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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mar11

Estado crítico

Maria do Rosário Pedreira

Desde que estou na edição – e, como sabem, já lá vão mais de vinte anos – que ouço falar em crise. Ouvi-o quando os leitores eram poucos, quando as livrarias começaram a fechar, quando a Internet apareceu e se previu que tiraria muita gente à leitura e, mais recentemente, quando rebentou a... crise, a verdadeira. E fico preocupada com o futuro de muita gente que perdeu ou perderá o emprego, com a segurança das famílias, com os mais jovens que não encontram ocupação digna (um dos meus sobrinhos mais velhos acaba de emigrar para o Brasil), mas também com os autores que publico este ano. Alguns são, realmente, muito bons (como a Aida Gomes da Silva e o David Machado, cujos livros saíram recentemente, ou outros que lançarei mais para diante, como o Pedro Guilherme-Moreira ou o Nuno Camarneiro) e sinto que o seu reconhecimento mais do que merecido está ameaçado pela desgraça que ainda nos espera. Peço, por isso, a quem goste verdadeiramente de ler que lhes dê atenção e, se apreciar a leitura, passe a palavra. Começar num ano excepcionalmente difícil como este pode custar-lhes o sonho de continuar a escrever, e isso seria terrivelmente injusto.

30
Mar11

Vai um fadinho?

Maria do Rosário Pedreira

Os leitores da minha poesia já repararam (e dizem-mo sinceramente) que ando preguiçosa para os versos. Não é só preguiça. Na verdade, sempre escrevi mais e melhor quando precisava de pôr cá fora coisas que me doíam – e, de há uns anos para cá, o Manel varreu-me a escuridão e deixou-me de céu limpo e azul. De vez em quando,  ainda aparece um verso sei lá de onde que me pede que o escreva; e das duas uma: ou sai um poema, ou – confesso – fico a mastigá-lo num sofá e acabo por esquecê-lo no dia seguinte (isso, sim, já é preguiça). Porém, se me pedem que escreva a letra de um fado, não resisto. Já o fiz para a Aldina Duarte, o Carlos do Carmo, o António Zambujo, a Mísia – e é uma delícia ver as palavras fundirem-se nos sons das guitarras e das suas vozes. Há dias, pude ouvir o master do próximo CD da Aldina, para quem fiz três letras, e fiquei maravilhada com a forma límpida como ela os canta. Até pareciam poemas...

29
Mar11

Sem cerimónia

Maria do Rosário Pedreira

Aqui no país vizinho, há já várias décadas que toda a gente se trata por tu, sobretudo nos centros urbanos. Os falantes de língua inglesa têm também o problema resolvido, porque não encontram forma de escapar ao «you» – e, se viverem nos Estados Unidos, tornam-se ainda mais informais, abolindo os Mr. e Mrs. e tratando-se invariavelmente pelo nome próprio que, em reuniões ou convenções profissionais, exibem em crachás presos nos casacos ou pendurados em fitas ao pescoço. Noutros países, o tratamento é mais cerimonioso (e até pretensioso, como na Alemanha ou na Bélgica, em que os cartões de visita revelam o grau académico antes do nome). Em todo o caso, venha donde vier, um ministro trata-se habitualmente com respeitinho – e falo disto porque Mário Lúcio Sousa, de quem publiquei recentemente o romance O Novíssimo Testamento, acaba de ser nomeado Ministro da Cultura de Cabo Verde. Tratamo-nos por tu desde que nos conhecemos e continuaremos a fazê-lo, mas lá que vai parecer estranho a algumas pessoas, isso vai. Espero que esta nova função não lhe retire o tempo e o prazer da escrita.

