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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jan12

2012 e os novos autores

Maria do Rosário Pedreira

Fui para a LeYa com a incumbência específica de publicar novos autores literários de língua portuguesa. Parece mentira, mas já lá vão dois anos... Em todo o caso, foi uma alegria ter podido dar à estampa, ainda no primeiro ano, o romance de estreia de André Gago, Rio Homem, que acabou por ser galardoado com o Prémio PEN Revelação, e o livro de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira; e, já no ano passado, os romances de Pedro Guilherme-Moreira, A Manhã do Mundo, de Nuno Camarneiro, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, e de Filipa Fonseca Silva, Os Trinta, este último mais fresco e comercial, mas muito divertido. Agora, com a crise, estava sem saber se podia continuar a fazer aquilo de que gosto, porque se diz que, sem dinheiro, os leitores apostam sobretudo em nomes feitos e têm, além disso, em casa muitos livros que ainda não leram. Mas o susto passou e anuncio que, neste primeiro semestre, vou lançar mais três autores que nunca publicaram nada: João Rebocho Pais, com O Intrínseco de Manolo, obra notável ao nível da recuperação da linguagem popular sobre um alentejano intrinsecamente bom que acusam de ser cornudo; João Ricardo Pedro, o vencedor do último Prémio LeYa, com o brilhante O Teu Rosto Será o Último, no qual a estrutura faz da história uma espécie de interessante quebra-cabeças, e Bruno Margo, com o francamente original Sandokan & Bakunine – o título é desde logo um convite à leitura –, que parece David Lynch em livro e tenho a certeza de que dará que falar. Claro que continuo com os «meus» autores de sempre, e neste primeiro trimestre voltarei a publicar Paulo Bandeira Faria, de quem já tinha dado à estampa As Sete Estradinhas de Catete, agora com um romance sobre fazer as pazes, a Guerra Civil de Espanha, as desavenças de um casal moderno, os movimentos independentistas galegos e bascos e, enfim, o amor na infância, na idade adulta e na velhice. Chama-se A Despedida de José Alemparte. Prontos para isto tudo? Espero que sim. Os autores precisam e eu também.

16
Jan12

A Terra treme

Maria do Rosário Pedreira

Quando era miúda, houve um grande terramoto em Lisboa e a minha mãe e a minha avó acordaram-nos a meio da noite, nem sei bem se para nos levarem escada abaixo para a rua, seis andares a correr, se para morrermos ali todos juntos (todos, não, porque o meu pai, por acaso, estava a ouvir fados na Parreirinha de Alfama, que então ficava aberta até altas horas). Caíram dos nichos as santas e abriram-se rachas nas paredes, mas, graças a Deus, não nos aconteceu mal nenhum (nem ao meu pai, que ainda trazia caliça no casaco quando chegou a casa). Mas houve um terramoto bem maior do que este, todos sabem, em 1755, e é dele que fala A Voz da Terra, de Miguel Real, que acaba de conhecer a sua quarta edição (primeira na Dom Quixote) e estará disponível dentro de dias com uma nova e bonita capa. A reedição reveste-se de importância não só por se tratar de um livro bom e premiado que se encontrava esgotado, mas porque algumas das personagens que por lá deambulam pertencem também a A Guerra dos Mascates, que saiu em Setembro último, embora aqui estejam mais novas. E, porque não é bonito privar os leitores da sua história completa de vida, ou quase completa, aqui está o livro no qual se pode saber o que aconteceu a Julinho e Violante. O livro foi finalista do Prémio de Romance e Novela da APE e ganhou o Prémio Fernando Namora no ano em que saiu a primeira edição.

