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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Nov11

Reunião

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, o Manel chegou a casa com uma boa novidade. Tratava-se, claro, de um livro, mas a verdade é que, sendo ambos editores, trazemos para casa tantas vezes livros que estes já custam a causar-nos surpresa. Porém, desta feita o exemplar que estava pousado no braço gordo do sofá era um livro de poesia – e tanto mais surpreendente porque publicado pela Quetzal, que, normalmente, não se dedica ao género. Mas, além disso, quem o assinava era João Luís Barreto Guimarães, um poeta que muito estimo e de quem nem sempre é fácil encontrar livros à venda nas nossas livrarias, com a obra espalhada por editores que desapareceram de vez ou que, pela sua dimensão, nem sempre conseguem espaço no ponto de venda. E, contudo, agora temos aí para ler e nos deliciar a Poesia Reunida deste autor, que começou a publicar no final dos anos 1980 e, como diz José Ricardo Nunes – outro poeta – no posfácio, nos oferece um universo quase transparente numa rara atenção ao quotidiano. Sinta-se convidado a ler.

08
Nov11

Um abraço a todos

Maria do Rosário Pedreira

O País vai de mal a pior e estamos mesmo a precisar de mimos. Pois bem, um escritor português chamado José Luís Peixoto decidiu dar-nos um Abraço em forma de livro. Trata-se de uma colectânea de textos que escreveu ao longo do tempo e que, falando de si próprio e das suas memórias – o Alentejo, a infância, os amores, as leituras, as viagens –, nunca deixam o leitor de fora, envolvendo-o num abraço muito especial. Dividido em três partes – seis anos, catorze anos e trinta e seis anos: as idades, respectivamente, do seu filho mais novo, do seu filho mais velho e a sua –, este volume que ultrapassa as seiscentas páginas inclui alguns dos mais belos textos do autor, publicados em jornais, revistas e antologias, nos quais nos é estendida a mão para uma certa intimidade e ternura a que não poderemos ficar indiferentes. Experiências do ofício de pai e escritor, reminiscências de autores marcantes, reflexões sobre o presente e o passado do País, tudo cabe nestes textos envolventes como um verdadeiro abraço. Aproveite o mimo.

07
Nov11

Poesia em prosa

Maria do Rosário Pedreira

Não é fácil fazer perguntas a um poeta sobre a sua obra – e às vezes é precisa a cumplicidade de um confrade para deixar sair o que se pensava impartilhável. A poetisa Ana Marques Gastão, que trabalhou ao longo de muitos anos no Diário de Notícias, entrevistou mais de quarenta poetas contemporâneos de várias gerações para o jornal e coligiu agora esses textos – revistos e aumentados – num volume que dá pelo título O Falar dos Poetas. Incluindo nomes tão distintos como Ana Hatherly, Vasco Graça Moura, Eduardo Pitta ou António Franco Alexandre – e não esquecendo outros, mais novos, como Tolentino Mendonça ou Luís Quintais –, este é um livro para matar a curiosidade sobre alguns autores, mas também para servir de guia e orientação a quem os estuda. Num formato grande e com excelente apresentação, uma boa forma de fazer falar, em prosa, umas dezenas de poetas.

04
Nov11

O trabalho compensa

Maria do Rosário Pedreira

Já sabemos que saem em Portugal cerca de quarenta livros por dia e que as livrarias e os supermercados não conseguem acolher tudo ao mesmo tempo. Primeiro devolvem-se os monos – que apresentam vendas insignificantes – mas, logo a seguir, vão os livros de venda média, de autores estreantes ou, pelo menos, não consagrados, porque é preciso lugar para as novidades. Faz agora um ano publiquei o romance Rio Homem, do actor e encenador André Gago, que Lídia Jorge apresentou no dia do lançamento. O autor trabalhou nele dez anos e, quanto a mim, fez uma estreia invulgarmente boa no mundo da ficção. E o trabalho compensou porque, recentemente, lhe foi atribuído o Prémio de Primeira Obra pelo PEN Clube, o que quer dizer que temos um bom pretexto para o recolocar nas mesas e estantes dos pontos de venda, onde há muito não estava. Se da outra vez não deu por ele, eis uma segunda oportunidade que não deve perder.

 

03
Nov11

Heróis anónimos

Maria do Rosário Pedreira

É já hoje o lançamento do novo romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas, apresentado na Livraria Bulhosa de Entrecampos, às 18h30, pela professora Annabela Rita. Nele se celebram os heróis anónimos que, não ficando para a História, são decisivos nas alterações históricas das respectivas nações. Desta feita, o protagonista chama-se Vicente Maria Sarmento e está apostado em salvar da má vida a sua amante, até agora estrela de um bordel na Venda do Negro, propriedade de um homem sem língua mas sempre com pistolinha à mão. A tarefa não se revela, porém, fácil – são muitos os rivais – e o nosso Vicente da Bufarda terá de regressar ao crime para garantir o futuro da sua dama. O ouro e as jóias da rapina não pertencem, mesmo assim, a quem calculava – e há de certeza um rei português bastante aborrecido por, de repente, se ver sem fundo de maneio para as despesas da guerra. Divertido e com uma linguagem cuidada, este é um romance digno da melhor literatura picaresca. Apareça.

 

02
Nov11

A doença da culpa

Maria do Rosário Pedreira

Muito bom o último Philip Roth publicado em Portugal – Némesis. Uma história passada em Newark no ano de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, no Verão que se seguiu ao desembarque na Normandia. Não se trata, porém, de um livro sobre a guerra (que, apesar disso, não deixa de estar presente), mas da chegada intempestiva de um vírus de poliomelite ao bairro judeu (e a outros bairros vizinhos) num período que é, obviamente, anterior à vacina. O protagonista do romance é um jovem atlético que toma conta de um grupo de crianças e adolescentes num campo desportivo durante as férias. Bucky (ou senhor Cantor, como preferirem), embora os casos não parem de aumentar entre os seus rapazes – e se tenham já verificado algumas mortes –, resiste estoicamente a abandonar o campo, apoiando os alunos e os respectivos pais. E, porém, quando a epidemia se instala, será acusado por alguns deles de ser responsável pelo contágio, tomando uma decisão que mudará completamente o seu destino. Roth é exímio em factores surpresa, pelo que o narrador deste romance se revelará apenas já passada a metade do livro. Mas é mesmo preciso chegarmos ao fim para apreciarmos este jogo fascinante de culpa e expiação, de doença e cura, de vingança como castigo para o único momento de fraqueza. Indispensável ler.

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