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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Dez11

Irmãos na desgraça

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui aludi a um acontecimento dedicado às letras a que recentemente assisti na Cidade da Praia, em Cabo Verde. O convidado especial era, nesta primeira edição da Festa da Palavra, o Ceará, e – para falar com franqueza – não tinha ideia nenhuma de que havia uma afinidade entre este Estado brasileiro específico e o arquipélago, mas parece que é até bastante antiga. Aprendi, aliás, uma enormidade de coisas numa palestra muito interessante proferida por Simone Caputo Gomes, professora universitária em S. Paulo e especialista em literatura cabo-verdiana, sobre a irmandade das duas culturas. É que, tanto no Nordeste brasileiro como em Cabo Verde, a seca é recorrente, e os romances e poemas de ambos os lados do Atlântico (o Ceará é o estado brasileiro mais próximo do arquipélago) reflectem sobre essa circunstância e, pelos vistos, de forma muito obsessiva. Simone quis até citar uma canção cearense que bem podia ter sido escrita por um autor cabo-verdiano para ilustrar as parecenças. Porém, como o jovem que apoiava a sessão no auditório não percebia grande coisa de informática e trocava sistematicamente a peça musical pela música do próprio telemóvel – gerando umas gargalhadas –, a professora cansou-se e cantou ali em directo a canção Asa Branca sem inibição e com aquela graça que os brasileiros têm quando cantam. Foi um sucesso!

29
Dez11

A ilha como cenário

Maria do Rosário Pedreira

Há pequenas pérolas que podem escapar-nos, sobretudo entre tantos calhamaços com capas cheias de relevos e vernizes, mas esta – garanto – seria uma grande perda se não se lesse. A Ilha, de Giani Stuparich, um livro anterior à Segunda Guerra Mundial e publicado agora em Portugal pela Ahab, que vem recuperando clássicos e alguns livros esquecidos ou ignorados pelo nosso mercado, é uma novelinha (ou um conto longo) absolutamente fascinante. Conta a história de um homem doente que pressente a proximidade da morte e desafia o filho a acompanhá-lo à ilha onde nasceu, no Adriático, que quer ver uma última vez. A descrição desses dias é dolorosa e magnífica, não só porque nos custa assistir a uma despedida que é, simultaneamente, uma luta constante contra o tempo, mas também porque, apesar da condição do pai, é o filho quem, pela preocupação excessiva e o pânico de que algo aconteça ao progenitor, parece o doente, e o velho quem, em contacto com os ares da ilha, se torna o mais enérgico dos dois. E, assim, o homem de idade descobrirá a importância de ter deixado descendência, enquanto o mais novo experimentará, fatalmente, a perda anunciada. Numa linguagem bela que me lembrou um pouco Lampedusa, eis um belo livrinho, a que Vila-Matas chamou nada menos do que «perfeito», para um par de horas extraordinárias.

28
Dez11

Contradições

Maria do Rosário Pedreira

Estive há poucos dias em Cabo Verde numa feira do livro – a Festa da Palavra – em representação da Leya e a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde. Era uma feira relativamente pequena numa rua do centro da Cidade da Praia, o chamado Plateau; e, apesar de haver bastantes alunos de escolas secundárias nos colóquios que paralelamente se realizavam na Biblioteca Nacional, a verdade é que no recinto da feira não se via muita gente a comprar (nem mesmo a ver) e a quantidade de títulos disponíveis de livros «locais» era bastante reduzida (havia sobretudo autores considerados clássicos, muitos deles também publicados em Portugal, e livros de ensaio apoiados por organismos oficiais, mas nada de realmente novo). E, porém, 98% da população do arquipélago é alfabetizada, o que podia significar muitos potenciais leitores. Mas não: ou porque os livros são caros, ou porque não há ainda uma cultura da leitura, nem sequer na escola, os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade. Aparentemente uma contradição, esta situação mostra que ter os instrumentos não chega para ser leitor. Porventura, faltam ainda incentivos – como o do preço acessível e a constituição de bibliotecas escolares – e o estímulo que as famílias de não leitores e os professores sem hábitos de leitura ainda não conseguiram dar.

