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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Dez10

Uma espécie em extinção

Maria do Rosário Pedreira

Comecei a trabalhar na edição em 1987, quando o mundo dos livros era muito mais intelectual do que hoje e a capacidade de fazer negócio vendendo livros parecia até coisa secundária. Embora tenha havido aspectos positivos na grande transformação sofrida – a edição é hoje uma indústria cultural de grande peso para o País –, a verdade é que sinto que as editoras ainda estão de certo modo a viver do génio e das ideias dos editores que fizeram as grandes chancelas e se afastaram, foram afastados ou passaram de proprietários a assalariados de grandes grupos nacionais ou multinacionais (excepcionalmente, tornaram-se editores por conta própria e fazem uma preciosidade de vez em quando, mas pouco mais). Foi certamente a observá-los que aprendi quase tudo o que sei. Eles não se limitaram a importar sucessos do estrangeiro ou a convidar as meninas bonitas da televisão a escrever romances xaroposos: construíram colecções e linhas editoriais que ainda permanecem, recuperaram clássicos esquecidos, formaram gerações inteiras com as obras que deram à estampa, encomendaram livros a personalidades de indiscutível renome em várias áreas do conhecimento e trouxeram-nos autores que estão hoje entre os maiores da literatura mundial. E, porém, mesmo que alguns deles ainda trabalhem – e bem –, fico um pouco assustada quando vejo o tempo a passar e me rendo à evidência de que, daqui a dez anos, se calhar já não verei por aí o Zeferino Coelho, o Carlos Veiga Ferreira, a Maria da Piedade Ferreira, o Carlos Araújo, o Nélson de Matos... mesmo o Guilherme Valente, com o seu estranho feitio. Fico contente por poder viver com o Manel (Alberto Valente) – que, tenho a certeza, me ensinará ainda muito se, por hipótese, deixar a edição antes de mim –, mas ficarei muito mais só no mundo dos livros, pois quase todos os que hoje desempenham funções como editores são bastante mais novos do que eu e já começaram num tempo em que a edição era mais comercial e menos intelectual.

02
Dez10

Surpresas da China

Maria do Rosário Pedreira

Como trabalho há mais de vinte anos com livros, as pessoas retraem-se um pouco de mos oferecer. É sempre, por isso, uma grande alegria quando aterra um presente em forma de livro na minha secretária. Um dia destes, estava eu a trabalhar, vieram entregar-me um envelope que alguém que passara a correr – provavelmente sem lugar para estacionar – deixara para mim na recepção da LeYa. Descobri dentro dele um livro chamado A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen, assinado por Raquel Vaz-Pinto e publicado pela Tinta-da-China. Fiquei contente que a autora – que conheço desde os meus tempos da Temas e Debates, ainda ela estava a terminar o mestrado (hoje é investigadora na Universidade Católica) – tenha sistematizado e sintetizado neste volume os seus vastos conhecimentos sobre a China, ela que é uma especialista em Direitos Humanos e fez uma tese sobre a pena de morte na China. Porque este gigante está já a assombrar a Europa e os Estados Unidos com o seu desenvolvimento acelerado, mas ainda se mantém «uma ditadura de pedra e cal», para citar Raquel Vaz-Pinto, este é um livro fundamental para percebermos melhor os caminhos que o país do tamanho de um continente ainda trilhará neste século XXI.

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