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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Out11

Gavetas

Maria do Rosário Pedreira

Quanto trabalhei na Temas e Debates (que hoje só edita livros de não-ficção, mais de acordo, aliás, com o seu nome), publiquei os dois primeiros romances de Jonathan Safran Foer – na altura um dos mais promissores romancistas norte-americanos, segundo a revista Granta; da lista de talentos fazia também parte uma menina bonita de Nova Iorque que soube mais tarde ser a mulher do escritor: Nicole Krauss, cuja primeira obra publicada em Portugal se intitula A História do Amor, romance que venceu dois prémios importantes e foi finalista de quase todos os outros que valiam a pena, quer nos EUA, quer nos países em que foi traduzido (como o Médicis e o Fémina). Saiu recentemente desta autora o romance A Grande Casa – e não é por acaso que, na sua belíssima capa, não existe nenhuma casa, mas, afinal, apenas três gavetas. É que a história gira em torno de uma secretária enorme, que pertenceu a um poeta desaparecido no Chile de Pinochet e acolheu depois – e ao longo de vinte e cinco anos – os escritos de uma romancista americana, a quem a filha do poeta aparece um belo dia para reclamar o móvel de que é herdeira. Mas a secretária tem o poder de mudar a vida a quem a possui ou se desfaz dela e, por isso, a desta mulher solitária nunca mais será igual. O mesmo acontece, de resto, a todas as outras personagens que, ao longo do século xx, estiveram na posse da dita secretária. Misterioso e belo, o romance visita lugares distintos em alguns dos mais importantes acontecimentos dos últimos cem anos e, de acordo com a crítica, irá granjear ainda mais leitores para a jovem Krauss.

28
Out11

Privado e público

Maria do Rosário Pedreira

À semelhança do que fez Georges Duby há muitos anos em França, o historiador José Mattoso dirigiu recentemente uma obra colectiva para o Círculo de Leitores e a Temas e Debates que dá pelo nome de História da Vida Privada em Portugal. Dividida em quatro volumes – Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea e Os Nossos Dias –, cada um deles coordenado por um especialista na época respectiva, este é um monumento histórico que torna público o privado, abordando temas tão variados como a família, a casa, o convívio, o corpo, a sexualidade, a religiosidade, as festas ou as representações da morte. Profusamente ilustrado e num formato simpático que se pode abrir no colo sem dificuldade, o conjunto destes quatro livros deixará a nossa curiosidade sem dúvida satisfeita no domínio do doméstico e do íntimo. Para os que tiverem coragem, o texto pode ser lido de um fôlego; para os que, como eu, preferem a ficção, é bom arranjar um lugar na estante para abrigar esta fantástica obra de consulta e ir lá espreitar de vez em quando.

27
Out11

Agustina

Maria do Rosário Pedreira

Um olhar muito vivo e um discurso calmo mas decididamente desarmante, uma inteligência fina e uma atracção por coisas boas (uma carteira de crocodilo, por exemplo, comprada na Suíça na minha presença – e quanto custou!), são tudo características que recordo da figura. Vi recentemente no jornal que Agustina Bessa Luís fez 89 anos. Talvez pela situação em que se encontra – afectada na sua capacidade criativa por uma doença, tanto quanto sei, irreversível –, Agustina não tem sido muito falada nos nossos meios de comunicação nos últimos tempos, embora não se possa obviamente dizer que já foi esquecida. A verdade, porém, é que, nesta fogueira de vaidades que é o nosso meio artístico, quem não aparece arrisca-se a ser riscado do mapa – e isso seria grave para uma autora como ela. Ignoro se os jovens continuam a ler A Sibila na escola secundária (espero que sim), mas, para quem não teve ainda oportunidade de tomar contacto com a senhora do Norte, essa é talvez a melhor obra para começar; de qualquer modo, Agustina foi relativamente prolífica e não faltarão títulos a que deitar a mão. O que não podemos é esquecer o que escreveu por ela estar de algum modo retirada, pois trata-se de uma das mais importantes vozes literárias do século xx.

26
Out11

Malhados e corcundas

Maria do Rosário Pedreira

Nas guerras liberais, os malhados eram os liberais e os corcundas os absolutistas. Estes faziam demasiadas vénias, andando sempre curvados ao seu rei, daí o epíteto; e, porque uma mula malhada se empinara e deixara cair D. Miguel ao chão, passaram a dizer-se malhados os partidários do seu irmão D. Pedro. Ora, é no contexto desta guerra que se desenrola o último romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas – a deliciosa história de Vicente Maria Sarmento, regressado a Chão de Couce depois de uns anos na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, pronto a regenerar-se e a viver em paz e decência o resto dos seus dias com a puta Tomásia, que não conseguiu esquecer desde que rumou à capital. Mas, se os dois irmãos estão em guerra pelo trono de Portugal, a Vicente Maria também não são poupados adversários e rivais, e as suas boas intenções ver-se-ão sistematicamente goradas. Valer-lhe-á um último golpe de má conduta, mas o acaso pregar-lhe-á uma partida das grandes, mostrando que um pequeníssimo imprevisto pode, realmente, mudar a história de um país inteiro. Cheio de humor e recorrendo a uma linguagem rica e poderosa, eis o novo romance de um escritor que se tem destacado na literatura picaresca em Portugal.

