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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Dez11

Um termómetro com graça

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui contei algumas histórias divertidas passadas em livrarias e geradas por equívocos ou ignorância de quem estava a vender. Umas aconteceram comigo, a outras assisti enquanto cliente que aguarda a sua vez. E, mesmo que, no fundo, o desconhecimento gritante de coisas básicas seja uma coisa muito triste, a verdade é que não conseguimos deixar de rir – ou, pelo menos, sorrir – com certos dislates e confusões que testemunhamos. Vem isto a propósito de um blogue que me aconselhou a minha amiga Aldina Duarte chamado A Livreira Anarquista. Nele, além de posts fotográficos de extremo bom gosto, que não raro representam mulheres a ler em cenários de todo o tipo (e com os quais a autora do blogue se identifica sempre com uma tirada cheia de bom humor), uma livreira inteligente e culta narra episódios vividos na livraria onde trabalha quase sempre hilariantes. Porque quem passa o dia a vender livros encontra obviamente de tudo, e muitos dos que vão comprar demonstram que o seu nível de conhecimentos precisava mesmo de subir (com leituras de qualidade, de preferência). Entre muitos exemplos, cito apenas o caso de uma senhora que pede Os Maias, de Elsa de Queirós, e o de uma mãe que pede uma gramática para o seu pimpolho, mas que, quando a livreira lhe pergunta para que ano a quer, responde que, claro, para 2012... Embora rir da desgraça alheia não seja propriamente bonito, este blogue, para quem estiver interessado em espreitar, pode ser um bom termómetro (como aquela reportagem que saiu recentemente na revista Sábado sobre estudantes universitários) para aferir o estado da cultura nacional. Pode chegar lá através da barra aqui ao lado.

14
Dez11

Um prémio para os animais

Maria do Rosário Pedreira

A sessão inaugural da Feira do Livro de Guadalajara incluía a atribuição de um prémio à obra de um escritor de línguas românicas (Lobo Antunes foi o feliz contemplado em 2008, mas tenho ideia de que não o foi receber) no valor de 150 000 dólares. Desta feita, o sortudo era o colombiano Fernando Vallejo, que é claramente um autor controverso e uma pessoa com aquela frontalidade incómoda que nem todos aguentam (o seu discurso foi tudo menos plácido, sobretudo no que tocou à Igreja, que se percebeu ser um seu inimigo figadal). O programa impresso que nos entregaram à entrada oferecia uma biografia mais ou menos extensa do escritor, destacando o seu amor aos animais e a sua militância na luta pelos direitos destes. A fotografia, por assim dizer, oficial do catálogo exibia-o com um gato ao colo e, referindo-se a um certo cardeal mexicano, Fernando Vallejo disse que lhe falava porque tem muito respeito pelos animais e ele é um verdadeiro pavão... Conheço várias pessoas que não comem carne porque estão contra os métodos usados na criação, transporte e abate dos animais que a fornecem. Trabalhei até com uma pessoa que chorava mais quando ouvia histórias de cães e gatos abandonados do que quando se falava dos abusos praticados em crianças (aí, o sua expressão era de asco, não de comoção). Mas nunca tinha ouvido um escritor recusar «em directo» tanto dinheiro. Fernando Vallejo, quando tomou a palavra para fazer os seus agradecimentos, anunciou imediatamente que o valor do prémio seria dividido por duas sociedades protectoras dos animais. Depois soube que, quando uns anos antes ganhou o prémio Rómulo Gallegos, ofereceu os 100 000 dólares a uma outra organização que trabalha na defesa dos direitos dos animais. É mesmo precisa paixão e coragem para se fazer uma coisa destas.

 

13
Dez11

Mártires à tardinha

Maria do Rosário Pedreira

Hoje à tarde realiza-se o lançamento público do último romance de João Tordo, cuja história inclui uma investigação do próprio autor (no livro levada a cabo pelo narrador) sobre as inconsistências e divergências relativas à história de Catarina Eufémia nos vários textos ensaísticos e ficcionais que sobre ela se escreveram. Mas esse, digamos assim, é apenas o ponto de partida para se reflectir sobre a crise que assola a Europa, o jornalismo alinhado e o jornalismo displicente, a apropriação política dos mártires, o papel dos mitos e o comportamento de uma certa juventude perdida. A apresentação será feita por José Pacheco Pereira às 18h30, no Museu da Electricidade (Av. de Brasília, Central Tejo, Lisboa). Não falte.

 

12
Dez11

O quê?

Maria do Rosário Pedreira

Os livros em vários volumes são raros, excepto se estivermos a falar de histórias de vampiros ou quejandos, cujos autores e editores costumam aproveitar o sucesso do primeiro para explorar o filão até à náusea. Mas falo de literatura – e as trilogias e tetralogias contam-se pelos dedos (vá lá, das duas mãos). De qualquer modo, os japoneses são sempre uma surpresa (para mim, pelo menos) e o famoso Murakami, o mais internacional de todos, atreveu-se à obra de fôlego que, em Portugal, tem já o primeiro volume publicado, mas verá os restantes dois saírem para as livrarias em 2012 com tradução de Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso. O título é, no mínimo, estranho, 1Q84, qualquer coisa reminiscente do 1984 de Orwell, mas com o seu Q de enigmático. E a história gira em torno de Aomame e Tengo, dois professores que, afinal, não são só o que parecem e que, talvez por isso mesmo, o destino reúna num mundo que também só aparentemente é normal e no qual tudo acaba por ser questionado, incluindo a religião, a condição feminina e a corrupção – um mundo com um ponto de interrogação que busca, se não a nossa resposta, pelo menos, a nossa leitura.

