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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Mai11

Um ar de feira

Maria do Rosário Pedreira

A Feira do Livro de Lisboa está de novo aí – e gosto muito daquele ar descomprometido que tem. Alguns editores que começaram como aprendizes há mais de vinte anos – a Cecília Andrade da Dom Quixote, o João Rodrigues da Sextante e eu própria, por exemplo – fizeram muitas feiras atrás do balcão, que era onde se podiam auscultar os desejos e as necessidades do público quando o gosto não seguia modas mais ou menos globalizadas e parecia importante estar atento aos mais ínfimos suspiros. Nesse tempo – lembremo-nos – ainda havia poucos leitores; muita gente não tinha sequer coragem de entrar numa livraria, que era um lugar bastante formal, e a feira era uma das poucas ocasiões em que todos podiam ir olhar e mexer nos livros, tal como mexiam nos cacos e nos panos noutras feiras. Lembro-me de uma vez, estava eu ainda na Gradiva, aparecer uma senhora do povo (como então se dizia) que veio direita a mim a perguntar: “Ó menina, tem aí algum livro que ensine como se deitam os canários?” Houve outras cenas do género, mas esta ficou-me. E não é que havia mesmo quem tivesse publicado um pequeno volume sobre a reprodução de aves domésticas?

05
Mai11

100 Lições

Maria do Rosário Pedreira

Hoje vou dar a minha lição (uma em cem) no Centenário da Universidade de Lisboa, às 18 horas, na Sala de Conferências da Reitoria. Embora tenha percebido que alguns estavam à espera de que eu falasse da minha poesia, achei que, em quarenta minutos, tinha mais coisas para dizer sobre edição e dei ao título da minha «palestra» Ler. Saber. Dizer não – Publicar literatura em Portugal. Farei a ponte entre os meus anos de estudante e a minha vida profissional e falarei das transformações que a edição sofreu nos últimos vinte anos. Se quiserem, apareçam. Estão todos convidados.

04
Mai11

Capas enganadoras

Maria do Rosário Pedreira

Há uns anos, quando estava a trabalhar numa editora que precisava mesmo de somar vendas para subsistir, pusemos num livro de literatura (mas que podia ser lido por toda a gente) uma dessas capas cheias de flores, que geralmente apelam a um público mais dado à ficção romântica e comercial. A coisa resultou, porque os clientes (livreiros) dão demasiada importância às capas e, na altura, os hipermercados apostaram em grande. Não sei, porém, se o livro chegou ao seu público-alvo, que se calhar aquela capa florida afastou… Passa-se agora a mesma coisa com um livro intitulado Villa Amalia, que comprei recentemente, do francês Pascal Quignard; sendo francamente literário, tem a capa típica daqueles livros americanos muito leves passados com ricaças com casas na Provença ou em Itália. Confesso que fiquei um bocado arrepiada quando vi aquilo, mas, como estou no ramo, comprei-o na mesma e estou a lê-lo. Quignard vale sempre a pena, mesmo florido.

03
Mai11

Desconcerto

Maria do Rosário Pedreira

Acabo de ler um romance que me deixou bastante desconcertada. Foi escrito por João Paulo Cuenca, brasileiro, considerado um dos 39 melhores escritores da América Latina com menos de 39 anos, a par de outros que conhecia melhor, como Andrés Neuman, Santiago Roncagliolo, Junot Díaz ou Adriana Lisboa. O livro em questão, O Único Final Feliz para Uma História de Amor É Um Acidente, partiu, julgo eu, de um convite de uma cadeia de livrarias brasileira, que enviou autores a várias cidades do mundo para as usarem como pano de fundo e redigirem uma história de amor, num projecto conhecido como «Amores Expressos». Cuenca esteve bastante tempo em Tóquio e é na capital japonesa que decorre a acção deste romance completamente desconcertante, onde o Sr. Atsuo «Lagosta» Okuda, poeta retirado e poderoso, vive com uma boneca insuflável altamente sofisticada (um dos narradores) e, ao mesmo tempo, vigia obsessivamente os amores do filho com uma imigrante de Leste que serve bebidas num bar e está apaixonada, por sua vez, por uma dançarina que trabalha no mesmo local. Muito interessante no diálogo que estabelece entre Oriente e Ocidente, muito crítico em relação a algumas especificidades da cultura nipónica (percebe-se que o autor ficou mesmo desconcertado com algumas manias), com uma ironia fina e com muitas surpresas ao virar da página, é um livro que não poderia em caso algum ser português, mostrando que a língua não chega para se poder falar de afinidades. Vale a pena o desconcerto, enfim.

02
Mai11

Actualizações

Maria do Rosário Pedreira

Contaram-me há uns tempos que alguns autores de literatura infanto-juvenil, depois de terem visto as suas séries de livros adaptadas à televisão, tomaram a decisão de as reescrever. Quando elas tinham sido dadas originalmente à estampa, não havia telemóveis nem Internet e, para manter o interesse dos leitores, sentiram a necessidade de uma actualização. Nada contra. E, mesmo assim, quando passo os olhos pelas listas dos títulos mais vendidos, não deixa de ter alguma graça que a extensíssima obra de Enid Blyton continue a figurar entre tanto livro mais moderno ou modernizado. Talvez o segredo do seu sucesso se prenda com a paixão sentida pelos pais dos pequenos leitores de hoje – que são, em princípio, quem compra os livros aos filhos e os pode influenciar. Ou simplesmente o êxito resida na fórmula encontrada – uma aventura cheia de peripécias fascinantes, com as quais as personagens crescem e aprendem, entre outras coisas, a ser melhores pessoas. Como tenho sete sobrinhos, entre os dois meses e os vinte e sete anos, já por várias vezes vi os livros de Enid Blyton nas mãos de um deles. E acho que ainda vou ver muitas mais.

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