Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar11

Em boa companhia

Maria do Rosário Pedreira

Cá estou de volta – e só não digo que venho de barriguinha cheia porque não sou um grande garfo; venho, de qualquer modo, com a feliz experiência do sol, sem a febre do stress e cheia de boa companhia, sobretudo a de Frei Bento Domingues, que é alguém que se alegra muito com as coisas e acaba por contagiar quem o tem perto. Para ele, Deus pôs-nos cá, sem dúvida, para sermos felizes – e há que aproveitar, comendo, bebendo, escutando, olhando à volta com maravilha. Entre as muitas histórias que nos contou em Cabo Verde (é um homem que viveu em dezenas de lugares e conheceu muita gente, tendo apoiado os presos políticos no tempo da ditadura), uma ficou-me para sempre. Pouco depois do 25 de Abril, com o furor marxista a declarar que a religião era o ópio do povo, já se vê que a relação dos políticos com a Igreja não era fácil. Seguramente em virtude das suas capacidades de contemporização, Frei Bento foi escolhido para acalmar os ânimos de um grupo de homens zangados com os padres que, assim que o viu chegar, se apressou a dizer-lhe para o neutralizar: «Ó meu amigo, isto só se resolve pendurando os bispos todos nos candeeiros!» E o nosso homem, que é a todos os títulos notável, replicou: «Ora essa, mais respeitinho pelos candeeiros!» Com uma tirada assim, acabou certamente por levar a água ao moinho.

11
Mar11

Intervalo

Maria do Rosário Pedreira

Peço desculpa pela interrupção, mas estou em Cabo Verde com Frei Bento Domingues a fazer o lançamento de O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa. Com duas sessões (uma na Praia e outra no Mindelo) e quatro voos em três dias, não consigo mesmo pôr o blogue em dia. Entretanto, se ainda não leu o livro, aproveito para lembrar que é uma excelente leitura – e que a obra recebeu o Prémio Literário Carlos de Oliveira. Até breve.

10
Mar11

Um novelo no coração

Maria do Rosário Pedreira

Sou às vezes demasiado emotiva em relação aos autores que publico – particularmente àqueles de quem me torno amiga e cúmplice ao longo do tempo. Com o valter hugo mãe, sinto, por exemplo, uma espécie de parentesco, como se ele fosse um irmão mais novo que me orgulhava de levar às festas porque fazia sempre brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza. Alguns saberão que o valter me fez uma declaração de amor (enfim, à minha poesia) num 14 de Fevereiro de há três anos, que publicou depois, creio eu, no Pnet Literatura; mas o que nos une é mais antigo do que esse texto. No dia em que ele me disse que tinha de deixar a editora em que eu estava – por razões de que não é bonito fazer alarde na blogosfera –, percebi-o e disse-lho, mas chorei uma noite inteira com as saudades que ia ter dos seus manuscritos numa viagem de comboio Madrid-Lisboa (se tivesse conseguido dormir naquelas camas estreitas, teria sido menos doloroso). E hoje, sempre que leio ou o ouço ler um dos seus textos, a verdade é que sinto um novelo no coração, como se me tivessem arrancado um bocadinho da minha família. Foi assim nas Correntes d’Escritas deste ano, quando ele nos brindou com uma hilariante descrição das confusões que se têm gerado à volta do seu nome (uma delas envolvia duas cadeiras num palco, uma para o valter hugo e outra para a mãe); e foi-o também no lançamento do livro do Eduardo Pitta, há alguns dias, no qual ele leu um texto tão bonito que me vieram as lágrimas aos olhos. Porém, longe ou perto de mim, desejo acima de tudo que continue a escrever.

09
Mar11

Pagar bilhete

Maria do Rosário Pedreira

Há encontros de escritores que são feiras de vaidades, onde falsos génios deambulam de nariz arrebitado e não existem conversas que não sejam maledicentes. Há outros, demasiado profissionais, nos quais impera o academismo em excesso – e daí ao bocejo é um instantinho. Há ainda aqueles em que nos divertimos muito e ouvimos histórias que nos transformam. Mas, em qualquer encontro de escritores, há pessoas que valem a pena e nos fariam pagar bilhete só para privar com elas alguns minutos e as ouvir falar das coisas mais comezinhas. Não há muito tive um desses momentos de prazer com aquele que julgo o maior nome da cultura portuguesa – esse mesmo em que estão a pensar. Acordáramos ambos preocupados com o que se estava a passar na Líbia e, juntos, corremos à papelaria em busca de um jornal. Como já não havia aquele que compraríamos num dia normal, eu acabei por desistir (pensando que, mais tarde, recorreria à Internet para me pôr em dia), mas ele aceitou levar um outro, de que a papelaria ainda dispunha. Sentámo-nos depois num sofá lado a lado – e ele foi folheando com calma e comentando as notícias até chegar àquelas páginas de anúncios muito sugestivos, que não só oferecem serviços óbvios, como ainda os ilustram com ligas, nádegas, seios e outra iconografia do tipo. Olhou para mim e disse-me: “Já viu? Este é o maior bordel portátil da Europa!” Genial, como sempre.