09
Dez11

Beleza

Maria do Rosário Pedreira

Embora haja uma leitora deste blogue que descobriu que os meus posts sobre poesia são os que menos comentários têm, nem por isso posso deixar de falar do tema, sobretudo tratando-se de alguém que merece ser lido e apreciado por todos. Por ocasião do recente congresso dedicado a Ruy Belo, a Assírio & Alvim pôs na rua nada menos do que três títulos: Homem de Palavra(s), saído pela primeira vez nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote em 1970, ainda no tempo de Snu Abecassis; uma antologia de textos escolhidos por um outro grande poeta – Manuel Gusmão – que dá pelo nome de Na Margem da Alegria; e ainda um belíssimo álbum de Duarte Belo, filho de Ruy, que reúne fotografias de manuscritos, objectos, jornais onde saíram textos do poeta, máquinas de escrever que este usou e até capas de livros – e cujo título é O Núcleo da Claridade. Uma boa maneira (ou três) de conhecermos melhor o escritor ou de travarmos finalmente conhecimento com ele.

07
Dez11

Coragem

Maria do Rosário Pedreira

Sim, vai ser precisa coragem, porque estamos a falar de 850 páginas de letra miudinha. Mas dizem que Vida e Destino, de Vassili Grossman, traduzido por Nina e Filipe Guerra, é uma espécie de segunda Guerra e Paz (ainda só o farejei). O tempo da acção é, porém, o da Segunda Guerra Mundial, e a narrativa dos horrores a que a alma humana consegue chegar não se fica pela Alemanha – o país normalmente evocado nas ficções sobre o tema –, estendendo-se desta feita também à Sibéria (quase apetece dizer que um mal nunca vem só) para criticar o anti-semitismo do regime estalinista. No centro deste romance épico – que o KGB confiscou em 1961 e fez desaparecer durante vinte anos, tendo sido publicado em 1980 na Suíça e só em 1988 na pátria do escritor – está uma família da classe média que a vida e o destino dispersou entre o país em que hoje manda a senhora Merkel e a o país em que hoje manda Putin. Mas as personagens são muitíssimas e, entre elas, não faltam os responsáveis pelo Inferno, Hitler e Estaline. É a primeira vez que a tradução do original russo é publicada em Portugal e exige bom estômago e bons olhos.

06
Dez11

Carta no baralho

Maria do Rosário Pedreira

Quando há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei aquele que era o segundo romance de Michel Houellebecq, intitulado As Partículas Elementares, houve muita gente que achou que eu perdera a cabeça. O livro era bastante polémico, evidentemente, e o autor tinha fama de ser uma carta fora do baralho, politicamente incorrecto, racista e bêbado. O seu romance seguinte – que já não publiquei, embora por razões que nada têm que ver com o facto de me terem chamado a atenção –, chegou a ser considerado ofensivo e até reaccionário. Previa-se, assim, que o escritor fosse perder a glória aos poucos, mas o que sucedeu foi justamente o contrário e ele acabou por conseguir que a crítica o aplaudisse e a Academia o premiasse nada mais nada menos do que com o famoso Goncourt. O romance galardoado saiu recentemente em Portugal e tem por título O Mapa e o Território. Desde logo, merece ser lido por contar com a tradução do poeta Pedro Tamen, mas é um retrato muito lúcido da sociedade contemporânea através da história de um homem que curiosamente também pintava retratos – entre eles, um do próprio autor – e da forma como ajudou um comissário da Polícia a esclarecer um crime terrível. Parece que Houellebecq entrou finalmente no baralho.

05
Dez11

Falar em círculo

Maria do Rosário Pedreira

Vila-Matas é um dos mais interessantes autores espanhóis e falei não há muito tempo neste blogue do seu romance Dublinesca. É de certa forma à roda deste romance que gira o seu mais recente livrinho – chamo-lhe assim porque é mesmo pequeno – que não ouso classificar, pois, tendo aparência de ensaio (prefaciado e tudo), deita ficção por todos os poros. De qualquer modo, tem o título sério Perder Teorias e conta a história de um escritor (Vila-Matas, quem mais?) que, convidado para um festival de escritores em França, é depositado no hotel por um taxista português e nele permanece todo o tempo que devia estar no dito festival por ninguém aparecer para o orientar e ele não ter ânimo para se desenrascar sozinho. Aborrecido com essa ausência – mas nem tanto –, resolve então escrever uma nova teoria do romance, pensando sobretudo no seu próximo livro, que não é senão aquele Dublinesca de que aqui falei, saído, por acaso (ou não) antes deste – e não só em Portugal, em Espanha também. Regressado a Barcelona depois de não ter participado em festival nenhum, o romancista descobrirá, porém, a teoria bastante inútil (embora estejamos a lê-la e, como tal, provavelmente não o seja). Circular e delirante, este divertimento muito sério é um dos seis primeiros livros publicados pela novíssima Teodolito.

02
Dez11

De volta

Maria do Rosário Pedreira

Cheguei ontem, bastante aparvalhada com a diferença horária e com a correria para apanhar os aviões todos, pois as escalas foram muito curtas. A mala só virá hoje, mais lenta do que eu - e mais pesada. Segunda volto à «vida» e haverá post, embora ainda não sobre Guadalajara, pois deixei alguns textos escritos antes de partir e só agora me porei a escrever sobre a feira mexicana. Agradeço a todos os comentários, desejos de boa viagem e fidelidade. Aproveitem o fim-de-semana para ler!

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