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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Mai11

A primeira vela

Maria do Rosário Pedreira

Hoje faz exactamente um ano que iniciei este blogue. Parece que ainda foi ontem que fiz uma espécie de declaração de intenções, mas, afinal, já lá vão doze meses de posts sobre livros, edição, autores, experiências de leitura, inquietações. Deu muito trabalho, pois só nas férias grandes e aos fins-de-semana não publiquei nenhum texto – e, com um trabalho a tempo inteiro e outras várias solicitações, por vezes saiu-me do corpo. Mas não me arrependo e estou contente por, apesar de alguns comentários indelicados, não ter desanimado. Gostei, acima de tudo, de vos ter aí desse lado a trocar impressões comigo, e agradeço a todos sem excepção. Mesmo aqueles que, escondendo-se no anonimato, afiaram as unhas e quiseram magoar, a verdade é que me leram e me deram atenção, o que já é muito. Os outros, ainda que discordando, foram-se tornando uma companhia imprescindível, que prezo muito e gostarei de ver por aqui no segundo ano deste blogue. Vamos lá ver se consigo ir de encontro às suas expectativas. Em suma, obrigada e até amanhã.

17
Mai11

É hoje

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais à tarde, será o lançamento do novo romance de Paulo Nogueira, O Amor É Um Lugar Comum. Excelente título, quanto a mim. Excelente romance também – sobre a amizade de pessoas maduras, o amor e as agruras e encantos da vida. A lembrar o filme Quatro Casamentos e Um Funeral, garante muitos momentos de diversão, e outros tantos de reflexão séria. Se quiserem aparecer, teremos muito gosto.

 

 

16
Mai11

A (má) fama

Maria do Rosário Pedreira

Um semanário da nossa praça, num suplemento dedicado às 100 figuras mais influentes do País, incluiu-me na categoria de «visionários e empreendedores». A escolha foi certamente do editor de cultura José Mário Silva – e agradeço-lhe a generosidade e a simpatia; estas coisas dão umas boas escovadelas ao ego quando nos sentimos um pouco cansados ou desapontados, embora saibamos (eu e, muito provavelmente, o jornalista que me nomeou) que não se trata exactamente de influência, coisa que às vezes até me dava bastante jeito ter. No entanto, este tipo de (boas) notícias tem um efeito igualmente nocivo: na semana que se seguiu à publicação, já eu tinha mais uma dúzia de originais para ler, mais cem pessoas a quererem ser minhas amigas no Facebook (quase todas potenciais escritores, poderia jurar) e muitas mensagens – algumas longas e explicativas – para ler na caixa de entrada do meu Outlook. Às vezes (quase sempre) isto da fama não é nada bom…

13
Mai11

Letras e ciências

Maria do Rosário Pedreira

Na geração do meu pai, as pessoas ainda faziam o liceu até ao fim com as disciplinas todas de letras e ciências, o que lhes permitia escolher qualquer curso que quisessem fazer, pois estavam habilitadas a quase todos; e foi talvez por isso que o meu pai foi para Engenharia, mas, percebendo que não tinha vocação nem jeito para desenhar, mudou no ano seguinte para Direito sem ter de fazer cadeiras suplementares. Do seu grupo de amigos dessa época, faziam parte, além do famoso poeta Alexandre O’Neill, o físico António Manuel Baptista que, apesar de ligado à ciência, também escrevia poemas e apreciava as letras. Foi, de resto, por causa deste homem de ciência que fui parar à edição, o que tem a sua graça. Ele era uma espécie de consultor da Gradiva, indicando livros de divulgação científica que achava deverem ser traduzidos em Portugal, e um dia o editor perguntou-lhe se não conhecia ninguém que pudesse ser assistente editorial. E ele recomendou o meu nome, mudando a minha vida. Tem graça que, mais tarde, também a filha mais nova, a Cristina Ovídio (hoje no Clube do Autor), seguiu a mesma área. Letras e ciências unidas.

12
Mai11

Mudam-se os tempos

Maria do Rosário Pedreira

Fico sempre muito irritada quando ouço dizer que antes do 25 de Abril é que estávamos bem. Já para não falar no atraso e na miséria em que os Portugueses viviam, basta lembrar que metade da população era analfabeta. E, quanto a este último ponto, tudo mudou. Há algum tempo, o Manel e eu fomos convidados por uns amigos que têm uma quintinha no Minho, perto de Guimarães, para lá passar um fim-de-semana; como iam mais pessoas, os nossos amigos pediram a uma senhora da aldeia que fosse cozinhar para nós naqueles dias. Era uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, robusta, de bata florida e com mãos de ter trabalhado a terra. O tempo não estava grande coisa e, numa manhã, quando o Manel se levantou e foi à cozinha tomar o pequeno-almoço, comentou a chuva com a dona Rosa. E não é que, para espanto dele, ela lhe respondeu que, realmente, era uma surpresa, porque na véspera tinha ido à Internet ver o tempo e anunciavam um dia bem melhor? Lá em minha casa, quem me ajuda na lida doméstica é outra dona Rosa, uma senhora de uns sessenta anos que trabalhou toda a vida numa fábrica. Ontem, tive de ir a casa a meio do dia e encontrei-a, surpreendentemente, a ler. O quê? O romance que eu própria escrevi nos anos 90 e do qual há uma prateleira cheia no meu escritório. E já ia a meio… Achei maravilhoso. E depois digam lá que as coisas antes eram melhores.