07
Mar11

Humor malandro

Maria do Rosário Pedreira

Mário Zambujal, o autor desse livro maravilhoso intitulado Crónica dos Bons Malandros – um verdadeiro best-seller quando foi lançado –, esteve este ano nas Correntes d’Escritas, julgo que pela segunda vez, como escritor convidado. Numa dessas noites na Póvoa de Varzim, calhámos ficar na mesma mesa à hora do jantar e, durante a refeição, vieram três senhoras – à vez, bem entendido – pedir-lhe que posasse junto delas para uma fotografia. À terceira, já um pouco cansado da situação, o jornalista e escritor suspirou e confidenciou-nos num tom meio sussurrado: «Agora, que já estou com esta idade, toda a gente quer tirar fotografias comigo…»

04
Mar11

Efeméride

Maria do Rosário Pedreira

Foi há cinquenta anos que começou a guerra colonial e foram precisos muitos anos depois do seu fim para que se começasse a escrever e publicar ensaio e literatura sobre o tema. Um dia destes estava a ler o segundo romance de Paulo Bandeira Faria ainda em fase de rascunho e lembrei-me de que o seu livro anterior, que publiquei há uns quatro anos, foi um dos primeiros que abordavam a temática da guerra colonial sem complexos de culpa e de forma descomprometida. Intitula-se As Sete Estradinhas de Catete e conta a história de Guilherme, filho de um oficial da Força Aérea, que cresce em Angola e assiste não só ao desmoronar da sua família como ao desmoronar do império e ao princípio da guerra civil, com uma mudança de comportamento gritante entre velhos «amigos» brancos e negros. Aproveitando a personagem da criança para narrar através de um olhar descomplexado as agruras do antes e do depois, este é um romance que combina uma certa candura com a violência mais inesperada. A ler, absolutamente, cinquenta anos depois dos primeiros acontecimentos que geraram uma guerra que durou anos demais.

03
Mar11

Benfica-Sporting

Maria do Rosário Pedreira

O poeta Fernando Pinto do Amaral usou uma vez uma expressão que me pareceu muito feliz, referindo-se a poetas que achava obviamente maiores mas não faziam parte das suas leituras mais queridas. Disse, simplesmente, que não os considerava da sua família. Percebi perfeitamente o que queria dizer com essa história do parentesco, porque também eu não posso deixar de concluir que tudo aquilo que até hoje escrevi em matéria de poesia descende mais de Eugénio de Andrade do que de Herberto Hélder e que, por muito que ache este último um poeta genial, o meu coração chocalha muito mais facilmente quando leio os poemas do primeiro. E, contudo, as pessoas vêem isto um pouco como um Benfica-Sporting, no qual evidentemente não se pode acarinhar ambas as equipas ao mesmo tempo: de um lado Andrade, do outro Hélder. No Brasil, também reparei que os «parentes» de Manoel Bandeira são distintos dos de Drummond de Andrade, como se não fosse possível gostar de ambos com o mesmo tipo de sentimento; e, num encontro em Espanha, descobri entre um grupo de pessoas adeptos de Lorca que não eram, claramente, da equipa de Machado. Quando era estudante, também me perguntavam frequentemente se preferia Eliot a Pound (ou vice versa). Será assim em todos os países?

02
Mar11

Do pequeno para o grande

Maria do Rosário Pedreira

O mundo rege-se por modas – e os livros não fogem a elas. Durante os primeiros anos de vida editorial, lembro-me de que era muito difícil vender calhamaços em Portugal – se não se tratasse, evidentemente, de histórias ou ensaios exaustivos sobre determinado assunto, que tinham de ser grandes para serem credíveis. Mas a literatura queria-se sucinta e, sempre que se publicava um romance de 500 páginas ou mais, sabia-se de antemão que se estava a correr um risco e só se apostava quando se cria que a coisa era mesmo genial. Às vezes, paginavam-se estes livros maiores com letra pequena e parco entrelinhamento, para que o leitor não se assustasse com a grossa lombada na hora de escolher. Porém, a partir do momento em que os meninos todos do mundo se puseram a ler livros de 700 páginas (como os da saga Harry Potter) e Dan Brown produziu o bestseller internacional O Código Da Vinci, parece que os leitores se habituaram aos «tijolos» e já não querem outra coisa. Quando pagam, fazem questão de levar para casa material de leitura suficiente para muitos dias e, nas livrarias, desviam-se dos livros pequenos que não lhes oferecem senão algumas horas de prazer. Bem sei que, se calhar, o tamanho levará certas pessoas a não temerem agora a leitura de obras como Guerra e Paz, de Tolstoi, mas serão ignorados por causa disso livrinhos breves mas suculentos como O Amor Louco, de André Breton?

01
Mar11

O Grande Gatsby

Maria do Rosário Pedreira

Este ano entrou no domínio público a obra do norte-americano Scott Fitzgerald e alguns editores afadigaram-se a publicá-la ou republicá-la em Portugal. Salvo erro, já vi duas novas edições de O Grande Gatsby por aí e espero que haja leitores para elas, pois já quase passaram 90 anos sobre a sua publicação original e no mundo em que vivemos é muito difícil consumirmos as novidades, quanto mais os clássicos. Tenho um amigo arquitecto que é um fã incondicional do livro e do filme – um filme de Coppola com Robert Redford e Mia Farrow, entre outros –, que cita passagens de cor e me convenceu a ler este romance quando éramos pouco mais do que adolescentes. Li-o numa tradução portuguesa que havia em minha casa (nem me recordo se boa se má) mas possuo uma edição muito bonita do livro em inglês (e também de Terna É a Noite e Este Lado do Paraíso), que me foi oferecida nos anos 80 por uma senhora que trabalhava na Embaixada dos EUA e era uma grande impulsionadora da literatura norte-americana em Portugal, chamada Ivone Cunha. Espero que, com a reedição da obra, quem nunca teve contacto com este autor possa nem que seja dar um cheirinho no Gatsby.

Pág. 2/2