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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Fev12

As esperanças

Maria do Rosário Pedreira

Quando João Tordo venceu em 2009 o Prémio Literário José Saramago, era o terceiro autor que eu publicara a arrecadar o galardão. Generosamente, houve alguém que me chamou “preparadora física da selecção nacional” e, mais tarde, num programa de televisão emitido pelo Canal Q, o divertido Pedro Vieira chamou-me “Mourinho da literatura”. Nenhum editor treina escritores – estes já são escritores muito antes de terem editor – mas, mesmo assim, achei os epítetos bem aplicados porque acredito nas “esperanças” (roubo esta expressão ao futebol) e trabalho muito para as trazer ao conhecimento do público (é só esse, na verdade, o meu mérito, porque a paciência tem limites e muitos dos meus colegas já desistiram de o fazer). Um país sem jovens dotados não se renova e fiquei muito feliz recentemente ao saber da atribuição dos prémios no Festival de Cinema de Berlim a dois jovens cineastas portugueses (um dos quais já premiado em Cannes). Também na música e na pintura não faltam promessas. Conto, pois, com o talento desta geração para fazer a diferença neste Portugal tão cansado. Se, como dizia Agustina, esta é a era do homem comum, aplaudo obviamente todas as aberrações. Tenho, em suma, esperança nas esperanças.

28
Fev12

Livros de cabeceira

Maria do Rosário Pedreira

A expressão «livros de cabeceira» é frequentemente incluída em entrevistas e inquéritos e diz normalmente respeito ao que se anda a ler (e, por isso, está ali bem a jeito quando nos deitamos – muita gente só tem mesmo tempo para ler na cama), mas também aos livros de que uma pessoa nunca se separa e que deixa à mão para reler e consultar sempre que lhe apetece. Pois bem: a revista Time Out inaugurou recentemente uma pequena secção intitulada “Mesa-de-Cabeceira” e o Manel foi escolhido para deixar fotografar a sua e comentar os livros que ali tem. Deu tudo certo, claro, e o montinho de exemplares foi fotografado com pó e tudo, para ser mais realista; mas a verdade é que, se tivesse sido eu a visada pela reportagem, teríamos tido de fazer batota: é que, por acaso, gosto muito mais de ler na sala do que no quarto e, normalmente, sobre a minha mesa-de-cabeceira jazem livros que iniciei com optimismo, mas quase sempre ficaram a meio por falta de entusiasmo, aguardando momentos de maior paciência ou fé raramente alcançados. As mais das vezes, quando me vou deitar é para dormir – e só nas férias, que não tenho despertador para me lembrar que é altura de sair da cama, fico a ler entre lençóis, desejosa de terminar mais um livro de outra editora enquanto não chega o regresso ao trabalho.

27
Fev12

Parabéns a vocês

Maria do Rosário Pedreira

 

Em Maio de 2010 resolvi iniciar este blogue. Não tinha ideia de por quanto tempo o iria alimentar, nem de quantas pessoas o viriam ler todos os dias. Hoje, porém, sinto-o como uma espécie de sala de estar onde vários amigos se encontram e conversam (e ocasionalmente alguém manda calar). No último sábado, o Horas Extraordinárias foi distinguido com o Prémio Especial do Júri na categoria Blogosfera e Internet de Edição (Prémios Ler/Booktailors) numa sessão bem divertida entre as muitas que há nas Correntes d'Escritas. “Pelo olhar culto, assertivo e singular sobre o universo literário e editorial (...) passou a ser uma visita obrigatória na blogosfera” – palavras do júri. Sei que o devo aos meus leitores. Por isso, parabéns a vocês. E voltem sempre.

24
Fev12

Novas sobre o mal

Maria do Rosário Pedreira

Já trabalhei com muitos autores e tenho de confessar (perdoem-me os outros) que nenhum deles é tão encantador como Miguel Real, cujos e-mails e dedicatórias me fazem corar por excesso de gratidão quando eu é que tenho de lhe estar imensamente grata por todos estes anos de bons livros. Quando falo dele com outra pessoa que o conheça, a palavra “bom” aparece naturalmente no diálogo para o classificar e, por isso, não deixa de ser curiosa a sua faceta de homem crítico e implacável, como o demonstra a introdução a um pequeno ensaio sobre o mal, Nova Teoria do Mal, que acaba de ser dado à estampa. Trata-se de um livro de filosofia – e não esperem os leitores que seja de leitura fácil ou ligeira; mas aponta faces do mal bastante inesperadas, como a dos governantes que, por necessidade de contenção orçamental, decretam o fim dos transplantes, assim acabando com a vida de uns quantos e dormindo, de todo o modo, descansados. Fundamental para a compreensão de que o mal é a regra – e o bem procede de uma vontade de luta contra a regra, e não de uma qualidade inata ao ser humano –, este livro assombra-nos desde a primeira linha e sacode-nos intimamente do princípio ao fim.

