Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jan11

Estreia fulgurante

Maria do Rosário Pedreira

Que este vai ser um ano terrivelmente difícil, já se sabe. Para mim, certamente o será, uma vez que trabalho com novos autores, alguns estreantes, e que será uma dor de cabeça promovê-los e mostrá-los ao mundo num ano em que as pessoas resistem a toda a despesa supérflua e escolhem tendencialmente o que é certo e sabido. Tenho, por isso, muito medo de que venham a passar despercebidos nomes que julgo irem enriquecer o panorama literário nacional, mas que, sem público, ficarão quiçá condenados a publicar apenas um primeiro livro e com os próximos na gaveta. No meu plano para 2011, conto três estreias fulgurantes – e uma delas, por ser o primeiro livro a sair (já em Fevereiro, com a chancela da Dom Quixote) e por ser de uma mulher (há tão poucas escritoras com esta qualidade na nova geração) – merece destaque neste meu post. Chama-se Os Pretos de Pousaflores, assina-o a angolana Aida Gomes (que vive actualmente na Guiné, pois é funcionária das Nações Unidas, que agora promove nesse país uma missão de paz) e junta numa aldeia perdida de Portugal um homem desencantado que teve de deixar a África que o formou e onde estava há quase quarenta anos e os seus três filhos mulatos, cada um de sua mãe, que uma aldeia atrasada como Pousaflores vê, preconceituosa, como «os pretos». Tão depressa terno e poético como hilariante e esclarecedor, este é um romance que conta a história da colonização portuguesa, do declínio do império, da guerra civil em Angola, dos retornados e do abismo para onde muitas vezes são atirados os mais fracos. A ler, absolutamente, porque queremos mais livros de Aida Gomes depois deste. (Ah, a autora estará nas Correntes d’Escritas no final de Fevereiro.)

 

14
Jan11

Os editores discretos

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, um dos proprietários de um grande grupo editorial disse numa entrevista que os editores de livros não escolares pouco acrescentavam a um livro. Embora suspeite de que não era bem isto o que queria dizer e saiba de alguns editores que não têm na verdade praticamente nenhuma intervenção no que publicam (além da selecção, mas até isso é muito), fiquei logo de cabelos em pé – e até gostava que alguns autores pudessem explicar-lhe o trabalho que muitos dos editores desenvolvem entre o momento em que enviam os livros para avaliação e a sua ulterior publicação. Não me cabe, porém, elogiar o meu próprio trabalho (até porque nenhum editor pode criar o talento onde ele não existe e o sucesso de um livro é sempre da responsabilidade do autor) e só por isso não escrevo este post para me queixar de uma afirmação que considerei bastante infeliz (pronto, já me queixei), mas para dizer que efectivamente é uma pena que alguns editores escolares (ou coordenadores, como já lhes ouvi chamar muitas vezes) não tenham o reconhecimento que merecem nem apareçam referidos nos meios de comunicação como acontece tantas vezes aos editores de literatura geral. Porque fazer livros escolares deve ser mesmo uma tarefa hercúlea: escolher os professores-autores, garantir que entregam tudo a tempo (tratando-se de livros com prazo certo para serem apresentados às escolas e ao ministério, não há como adiar a sua publicação), escolher um layout e ilustrações adequados e apelativos, controlar a revisão que tem de ser absolutamente rigorosa e imaculada a nível da informação e da correcção gramatical (se aparece um erro num livro escolar, dá logo notícia nos telejornais), ser, enfim, responsável, em última instância, pela aprendizagem de determinada matéria por milhares de crianças e jovens em todo o País. E, embora tenha sido professora durante algum tempo e nem todos os livros escolares tivessem o mesmo nível, hoje quero partilhar com os leitores deste blogue a minha admiração pelos que, tão discretamente, fazem um excelente trabalho que o público nunca aplaude.

