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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mai11

Diz-me onde compras

Maria do Rosário Pedreira

Portugal perdeu nos últimos dez anos muitas livrarias independentes; e grande parte das que não perdeu pesa cada vez menos no total das receitas nacionais de vendas de livros, ao contrário do que acontece em Espanha ou França, onde não são só (nem sobretudo) as grandes cadeias de lojas que contribuem para os bons resultados financeiros das editoras. Tenho pena, porque, assim, uma estreita relação cliente-livreiro é cada vez mais difícil de encontrar e estaremos condenados a breve prazo a dialogar apenas com rapazes e raparigas que ganham provavelmente o ordenado mínimo e só sabem dos livros o que o computador lhes diz. Ainda assim, entre os vários grupos livreiros – FNAC, Bertrand, Bulhosa, Almedina... – há diferenças gritantes quando observamos os Top de determinada semana: enquanto Nora Roberts e Luís Miguel Rocha ocupam os primeiros lugares na Bertrand, Liberdade, de Jonathan Franzen, e Ilha Teresa, de Richard Zimler, lideram a lista da ficção na Bulhosa e na Almedina. Não sei se poderemos tirar daqui conclusões, mas talvez os amantes da literatura ainda prefiram, apesar de tudo, lojas consideradas mais tradicionais...

30
Mai11

O marketing e a literatura

Maria do Rosário Pedreira

Vivemos num tempo em que as técnicas para fazer vender seja o que for são essenciais ao sucesso de qualquer marca ou produto. E não minto se disser que às vezes me ponho a pensar que, com capacidade inventiva e dinheiro, podemos realmente vender tudo o que quisermos e a toda a gente. Em relação aos livros, há, de resto, o exemplo de uma campanha exemplar, que deu frutos claros e pôs o autor nos píncaros (ou, melhor, nos Top). Falo de Bolaño e do êxito de vendas dos seus romances em Portugal, mesmo tendo em conta que o facto de o escritor ter morrido prematuramente constituiu um escândalo a que o público um pouco mórbido não foi completamente imune. No entanto, quando li Os Detectives Selvagens, não podia adivinhar que a obra deste autor se tornaria uma autêntica marca de sucesso. Achei que se tratava de um livro para leitores já rodados, com uma cultura literária respeitável e experiência suficiente para acompanhar uma obra requintada mas densa, na qual até o humor é incomum e encontrei (perdoem-me a sinceridade) algumas páginas bem aborrecidas. E, pelos vistos, a campanha foi tão bem pensada e posta em prática à saída do monumental 2666 que atraiu um número de leitores impensável, leitores que fizeram de Bolaño um verdadeiro autor de culto também em Portugal. Às vezes, há que tirar o chapéu aos marketeers...

27
Mai11

Maravilhosa tecnologia

Maria do Rosário Pedreira

O Manel nunca resiste a uma novidade tecnológica e, talvez porque isso se saiba por aí, foi convidado pelo jornalista José Mário Silva para comentar uma aplicação para o iPad da obra Our Choice, de Al Gore, para um artigo que saiu recentemente no semanário Expresso. Embora seja uma adoradora do livro em papel e não pense que ele venha a extinguir-se (Umberto Eco acredita que é mais fácil que se extinga o e-book), fiquei extasiada com a forma como um livro de ciência ganha realmente com esta versão: ilustrações tridimensionais, gráficos em construção, imagens em movimento, a voz do autor a explicar tudo. Pareceu-me, de facto, que esta pode ser a maneira ideal de explicar a um estudante como e porque entra em erupção um vulcão, o que é realmente um tsunami, um sismo, a chuva, a ruptura de um ligamento, o desenvolvimento de um tumor, etc., etc., etc. E, no entanto, passadas as páginas até ao final da obra (se é que podemos falar de páginas), a sensação que me ficou foi a de ter estado a assistir a um programa de televisão, e não a ler um livro. Acredito sinceramente que o mecanismo contribua para uma melhor aprendizagem de certos factos e matérias, mas ler – e, sobretudo, literatura – é outra coisa e requer uma concentração que não se compadece com estas maravilhas tecnológicas. Aliás, os números de consultas de e-books nas bibliotecas dos Estados Unidos apontam para uma percentagem de 76% dos chamados «professional books»: de medicina, direito, gestão, ciência. Parece que os leitores de romances ainda os preferem em papel. Como eu.

26
Mai11

Rasca ou à rasca?

Maria do Rosário Pedreira

Uma jovem publicitária escreveu um romance leve e divertido – mas com muita coisa para levar a sério – e extremamente oportuno se tivermos em conta que, de há uns tempos para cá, a geração a que um dia chamaram «rasca» está agora «à rasca» e, por isso, na berlinda. Despretensioso e objectivo, Os 30 – Nada é como Sonhámos, de Filipa Fonseca Silva – uma estreante nestas coisas que pertence à dita geração –, constrói uma história a partir de três personagens com vidas e ambições distintas para falar de todo um grupo de desencantados, fazendo o seu retrato nem indulgente nem implacável. O lançamento é hoje, e quem apresenta o livro é Vasco Palmeirim, da Rádio Comercial.

