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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Abr11

O meu salário

Maria do Rosário Pedreira

O que existe de mais positivo em ter um blogue como este é o estímulo que os comentários acabam por trazer, criando ideias para um sem-número de posts quando andamos com falta de imaginação ou agarrados ao mesmo livro há demasiado tempo para podermos falar de vários. Na semana passada, houve alguém que escreveu num comentário uma frase muito curiosa sobre o meu ordenado, dizendo que ele era provavelmente pago pelos livros que, para abreviar, eu não gosto de ler nem publicar. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Para começar, à excepção das estrelas televisivas, não se pense que a ficção comercial é rendimento garantido. Claro que os autores de renome internacional, que já venderam milhões de exemplares nos seus países, têm a vida facilitada e se tornam quase sempre best sellers. Mas, muitas vezes, isso não é verdade – e o marketing precisa de embrulhar os livros com lacinhos vermelhos ou metê-los em caixas em forma de coração (deixem-me exagerar) para transformar um título num sucesso de vendas; muitos dos que vão despidos para a loja não têm a sorte de vender mais do que a chamada literatura séria e vendem de certeza menos do que qualquer Booker Prize... E também há autores literários que se vendem muito, como é desde logo o caso de Saramago (com tiragens de cem mil exemplares) e de alguns outros que, não conseguindo os recordes dos autores mais mediáticos, contribuem fantasticamente para as receitas que pagam, entre outras coisas, o meu ordenado. Além disso, no grupo em que eu trabalho há imensos editores – mais do que um por cada chancela – e, se me convidaram há cerca de um ano para me juntar a essa equipa, foi certamente pelo que fiz até então, e não para fazer o contrário.

13
Abr11

Falta de fé

Maria do Rosário Pedreira

Um dos leitores deste blogue acusou-me um dia destes de falta de fé no estado actual da educação portuguesa. Fez-me ver que, sendo mais velho do que eu, acreditava, pelo contrário, que as novas gerações estavam francamente mais preparadas cultural e intelectualmente. Não posso negar que, ao longo destes vinte e tal anos que trabalhei, fui tendo colaboradores jovens que, a cada ano, chegavam menos cultos e interessados – e daí, quiçá, a minha falta de fé. Mas, como em tudo, há excepções e já aqui elogiei algumas pessoas que trabalham ou trabalharam comigo e que contrariam a minha desconfiança – e não as considero sequer aberrações. Pelo facto de me dedicar acima de tudo à publicação de jovens autores, sinto, aliás, que bem podiam dispensar-me da acusação de falta de crédito nas novas gerações. Entre os editores activos, sou dos poucos que se dão ao trabalho de ler cem originais para, como agulha em palheiro, encontrar aquele que faz a diferença (e podem, mais uma vez, atirar-me com a questão do gosto, que nem me importo muito, pois quem premeia em Portugal e quer traduzir noutros países tem um gosto, pelos vistos, semelhante ao meu). Sei, obviamente, que há muito mais jovens brilhantes hoje do que noutros tempos, mas também sei que muitos deles estudaram lá fora ou foram trabalhar para o estrangeiro assim que terminaram os cursos. Respeito muito os bons professores, entre os quais talvez se encontre esse meu leitor, mas ainda vão ser precisos muitos anos para me convencer de que foi apenas a escola – e sobretudo a portuguesa – que preparou os melhores.