13
Jan11

Palavras difíceis

Maria do Rosário Pedreira

Na minha já longa carreira, passaram-me obviamente muitos autores pela mão, mas, pela natureza do meu trabalho e das minhas preferências, raros foram os que já tinham obra extensa e eram escritores consagrados. Não quero dizer, mesmo assim, que por dar à estampa autores menos experientes, não tenha aprendido muito com os seus livros; mas recentemente tornei-me editora de um escritor bastante mais sábio e rodado e, em algumas páginas, senti-me uma completa ignorante. Estou, para que saibam, a ler o próximo livro de Mário Cláudio – e acho que nunca aprendi tantas palavras novas nem tive o dicionário tantas vezes debaixo do braço como nestes dias. E não estou a falar de vocábulos ou expressões que – podia ser o caso – se usem exclusivamente no Norte (coisa que me vem acontecendo cada vez mais, pois tenho muitos autores fora da capital que escrevem «à beira de» em vez de «ao lado de», «encorrilhar» por «amarrotar» e outras coisas que identifico logo como típicas do português nortenho); estou, sim, a falar de termos que nunca na vida li e ouvi e que, embora tire pelo sentido, quero certificar-me do que significam. Só numa manhã, fui brindada com os deliciosos «bazulaque» para «gordo», «embrechado» para «incrustado de conchas, pedra ou loiça» (um muro, por exemplo), «repoltrear» para «refastelar», «gárrulo» para «falador, linguareiro», «castorina», um tecido de lã, «gloríola» para «pequena ufania» (esta até era mais ou menos óbvia) e «rémora», que é o nome de um peixe. Mas a descoberta mais feliz foi a de que a palavra «tolerada» também quer dizer «prostituta», embora se trate não da que anda na rua, mas da que trabalha num bordel, e não por aí à vista de toda a gente. Tão burra me senti que tomei nota de algumas destas iguarias linguísticas e as li ao Manel para ver se ele me consolava com a sua ignorância. Na maioria, ficámos quites, mas em dois ou três casos explicou-me que eram vocábulos de Camilo Castelo Branco, escritor muito do gosto e da leitura do nosso Mário Cláudio. Já percebi que tenho de voltar ao Camilo para morrer mais culta... E, entretanto, delicio-me com o «plumitivo» vencedor do Prémio Pessoa que me coube em sorte. Lá para Abril, deliciem-se também.

12
Jan11

Desaparecido

Maria do Rosário Pedreira

Há alguns escritores que fazem furor em determinada época e, de repente, desaparecem para sempre como se nunca tivessem existido. No tempo em que trabalhava na Gradiva, lançámos o romance de estreia de Frank Ronan, um autor irlandês que veio na ocasião a Portugal (nessa altura, ainda não era comum convidar os autores para os lançamentos dos seus livros) e que, por ser realmente um tipo giro, simpático e inteligente (e ter escrito um livro delicioso que se chamava Os Homens Que Amaram Evelyn Cotton), colheu o entusiasmo unânime da crítica jornalística. Depois disso, publicou outros romances que também se venderam muito bem e estiveram nos top das livrarias (Piquenique no Paraíso e A Morte de Um Herói) e um livro de contos que foi editado em Portugal antes até de o ser no Reino Unido (Os Homens Bronzeados Ficam Bonitos), a que se seguiram os romances Lovely e A Comunidade, que ficavam a dever muito aos primeiros, mas que, pelo que sei, não correram mal em termos de vendas. A vida de Ronan deu, a dada altura, uma volta estranha (acho que teve que ver com drogas, mas não juro) e o escritor acabou por desaparecer completamente dos escaparates, sobretudo em Portugal, que parecia gostar especialmente dele. As novas regras do mercado dificilmente deixarão que o editor recupere os seus livros, o que é uma pena, mas, se alguém tiver coragem para os desencantar algures, não perca uma experiência de leitura deste irlandês desaparecido (A Morte de Um Herói, com Deus como narrador, é talvez o melhor título para se afeiçoar).

11
Jan11

Candidatos a autores

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes aconteceu-me uma coisa que mostra bem como a literatura foi dessacralizada. Dantes, quem queria publicar um livro vinha de mansinho com humildade e cheio de dúvidas, querendo saber se o que escrevera tinha qualidade para ser publicado. Agora, recebo mensagens de e-mail anunciando obras-primas de qualquer um, às quais se anexam muitas vezes «romances» de vinte páginas e textos mais longos, mas desconexos, banais e até descuidados. Na semana passada, li, por exemplo, umas trinta páginas de um livro que, embora bem-intencionado, padecia de uma estrutura tão complexa que exigiria do seu autor grande experiência de escrita para lidar com ela e, por se tratar de um principiante, não funcionava. E, além disso, estava o texto pejado de erros de ortografia – coisa que dificilmente se perdoa a quem quer ser considerado escritor. Na minha resposta-comentário, fui (creio) demasiado branda para o que é costume, não deixando, mesmo assim, de referir ao autor de tais páginas a quantidade de erros e a necessidade de ler mais para os corrigir em próximas aventuras literárias. Já estou habituada a reacções secas, indispostas e até visivelmente irritadas – e, ainda que não viva bem com isso, talvez pela quantidade de vezes que acontece construí uma espécie de escudo protector; mas, desta feita, a resposta foi completamente inesperada: o potencial escritor agradecia os comentários críticos, mas explicava que eu estava a ser demasiado exigente, pois não se podia pedir a um autor que estivesse ao mesmo tempo atento ao desenvolvimento da história e a coisas tão comezinhas como a ortografia... E esta, hã?

