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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Jan11

Uma coisa dramática

Maria do Rosário Pedreira

Toda a gente que estuda Literatura Inglesa lê nem que seja uma peça de Shakespeare, mesmo que nunca tenha a sorte de assistir a uma. E, no entanto, a literatura dramática, incluindo a de Shakespeare, pede encenação, performance e, em suma, espectáculo. Talvez por isso, mesmo quem gosta muito de ler raramente se atira a um texto de teatro e, como também se vai pouco ao teatro em Portugal, permanecerá mais pobre e ignorante em muitos aspectos. Lembro-me de, ainda muito nova, ter lido As Três Irmãs, de Tchekhov, com bastante prazer – e este prazer não advinha apenas do texto, mas também do subtexto, da novidade que era encontrar indicações de cena, como a voz sussurrada do autor russo, que mais tarde aprendi chamarem-se didascálias. Pouco depois disso, a professora de Francês mandou-nos ler A Cantora Careca, de Ionesco, e foi também uma leitura fascinante que, ainda por cima, me fez frequentemente rir até às lágrimas. Já na Faculdade, passei um ano inteiro a estudar Corneille, Molière e Racine e fiquei completamente seduzida pela Fedra, deste último, que me contaram uns amigos que moraram em França fazer parte do currículo da escola secundária e ser lida nas salas de aula em voz alta, distribuindo-se os papéis pelos alunos e valorizando-se a leitura com o objectivo de interessar os jovens pelo texto. Em Portugal, porém, a relação entre os leitores e o teatro parece mesmo uma coisa dramática...

28
Jan11

Perder o comboio

Maria do Rosário Pedreira

As ditaduras assustam quem já passou por elas e fiquei contente com o que aconteceu recentemente na Tunísia, tal como quando vi pela televisão desmantelarem o muro de Berlim. Assistir, mesmo que não ao vivo e a cores, a acontecimentos deste tipo é magnífico, mas sê-lo-á ainda mais para quem lutou, tantas vezes na sombra, por que um dia se tornassem possíveis. E, no entanto, estas alegrias não dispensam o reverso da medalha. Um escritor dissidente, como por exemplo Soljenitsine – autor do polémico O Arquipélago do Gulag, que denunciava as práticas nos campos de trabalho soviéticos –, se não tivesse morrido em 2008, assistiria certamente a um decréscimo do número de leitores da sua obra, muitos deles nascidos já em países independentes e livres e sem memória da ditadura soviética; e Milan Kundera, autor do inesquecível A Insustentável Leveza do Ser, apesar de continuar a publicar, perdeu certamente impacto desde 1989 e, embora mereça, possivelmente já não será lido nem acarinhado hoje como o foi internacionalmente nos anos 80. Tantas vezes apontado para o Nobel da Literatura, a verdade é que, apesar do seu talento e do interesse da sua obra para lá da política, pode ter perdido claramente o comboio e, se não for nos tempos mais próximos, deixará quase naturalmente de ser um candidato ao dito galardão.

27
Jan11

Leituras solidárias

Maria do Rosário Pedreira

Temos, em geral, pouco espaço para arrumar livros e há muitos que podemos, na verdade, descartar: os repetidos (o Manel e eu temos alguns), os que já tiveram o seu tempo e os que nunca leremos ou voltaremos a ler. Pois bem, antes que seja tarde, há uma campanha de recolha de livros para Moçambique, da Associação Karingana Wa Karingana, que se propõe, com a ajuda de todos, fornecer material de leitura, dicionários, enciclopédias, atlas, gramáticas, etc. a escolas, bibliotecas e instituições daquele país tão precisado de livros (tudo menos livros escolares, que lá não são iguais aos nossos). E é fácil: basta entregá-los numa estação dos Correios das capitais de concelho e do resto tratam eles. Como a campanha termina já no dia 31 de Janeiro, não perca tempo. Porém, se não se conseguir desfazer dos seus livros, pode ser solidário na mesma comprando alguns. A APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) inaugurou um site onde se leiloam livros usados (www.dejalu4ds.blogspot.com), cuja venda reverterá na totalidade para aquela instituição. E a boa notícia é que vai haver dias especiais para leiloar livros... autografados! Quem sabe se não encontrará um livro assinado pelo autor de que mais gosta? Alguns dos autores que publico já estão a oferecer.

