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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Out11

Ossos do ofício

Maria do Rosário Pedreira

Sou muito pouco talentosa na cozinha e admiro quem fala de coulis, chutneys, espumas e reduções com a mesma familiaridade com que eu me refiro ao sal ou ao açúcar. Tenho uma amiga que cozinha muito bem e chega ao ponto de dizer que, quando olha para uma receita, sabe exactamente o que vai ter de alterar para que o prato fique completamente a seu gosto. Estou certa de que muitas pessoas que gostam de ler acham (um pouco ingenuamente, claro, porque só vêem o lado bom da profissão – passar a vida a ler livros) que o meu ofício é um dos melhores do mundo. E, porém, mesmo sem contar com o número de originais imprestáveis que ocupam seguramente grande parte do meu tempo, a verdade é que quem faz vida nos livros acaba por aparentar-se a essa cozinheira minha amiga: é que, por mais que tentemos, já não conseguimos ler virginalmente um livro, não conseguimos deixar de pensar que esta ou aquela frase a escreveríamos nós de outra forma, que resolveríamos uma situação criada pelo autor de um modo muito distinto (e, pensamos nós, de longe mais eficaz), que de maneira nenhuma optaríamos por aquela expressão para traduzir o que nos parece que o original dizia. Enfim, passa a ser tão difícil simplesmente lermos (ou lermos simplesmente) que um dia destes tropecei num livro no qual, ao fim de meia dúzia de páginas, já tinha alterado tanta coisa para poder gostar dele que achei melhor interrompê-lo e devolvê-lo à estante.

14
Out11

Literatura em filme

Maria do Rosário Pedreira

Fui ver o último filme de Woody Allen e, embora não tenha embandeirado em arco nem achado que era o melhor desde Match Point, como a crítica disse, assistir à obra cinematográfica deste judeu franzino nunca é dar o tempo por perdido. Penso, entre outras coisas, que o filme é muito feito a pensar nos americanos – e que nele existem talvez demasiados clichés para os europeus, mas isso não fere nem incomoda. A verdade é que Woody Allen sabe contar uma história como em literatura, tem sempre tiradas geniais e escreve os seus filmes como muitos escritores deviam escrever os seus livros – sem palha. Além disso, este Meia-Noite em Paris é, de certo modo, uma homenagem à arte, à literatura e a muitos artistas e escritores (se é que os escritores não são eles próprios também artistas) que escolheram a Cidade das Luzes como lugar de aprendizagem e criação. Se gosta de livros – e, em particular, dos autores que estavam no auge nos anos 30 –, não perca. É pura literatura.

13
Out11

Escritor-pessoa

Maria do Rosário Pedreira

Praticamente até ao advento das novas tecnologias, os escritores eram seres distantes que ninguém via, a não ser o editor que lhes publicava os livros. Não iam à televisão, não se faziam sessões em bibliotecas à volta dos seus livros, nem sempre se punham fotografias suas na badana das obras que deles se publicavam. A Internet, entre outras coisas, facilitou uma espécie de humanização do escritor e aproximou-o do público, que hoje pode ver e ouvir o seu autor favorito em qualquer lado aonde vá – e até corresponder-se com ele ou pedir-lhe facilmente um autógrafo ao vivo. Quando eu era adolescente, imaginava os escritores pessoas formais, fechadas em casa a escrever, muito sérias e contidas (excepto quando se tratava de sabidos noctívagos com pendor alcoólico, que também havia estereótipos desses). Foi, pois, com grande alívio que, numa noite de lançamento de um livro há mesmo muito tempo, vi o historiador José Mattoso (que até tinha sido frade) dançar o tango como ninguém e arrecadar o primeiro prémio nos Alunos d’Apolo. Pode parecer uma infantilidade – e não deixa de o ser – mas, alguns anos depois, quando visitei uma escola por causa de uns livros juvenis que então escrevia, ouvi uma menina dizer a outra em surdina: «Viste? Toquei-lhe no cabelo!» Depois, vieram os computadores, veio o futuro, e os escritores perderam a sua aura de pequenos deuses.