12
Abr11

Subsídios outra vez

Maria do Rosário Pedreira

Prometi voltar à polémica que surgiu depois de ter escrito um post no qual referi que os escritores poderiam beneficiar dos mesmos apoios que têm os cineastas, as exposições de pintura e os concertos. Não queria, porém, dizer que esses apoios se deviam traduzir no pagamento de um ordenado fixo, suportado – como alguém disse – pelos contribuintes. Não me parece, mesmo assim, que um escritor seja menos artista do que um músico – e a verdade é que sempre que um músico é convidado lhe pagam um cachet, mas o escritor, quando muito, tem direito a gasolina e alimentação. Alguém avançou também que os escritores são frequentemente culpados da sua situação, porque, em lugar de se aproximarem dos leitores, afastam-se deles escrevendo coisas difíceis. A questão é muito relativa, porque nem todos os leitores têm, perante as obras, a mesma dificuldade e, por outro lado, porque há literatura de grande qualidade que não é nada difícil e não deixa de ser literatura por causa disso (estou convencida de que qualquer pessoa leria com prazer e sem esforço A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa – e o autor ganhou o Nobel da Literatura). Por outro lado, se quisermos agarrar-nos a essa coisa da dificuldade, teremos de deixar de subsidiar a ópera, algumas companhias de teatro e a dança contemporânea, só porque o seu público é minoritário, e patrocinar, no seu lugar, as telenovelas, o cinema de massas e os espectáculos de música pimba? Não me parece. Acho que todos devemos contribuir para que as populações possam de facto ascender culturalmente, e não para que fiquem eternamente emparvecidas ao ponto de um dia meia dúzia de iluminados as dominarem como, aliás, já aconteceu noutros tempos em Portugal. E, se os bancos, por exemplo, patrocinam tanta coisa, não poderiam uma vez por outra distinguir um autor com uma bolsa que lhe permitisse escrever durante dois ou três meses sem ter de pensar como vai pôr o jantar na mesa? Em muitos outros países, ditos civilizados, é isto que acontece – e nós, leitores, agradecemos. O autor do livro As Horas, por exemplo, pôde beneficiar de um destes programas e vive num país onde certamente o número de livros que vende daria para muito mais do que para sobreviver.

11
Abr11

As palavras de Lídia

Maria do Rosário Pedreira

Estive recentemente numa apresentação do último romance de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, que ainda não li mas a que espero poder lançar a mão em breve. No pequeno debate que se seguiu, uma senhora referiu que os livros da escritora não raro reflectem problemáticas do nosso tempo e da nossa geografia e que é isso que os torna excepcionalmente ricos e interessantes (e Lídia, embora sem perder a habitual modéstia, pareceu concordar). Francamente, tenho dúvidas de que seja esse o motivo da riqueza literária da sua obra e, de algum modo, também duvido de que, para se fazer melhor literatura, tenha o escritor de trazer para o que escreve os dramas do presente. António José Saraiva, creio que no seu ensaio Iniciação à Literatura Portuguesa, diz que não se pode pedir ao escritor que se envolva (senão como cidadão) nos problemas sociais e políticos do seu tempo, advogando, em vez disso, que é escrevendo que cumpre a sua obrigação para com a vida. Ora, embora Lídia Jorge reflicta frequentemente sobre questões de natureza política e social nos seus romances, não é isso que faz dela a excelente escritora que é; pois temos imensa gente a dedicar-se às mesmas questões que não seria capaz de produzir a literatura intensa que nos dá. Disse a romancista na mesma sessão que o material do escritor – as palavras – é o mesmo de que toda a gente dispõe; e que devia haver uma maquineta, como as que contam os batimentos cardíacos ao longo de um dia, que registasse a quantidade de palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem) pois estas seriam seguramente belíssimas. O escritor – notou então – só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz. Mais uma vez, acho que foi modesta e que, se houvesse realmente a tal maquineta, Lídia Jorge podia facilmente mudar de opinião...

08
Abr11

Sem comentários

Maria do Rosário Pedreira

Nasci num tempo em que não havia liberdade de expressão e fiz, ainda adolescente, muitas perguntas que não tiveram resposta. Era perigoso falar-se de certas coisas, mais ainda a alguém sem maturidade suficiente para compreender o secretismo das matérias ou as consequências de partilhar ingenuamente assuntos controversos. Talvez por isso, quando iniciei este blogue, tenha decidido não fazer moderação de comentários (e também, não vale a pena negar, porque o meu trabalho quotidiano não me concederia tempo para escolher e publicar apenas os que tivessem realmente interesse para a discussão). Esta possibilidade que ofereci aos leitores encarei-a desde sempre como uma homenagem minha, por pequena que fosse, à liberdade de expressão – e é assim também que a vejo aberta noutros blogues, jornais online e sites de Internet. Às vezes, porém, penso que certas pessoas, quase sempre descompensadas, tomam esta abertura como, desculpem, um autêntico escarrador, no qual depositam, implacavelmente, o pus e o sangue das suas feridas por sarar. Quando foi, por exemplo, noticiada a promulgação da lei do casamento homossexual, os comentários na página de um jornal diário que consultei eram de tal forma alarves e ofensivos que dificilmente acreditei que pessoas como aquelas pudessem ler jornais. Mas também aqui no blogue, por duas vezes, a coisa desceu tão baixo que considerei a hipótese de alterar as regras, sobretudo porque os comentários não eram a nada do que escrevi, mas a pessoas que referi nos meus textos e não se podiam defender - e, o que é pior, assinados de forma impossível de identificar. Porque será que quem se sente no direito de espezinhar alguém de forma gratuita raramente tem coragem para assumir a sua identidade? Agradeço muito, pelo contrário, aos que me desafiam todos os dias, aos que estão contra mim e mo dizem, escrevendo com todas as letras quem são.