 

25
Out11

Leitores

Maria do Rosário Pedreira

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter. Contudo, O Leitor de que hoje falo é um dos protagonistas do bonito livro de Bernard Schlink: um adolescente que se inicia sexualmente com uma mulher bastante mais velha, com quem mantém um ritual de banhos e leituras, descobrindo, muito mais tarde, que ela foi guarda num campo de concentração nazi. O romance já deu um belo filme – o que ajudou seguramente a que muitos comprassem o livro –, mas aqui fica mais uma chamada de atenção para um pequeno romance fascinante, traduzido em cerca de quarenta línguas.

24
Out11

Contos

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui escrevi sobre a dificuldade de publicar em Portugal colectâneas de contos. Talvez os portugueses prefiram romances, uma vez que, se o autor não é já bastante conhecido, raramente os contos vingam, sobretudo comercialmente. Pressionados pela nossa desconfiança em relação ao seu sucesso, nós, editores, só arriscamos quando o conjunto é realmente excepcional. Todavia, a iniciativa que a FNAC tem há vários anos de publicar no Dia Mundial do Livro uma pequena colectânea de contos, cujos direitos revertem para a AMI, é uma boa excepção. E a última edição de O Prazer da Leitura é uma grata surpresa. Não só porque inclui alguns nomes que trabalham frequentemente o género – como Ondjaki – ou mais sonantes – como Dulce Maria Cardoso –, mas também algumas das promessas da literatura portuguesa – como Afonso Cruz e Ricardo Adolfo – e ainda uma estreia completamente inesperada num livro de ficções: a de Onésimo Teotónio Almeida, que conhecemos melhor das crónicas divertidas e sagazes que publica há anos. Para uma viagem de autocarro ou uma hora na sala de espera do dentista, uma boa escolha – e suficientemente variada para agradar a todos.

21
Out11

Lugares donde não somos

Maria do Rosário Pedreira

Todos somos africanos, uma vez que era de lá, pelos vistos, o primeiro macaco capaz de dizer e pensar. Eu certamente que sou, embora só tenha estado em África três vezes e a primeira das quais já depois dos trinta. O meu bisavô esteve nas campanhas em Moçambique e casou-se com uma rapariga de Lourenço Marques; ela teimou em acompanhá-lo e acabou por morrer no mato com uma infecção oito dias depois de dar à luz a minha avó materna. Esta ficou entre os militares uns meses, amamentada pela mulher de um soba; e, depois de quatro anos na capital com a avó (da qual nada sabemos senão o nome), veio para a metrópole com o pai, onde viveu até se casar. O marido – um brasileiro provavelmente descendente de outro africano traficado – levou-a mais tarde para Angola, donde regressou ao fim de um ano com a minha mãe na barriga (concebida, portanto, em África). Interrompeu-se aqui o ciclo africano da família, mas tenho já um sobrinho no Brasil à procura de uma oportunidade de trabalho que, se não fosse publicitário, podia muito bem estar em Luanda a esta hora. Enfim, apesar da segregação em 1975, na sequência da maior ponte aérea de todos os tempos (meio milhão de pessoas!), todos somos bisnetos, netos, filhos ou amigos de retornados. (Muitos dos autores que lemos – Gonçalo Tavares e valter hugo mãe, por exemplo – nasceram nas ex-colónias.) E é deste retorno que fala o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso – ela que viveu na carne o choque de deixar a terra que era a sua para se ver instalada com a família, a milhares de quilómetros, num hotel transformado em lar para tantos repentinos sem-abrigo. Muito lobo-antuniano na sua cadência musical e na recorrência de certos elementos-chave, este é um livro importante por muitas razões, entre elas a de dar a conhecer, envolta num feito literário de respeito, uma situação vivida por muitos portugueses que outros tantos desconhecem ou preferiram ignorar. Francamente contundente, ele tem assim mesmo a qualidade de fechar a chaga que abre, convidando-nos não só a perceber o outro lado, mas a estar desse lado (porque nos sentimos irremediavelmente mais próximos de Rui – o narrador adolescente – do que, por exemplo, da directora do hotel ou da mais simpática Teresa Bartolomeu, colega de liceu do protagonista). Com uma construção primorosa entre memória, sonho, maturidade e decepção, O Retorno, assim se chama o romance, faz-se ao mesmo tempo arte e documento e, como tal, não se pode perder.