 

13
Jan12

Coisas sombrias

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei em tempos um ensaio que, como outros não especialmente académicos, o mais certo é ter passado completamente despercebido, até porque nem sempre o vi arrumado no devido lugar nas livrarias. No entanto, com a água pela barba que a todos anda a dar esta história de os nossos deputados pertencerem à Maçonaria (ou a várias maçonarias), lembrei-me dele porque pode conter informação útil e não demasiado detalhada (para leigos, enfim) sobre esta e outras matérias. Trata-se de Na Sombra - Breve História das Sociedades Secretas e assina-o John Lawrence Reynolds. E fala-nos de forma muito acessível de organizações como os Assassini ou os Illuminati, dos Templários, Maçons, Druidas e Gnósticos, do Priorado do Sião e da Cabala, das Tríades, Máfias e até dos chamados Teóricos da Conspiração. Se tem interesse por estes temas, ainda deve haver muitos exemplares e, mesmo que lhe digam que está esgotado – os livros nunca ficam tanto tempo nas livrarias –, insista e encomende. Para saber o suficiente sem ficar a saber demais.

12
Jan12

De pequenino se torce o pepino (ou não)

Maria do Rosário Pedreira

Não conheço nenhuma receita para fazer um leitor, embora suspeite de que há coisas que ajudam muito. Se, por exemplo, houver livros em casa – e os pais forem, eles próprios, leitores –, se as crianças tiverem quem lhes leia histórias desde pequeninas, interiorizarão a leitura como uma actividade natural e não resistirão a tentar. Mas creio ser necessária uma espécie de clique desencadeado por um livro particular (que nunca se sabe qual é) para existir paixão – e é essa paixão que determinará o hábito, a repetição do gesto e a capacidade de se enfrentar o fiasco que se pode tornar a leitura de um título e, ainda assim, não desistir de procurar outro. De todo o modo, fico muitas vezes a pensar se não haverá qualquer coisa de inato no gosto pela leitura, qualquer coisa não transmissível pelo outro nem passível de ser aprendido. Lembro-me por exemplo da minha afilhada que, em pequena, detestava tudo o que fosse actividade física e estava constantemente a ler, a ponto de, quando não tinha nenhum livro novo, reler os antigos e dizer que descobria neles sempre coisas em que não tinha reparado da primeira vez. A mãe contava que, se lhe dessem um papel para a mão, ela o lia obsessivamente até ao fim, tratasse-se de um folheto publicitário, de uma receita médica ou da lista de compras do supermercado. E nem se pode dizer que fosse uma menina típica de letras, pois, chegada a hora de escolher a área de ensino, até se viu obrigada a mudar de escola e deixar os colegas por ter optado por Artes, pensando seguir Design ou Arquitectura. Por outro lado, sei de pessoas que foram parar à edição por amor aos livros, oriundas de famílias que não liam nada. Talvez o bichinho dos livros morda alguns mesmo antes de saberem ler e a nossa insistência com outros para que experimentem não dê em nada por não terem dentro o veneno necessário.

11
Jan12

A Baixa

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, ainda de férias, fui almoçar à Baixa com o Manel. Estava um dia de sol maravilhoso, e a Baixa com sol é irresistível. Visitámos livrarias e lojas, fomos ao Museu de Arte Contemporânea, vimos o rio ao longe e acabámos num outlet da Bertrand do Chiado a vasculhar uns livros a preço de saldo que, realmente, não nos interessaram nadinha (foi bom para a poupança). Então, lembrei-me de que há uns tempos me pediram dessa mesma Bertrand um texto e que o podia partilhar convosco (até para me poupar, palavra de ordem em 2012). Ele aí vai então:

