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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Fev11

O fim da escuridão

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei em finais de Agosto o quarto romance de João Tordo, de que aqui falei oportunamente. O autor está comigo desde o seu primeiro livro e agradeço-lhe muito por isso. Como todos sabem, foi um dos galardoados com o Prémio Literário José Saramago – distinção que, de acordo com a minha experiência, atira os vencedores para um patamar de reconhecimento bastante amplo. O Bom Inverno (assim se chama esse último romance, uma das três obras nomeadas para a categoria de Melhor Livro de Ficção Narrativa, dos Prémios Autores 2011, iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores) tem sido, aliás, um grande sucesso de crítica e vendas, como merece e era de esperar. Mas é bom não esquecer a obra anterior – e serve este post para avisar quem nunca leu o primeiro romance de João Tordo de que ele vai estar de novo disponível, agora pela mão da Dom Quixote. Cruzamento de quatro histórias kafkianas e algo góticas, O Livro dos Homens sem Luz mostra já muito daquilo que seriam as características do autor, que tem, entre outras, a particularidade de escrever uma literatura muito visual e cinematográfica e gosta de espaços fechados produtores de grande tensão. A capa – mais bonita do que a da primeira edição – é do Rui Garrido.

 

 

11
Fev11

Palavras mágicas

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, fui contactada por uma agência de publicidade para lá ir dizer o que esperava de uma pasta de dentes. Compareci no dia combinado e fiquei eu própria surpreendida com a quantidade de coisas que consegui verbalizar sobre uma matéria aparentemente comezinha como aquela. Não era a única pessoa presente, claro, e essa circunstância acabou por desencadear um diálogo de mais de uma hora à volta do tema «dentífricos», com intervenções memoráveis sobre cor, sabor, textura, embalagem, preço e ecologia. Mais tarde, explicaram-me que aquela reunião era parte daquilo a que se chama um «estudo de mercado» e que, quando uma agência quer lançar um produto, tem de saber o que os clientes exigem e desejam para construir a campanha em consonância. Ora, o sucesso de um livro é sempre uma incógnita e, para os livros, não há realmente estudos de mercado possíveis (por isso nos zangamos quando chamam «produtos» aos livros). E, no entanto, parecem existir palavras mágicas que conduzem quase sempre ao êxito. A melhor que conheço é «chocolate» e, se um título a inclui, é quase certo que o livro se vai vender bem. O romance Chocolate – que depois deu um filme menor com a admirável Juliette Binoche – tirou Joanne Harris do anonimato e transportou-a para um estrelato que se calhar nem merecia, e o Baunilha e Chocolate de Sveva Casati Modignani pô-la a vender de repente milhares de exemplares num país onde os escritores italianos raramente vingam...

10
Fev11

Escritores na sombra

Maria do Rosário Pedreira

Tenho um amigo escritor (de grande qualidade, é bom que se diga) que, no seu país, e quando era mais jovem, escreveu a autobiografia de outra pessoa – o presidente de um grande clube de futebol. Calculo que lhe tenha feito algumas entrevistas e lido o bastante a seu respeito – e a verdade é que o homem se reviu no que leu como se tivesse sido ele próprio a redigir o texto (parece que só o título do livro é da sua autoria). Conheço outra pessoa que vive de escrever livros alheios, mas não escreve os seus – e tão-pouco quer que o seu nome apareça sequer como colaborador ou redactor na ficha técnica, mesmo quando lho sugerem; talvez, no seu íntimo, esteja convencido de que um dia ainda há-de escrever alguma coisa que valha a pena e não queira que os leitores identifiquem o seu nome com obras que julga menores (mesmo se escritas pela sua mão). Sei que existem muitos escritores na sombra neste momento em todo o mundo – e Portugal não é excepção – e pergunto-me o que sentirão quando vêem os seus textos serem publicados com a assinatura de outra pessoa. Claro que, nestes casos, a discrição é a alma do negócio e nunca se acusarão, mas não terão pena de que, como acontece nos EUA, o seu nome não apareça na capa debaixo do do (falso) autor? E não gostariam de ocupar o tempo a escrever outras coisas, que pudessem assinar e publicar, em vez daquelas? E, quando um desses livros vende às pazadas, não pensarão no que poderiam ter ganho se fossem (e são) os seus verdadeiros autores? E como serão as pessoas que aceitam ficar com os louros (e o dinheiro) dos que assim trabalham?