12
Out11

Ir para o céu

Maria do Rosário Pedreira

Passei a infância num Portugal amordaçado e cheio de vénias à Igreja católica, que mandava muito mais em tudo do que parecia. Para fazer a primeira comunhão, estudei por um catecismo na escola primária em que Eva e Adão andavam vestidos e eram lindos (não descendiam dos macacos nem se pareciam com os homens primitivos). O pecado e o castigo estavam estreitamente ligados – e, para completar o trio, a ideia do Inferno a arder para quem se portasse mal nunca deixava de estar presente. Porém, com o tempo – e embora continue a acreditar em Deus –, a ameaça das chamas diluiu-se, tal como a imagem de um paraíso perfeito onde todos poderão um dia ser felizes (desde que na Terra tiverem sido exemplares, claro). Por estas e por outras, fico um bocado desconcertada com o sucesso de livros que nos acenam com um lugar assim no fim das nossas vidas como o que há semanas não sai dos Top das livrarias e, ao que consta, narra a história de um menino que esteve morto uns segundos, falou com Deus e foi testemunha de que O Céu Existe mesmo. Nem sequer o abri, confesso, mas a ideia de haver tanta gente a comprá-lo faz-me pensar que ou não nos conseguimos ainda libertar desses símbolos com que nos moldaram a meninice, ou somos um País (quiçá um mundo, porque o êxito de vendas não se resume a Portugal) de pessoas tristes e perdidas que contam com o post-mortem para serem visitadas por algum tipo de felicidade, mas não querem, apesar de tudo, partir para o Além desavisadas. Com vendas de 3000 exemplares por semana só em Portugal, a história deste interlocutor privilegiado está, provavelmente, nas casas de muitas famílias que nunca tinham comprado um livro e quiçá não comprarão outro tão cedo.

11
Out11

Três vidas

Maria do Rosário Pedreira

As Três Vidas é o título do livro de João Tordo que venceu o Prémio Literário José Saramago em finais de 2009 e que é agora finalista – com a edição brasileira – do Prémio PT de Literatura. O título, para quem não leu o romance, é a tradução do nome de uma livraria de Nova Iorque – Three Lives – que, na história, está ligada à rapariga que o protagonista procura naquela cidade. Mas a expressão serve-me neste momento para outra coisa bem diferente, que vem a propósito de uma chuvada gloriosa de comentários neste blogue a um post que escrevi sobre o pretensiosismo de se citarem edições originais de livros que têm tradução portuguesa. Pois nos EUA e no Reino Unido a maioria dos livros têm três vidas – uma edição em capa dura (hardcover), uma em capa mole (paperback) e uma de bolso (pocket); alguns saltam a primeira, se se prevê que o número de leitores para eles é mais modesto, mas restam-lhes sempre duas. Em Portugal, até há pouco tempo, ficávamo-nos pela edição em capa  mole, já que a capa dura é cara de produzir e as tiragens pequenas não a justificam. Porém, o livro de bolso – ao contrário do que muitos disseram – teve recentemente um crescimento assinalável, com uma colecção de clássicos resultante de uma parceria de três editoras e outras duas colecções regularmente alimentadas pelos dois grandes grupos editoriais portugueses. Mas os leitores continuam a queixar-se de que se faz pouco (quem não se sente não é filho de boa gente) e dos preços dos livros de bolso, sobretudo se comparados com as edições do mesmo tipo noutros países. Ora, não podemos esquecer-nos de que vivemos num país pequeno; e que, se os nossos vizinhos espanhóis podem editar tudo em bolso porque são mais de 40 milhões (e não ficam com livros nos armazéns se fizerem tiragens de 10 000), aqui não podemos quase nunca ultrapassar os 3000 exemplares – e, ainda assim, com o risco de não os vendermos a todos. Além disso, em tiragens assim pequenas o custo unitário nunca desce o suficiente para permitir preços mais baixos do que os praticados. Não creio, pois, que se possa ir mais longe neste campo e penso que o que tem sido feito é já bastante louvável para merecer mais elogios do que críticas.

10
Out11

Blogues literários

Maria do Rosário Pedreira

Os blogues multiplicaram-se nos anos recentes – e há hoje imensos blogues (o meu um deles) que falam de livros e literatura. Muitos, porém, debruçam-se unicamente sobre obra alheia e dão, acima de tudo, conta da saída de novidades, podendo, ou não, incluir umas linhas a seu respeito. (O que quero dizer é que não são blogues de criação literária, mas de crítica.) Quase todos os autores que publico têm, na verdade, blogues deste tipo, nos quais aproveitam também para informar os seus leitores das actividades que levam a cabo em torno dos seus livros e dos lugares onde vão estar a falar deles. (Tento acompanhá-los – nem sempre tão regularmente como gostaria – mas sentindo, apesar de tudo, que, no período entre encontros, me ponho a par da sua vida de escritores.) Há, porém, dois dos meus autores – Vasco Curado e Nuno Camarneiro – que usam os seus blogues com um propósito um pouco diferente: o da criação de textos literários ou de reflexão (mas não menos literários por causa disso). Ora, tendo eu encontrado neles dois textos que achei francamente interessantes – e armada em galinha a gabar os pintainhos –, aqui vos mando os respectivos endereços para que os possam igualmente ir acompanhando.