10
Jan11

O país de poetas ameaçado

Maria do Rosário Pedreira

Diz-se que Portugal é um país de poetas e a verdade é que, em muitos países europeus e não europeus, a poesia portuguesa é sempre elogiada se comparada com a respectiva e a sua boa forma em todas as épocas referida em comentários laudatórios. Nós, os que gostamos dela e a lemos, ficamos um pouco decepcionados com o magro espaço de exposição que ela tem em livraria e a sua inexistência nos supermercados e outros pontos de venda mais democráticos, bem como com a escassa publicação de livros do género sobretudo desde que se iniciou o fenómeno da concentração editorial. Embora a poesia circule na blogosfera – mas nem toda é de qualidade –, tenho a certeza de que existem muitos bons livros de poesia que não conseguem passar das gavetas e dos círculos de amigos. E temo que venham a ser cada vez mais, pois, como referiu em entrevista mais ou menos recente um dos patrões do mundo editorial português, o mais provável será daqui a dez anos fazer-se dos livros de poesia apenas uma impressão digital de trinta exemplares para distribuição restrita por amigos, familiares e mais meia dúzia de interessados. De momento, não publico poesia na LeYa (apenas ficção), mas, se todas as editoras pensarem deste modo, podemos concluir que o país de poetas é coisa em extinção e que, por força das circunstâncias, nos vamos tornar um país de inventores de anedotas, actividade em que também não somos nada de deitar fora.

07
Jan11

De pequenino se torce o pepino

Maria do Rosário Pedreira

Nos dias que correm, os livros infantis multiplicam-se e vendem-se às pazadas. Acredito, porém, que muitas vezes os pais, diante da birra da criança no hipermercado, levem a primeira coisa a que deitam a mão, colorida o bastante e, de preferência, a preço leve. Uma pena, claro, porque há livros bons e livros muito bons, livros maus e livros muito maus. Tenho visto coisas de bradar aos céus que nem descortino porque são publicadas: histórias sem tom nem som, ilustrações de fugir, erros de ortografia graves, traduções tremendas, palavras tão fora de moda que nem os mais velhos já as usam. Pessoa dizia que um bom livro para crianças tem de ser lido por qualquer adulto com prazer. Claro que no tempo dele (e até no meu tempo de criança) os livros infantis não tinham nada que ver com os que hoje os supermercados despacham às dúzias; ainda assim, devo dizer que muitos dos livros que fizeram as delícias dos meus sobrinhos eram, para mim, uma grande xaropada (incluindo os que eu própria escrevi) e nem por isso deixaram de ser sucessos de vendas e de tornar alguns dos seus autores autênticos fenómenos de popularidade. Mas, tirando os livros da moda que os filmes e programas de animação fabricam – e que todas as crianças querem ter e, na maior parte das vezes, têm –, a verdade é que, com ou sem birra, seria proveitoso que os pais lessem os textos e olhassem para as ilustrações antes de chegar à caixa registadora, para saberem o que estão a dar aos filhos, porque, como dizia a minha avó, de pequenino se torce o pepino – e era bom que ele torcesse para o lado certo...

06
Jan11

Aconselhamento

Maria do Rosário Pedreira

Quando acabei o curso na Faculdade de Letras (e é melhor nem pensar há quanto tempo foi), senti um enorme vazio. Não que tivesse aprendido lá mais do que aprendi com os livros, a vida e as muitas pessoas com quem me fui cruzando, mas, talvez até pela época em que fui universitária, foi na Faculdade que senti que me abriam os olhos e me mandavam ver de tudo. Ficava, por isso, uma sensação estranha de que doravante não tinha quem me aconselhasse livros, filmes, peças de teatro ou exposições e de que, sozinha, não iria conseguir separar o trigo do joio. Quando, ao falar com ex-colegas, percebi que não era a única que o temia, o vazio foi-se enchendo naturalmente. Julgo, mesmo assim, que é para rechear esses ocos existenciais que todos os anos os nossos jornais (e, afinal, os de todo o lado) se apressam a compor listas de livros, filmes, discos, etc., enumerando o que de melhor os seus leitores podem (ou puderam) consumir no ano que passou. E, correndo o risco de dizer que, decorridos alguns dias, já a ninguém importará o que leu, a verdade é que, cruzando informação, aparecem aqui e ali denominadores comuns que ficam na memória e se colam aos nossos desejos de ter, ler, ver e ouvir. Por mais que o tempo passe, a verdade é que todos gostamos de ser aconselhados.