28
Mar11

Antídoto

Maria do Rosário Pedreira

O País anda tristemente triste e não parece haver remédio que o cure da sua doença. O futuro não brilha aos olhos de ninguém e a Alemanha há-de cansar-se de ajudar os amigos, até porque essa generosidade fará, muito provavelmente, com que a senhora Merkel perca as próximas eleições. A muitos não apetece, por todas as razões e mais alguma, ler coisas demasiado sérias e pesadas – mesmo que essas, por comparação, possam constituir um alívio momentâneo. Fico, assim, contente por ter na manga para Abril um romance que pode abrir muitos sorrisos e fará decerto soltar gargalhadas. Trata-se de O Amor É Um Lugar Comum, de Paulo Nogueira, e é uma espécie de Quatro Casamentos e Um Funeral dos nossos dias transposto para o papel. As personagens são obviamente outras, mas pelo protagonista Bernardo perpassa uma certa reminiscência do desastrado Hugh Grant, e não faltam momentos de humor que, não fosse a história passada com portugueses, até podia ser britânico. Um escritor frustrado apaixonado por quem não deve, uma neo-hippy bem-intencionada, um médico sem fronteiras católico (e com tendência para os copos) e um arquitecto engatatão que não consegue sequer um amor e uma cabana compõem um ramalhete que é seguramente um bom antídoto para a crise. Se quer ficar bem-disposto, uma excelente opção.

 

25
Mar11

Companheira de luxo

Maria do Rosário Pedreira

Um dos segredos do sucesso das já famosas Correntes d’Escritas é a mescla de africanos, europeus e latino-americanos: os europeus – mais frios e contidos – dissolvem-se na quentura dos outros e, facilmente, perdem as peneiras  e a sobranceria de pertencerem ao Velho Continente. Quem lá vai, pois claro, diverte-se bastante e não raro ouve coisas imensamente divertidas como aquela história da tabuleta num prédio de Luanda que um dia Ondjaki contou que dizia: “Morais & Herdeiros (excepto o Rui).” Coitado do Rui, que devia ter sido deserdado... Este ano, foi a vez de o angolano Manuel Rui nos ter feito rir com uma das suas. Para quem não sabe, o transporte entre o hotel e o local onde se realizam as mesas-redondas faz-se de autocarro, e toda a gente se senta no primeiro banco que encontra livre, porque, como muita gente acaba por se juntar à trupe de escritores, os assentos por vezes não chegam para os convidados. No fim de uma dessas viagens, Manuel Rui virou-se para o editor Carlos da Veiga Ferreira e disse-lhe com ar sério: “Passa para cá cem dólares. Vieste a falar com a minha mulher.”

24
Mar11

Catequizar

Maria do Rosário Pedreira

O Centro Nacional de Cultura tem um interessante programa, no qual leva consigo numa viagem anual de longa duração um escritor e um artista plástico que, mais tarde, produzem um livro em conjunto sobre a sua experiência. No ano em que Miguel Real foi o escritor convidado (a pintora foi Graça Morais), publiquei esse álbum belíssimo (As Missões) que tratava das missões católicas na América do Sul (e que o filme A Missão resume bem). A propósito de evangelização, contaram-me recentemente uma história extraordinária. Séculos depois destas missões dos jesuítas na Argentina, descobriu-se uma tribo no Norte do país que nunca tinha sido catequizada. Então, uma igreja protestante resolveu tentar a sua sorte e partiu para o local acompanhada de um tradutor. A população era pacífica e, após ter sido informada do objectivo do pastor, ouviu demoradamente a respectiva pregação. Terminada esta, o membro da Igreja pediu ao tradutor que indagasse os efeitos da prédica entre os nativos, e este afadigou-se a interrogar o chefe da tribo. Mas a resposta foi bastante inesperada: “Ele coça realmente bem, mas, infelizmente, não é no sítio onde temos comichão.”

23
Mar11

Equivalências

Maria do Rosário Pedreira

Fui convidada para proferir uma das cem lições nas comemorações do Centenário da Universidade de Lisboa. Disse que sim, mas estou obviamente aterrada. Quem me conhece sabe que não gosto de falar em público e, desta feita, a responsabilidade é muito grande. Na carta-convite, propunham-me (sem me forçarem, bem entendido) que reflectisse sobre a relação que existe entre o que aprendi nos meus tempos na Faculdade de Letras e as funções que agora desempenho; a sugestão fez-me pensar na quantidade de coisas que li durante o curso e no que hoje se lerá. Um professor contou-me uma história a este respeito que achei hilariante. As frequências aproximavam-se e deu-se conta de que um dos seus alunos não sabia patavina; decidiu ir falar com ele e insistiu em que estudasse, mas passaram duas semanas e o rapaz continuava em branco. Voltou a aconselhá-lo, mas bastou meia dúzia de perguntas uma semana mais tarde para chegar à conclusão de que ele não lhe dera ouvidos. Interpelou-o, pois, pela terceira vez – e foi então que o aluno explicou que aquele curso não lhe dizia nada, que até já tinha tomado a decisão de mudar de faculdade, e que só pretendia ir aos exames para conseguir equivalências nesse novo curso. Pediu, como quem não quer a coisa, ao professor que o passasse... Este, porém, não se deixou abater e retorquiu apenas: “Equivalências?! Que equivalências?! Pois se o que tu sabes não equivale a nada!”