07
Abr11

Verdade ou consequência

Maria do Rosário Pedreira

 

Logo mais à tarde, estarei no lançamento do romance Deixem Falar as Pedras,  com apresentação de Mário de Carvalho, de quem gosto muito como escritor e como pessoa. Já aqui vos contei como este livro de David Machado me veio parar às mãos por causa de uma entrevista que dei ao Carlos Vaz Marques. Digamos, pois, que o Pessoal e Transmissível funcionou desta feita como uma espécie de lâmpada de Aladino e que um dos meus três desejos (nenhum era um ovo Kinder, sosseguem) foi realizado. Agora, que o livro está aí nas livrarias, tenho a certeza de que muitos leitores confirmarão que estava certa ao desejar ter David Machado entre os autores que publico. Numa história que é não exactamente sobre o que se passou, mas sobre o que se diz que aconteceu, fica a verdade que cada um quiser para si e as consequências que daí advenham. Entre um neto dos nossos tempos (com os obrigatórios piercings e os Metallica sempre à beira do ouvido) e um avô da época da ditadura às voltas com um casamento que não chegou a realizar-se, este romance atravessa a nossa história recente e constitui um delírio de imaginação que desafia o leitor a concluir que nunca existe uma só verdade e que as consequências são insondáveis.

 

06
Abr11

Menos por menos dá mais

Maria do Rosário Pedreira

Não fui grande aluna a Matemática, embora muitos anos mais tarde, com o trabalho editorial desenvolvido na Gradiva que, na altura, se dedicava sobretudo aos livros de divulgação científica, tenha descoberto como esta pode ser uma disciplina realmente fascinante e me tenha arrependido de não ter trabalhado o suficiente durante a adolescência para consolidar as bases que me permitissem ir mais longe sem o apoio de um professor. E, mesmo assim, tenho ainda na cabeça as tabuadas de 1 a 9, a regra de três simples e muitos truques e atalhos, como, por exemplo, o que dá título a este post, aprendido quiçá no momento em que me iniciava no estudo das equações. Menos por Menos é, porém, neste caso, o título da mais recente colectânea de poemas de Pedro Mexia – e chamo-lhe colectânea porque reúne cem poemas escolhidos pelo autor dos seus seis livros publicados anteriormente. E – mesmo sabendo que vai aparecer quem diga que estou a dar graxa a um crítico do Expresso e que é só por isso que lhe dedico um post inteirinho – estou-me nas tintas. Porque este Menos por Menos dá mais:  dá uma visão rápida do talento de um grande nome da poesia portuguesa contemporânea e dá horas extraordinárias de leitura. Além de que, com a falência da Difel, que tinha a chancela da Gótica, este volume será praticamente a única poesia de Pedro Mexia hoje disponível…