27
Dez11

Contos do Nobel

Maria do Rosário Pedreira

Gabriel García Márquez escreveu bastante, para gáudio dos leitores que apreciam a sua prosa. Mas, como sempre acontece com os grandes romancistas, os seus contos andavam por aí espalhados em livros e jornais, não tendo nós até agora em Portugal acesso ao todo maravilhoso destas histórias mágicas. Foi uma bela ideia a que teve a Dom Quixote este ano de reunir num só volume – com capa muito bonita, ainda por cima – os contos do escritor colombiano publicados entre 1947 e 1990. Contos Completos é seguramente leitura compensadora para quem já o conhecia e pode desfrutar de uma narrativa por dia – e também para quem quer tomar pela primeira vez contacto com o vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1982, mas prefere apalpar terreno antes de se atrever a um romance. Vamos a isso?

 

 

23
Dez11

Malditos russos

Maria do Rosário Pedreira

Na capa, há uma burqa azul-clara pendurada num gancho numa parede de uma divisão aparentemente vazia. Se não me engano, trata-se de uma embaixada abandonada no Afeganistão, talvez a francesa, e ninguém sabe o que fazia lá aquela vestimenta, a menos que um dos funcionários diplomáticos tivesse um caso secreto com uma afegã. De qualquer modo, a coscuvilhice não é para aqui chamada, mas a burqa é importante porque, em Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi – o livro que aqui me traz hoje –, há uma mulher misteriosa que o narrador viu de costas vestida de azul-claro num dia muito especial e que reaparece de vez em quando ao longo da narrativa, seja nos sonhos, seja na realidade do terrível quotidiano do pobre Rassul, mas sempre a fugir. E o dia da sua primeira aparição foi especial porquê? Bem, Rassul queria livrar a namorada de uma patroa autoritária que a escravizava, mas, quando já tinha o machado bem a jeito junto do pescoço da velha, lembrou-se de Crime e Castigo, de Dostoiévski – e a coisa saiu-lhe para o torto. Só que, no Afeganistão presente, ler os russos cai mal – e tê-los na «estante» é um problema suplementar para quem já estava metido numa alhada das grandes. Diferente de quase tudo quanto li até hoje e francamente desconcertante, este romance do afegão que escreve em francês e já ganhou o Goncourt é, segundo a crítica, o ponto mais alto da sua carreira.

22
Dez11

Autobiografia Política

Maria do Rosário Pedreira

Quando estava na Temas e Debates, publiquei alguns livros de Mário Soares, embora a sua editora fosse – e ainda é – Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores. Mas acompanhei-o nos lançamentos em várias cidades do País e tive muitas vezes o privilégio de o ouvir relatar episódios da sua vida durante a ditadura. Goste-se dele ou não, é impossível negar que o ex-presidente Soares é o político mais digno desse nome com que Portugal contou nos últimos trinta e tal anos, o mais experiente, mais internacional e mais culto que alguma vez tivemos (e provavelmente viremos a ter). Ora, este senhor octogenário não pára e vem dar mais um contributo importante nesta época de crise com um ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que dá pelo título Um Político Assume-se. Testemunho seguramente ímpar de um político militante que se soube adaptar às mudanças na Europa e no Mundo, este é um texto que conta a história do seu envolvimento antes e depois do 25 de Abril e inclui, para quem tenha curiosidade, declarações bem interessantes sobre a sua mais recente derrota nas presidenciais. Algumas fotografias em extra-texto abrilhantam o volume.

21
Dez11

Dias mais belos

Maria do Rosário Pedreira

Vêm aí dias muito difíceis e felizmente alguém decidiu ajudar-nos a torná-los mais belos e saborosos. Como acontece de há alguns anos a esta parte, vamos ter de novo duas agendas muito especiais. A primeira é o Poemário, que tem um poema por dia para lermos durante o ano de 2012 de autores tão distintos como Herberto, Pessoa, José Agostinho Baptista ou Al Berto. A segunda chama-se Culinário e pretende presentear-nos com receitas para todo o ano (para quem tem falta de imaginação na cozinha é o presente ideal), algumas das quais – calculem! – retiradas do Antigo Testamento. A ideia, de resto, é convidar os leitores a conhecerem melhor as obras de onde foram extraídas. Portanto, para líricos e gulosos, o problema está decididamente resolvido; para os outros, está na hora de deitar fora aquelas agendas cinzentonas e mudar para uma destas, cujas capas são uma obra de arte.

20
Dez11

Inspiração para quê?