26
Jan11

Portuguesismo

Maria do Rosário Pedreira

Uma das maiores tristezas dos autores portugueses é o facto de não se conseguir que sejam traduzidos noutras línguas e publicados noutros países, podendo assim elevar-se mais facilmente à condição de universais. Para mim, que trabalho sobretudo com literatura portuguesa, o tempo para investir na internacionalização não é muito, mas as tentativas que faço quase nunca dão frutos. Em primeiro lugar, porque são raras as editoras estrangeiras com leitores de língua portuguesa capazes de apreciarem a obra no seu todo e de se envolverem na publicação de nomes desconhecidos no seu mercado; em segundo lugar, porque há países com uma produção literária tão significativa (o caso do Reino Unido, por exemplo) que quase não publicam traduções; em terceiro lugar, porque os custos de tradução são elevados e, sobretudo em anos de crise, só se aposta naquilo que se sabe vai funcionar. Porém, há muitas vezes um problema suplementar que induzo da circunstância de muitas editoras e agentes estrangeiros se interessarem sempre pelos africanos lusófonos que publico, mas quase nunca pelos portugueses – é que, frequentemente, as obras são demasiado portuguesas e de difícil absorção noutras línguas e realidades geográficas, e este portuguesismo tem obstado a que a nossa literatura seja exportada como outras o são. Creio que os novos autores estão a tornar-se mais cosmopolitas e universais, mas a verdade é que muitos dos nossos mais conhecidos escritores só podem ser inteiramente apreciados para cá da fronteira. Certamente é por causa disto que Agustina Bessa Luís, entre outros, só tem um romance traduzido, e numa ou duas línguas. Mas não é caso único.

25
Jan11

Há males necessários?

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, li um interessante artigo na revista Lire, da autoria do escritor Frédéric Beigbeder, intitulado «Editor, um mal necessário». Contava ele que as editoras em todo o mundo se têm afadigado a publicar as versões originais (antes da intervenção do editor) de alguns autores consagrados assim que eles morrem, procurando quiçá relançá-las e fazer mais barulho e dinheiro à volta delas. E constata que, por exemplo no caso de Raymond Carver, o editor foi esse mal necessário que conduziu a um texto mais perfeito, aproveitando o melhor no génio de Carver e desperdiçando o que nem era assim tão bom no autor norte-americano. Beigbeder está, porém, preocupado com o futuro dos editores e observa que os que estão no activo lêem cada vez menos e passam cada vez mais horas em reuniões. Também eu me preocupo com o mesmo e, embora teime em ler – mesmo que por vezes apenas na diagonal – tudo o que enviam, a verdade é que o excesso de reuniões, muitas das quais pouco têm que ver directamente com o que faço, me rouba um tempo imenso à leitura. Neste momento, a minha secretária tem uma pilha de originais em crescimento contínuo que não sei quando vou poder começar a desbastar. E todas as semanas me marcam mais uma reunião. Será apenas outro mal necessário?

24
Jan11

Revivalismo

Maria do Rosário Pedreira

Tenho uma afilhada adolescente chamada Catarina que, durante anos, levava às compras numa manhã de Dezembro para que escolhesse o seu presente de Natal (e nunca vi ninguém experimentar tanta roupa em tão pouco tempo). Não é filha única e, nesse périplo por lojas e mais lojas de um determinado centro comercial, eu aproveitava para a inquirir sobre os desejos da irmã seis anos mais nova e para comprar, também para esta, uma prenda adequada. Este ano, curiosamente, foi-me poupada a difícil jornada colombiana, porque a Catarina me transmitiu que preferia dinheiro vivo a embrulhos – e, francamente, fiquei bastante feliz com a decisão. Era, mesmo assim, preciso contemplar a sua irmã Maria com aquilo a que a minha avó chamava «uma lembrança» e achei por bem fazer alguma investigação para não disparar a seta para demasiado longe do alvo. Foi-me dito que lhe comprasse um dos livros d’As Gémeas, de Enid Blyton (que eu própria li em miúda e que agora estão a ser editados com umas capas magníficas pela Oficina do Livro), ou o também recentemente tirado da hibernação Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, que fez as delícias das raparigas de muitas gerações antes da minha, mas eu ainda apanhei como leitura aconselhada por mãe, avó e irmã. Com tanto livro novo português e estrangeiro a sair todos os meses em Portugal, é no mínimo curioso este revivalismo, até porque o colégio interno é coisa que deve parecer às miúdas dos nossos dias uma parcela do mundo congelada no tempo. Mas as vendas, segundo sei, mostram que há livros que nunca passam de moda e que, por muito que as capas mudem, o que lá está dentro serve os leitores de todas as épocas.

21
Jan11

Politicamente correcto?

Maria do Rosário Pedreira

Miguel Real escreveu há poucos anos um excelente romance (se não me engano, finalista do prémio da APE no ano em que Francisco José Viegas o arrebatou com Longe de Manaus). Chama-se O Último Negreiro e é sobre o último grande traficante de escravos português, Francisco Félix de Sousa, que teve mais de cem filhos a quem, sem excepção, deu baptismo cristão e escolaridade. Ao contrário daquilo que o público poderia esperar, embora longe de fazer a apologia da figura, o escritor também nunca atira o homem para a fogueira, situando-o no contexto histórico, e não olhando-o pelos olhos escandalizados do nosso século (onde, apesar de tudo, o tráfico e os escravos permanecem). Há dias, soube que uma editora norte-americana se prepara para substituir as mais de duzentas ocorrências da palavra «nigger» do livro As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, pelo mais sedoso e moderado vocábulo «escravo», a fim de que a obra não seja banida nas escolas. Politicamente correcto? Pode ser, mas a minha resposta é: não, obrigada. Em primeiro lugar, porque ninguém tem o direito de pôr a mão no texto de um génio; em segundo lugar, porque a obra tem de ser lida não apenas como literatura, mas – como disse Sarah Churchwell, professora de Literatura Americana citada pelo Público – como documento histórico que também é, no qual «a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura» e a sua rasura ocultará dos leitores a «evolução moral do carácter» do protagonista. Será que daqui a uns anos nos proíbem de ler A Arte de Amar, de Ovídio, por ser, aos olhos do século XXI, um texto machista?