05
Abr11

Polémicas

Maria do Rosário Pedreira

Há uns dias publiquei aqui um texto intitulado «Ser escritor», no qual utilizei a expressão «verdadeiro escritor» referindo-me aos que escrevem literatura, por oposição àqueles que escrevem outro tipo de ficção mais comercial; e «verdadeiro leitor», referindo-me aos que lêem literatura, e não essa outra ficção. As minhas afirmações geraram polémica – o que é sempre gratificante, até porque um blogue que não provoca comentários parece-me apenas um espelho infeliz ou uma parede nua na qual ressoa a nossa própria voz. Houve quem atacasse alguns autores literários por serem difíceis, quem dissesse que é legítimo procurar na leitura apenas diversão, quem sugerisse que a questão do gosto não é estranha às classificações e quem alvitrasse que cada um tem direito ao seu cânone. Muito bem. E, porém, há um Cânone estabelecido pela Academia, que se sobrepõe inevitavelmente aos nossos cânones pessoais e dita, entre outras coisas, que escritores podem ganhar o Nobel da Literatura e, mais importante, quais passarão o teste do tempo. Não é crível que, por mais competente que seja na sua área, Dan Brown alguma vez possa ser indicado para o Nobel ou os seus livros sejam objecto de análise textual em revistas académicas de crítica literária. E que, daqui a cinquenta anos, ainda se reeditem os seus livros, pois haverá seguramente muitos autores a escreverem livros afins provavelmente mais actuais. Para entrar nesse Cânone maior, parece-me que se tem de fazer o novo com o velho, que, com o material de que toda a gente dispõe desde que é alfabetizada, alguns conseguem ainda o milagre da originalidade, enquanto outros se limitam a replicar o que já foi feito. Era aos primeiros que chamava «verdadeiros escritores». Quanto à questão do prazer e do entretenimento, quero ainda dizer que a mim a literatura – alguma dela difícil, como foi referido, mas não necessariamente (Dickens é difícil?) – entretém-me bastante, e dá-me mais prazer ler um texto que me proporcione uma leitura activa e me deixe a pensar muito para lá de terminado o livro do que outro que, por bem construído que esteja, não deixe nada cá dentro. Sobre as outras questões levantadas e a merecerem o meu comentário alongado, deixá-las-ei para outra oportunidade.

04
Abr11

Representações

Maria do Rosário Pedreira

Trabalhei nove anos na Gradiva com o editor Guilherme Valente, um senhor algo distraído que um dia trouxe, de uma reunião na APEL, um sobretudo que não era o seu e, quando entrou no elevador de sua casa e se viu ao espelho, concluiu apenas que já não gostava de se ver com ele como antes... Enfim, Guilherme Valente começou a sua carreira na Europa-América. Estava eu na Gradiva ainda há relativamente pouco tempo, mandou-me em sua representação a um importante almoço no Hotel Ritz com editores e agentes estrangeiros, incluindo estrelas como Antoine Gallimard. Fiquei sentada em frente de Francisco Lyon de Castro (nesse tempo o editor da Europa- América). Quando me estava a sentar, achando-me provavelmente demasiado nova para merecer um lugar entre os craques da edição, perguntou quem eu era. Quando lhe expliquei que estava ali «em representação do Guilherme Valente» e que trabalhava na Gradiva, retorquiu apenas: «Ah, sim? O seu patrão foi meu empregado.» Enfim, gente educadíssima… Por seu turno, Eduardo Lourenço, quando, no acto inaugural das Correntes d’Escritas, foi chamado para a mesa do presidente da Câmara em representação dos escritores, disse aos presentes: «Pois se eu às vezes já nem me represento bem a mim próprio, como é que posso representar os escritores todos?»

01
Abr11

Ser escritor

Maria do Rosário Pedreira

Não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. E, porém, há imensos livros que se publicam de pessoas que decidem que a pele de escritor lhes serve às mil maravilhas – e até se vendem muito bem porque, infelizmente, nem toda a gente que aprende a juntar as letras sabe ler. Os verdadeiros leitores, como os verdadeiros escritores, serão sempre uma minoria – e a literatura séria está, com o tempo, condenada a ocupar uma pequena parcela das prateleiras das livrarias, onde hão-de proliferar muitos outros géneros de mais fácil assimilação. É uma pena que não se financie um escritor com provas dadas, como tantas vezes se apoia outro tipo de artista (o cinema é frequentemente subsidiado e os espectáculos e exposições quase sempre têm patrocínios). Os direitos de autor – em média 10% do preço de venda ao público do livro (sem contar com o IVA) – nunca poderão pagar as horas de escrita e reescrita de um romance. Noutros países, existem bolsas ou residências literárias que dão uma ajuda, fomentando a criatividade. Em Portugal, os autores ou têm outro emprego (o que nem é tão mau como pensam) ou vivem miseravelmente. Se escreverem um romance de duzentas páginas por ano (e já é muito) e venderem três mil exemplares (e tomáramos nós que todos os vendessem), receberão menos de quinhentos euros por mês, ou seja, o ordenado mínimo. Num país sem massa crítica como o nosso, quase poderíamos dizer que os escritores são uma espécie de empregadas domésticas intelectuais.

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