20
Out11

Da vida do editor

Maria do Rosário Pedreira

Desde que, em todo o mundo, as editoras se concentraram em grandes grupos, o papel do editor sofreu grandes alterações. Muitos dos que eram figuras de referência internacionais, ao venderem as suas editoras, tornaram-se assalariados e, em muitos casos, perderam autonomia: as suas escolhas têm hoje por base não apenas na qualidade dos livros, mas também a sua rendibilidade. Houve, porém, alguns que conseguiram manter as casas que fundaram e bem assim a sua linha editorial. Um deles foi o espanhol Jorge Herralde, o proprietário da Anagrama em Espanha, que só muito recentemente decidiu associar-se à gigante Feltrinelli para garantir a continuidade da empresa (pois não tem herdeiros), mas continua a publicar aquilo de que gosta e a usar as mesmas capas de há décadas, não se ralando com a profusão de cores, relevos e dourados que inundam o mercado. No texto de uma conferência proferida em Barcelona (e depois publicada em livro no México), Herralde, citando um outro editor (Olivier Cohen, da Seuil, esta já absorvida por um grupo), diz que não devemos julgar um editor pelos bons livros que recusou, mas pelos livros maus que publicou. Uma perspectiva, sem dúvida, interessante. E, mais adiante, fala da diferença entre as editoras de supermercado (que publicam tudo) e as editoras boutique (que fazem uma selecção de títulos apertada e criteriosa), avançando que muitos dos grandes grupos não resistem a ter uma destas boutiques, tal como os armazéns El Corte Inglés não podem deixar de vender a marca Armani. Se tiver razão, daqui a uns anos, é bem capaz de alguém se interessar pela Tinta-da-China...

19
Out11

Direitos de autor

Maria do Rosário Pedreira

O aparecimento dos e-books levanta várias questões, entre elas o problema da pirataria, uma vez que um hacker que se preze conseguirá sacá-los da Internet sem pagar e quiçá copiá-los indefinidamente e até comercializá-los, tramando o autor que, como proprietário dos direitos, ficará a ver navios em matéria de retribuição. Li algures, enquanto me preparava para um debate sobre e-books e livros em papel na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, que as bibliotecas americanas que «alugam» e-books a estudantes (e os compraram dentro da maior legalidade, suponho) estão impedidas de permitir mais do que 32 downloads de cada um (se o número estiver incorrecto, perdoem-me, mas foi o que me ficou na cabeça), tendo de voltar a comprar o livro quando estas «descargas» chegarem ao fim. Pois bem, se um e-book numa biblioteca americana vale 32 leituras, pois a verdade é que um livro em papel valia até agora todas as leituras possíveis e imaginárias (e o autor só recebera direitos da venda de um exemplar, situação bastante ingrata, mesmo tendo em conta que as bibliotecas existem para prestar um serviço público e promover a leitura, embora em Portugal algumas bibliotecas ainda pediam até há pouco tempo livros de borla aos editores). Estando as bibliotecas por esse mundo fora a digitalizar livros em papel constantes do seu acervo, os perigos da cópia e do roubo informático multiplicam-se, penalizando mais uma vez o autor; parece ser este o caso de uma biblioteca universitária, creio que em Michigan, que decidiu permitir downloads indefinidamente de uma lista de livros cujos detentores do copyright (autor ou herdeiros) não se acusem em 90 dias. Pois acontece que várias Sociedades de Autores (EUA, RU, Austrália, Canadá) se uniram para lhes pôr um processo e que a operação já foi interrompida. Mas, por essas e outras, há já um movimento para se cobrar por cada utilização de um livro, seja digital ou em papel, em todas as bibliotecas. Se isto for avante, os autores que se alegrem.

18
Out11

Línguas estranhas

Maria do Rosário Pedreira

É lícito que um autor português – como, de resto, um autor de qualquer nacionalidade – aspire a ser traduzido e publicado noutros países. Em Portugal, lemos provavelmente tantos livros traduzidos como livros escritos originalmente em português, mas, por exemplo, nos países de língua inglesa, a produção nacional é tão extensa que quase não há espaço para a publicação de autores estrangeiros. Quando entrei na edição, para além dos escritores portugueses consagrados, quase só estavam traduzidos os que, por razões de credo político, haviam conseguido entretecer-se nas redes clandestinas que os faziam sair nos países da Europa de Leste (e, provavelmente, nem ali eram muito lidos). Nos anos 90 – em parte por causa da atribuição do Nobel a Saramago, que abriu muitas portas – a situação melhorou bastante, mas continua a ser ainda hoje muito difícil colocar os nossos escritores no mercado internacional – sobretudo o de língua inglesa; mesmo que o português seja falado por milhares de pessoas em vários continentes, ele é para o grosso dos países estrangeiros uma língua estranha que praticamente ninguém aprende ou estuda, pelo que, em geral, as editoras não têm, entre os seus quadros, ninguém que possa ler e avaliar uma obra portuguesa com vista à publicação. Mas também em Portugal acontece algo do género, pois a produção editorial de livros estrangeiros não vai muito além dos autores ingleses, americanos, franceses, italianos e espanhóis, traduzindo-se meia dúzia de russos e alemães de comprovado gabarito (mas poucos contemporâneos) e um ou outro nome mais sonante dessa Europa que fala línguas minoritárias (como o sueco, o húngaro ou o neerlandês). Por isso mesmo, muitos de nós desconhecíamos o mais recente Prémio Nobel da Literatura, o poeta Tomas Tranströmer, como desconhecemos certamente uma enormidade de autores que se calhar fariam as nossas delícias, mas que, infelizmente, não há quem possa ler e traduzir.

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