22
Mar11

As maravilhas do subúrbio

Maria do Rosário Pedreira

Conheço Pedro Vieira como bloguista, sobretudo no Irmão Lúcia, onde nos delicia com um humor que faz inveja a qualquer um – e agora também como apresentador de um programa sobre livros no Canal Q, que dá pelo nome Ah, a Literatura! Mas ele é também escritor e acaba de publicar o seu primeiro romance, curiosamente intitulado Última Paragem: Massamá. Dele, disse Pedro Mexia numa crítica recentemente publicada que era um bom livro, mas um mau romance. Não iria tão longe, embora perceba perfeitamente o que está por detrás dessa afirmação. Pedro Vieira talvez tenha desperdiçado as suas muitas qualidades numa história que me pareceu ligeiramente ultrapassada e faria mais sentido há dez ou quinze anos; porque ele é francamente inteligente (não teria o humor que tem se o não fosse), de uma perspicácia invulgar (e o subúrbio é, para alguém assim, uma vítima perfeita), corrosivo quanto baste e, além disso, evidentemente culto. E, mais ainda, percebe-se que sabe muito bem o que é escrever um livro, sem soluços, sem palha e com grande domínio da estrutura. Eu gostei deste, mesmo assim, mas agora fico à espera do seguinte, que vai ser – tenho a certeza – ainda melhor.

21
Mar11

Bons ventos do País Basco

Maria do Rosário Pedreira

Nesta última edição do festival Correntes d’Escritas, apresentou-se pela primeira vez um escritor basco, autor de um romance que acaba de ser editado em português pela Planeta e venceu o Prémio Nacional de Narrativa no país vizinho. Chama-se Kirmen Uribe (confesso que, quando li o seu nome na lista de escritores convidados, pensei tratar-se de uma mulhar) e gostei imenso de o ouvir a propósito do seu O Dois Amigos (o título original – Bilbao-Nova Iorque-Bilbao – pareceu-me bastante melhor do que esta opção), ficando a saber que é também poeta, não só pelas biografias que circulavam no encontro, mas pela sua maneira tão doce e especial de dizer as coisas. O Manel, igualmente entusiasmado com o que escutara, comprou o livro que, nestes dias, me fez passar umas horas realmente extraordinárias. É um texto lindíssimo, cheio de sentimento, de memória, de poesia, de ligação ao mar e às raízes; e, ao mesmo tempo, uma obra profundamente moderna, cujo «conteúdo» se articula numa estrutura completamente original, mas sem nada de forçado ou meramente experimental. Por favor, não percam este livro que mostra que a literatura está viva e de boa saúde e que os jovens autores são capazes de grandes maravilhas com que os cépticos já não contavam. Uma pérola.

18
Mar11

Bonecas russas

Maria do Rosário Pedreira

No Mindelo, aonde fui há dias para o lançamento do romance O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa (na capital tivemos o Primeiro-Ministro e tudo!), apareceu no hotel para ver o escritor uma rapariga muito simpática com uma menina ensonada pela mão. Tratava-se de uma jovem actriz que tinha entrado dois anos antes numa peça da autoria do romancista, intitulada Sozinha no Palco. Quando quisemos saber sobre o que versava esse texto, Mário Lúcio contou-nos que era a história de uma empregada doméstica; e explicou a seguir que, em Cabo Verde, absolutamente toda a gente tem empregada doméstica, mesmo... pois, as empregadas domésticas! A que trabalha, por exemplo, na Embaixada de Portugal na Cidade da Praia tem de ter alguém que lhe limpe a casa enquanto está fora de casa, certo? Enfim... um esquema que me fez pensar em bonecas russas. Bem, mas o que importa agora referir é que, na dita peça, a protagonista é uma empregada doméstica analfabeta que tem um patrão duro e agressivo. Um dia, quando a deixam finalmente entrar na sala principal da casa para limpar as grandes estantes cheias de livros, tira logo a seguinte conclusão: «Poxa, por isso é que eu nunca aprendi a ler, patrão é tão bruto!»

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