natural que ainda não tenhamos chegado ao nível dos argumentistas de Hollywood; mesmo assim, haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados. Em todo o caso, a minha experiência com a leitura de guiões é confrangedora. Depois de me terem proposto fazer a adaptação televisiva de uma série juvenil que escrevi nos anos 90, aceitei com a condição de ler os guiões. Comecei por me escandalizar com o número de erros de ortografia, sobretudo porque os actores eram crianças e iriam ficar certamente cheios de dúvidas (lembro-me de que uma das guionistas não sabia a diferença entre “coro” e “couro”, por exemplo); mas o que mais me chocou foi a completa falta de imaginação (como era preciso haver cenas de suspense – que não estavam nos livros –, em todos os episódios as personagens ficavam fechadas num sítio qualquer, nunca variava) e a incapacidade para perceber que a oralidade e a escrita são coisas completamente diferentes: as frases que as crianças tinham de decorar às vezes pareciam saídas de um compêndio. Como se isso não bastasse, numa história que incluía duas gémeas brasileiras, vi-as transformadas em francesas sem saber porquê. Quando perguntei, explicaram-me que no canal que transmitiria a série havia a regra de ninguém falar com sotaque brasileiro, porque as novelas brasileiras passavam no canal rival... Enfim, depois da duríssima revisão de 26 episódios, percebi que, de facto, é preciso abrir os cordões à bolsa e contratar profissionais em vez de pôr a miudagem a ganhar uns cobres e escrever não importa o quê.

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