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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jun11

Ler e lei

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes estava a folhear uma revista italiana e pousei os olhos na palavra «leggere», que significa «ler», lembrando-me acto contínuo de que a palavra «lei» (legge) tem exactamente a mesma raiz. Fui espreitar ao Houaiss e descobri que «ler» vem da palavra latina que significava coisas tão distintas como «recolher», «enrolar» e «dizer em voz alta». Ora, apesar de vivermos numa democracia e podermos decidir o que é melhor para nós, de entre tantas leis que se inventam e publicam, não seria engraçado que uma estipulasse que devíamos ler?

15
Jun11

Gloriosa insatisfação

Maria do Rosário Pedreira

Os Portugueses têm uma certa tendência para o derrotismo e para a preguiça – e muitas vezes preferem dizer simplesmente mal das coisas a lutarem para que estas, decididamente, melhorem. Quando há uns meses estive em Cabo Verde para fazer o lançamento de O Novíssimo Testamento, o seu autor, Mário Lúcio Sousa (que é, actualmente, o ministro da Cultura daquele país) contou-me que, na sua pátria, se passa exactamente o contrário. E partilhou comigo uma história de dois amigos que tinham de apanhar diariamente um transporte numa paragem à torreira do sol e que não descansaram enquanto o governo não lhes arranjou um telheiro para se abrigarem. Chegados nesse dia à paragem ficaram contentíssimos com aquela conquista. Porém, no dia seguinte, um deles logo se queixou: «Eh, nem puseram bancos...» Tenho a certeza de que, por esta altura, já lá estão os bancos – e é bem possível que uma máquina de refrigerantes também.

14
Jun11

Camiliano

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse que estava a trabalhar no mais recente livro de Mário Cláudio. Pois ele acaba de sair e chama-se Tiago Veiga – Uma Biografia. É obra de peso (até pelas suas 800 páginas), de grande cultura e do mais surpreendente engenho; e conta a vida de um poeta praticamente desconhecido, do qual Mário Cláudio já publicou três pequenos livros de poesia, de algum modo retomados nesta sua portentosa obra. Mas não é só uma vida estranha e aventurosa o que aqui podemos ler: na verdade, sendo o biografado bisneto de Camilo, e tendo morrido já nos finais do século passado, é toda a história da vida literária e política portuguesa dos últimos cem anos que atravessa estas páginas ricas e barrocas, escritas pela mão de um autor que é, ele próprio, um digno sucessor de Camilo. Para os amantes deste, sobretudo, é um texto a não perder.

 

09
Jun11

A dactilógrafa e o paginador

Maria do Rosário Pedreira

Quando andava na Faculdade, trabalhava três horas por dia no escritório do meu pai, dactilografando em três vias de papel selado com químicos pelo meio várias acções cíveis. Não era nem por sombras tão rápida como uma dactilógrafa profissional que estava lá todo o dia há muitos anos e que era capaz de bater sei lá quantas palavras por minuto; no entanto, no fim da tarefa, eu sabia o que estava escrito naquelas folhas azuis de fio a pavio, enquanto ela, que trabalhava palavra a palavra, não fazia a mais pequena ideia sobre o que versava o texto que dactilografara. Tal comportamento sempre me espantou e, quando já estava na edição, trabalhei com um paginador que era o oposto da senhora. Já na época da fotocomposição, a ele bastava-lhe importar um ficheiro Word e estender o texto num formato predefinido  – e para isso não tinha de «escrever» realmente nada –, mas a verdade é que não raras vezes me levava as provas com gralhas e erros assinalados, antecipando-se claramente ao revisor. Descobri mais tarde que este paginador adorava ler e não resistia a dar uma espreitadela aos livros todos em que trabalhava. Já a dactilógrafa não tinha, provavelmente, grande gosto pela leitura.

08
Jun11

Assumido e com graça

Maria do Rosário Pedreira

Há uns anos, contaram-me um episódio hilariante passado num festival de escritores com o saudoso poeta Al Berto que, não por acaso, Eduardo Lourenço considerou o último «poeta-mito». Tive a felicidade de ainda o conhecer pessoalmente e lembro-me até hoje da sua voz possante e da forma como lia a sua poesia (e a de outros). Tratava-se de um poeta extremamente dotado e de uma pessoa imensamente gentil com quem dava gosto conversar sobre qualquer assunto. Ora, Al Berto era, como todos saberão, um homossexual assumido e cheio de humor. Convidado um dia pelo Instituto do Livro para um encontro literário no estrangeiro, no qual participavam também Vasco Graça Moura e José Saramago, às tantas saiu-se com esta tirada de génio para a representante do Instituto: «Este ano vocês só convidaram mulheres: eu, a Sara Mago e a Graça Moura.»