Maria do Rosário Pedreira

Numa mesa-redonda reunindo cinco escritores não muito conhecidos de vários países (que a Feira denominou, com outros vinte, «os 25 segredos mais bem guardados da América Latina» – a precisarem de divulgação, em suma), o moderador perguntou se havia alguma coisa neste mundo globalizado que de certa forma influenciava a sua escrita. A chilena e o mexicano falaram de infâncias passadas a ver televisão e referiram-se também à leitura e à Internet, da qual o segundo foi muito crítico, dizendo que gerou dúzias de jornalistas instantâneos que retiraram à escrita informativa o que ela tinha de belo. Por seu turno, o guatemalteco disse não precisar mais do que a realidade do seu país para escrever, contando que, na semana anterior, numa prisão, os guardas tinham andado a jogar à bola com a cabeça de um homem que haviam eles próprios decapitado; a hondurenha – que não consegue publicar o que escreve no seu país – pareceu saber o que isso era, explicando que, em sua casa, referindo-se às pessoas que são mortas todos os dias, já só perguntam: hoje foram quantas? E o jovem equatoriano explicou que, dois dias antes de chegar a Guadalajara, fora à padaria e a rapariga que lhe vendera o pão tinha marcas de uma corda grossa no pescoço; e que, no regresso a casa, construiu um conto na sua cabeça sobre ela. Realmente, com um quotidiano assim, quem precisa de outra inspiração?

19
Dez11

Publicidade encapotada

Maria do Rosário Pedreira

A Notícias Magazine – que é, segundo creio, a revista mais lida em Portugal – apareceu de cara lavada, com novos cronistas, boas reportagens e mais páginas. A diferença pareceu-me francamente para melhor e encontrei nesta sua nova «estreia» mais sumo e mais qualidade. Eis se não quando, ia eu lançada no elogio mudo, apareceu uma entrevista a Margarida Rebelo Pinto fora do desenho e do espírito que vinha apreciando. Torci ligeiramente o nariz, mas pensei cá com os meus botões que, apesar de tudo, uma revista que quer conservar um grande número de leitores não pode armar-se em elitista. Passei as páginas até ao fim e pu-la na pilha dos jornais «vistos» no fim-de-semana, já conformada. Chegou então a vez de o Manel a ler e, bem mais atento do que eu, logo desfez o equívoco: aquelas quatro páginas eram, afinal, publicidade – da editora, suponho – ao novo romance da popular escritora. Fiquei sem saber se era bom ou mau sinal. A palavra «publicidade» estava lá escrita num cantinho, é certo, mas a verdade é que parecia opção da redacção da revista dedicar uma atenção especial ao assunto. No momento em que escrevo este post, desconheço se, em números seguintes, o espaço fica reservado para outro atrevido que queira publicitar um produto de forma assim encapotada; mas achava mais bonito que daqui para a frente os entrevistados fossem uma opção apenas da revista, e não dos anunciantes.

16
Dez11

Pais autoritários

Maria do Rosário Pedreira

A Feira do Livro de Guadalajara, embora com três dias reservados a negócios, um país convidado (neste ano, a Alemanha), os stands das editoras, o Centro de Agentes e uma área internacional, não se assemelha muito à Feira de Frankfurt; é, acima de tudo, um festival literário – e neste ano tinha cerca de 150 escritores em actividade permanente, encontrando-se com os leitores, os alunos das escolas, apresentando livros, fazendo sessões de autógrafos e conferências. Com as salas sempre cheias, lembrou-me – embora a dimensão fosse outra – as nossas queridas Correntes d’Escritas, nas quais é preciso chegar cedo para não se ficar sentado nos degraus duros ou mesmo fora da sala. Em Guadalajara, uma das sessões mais aguardadas (e com o auditório a abarrotar) era uma conversa com dois Prémios Nobel da Literatura – Herta Müller e Vargas Llosa – conduzida por Juan Cruz. Quando este perguntou ao escritor peruano se se lembrava quando e porque começara a escrever, este foi categórico. Os pais haviam-se separado logo a seguir ao seu nascimento e tivera uma infância felicíssima junto da mãe e dos avós maternos. Inesperadamente, o pai e a mãe reconciliaram-se quando tinha onze anos e isso veio perturbar dramaticamente o seu equilíbrio emocional, até porque – frisou – o pai era um homem muito autoritário. Para fugir a esse jugo, Vargas Llosa começou a ler furiosamente, vivendo vidas diferentes da sua – e isso levou-o naturalmente à escrita. Quase me apetece dizer: Bendito pai autoritário...

 

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