25
Mai11

Uma invenção dos anjos

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, fui à Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte da Caparica, participar num debate sobre o suposto fim dos livros em papel e a emergência dos e-books. Antes do início, a gentilíssima bibliotecária fez-nos uma visita guiada pelo edifício, terminado há poucos anos e com condições extraordinárias para ler e trabalhar, quer individualmente, quer em grupo – uma vez que dispõe de vários gabinetes que podem ser reservados e ocupados por um máximo de seis alunos que preparem a mesma matéria para exames ou trabalhos colectivos. A forma como o arquitecto estudou a luz é também francamente inteligente, com janelas rasgadas e boas vistas que, em dias mais limpos, permitem um cheirinho de Lisboa. Mas o «supremo encanto da merenda», como diria Cesário, é uma invenção deliciosa, um lugar onde os estudantes podem sentar-se em sofás e ficar para ali a pensar, sem fazer mais nada. O nome do espaço? Adequadíssimo: Preguiçómetro. Era bom que todos tivéssemos uma coisa destas no local de trabalho para aliviar o stress de vez em quando...

24
Mai11

Disfarçados de ricos

Maria do Rosário Pedreira

Com a situação actual, estão a surgir todos os dias novos pobres: além dos que de certa forma já o eram e sofrerão agora mais com os aumentos de tudo, os que perderam o emprego por falência ou estratégia das empresas onde trabalhavam e aqueles que se deixaram iludir pelos bancos e viviam claramente acima das suas possibilidades, não conseguindo agora manter o nível nem, muito provavelmente, pagar tudo aquilo que ainda devem. É sobre este último grupo que, a todos os títulos, vale a pena ler o romance As Viúvas das Quintas-Feiras, de Claudia Piñeiro, uma argentina que foi considerada uma das melhores escritoras da América Latina com menos de 40 anos. Num condomínio de luxo, paredes-meias com um bairro de lata, podemos assistir neste romance à derrocada de um grupo de pretensos ricos, que empenham literalmente a vida pelo sonho de parecer o que não são. Da mesma autora, li também uma novela intitulada Elena Sabe, que não sei se está traduzida em português, sobre a relação de uma mulher com a mãe que sofre da doença de Parkinson e que pode ser o seu melhor livro, mas é de tal forma um soco no estômago que nem me atrevo a aconselhá-lo nos tempos negros que vivemos.

23
Mai11

A guerra dos sexos

Maria do Rosário Pedreira

Um dos recentes posts deste blogue, dedicado às mulheres escritoras, suscitou um número de comentários nunca antes aqui visto. É bom saber que as questões de género estão bastante vivas (em alguns casos, em carne viva) e que há muitos que sobre elas se querem pronunciar – e, felizmente, não só mulheres. Contudo, porque foi muitas vezes referido o «machismo» de quem faz crítica de livros, queria apenas relembrar que o principal crítico que tivemos nos nossos jornais nas últimas décadas – e que foi grandemente responsável pela divulgação e o ulterior sucesso de muitos autores portugueses – nunca deu mais espaço a um escritor do que a uma escritora (era mais fácil o contrário ser verdade) e se mostrou sempre invulgarmente atento a todos os que iam aparecendo, sem qualquer preconceito de idade e género: poetas, romancistas, e até contistas e cronistas que, já se sabe, representam uma minoria à qual às vezes é difícil prestar atenção. Porque me lembrei dele enquanto assimilava os mais de cinquenta comentários dos meus leitores – e tive saudades de o ler, ainda que nem sempre concordasse com as suas ideias –, pensei que podia dedicar-lhe hoje o meu post, chamando-lhe um macho man muito feminista. Precisávamos de outro Eduardo Prado Coelho nos nossos jornais…

20
Mai11

Estudar para viver mais

Maria do Rosário Pedreira

Dantes, dizia-se às crianças quando não queriam comer que o papão, o diabo ou os ciganos as viriam buscar. Ameaças parvas que, graças a Deus, passaram de moda (hoje é mais provável tirar-lhes a televisão, a PSP ou o computador). Mas, por causa de uma notícia que li recentemente, apercebi-me de que os pais de filhos que não querem estudar podem agora dizer-lhes uma coisa horrorosa: que, se não forem à escola e não aprenderem, viverão menos do que os marrões e os aplicados. É verdade: parece que um estudo publicado na revista científica Brain, Behavior and Immunity mostra que o envelhecimento das células é mais rápido nas pessoas sem qualificações académicas e que, quanto mais «educação formal», mais longa e saudável será a vida. Claro que a educação ajuda a tomar medidas e decisões mais inteligentes que se repercutem, inevitavelmente, na saúde (e no resto). Mas já há tanta gente a estudar até tão tarde que esta notícia, a ser verdadeira, pode criar uma geração que não vai querer trabalhar antes de chegar a velha – se lá chegar…

19
Mai11

Criancices

Maria do Rosário Pedreira

Há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida. Quando vejo o Manel a ver um desafio de futebol, dando às vezes pontapés no ar e dizendo coisas sobre os adversários que ainda parecem insultos do tempo da escola, descubro nele esse lado de criança. O meu está em coisas, se calhar, não tão bonitas – como, por exemplo, não resistir a pôr nas livrarias os livros que publiquei por cima de outros quando acho que estão escondidos ou mal expostos. E os que tapo com eles são quase sempre de autores de que não gosto ou acho que ninguém ganha em ler… Mea culpa. Mas não sou só eu que escondo livros. Há umas semanas, numa livraria do Algarve, andei a ver se os livros que publiquei este ano estavam à vista e, de um deles, não havia sinais. Fingi-me então uma cliente e perguntei se o tinham. O senhor lembrava-se perfeitamente do título e andou a vasculhar a loja, acabando por encontrar três exemplares… mas dentro de uma gaveta! É por essas e por outras que sinto que as minhas malandrices estão mais do que perdoadas.

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