05
Jan11

Profissionalismo

Maria do Rosário Pedreira

Debato-me muitas vezes interiormente com a questão de saber se exerço a minha função com o desejável e exigível profissionalismo. Será um bom editor aquele que procura e identifica o talento do escritor e o revela depois ao público, dentro de um cânone mais ou menos estabelecido pela Academia, ou aquele que responde melhor aos desafios que lhe são apresentados pelo patrão ou a entidade que o emprega e que, como referi no meu post anterior, se prendem mais com o negócio do que com coisas como inovação, qualidade ou intemporalidade? Embora já me tenham descrito como «caça-cabeças da literatura portuguesa» e outros epítetos ainda mais engraçados («preparadora física da selecção nacional», por exemplo), não raro antevejo para mim um futuro negro, no qual não há leitores suficientes para o que hoje reputo de um bom livro (o que resultaria quiçá no meu despedimento). Tento, por isso, conciliar a edição desses textos evidentemente literários e susceptíveis de agradar aos intelectuais com a de outros que, num país como o Reino Unido, apareceriam na categoria Commercial Fiction, capazes de chegar a leitores menos experientes e menos exigentes (mas sempre com o cuidado de eleger apenas aqueles cuja estrutura, desenho de personagens e linguagem seja irrepreensível, porque o fácil ou acessível não tem de ser sinónimo de mau, mesmo que alguns o advoguem e não queiram dar o braço a torcer). Com estes últimos, tenho a esperança de fazer leitores que um dia se atirem aos primeiros (os que realmente gosto de ler e publicar). Mas seria uma melhor profissional se os não fizesse? E sê-lo-ia ainda melhor se excluísse os que terão cada vez menos leitores, a avaliar o estado de (des)educação em que nos encontramos?

04
Jan11

Perversões

Maria do Rosário Pedreira

Ouvi um dia Francisco Balsemão (FB) dizer numa entrevista, depois de confrontado com a mediania (para não dizer pior) da programação televisiva, que a sua televisão (a SIC) dava às pessoas o que elas queriam. Achei a afirmação bastante perversa. Em primeiro lugar, porque é de um grande pretensiosismo alguém (FB no caso) arrogar-se o direito de conhecer os desejos alheios. Em segundo lugar, porque tenho a certeza de que FB não vê quase nenhum programa da SIC (basta estar minimamente informado do seu percurso para o deduzir – e, logo, para deduzir que não se inclui no grupo de pessoas de quem fala). Em terceiro lugar, porque me parece mais acertado pensar que as pessoas vêem não o que querem, mas o que lhes dão – embora isso possa tornar-se, a curto ou médio prazo, aquilo que realmente querem ver; e digo isto porque, nos tempos em que a televisão era outra coisa, a minha mãe tinha a trabalhar lá em casa uma rapariga praticamente analfabeta que, ainda assim, não perdia às terças-feiras uma única Noite de Teatro. Não eram, evidentemente, peças de Brecht ou Shakespeare, mas não deixavam por isso de ter por base textos bem escritos e enredos ricos e estruturados com rigor. Ora, hoje seria impensável passar na televisão em horário nobre uma peça de teatro (embora não fosse má ideia usar os actores de telenovela mais apreciados para dar a conhecer às tais pessoas em que FB não se inclui alguns textos e dramaturgos importantes). E com os livros passa-se um pouco a mesma coisa: publicam-se livros muito maus alegando que as pessoas os querem ler, quando afinal talvez as pessoas os leiam apenas porque eles são publicados. Acredito que, também neste caso, quem os publica não faz deles livros de cabeceira. Mesmo que possa estar a exagerar e a atitude de quem decide tenha sobretudo como objectivo o negócio, não estarão os decisores a criar populações estáticas e sem capacidade de reacção para, no caso de ser preciso, um dia as poderem dominar?