«Oh, que saudades do meu pai, e de ser pequenina, e de viver num Portugal se calhar tão pobre como este, mas sem nenhuma consciência disso. Que saudades de ir pela mão dele à Baixa ver as iluminações de Natal – que nesse tempo só lá é que as havia. Que bom tirar a fotografia com o Pai Natal à porta do Hotel Avenida Palace, escolher depois um presente na loja de brinquedos do italiano da Rua do Ouro e, em frente a uma montra cheia de chapéus-de-chuva, lanchar na Pastelaria Ferrari, onde havia batidos de ananás divinos e muitos espelhos para olhar o mundo. Oh, que saudades de ser criança e subir o Chiado pela mão do meu pai, de passar a loja de tecidos donde a minha mãe trazia amostras de fazendas de xadrez para os kilts da minha irmã e pedia descontos; e que bom era – afinal, o melhor momento do passeio – quando o meu pai, muito vaidoso, ia provar um fato novo cortado pelo alfaiate do Picadilly e eu podia esperar, sem medo de pedófilos, na Livraria Bertrand, onde metia o nariz nos livros e andava de sala em sala a ver tudo, como numa espécie de museu… Hoje, o País continua triste, e pobre, mas temos pronto-a-vestir e refrigerantes de lata; já não resta quase nada do que compunha essa viagem bonita, nem me resta o meu pai. A única coisa que tenho, apesar de tudo, ainda é a Bertrand.»

10
Jan12

Ai, o amor

Maria do Rosário Pedreira

O Teatro Nacional de São Luiz encarregou recentemente as Produções Fictícias da organização de um ciclo de «desconferências» dedicado ao tema geral O Fim da Crise. Eram três dias de conversas sobre o Dinheiro, o Amor e a Política e, tanto quanto me foi dado ver (não fui senão à sessão sobre o amor, mas disseram-me que na véspera tinha acontecido o mesmo), a sala estava cheia às 18h30 de um dia de semana, o que foi uma boa surpresa (talvez as pessoas não andem tão indiferentes como se diz). Sobre o amor, disse o moderador (Pedro Mexia) que ainda é um tabu para muitas bocas – pois, se todos o sentimos e desejamos, a verdade é que o léxico com ele relacionado é muitas vezes visto como pindérico e quase todos hesitamos em proferir esse «Amo-te» expressivo, embora a música e a literatura estejam cheias dele (passá-lo ao papel parece já não ser problema). Verdade ou não, a história que Mexia a seguir contou é deliciosa: num romance de Umberto Eco, um homem apaixonado por uma mulher (mas algo snob) diz-lhe a páginas tantas: «Amo-te, como diria a Barbara Cartland.» Eu é que amei esta.

09
Jan12

Vir e ficar

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, estive a ler um livro de poesia que começa logo por ter um belo título: Vim Porque Me Pagavam. A sua autora, Golgona Anghel, é uma romena que veio para Portugal ainda jovem (julgo que o pai era diplomata) e aqui viveu anos importantes da sua vida e formação. Escreve em português e, segundo sei, nada tem já que ver com o seu país natal, não conseguindo sequer imaginar-se a fazer poesia na sua língua. Dá aulas, salvo erro, na Universidade Nova de Lisboa. Se lhe pagámos ou não para vir para Portugal, nem interessa muito, porque o que interessa realmente é que estamos felizes por nos ter adoptado (ou a termos adoptado): a sua escrita é belíssima, irónica, crua, culta e intempestiva. Cheia de referências literárias e, ao mesmo tempo, de linguagem coloquial e agradavelmente festiva, um excelente livro de estreia de alguém que veio seguramente para ficar.