09
Fev11

Pré-editores

Maria do Rosário Pedreira

Hoje fala-se muito do papel do editor como interventor no processo de edição de um texto com opiniões, críticas e sugestões que visam torná-lo, se é que isto se pode dizer, mais próximo da perfeição. E comenta-se que este editor – que o Reino Unido e os EUA sempre conheceram – é figura recente em Portugal, país onde ao longo de décadas um original ou era publicado tal como estava, ou simplesmente não o era. Não sei, na verdade, se as coisas são bem assim, pois creio que os editores sempre se sentiram com autoridade suficiente para fazer comentários e dar pistas que conduzissem a um melhor resultado final; mas, mesmo que essa não fosse a prática comum, quase todos os autores tiveram e têm os seus «editores» privados – pessoas isentas e informadas que eles consideram capazes de lhes dar um parecer consistente e de sugerir melhores caminhos para chegar aonde querem quando as vias se entortam e tudo parece ir dar a um beco. Em muitos dos livros estrangeiros que publiquei, a lista de agradecimentos era suficientemente clara para eu saber que, antes de mim ou do editor original, tinha havido efectivamente outras pessoas a ler e apreciar o texto e que o que ali me chegava já vinha limpo de impurezas. Lembro-me de que, quando abri o fantástico As Horas, me surpreendi com o número de nomes constantes dos agradecimentos, mas depois percebi que o autor, tendo escrito parte do romance numa residência para escritores, havia podido contar com ajuda privilegiada e não a desdenhara. O pior é quando estes pré-editores são os pais e os amigos do potencial escritor e acham que tudo o que ele faz é perfeito...

08
Fev11

O difícil

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, estava a pensar que, com a idade, nos tornamos mais preguiçosos, até para pensar. Quando andava na faculdade, passava a vida a ver filmes alemães estranhíssimos e espectáculos de teatro e dança excessivamente crus – e hoje dou por mim a pensar que já não tenho estofo para aguentar hermetismos ou violência, por mais estéticos que possam ser (quando devia ser ao contrário, pois só agora possuo maturidade para os apreciar e compreender). A minha mãe – que está com 86 anos, mas sempre leu muito – também diz amiúde, quando me pede livros emprestados, que não lhe leve nada de muito complicado... Ora, recentemente, a Casa Fernando Pessoa inaugurou uma sequência de intervenções sobre Livros Difíceis – e a primeira dedica-se a Proust e tem como orador Pedro Tamen, que é também o tradutor de Em busca do Tempo Perdido. A ideia parece-me belíssima e, como tal, «convido» todos os jovens que lêem este blogue a irem ouvir os experts e a deixarem-se encantar depois pelas tais obras difíceis – se ainda as não conhecerem, claro – que hão-de parecer certamente mais fáceis com essa ajudinha dos especialistas. É que, quando chegarem à minha idade, já não vão ter provavelmente coragem de se atirar a elas...

07
Fev11

Rádio-inactividade

Maria do Rosário Pedreira

Há uma semana, a revista «Única» do Expresso dedicava um número à ideia de «bi» (dois) com vários artigos interessantes sobre bipolaridade, gémeos, bissexualidade, etc. Um deles falava de todos os que até agora bisaram grandes prémios como o Oscar ou o Nobel – e, quanto a este último, houve vários, embora nem sempre o galardoado tenha recebido o prémio na mesma área de actividade (houve quem recebesse o da Química e, a seguir, o da Paz, por exemplo). Marie Curie, que dividiu com o marido e com Becquerel o Prémio Nobel da Física em 1903 por descobertas no campo da radioactividade, recebeu também o Nobel da Química em 1911 pelo isolamento dos elementos rádio e polónio. Ora, um dia, estava eu a ouvir a Rádio Paris Lisboa (hoje Rádio Europa, creio eu) e apanhei um programa sobre a magnífica Madame Curie que, a par de Pasteur, tinha sido um dos meus ídolos durante a infância por causa de umas biografias que me tinham oferecido e que eu lera e adorara. Mas a jornalista, quando se referiu à descoberta do rádio (elemento químico), fez certamente rir os ouvintes ao dizer que, se não fosse Marie Curie, nenhum de nós poderia estar a ouvi-la pelo rádio naquele instante. Confusão que, enfim, denota uma certa inactividade em termos de leituras...

04
Fev11

A velha educação

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes estávamos a conversar à mesa sobre tudo aquilo que o Manel, a minha sogra e eu aprendemos na instrução primária (para quem não sabe, eram os primeiros quatro anos da Escola Básica) e a comparar toda essa informação com o pouco que hoje a escola ensina às crianças no mesmo período. Falámos das estações de comboio que era preciso decorar nas principais linhas do País e do número exagerado de reis, cognomes, distritos, concelhos, serras e rios que tinham de estar na ponta da língua de qualquer aluno que se prezasse. Foi então que me lembrei de que, na quarta classe, fui chamada ao quadro para debitar junto de um mapa as produções agrícolas de Goa, Damão e Diu (territórios sobre os quais já nem imperávamos) – e, juro-vos, eu sabia aquilo tudo de cor, mais os rios de Angola e Moçambique e seus afluentes, se alguém na altura mo perguntasse (e ainda sei alguns). Embora seja adepta de muitas das técnicas de aprendizagem tradicionais (como, por exemplo, a memorização), a verdade é que, enquanto recordava essa cena, me apercebi de que era realmente um pouco excessivo para uma criança de nove anos conhecer em detalhe tanta coisa de que, provavelmente, nem ia fazer uso; mas, quando o estava a verbalizar, o Manel disse-me que ainda mais ridículo era as crianças de Angola e Moçambique terem de saber de cor as estações do caminho-de-ferro em Portugal, uma vez que estudavam pelos mesmos manuais escolares que as portuguesas. Enfim, a velha educação tinha destas coisas...