11
Mai11

Mulheres escritoras

Maria do Rosário Pedreira

Por causa de um artigo publicado no suplemento literário do Público sobre jovens narradores, criou-se uma polémica no Facebook quando a jornalista Raquel Ribeiro perguntou porque eram estes quase todos do sexo masculino. Muitos dos intervenientes defenderam que, na verdade, não são, mas que a comunicação social é, de algum modo, machista e só dá destaque a escritores homens; houve um escritor homem que pediu então licença para intervir no meio de tantas mulheres e disse que os editores têm muita culpa – porque, como há muito mais mulheres do que homens a ler, promovem melhor os livros de autores masculinos a pensar nos «consumidores». Todos terão alguma razão, embora eu, como editora, não faça nada disso; e a verdade é que recebo dezenas de originais todos os meses para avaliar mas, lamentavelmente, só dez por cento são escritos por mulheres. Em tempos, disse à mesma jornalista Raquel Ribeiro que achava que isso podia acontecer porque as mulheres, lendo mais, são mais exigentes com o texto e não se aventuram a escrever qualquer coisa (como muitos dos aspirantes a escritores que me mandam livros para avaliação); mas uma das leitoras dessa entrevista afiançou num blogue que, apesar de os tempos estarem decididamente a mudar, as mulheres ainda têm uma vida muito ocupada com a criação dos filhos e a organização doméstica, pelo que não lhes sobra grande tempo para se dedicarem à escrita, inclusivamente quando, como era o caso, gostariam de o fazer. É provável que, mesmo existindo ainda preconceito de género, esta seja mesmo a principal razão.

10
Mai11

O novo e o velho

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, li a notícia de que fechou a última empresa que ainda fabricava máquinas de escrever. Com computadores cada vez mais sofisticados e cada vez mais baratos, o fim da espécie estava anunciado há muito e acabou por verificar-se. Faz-me pena, porque fiz parte da minha vida profissional com máquinas de escrever (e foi nelas que escrevi os meus primeiros livros) e porque estas eram um objecto icónico dos romances, sobretudo policiais, que os computadores dificilmente substituirão por não terem o mesmo charme. Mas conheço uma história belíssima sobre computadores e máquinas de escrever. Estava um avô a «teclar» numa dessas velhinhas máquinas, mecânica ainda, quando um neto de oito anos se aproximou, visivelmente curioso. Ficou a ver o avô a dactilografar durante uns segundos, mal acreditando no que os seus olhos viam. Depois, boquiaberto e entusiasmado, exclamou: «Mas o avô tem um computador que escreve e imprime ao mesmo tempo!» Enfim…

09
Mai11

Livros que voltam

Maria do Rosário Pedreira

Todos somos diferentes – e não é fácil encontrar um livro que agrade a toda a gente. Claro que há clássicos que são lidos por muitas gerações com o mesmo entusiasmo, mas em cada geração há livros que saem, fazem o seu caminho e depois se esquecem de repente. Durante anos, sempre que faziam inquéritos sobre as leituras preferidas de figuras públicas, havia um título que se repetia até à exaustão. Tratava-se de O Perfume, de Patrick Suskind, que teve um sucesso estrondoso quando foi lançado e fez as delícias de muitas pessoas à roda da minha idade. O autor, depois de vender quinze milhões de livros, foi acusado de plágio (pois tinha sido editor e alguém se queixou de Suskind lhe ter roubado a história de um original enviado para publicação), mas nem assim a coisa esmoreceu; os outros livros do autor, porém, não deixaram grande rasto em Portugal (excepto um divertimento chamado A História do Senhor Sommer, recentemente reeditado, mas próximo da ficção juvenil). Já há muitos anos que não ouvia falar do livro do homem que não tinha cheiro (mas tinha um olfacto apuradíssimo), e um dia destes, em conversa com a minha sobrinha de treze anos sobre o que andava a ler, a resposta dela foi inesperada: O Perfume. Talvez os pais a tenham influenciado, não sei. Mas foi engraçado ver como certos livros voltam quando os pensávamos esquecidos.