 

http://www.vascoluiscurado.com/blog/2011/08/22/campos-de-exterminio-campos-agricolas-campos-de-fadas/

 

http://acordarumdia.blogspot.com/2011/09/its-gonna-rain.html

07
Out11

Transportes públicos

Maria do Rosário Pedreira

Comecei há duas semanas – mas já o interrompi por causa de outros afazeres – o livro de Herta Müller que a Dom Quixote publicou recentemente e dá pelo belíssimo título: Hoje Preferia não Me Ter Encontrado. Conta a história de uma mulher casada que é intimada a comparecer na Polícia política para um interrogatório e vai no eléctrico que a levará ao destino desfiando os seus medos e as agruras da sua vida pessoal (entre outras, um marido alcoólico). É também em meios de transporte que o narrador de Uma Mentira mil vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, se entretém a contar aos passageiros que se sentam ao seu lado, para escapar ao silêncio e à solidão, a história inventada de um autor e das suas personagens. Embora não tenha ainda lido deste livro mais do que a sinopse da contracapa, gosto muito do Manuel Jorge Marmelo e das crónicas que escreve uma vez por semana no Público, pelo que não podia deixar de me alegrar com a chegada deste livro novo (creio que o último era de 2008). Hoje, quando apanho o metro para qualquer lado, vejo também muito mais gente a ler do que nos tempos em que ainda não tinha carro. Pelos vistos, os transportes públicos estão a prestar um bom serviço à literatura.

06
Out11

Cartas Vermelhas

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei deste livro, da escritora Ana Cristina Silva, mas volto a ele pela simples razão de se realizar hoje o seu lançamento. Intitula-se Cartas Vermelhas e conta a história – em parte real, em parte imaginada – de Carolina Loff, uma militante do Partido Comunista Português que trabalhou nas mais altas esferas do Comintern, apoiou os camaradas na Guerra Civil de Espanha, foi impedida de resgatar a filha em Moscovo pela eclosão da Segunda Guerra Mundial e acabou banida pelo Partido em virtude de ter ido viver com um inspector da PIDE por quem se apaixonou doidamente. A apresentação será feita por Miguel Real na Livraria Barata às 18h30. Apareça.

 

04
Out11

A saga das estrelinhas

Maria do Rosário Pedreira

No dia do lançamento do novo romance de valter hugo mãe, encontrei imensa gente indignada com o facto de o autor da crítica ao livro publicada no Ípsilon da véspera – outro escritor (José Riço Direitinho) – lhe ter dado apenas duas estrelas e meia. A indignação, porém, não vinha só de se dar nota quase negativa ao romance (cinco estrelas é o máximo) – até porque algumas das pessoas escandalizadas ainda não o tinham lido –, mas de, nesse mesmo suplemento, terem sido classificados com quatro estrelas livros de autores de um nível literário francamente mais baixo, como José Rodrigues dos Santos ou Mónica Marques. Na verdade, se os leitores se guiarem por estas classificações para saberem que livros devem ou não ler, a situação pode ser perigosa e extremamente injusta, na medida em que qualquer das obras de um Escritor (com E), mesmo que gore de algum modo as expectativas dos seus leitores, será sempre infinitamente melhor leitura do que uma ficção menor. Parece-me, porém, que o critério do jornal pode ser classificar por tipo de livro e, se assim for, não teríamos hesitações em dar cinco estrelas a thrillers ou policiais notáveis como os de Le Carré ou Agatha Christie e de as dar também a grandes romances como os de Vargas Llosa ou Faulkner (lamento não apresentar exemplos de cinco estrelas em livros de ficção romântica, mas a verdade é que não sou leitora do género). No momento em que escrevo este post, ainda não li o romance de valter hugo mãe, embora já o tenha começado; mas aquilo que me parece desde logo discutível é a crítica do Ípsilon ter sido encomendada justamente a um seu «concorrente», uma vez que sobre os novos valores deveriam debruçar-se os mais velhos, a quem eles já não fazem sombra, sob o risco de, por mais honesta que seja a opinião de um colega da mesma geração (e com menos projecção nacional e internacional), as pessoas falarem logo de dor de cotovelo e de rivalidade. Na verdade, será que pode avaliar condignamente o romance de um autor alguém que se calhar leu menos do que ele, alguém que se calhar nem leu toda a sua obra? Não será por isto que, do júri de prémios literários de relevo, não fazem normalmente parte jovens escritores?