03
Fev11

Writers friendly

Maria do Rosário Pedreira

De todas as cidades que conheci até hoje, posso afiançar que Dublin é a mais writers friendly. É certo que a Irlanda – país de algum modo periférico como o é Portugal, mas com a sorte de falar inglês – tem já quatro prémios Nobel da Literatura (o genial Yeats, Beckett, Bernard Shaw e o poeta Seamus Heaney – a ordem é arbitrária), mas vive orgulhosa de todos os seus escritores vivos e mortos, como o atesta, aliás, um museu que lhes é dedicado na capital; e tem, além disso, as livrarias abertas até à meia-noite e deliciosos percursos joyceanos oferecidos aos turistas que tenham ou não lido o Ulisses (em Lisboa, ainda ninguém se lembrou de fazer um tour pessoano, acho eu, o que é uma pena). E é justamente em Dublin que um grande escritor espanhol faz situar a acção do seu mais recente romance, a sair em Fevereiro com a chancela da Teorema. Falo de Enrique Vila-Matas e do seu Dublinesca, pelo qual ando já com água na boca. É que a obra versa precisamente sobre os destinos de um editor literário que sabe retirar-se a tempo de não ser retirado pelas novas regras da indústria editorial, mas vive amargurado pela ideia de que não encontrou aquele autor genial que daria sentido à sua vida e crê, por qualquer razão, que é em Dublin que o encontrará.  Já li meia dúzia de páginas e digo-vos que promete.

02
Fev11

Os patos de Sophia

Maria do Rosário Pedreira

Este vai ser o ano de Sophia de Mello Breyner e as comemorações iniciaram-se com a entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional. Os jornais divulgaram bastante o acontecimento e um deles revelou uma história genial que os filhos quiseram partilhar com os presentes na cerimónia e que também eu não resisto a partilhar com os leitores deste blogue. Ao que parece, terão dado um dia a Sophia dois patinhos amorosos, a que ela achou imensa graça – enquanto foram pequeninos, claro, porque entretanto cresceram e ela ficou sem saber o que fazer com eles. Como mulher pragmática que era, telefonou mesmo assim para o então presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, propondo-lhe a oferta dos ditos patos para os belíssimos jardins da Fundação. O senhor não terá achado o facto estranho, porque marcou um dia para a entrega, convidando inclusivamente a poetisa para almoçar com ele. Sophia compareceu na data e hora marcadas com os seus patos (que, claro, ficaram a fazer parte da fauna gulbenkiana a partir desse dia) e, durante o almoço, ficou muito surpreendida quando Azeredo Perdigão a presenteou com uma medalha, tendo indagado o porquê de tal distinção (pareceu-lhe que a oferta dos patos, por certo, não o justificava). Foi nesse momento que Azeredo Perdigão lhe explicou que era a primeira vez que alguém vinha dar alguma coisa à Gulbenkian, porque normalmente só vinham pedir...

01
Fev11

Sentimento de posse

Maria do Rosário Pedreira

Ser possessivo não é, necessariamente, uma coisa boa, mas a verdade é que há muitos livros que queremos ter na estante e não nos basta ler emprestados ou descarregados num aparelho qualquer. Mesmo sem grande afecto pelos e-readers, tenho de confessar que ultimamente tenho achado graça ao iPad e à sua excelente visibilidade e até já «folheei» livros e artigos no do Manel, que – ele, sim – é doido por gadgets electrónicos e está sempre ansioso pelas versões mais modernas. E, mesmo assim, a circunstância de, pela primeira vez, considerar possível e agradável ler um livro num dispositivo deste tipo não me retira a vontade de o ter em papel; porque, mesmo que o saiba ali ao alcance de uns cliques, a verdade é que esse livro não é meu, é de uma empresa qualquer que mo disponibiliza mas mo pode tirar quando lhe der na gana (já aconteceu com a Amazon quando se puseram problemas de copyright); e, além disso, basta que a bateria se esgote para ele me desaparecer da frente sem dó nem piedade. Enfim, é um serviço, e não um bem. Possuir um bem é coisa humana e todos gostamos de ter coisas, nem que seja para saber que as temos ou olhar para elas de vez em quando. No artigo de Beigbeder de que falei há dias, publicado na revista Lire, o escritor diz que, no dia em que desaparecer este mediador que é o editor e os livros estiverem apenas disponíveis na Internet, as pessoas deixarão de ler. Vivam então os possessivos.

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