07
Jun11

Reaprender a escrever

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, fui a uma escola do distrito de Leiria falar sobre livros e leitura com alunos do 7.º ano de escolaridade; e, durante o almoço, estive a conversar com os respectivos professores sobre o que fazíamos na editora em termos de acordo ortográfico. Expliquei-lhes que as obras traduzidas já saem todas desde Março ou Abril com a nova ortografia, e que os autores portugueses, não a desejando seguir, têm de o declarar por escrito – tal como acontece nas publicações periódicas, nas quais vemos frequentemente a frase «X escreve de acordo com a antiga ortografia» imediatamente a seguir ao nome de quem assina o texto. Pois eu, que não concordo com muitas coisas desse «acordo», fico bastante aliviada por a maioria dos meus autores não querer adoptar a nova ortografia; já estou velha para a aprender e, ainda por cima, não confio a 100% nos conversores disponíveis. Mas reconheço que um dia chegará em que já não haverá volta a dar-lhe, como acontece já com os editores e revisores de livros traduzidos, os tradutores, os professores e os editores escolares, que têm, neste momento, uma carga de trabalho suplementar para se porem em dia com esta questão. Curioso, segundo me contaram esses professores durante o almoço, é que os mais zangados de todos são os alunos que começaram a aprender a escrever com a velha ortografia e ainda não a tinham absorvido quando lhes impuseram a nova...

06
Jun11

Notas de leitura

Maria do Rosário Pedreira

Quando estava na Temas e Debates, recorria frequentemente a leitores que me ajudavam a decidir sobre determinados livros – ou porque, na altura, não publicava só ficção portuguesa e precisasse de uma opinião mais especializada sobre determinado livro de não-ficção, ou simplesmente porque tinha dúvidas – quem as não tem? – sobre se um romance merecia ser traduzido e/ou publicado em Portugal. Infelizmente, não guardei esses pareceres, mesmo que alguns deles fossem de escritores. Já a editora francesa Gallimard acaba de organizar uma exposição dedicada às Notas de Leitura, composta precisamente de relatórios de alguns editores ou leitores que se tornaram figuras de proa (André Gide, Albert Camus, Raymond Queneau, entre outros) no mundo inteiro. E, além da delícia que é ler estes autores, mesmo que num registo mais objectivo, curioso é também ver o que escreveram sobre livros que se tornaram obras-primas ou êxitos de vendas ao longo de anos. Gide, como todos devem saber, recusou a obra de Proust, dizendo que este ocupava três páginas com uma coisa que poderia ter resumido a um parágrafo (mas mais tarde confessou, conta-se, que não tinha lido o original); e, por exemplo, o clássico E Tudo o Vento Levou, que vendeu 400 000 exemplares em França, só foi publicado pela Gallimard porque o editor não deu ouvidos a Ramon Fernandez, que não julgava oportuna a publicação em terras gaulesas de um romance sobre a guerra da secessão americana. Em Portugal, conheço editores que ainda hoje se choram por terem recusado os primeiros livros de Saramago e o filão da colecção Uma Aventura...

03
Jun11

Pura ficção

Maria do Rosário Pedreira

Estava a hora e meia de começar a tratar do jantar num domingo de moleza e puxei da pilha à minha frente um livro que ainda não conhecia, se bem que a imprensa e os blogues lhe tenham dedicado bastante atenção. Trata-se de Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, e é uma pequena maravilha de invenção e escrita. Construído a partir de entradas alfabéticas, como uma enciclopédia, oferece-nos a mais pura ficção a parecer um conjunto de referências e citações de figuras arcaicas e ilustres (todas inventadas). E, se pode ser lido um pouco ao acaso (como comecei a fazer, saltando páginas), a verdade é que ganha em ser acompanhado de A a Z (o que acabei por fazer), pois frequentemente refere personagens com quem já nos cruzámos noutra entrada e cujo conhecimento é fundamental para tirarmos o máximo proveito de cada texto. Culto, borgesiano e extremamente divertido e sagaz, este é um excelente livro para ler na hora e meia que temos de vez em quando – e para reler, reler, reler...

02
Jun11

A manhã de tarde

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais, fazemos a apresentação pública do romance A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Não é o seu primeiro romance, mas é o seu primeiro romance publicado e é, sobretudo, o «meu» primeiro romance deste autor que fui conhecendo melhor ao longo do tempo e corre agora o risco de ficar meu amigo. Mas, para quem lê este blogue, o importante é dizer que A Manhã do Mundo é um livro que deve ser lido sem reservas, pois, além de ser um dos melhores que publico este ano, torna-nos, afinal, melhores pessoas. No ano em que se celebra o décimo aniversário do ataque às Torres Gémeas, este romance que me orgulho de publicar é uma das mais bonitas homenagens a todos os que ali perderam a vida.

 

 

01
Jun11

A pesquisa na Internet

Maria do Rosário Pedreira

A Internet foi uma espantosa invenção e tornou-nos mais próximos de tudo ao alcance de uns meros cliques. Mas li algures que quem tira mais proveito dela é quem já fez pesquisa em livros antes ou depois de ela aparecer e tem maior discernimento ou cultura para desconfiar de algumas coisas e separar o trigo do joio. Numa empresa onde trabalhei, havia vários licenciados em jornalismo que nunca tinham entrado numa biblioteca e se haviam acostumado a pesquisar exclusivamente na Internet desde o primeiro ano do curso, usando a Wikipédia como fonte primária e tomando tudo o que lá estava escrito como certo. Uma vez, um dos meus patrões pediu a uma dessas jornalistas que redigisse um verbete de quinze linhas sobre João de Deus. A investigação fez-se rapidamente – talvez demasiado – e, quando ele foi ver, o texto referia-se ao apóstolo S. João. Quem é que o mandou ser o preferido de Deus?

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