20
Jan11

Nem tudo é o que parece

Maria do Rosário Pedreira

Já ouvimos dizer mais de mil vezes que as aparências iludem e que nem tudo é o que parece. O título deste post é, de resto, semelhante ao de um bem divertido livro de contos da uruguaia Carmen Posadas (Nada É o Que Parece), de quem já falei neste blogue e que, curiosamente, inaugurou o Fórum da FNAC do Chiado com o lançamento do seu segundo romance (o primeiro publicado em Portugal) Pequenas Infâmias – romance no qual também existem bastantes coisas que parecem o que não são. Mas, mesmo confiando na sabedoria popular, a verdade é que sempre achei que a maioria das palavras da nossa língua combinavam bem com a coisa ou ideia que representam – e, a este respeito, daria como exemplo o vocábulo «fofo», com qualquer coisa de onomatopeico, que não pode ser mais elucidativo daquilo que realmente significa. E, contudo, há duas palavras que sempre achei estarem nos antípodas do que significam e, talvez por isso mesmo, sejam cada vez menos utilizadas, quer pelos escritores, quer pelos meros falantes do português. Uma delas é a estranhíssima «pulcritude», que cheira logo a coisa apodrecida e malcheirosa, mas quer dizer, nem mais nem menos, «beleza». (Aqui para nós, prefiro que me chamem feia a que alguma vez se refiram à minha pulcritude.) A outra é a não menos surpreendente «alacridade», que associo logo a gente alarve, bruta e mal-educada e é, afinal, fundamental para a nossa vida, pois significa simplesmente «alegria» (se virmos bem, a raiz é, de resto, a mesma para os dois vocábulos). Assim sendo, o melhor é continuarmos a confiar nos ditos populares, porque é mais do que certo que, como noutras coisas da vida, também na língua portuguesa as aparências iludem – e muito.

19
Jan11

Pela boca vive o peixe

Maria do Rosário Pedreira

Quando João Tordo venceu o Prémio Literário José Saramago, em Outubro de 2009, muita gente veio dar-me os parabéns por ser já a terceira vez que um dos «meus» autores recebia aquele galardão. O talento era deles, claro, mas a multiplicação levou a que eu fosse chamada a dar entrevistas sobre a feliz coincidência. Numa delas, ao fantástico entrevistador Carlos Vaz Marques (que tem um dos mais interessantes programas de rádio de sempre – Pessoal e Transmissível), fui a dada altura consultada sobre se me tinha escapado algum autor; e, embora a pergunta tivesse que ver com os escritores que, por várias razões, já não publicavam comigo, entendi que se referia a jovens escritores que não tinham sido lançados por mim e respondi que, por exemplo, me tinha escapado David Machado, autor que apreciava bastante e era então editado pela Presença. Pois bem: o meu mau entendimento deu frutos, porque, em mais uma feliz coincidência, David Machado estava a ouvir a entrevista e, ao escutar o seu nome, agradeceu-me através do Facebook e veio mais tarde ter comigo para me apresentar o romance que tinha terminado havia pouco, o que me deixou verdadeiramente exultante. Em breve, falarei desta obra imperdível, de seu nome Deixem Falar as Pedras, disponível no próximo mês de Março. Hoje é só para dizer que às vezes pela boca vive o peixe.

18
Jan11

Casal-maravilha

Maria do Rosário Pedreira

Sou editora e casada com um editor, mas isso nunca atrapalhou a nossa relação; tenho consciência de que comecei depois e de que sei menos – e admiro o trabalho do Manel ao longo dos anos e a sua capacidade de adaptação às mudanças o suficiente para nem me atrever a concorrer com ele. Porém, pergunto-me frequentemente se um casal de escritores viverá assim tão pacificamente. Em alguns casos, acredito que sim e que a admiração (recíproca ou de uma das partes) facilite a convivência artística – calculo, por exemplo, que o poeta e dramaturgo Jaime Rocha tenha quase uma idolatria por Hélia Correia e que a generosidade de Urbano Tavares Rodrigues tenha estimulado a criatividade de Maria Judite de Carvalho. Mas noutros casos não é assim tão simples – e senti uma vez que Siri Hustvedt não apreciava por aí além que lhe mencionassem Paul Auster (o marido) durante as entrevistas, quando estava a promover um livro seu. Neste momento, dois dos mais promissores escritores norte-americanos, ambos destacados pela famosa revista Granta no ano em que se iniciaram nas lides da publicação – Nicole Krauss e Jonathan Safran Foer – são casados e claramente concorrentes (para quem não conhece, não perca Está Tudo Iluminado, do segundo, e A História do Amor, da primeira). Por vezes, pergunto-me se este casal-maravilha vai conseguir ser um casal por muito tempo.

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