06
Jan12

Turismo gastronómico

Maria do Rosário Pedreira

Este fim de ano foi um festival de livros de cozinha, de chefs conhecidos e menos conhecidos, de senhoras que têm mão para os temperos, de vedetas de TV que adoram convidar gente para jantar ou juntar amigos a uma mesa. Mas, antes desses, já tinha saído a obra de Miguel Pires, Lisboa à Mesa, que tem sido de grande utilidade cá em casa. Não que eu seja um bom garfo – desde que me dêem um bom pão e batatas fritas aos palitos sem gordura, já estou satisfeita. Mas sou casada com um senhor que, apesar de magro, não desdenha uma boa refeição (qualidade é diferente de quantidade) e está sempre ansioso por experimentar uma boa tasquinha ou um restaurante mais bem apetrechado, desses que agora se diz terem cozinha de autor. Quando vamos para fora, faz parte da «excursão» o restaurante onde almoçamos e jantamos e aqui em Lisboa o guia de Miguel Pires dá muito jeito para escolher o sítio e telefonar a marcar, não vá haver muita gente a lê-lo ao mesmo tempo e a ter as mesmas ideias. Além disso, para quem prefere fazer as refeições em casa e acha que é melhor cozinheiro do que esta gente que aparece nas revistas, o livro tem uma lista interessante de lojas, mercearias, talhos e mercados onde podemos abastecer-nos. Que podemos querer mais?

05
Jan12

De viva voz

Maria do Rosário Pedreira

Por razões que não são para aqui chamadas, ando a ler muita coisa sobre Amália e o fado. Não sou uma leitora voraz de biografias, confesso – estou sempre mais inclinada para a leitura de ficção e tenho um defeito estrutural que se chama falta de curiosidade, sobretudo no que toca a vidas de pessoas reais. E, porém, gosto muito de ouvir uma pessoa a falar de si própria e de descortinar quanto de ficção e de verdade existe na construção do seu discurso. Talvez por isso não tenha conseguido saltar páginas no livro de Vítor Pavão dos Santos, Amália – Uma Biografia, que reproduz na primeira pessoa um relato da vida da fadista a partir de vinte e cinco conversas com o autor que, deliberadamente, excluiu do texto todas as suas perguntas e intervenções. Temos, assim, Amália a falar de si desde que nasceu como se fôssemos visitas privilegiadas de sua casa ou um psicoterapeuta atento aos dramas e traumas da sua existência num consultório da capital. E, ao lê-la deste modo – como se de ouvido colado às suas palavras –, podemos entender melhor a rapariga que foi e a mulher que se tornou, com todas as suas fragilidades, complexos e até vaidades, que, já se sabe, não há grande estrela que as não tenha. Eu, que admirava a grande senhora sem simpatizar com ela, senti-me por vezes psicanalista a detectar sinais que justificam alguns seus comportamentos e acabei por render-me ao lugar-comum de que a infância determina realmente muito do que somos e, no caso de Amália, isso é gritante. Com o fado a festejar a sua «entrada» no Património Imaterial da Humanidade, uma sugestão de leitura a ter em conta.

04
Jan12

Parar para ver

Maria do Rosário Pedreira

Embora este seja assumidamente um blogue sobre livros – ou, melhor ainda, sobre leituras –, as minhas horas extraordinárias também se fazem de outras coisas que não a literatura. E, numas miniférias como as que recentemente gozei, aproveitei, entre outras actividades, para ver e rever filmes (e tenho desde já de confessar que A Toupeira não me entusiasmou por aí além e achei o guião às vezes descosido) e ir a exposições. E do que gostei mesmo (e aconselho a todos, porque só vai ficar mais uns diazinhos) foi da exposição dedicada à Natureza-Morta na Europa que está na Fundação Calouste Gulbenkian. Constituindo a segunda parte de uma outra que se pôde ver em 2010, esta revela-nos pinturas dos séculos XIX e XX bastante diferentes dos modelos clássicos das frutas, jarras de flores e secretárias com livros, embora também as haja desse tipo. E estão lá todos os nossos pintores de eleição, de Van Gogh a Picasso, de Renoir a Eduardo Malta, de Gauguin a Amadeo. Não se pode perder, evidentemente, mas, se tiver um horário flexível, aproveite um dia semana ou um período de menor movimento. Caso contrário, terá de ficar à espera para entrar ou, o que é pior, de aguardar pacientemente que o visitante que chegou antes de si saia da frente do quadro para que o possa ver com tempo e sem se sentir acossado por quem chegou logo a seguir e está já a pressioná-lo para que se despache.