 

23
Fev12

Cenário de tragédia

Maria do Rosário Pedreira

O primeiro romance que publiquei em 2010 na LeYa chamava-se A Vida Verdadeira e era da autoria de Vasco Luís Curado (a capa, de Maria João Lima, foi finalista dos Prémios Ler/Booktailors). Gare do Oriente, o livro que aqui me traz hoje, esteve na final do Prémio LeYa em 2009 e é do mesmo autor, mas só agora sai para os escaparates (havia que deixar respirar a obra anterior). Acompanhando as reflexões de cinco personagens ao longo de um dia – personagens que divergem em tudo mas convergem para a Gare do Oriente, onde apanharão o comboio suburbano que os levará a casa –, o romance passa-se numa data específica que, embora nunca seja dita, é a de um atentado terrorista de proporções inimagináveis ocorrido na estação ferroviária de um país estrangeiro – cujas imagens, replicadas nos écrans de todas as televisões da cidade, assombrarão as personagens, irmanando-as no medo, na tensão e nas interrogações sobre o valor efectivo das suas vidas pequenas e algo dramáticas. Pondo lado a lado o pequeno dilema pessoal e a tragédia de dimensões universais, este é um belo romance sobre as vidas verdadeiras de muitos nas sociedades contemporâneas da nossa Europa.

 

22
Fev12

Correntes

Maria do Rosário Pedreira

Se houve coisa bonita de se inventar foi este encontro literário de línguas ibéricas na Póvoa de Varzim, onde ao longo de vários dias se juntam escritores portugueses, espanhóis, latino-americanos e africanos para falarem de coisas variadíssimas em mesas-redondas e, claro, para conviverem à noite, no bar do hotel. Este ano a coisa parecia tremida com a falta de orçamento da Câmara Municipal, mas lá se resolveu com uns cortes e hoje inauguram-se mais umas Correntes d’Escritas. A sessão de abertura terá como orador D. Manuel Clemente, e Rubem Fonseca será homenageado num dos dias (ele que não vai a lado nenhum, nem dá entrevistas, não resistiu certamente ao que se diz do excelente ambiente do encontro). Eu, que desde o início tenho lá estado desde o primeiro dia, este ano só posso ir na sexta, mas tenho a certeza de que ainda irei a tempo de ouvir alguém inesquecível e de trazer de lá o testemunho. Força, Correntes!

20
Fev12

Nada é por acaso

Maria do Rosário Pedreira

O Manel e eu somos viciados em caderninhos e, embora tenhamos ainda muitos por estrear, não resistimos a reunir sempre mais um à colecção. Ora, por falar em caderninhos, conheço uma história bem divertida. Por ocasião da saída em Espanha do romance A Noite do Oráculo, de Paul Auster, o El País publicou um artigo em que dizia que o escritor norte-americano comprava uns caderninhos especialíssimos numa determinada papelaria de Lisboa (caderninhos, aliás, mencionados no romance). Um jovem casal espanhol que lera o dito artigo, estando de férias em Portugal, não regressou à pátria sem antes se dirigir à papelaria em causa (julgo que na parte antiga de Lisboa) para adquirir um desses cadernos austerianos. E – coincidência ou não, mas com Paul Auster nada é por acaso –, concluída a compra, saíram mulher e marido para a rua e não queriam acreditar no que os seus olhos viam: é que à sua frente, dirigindo-se a passos largos para a papelaria, vinha o próprio Paul Auster, presume-se que para comprar mais um dos seus cadernos... Coisa, por assim dizer, digna de um livro seu.

17
Fev12

Literatura urbana

Maria do Rosário Pedreira

Disse recentemente numa entrevista que as literaturas portuguesa e brasileira actuais têm muito pouco em comum – e que os escritores mais jovens do Brasil tendem a falar do quotidiano violento e da vida nas cidades, enquanto – abreviando, claro – os seus congéneres portugueses não raro recuam a outros tempos e centram a acção dos seus livros no meio rural. Acabo, porém, de lançar um romance, A Vida Passou por Aqui, que constitui uma boa excepção. Quem o assina é o jornalista do Público Luís Francisco, que constrói na cidade de Lisboa e arredores uma história que reúne muitas personagens maravilhosamente distinguíveis nas suas vozes e cujos laços mais ou menos apertados vamos compreendendo à medida que as páginas avançam e os nós afrouxam. Um motorista de táxi, uma empregada doméstica, um jovem arquitecto, a telefonista da Radiotáxis, um toxicodependente, uma falsa universitária e muitas outras figuras deambulam pelo romance aparentemente sós, mas estão irremediavelmente ligadas por um destino comum – e a atitude de cada uma influenciará decisivamente o futuro de todas. Com uma montagem irrepreensível, esta é uma boa estreia na ficção de alguém que se dedica a escrever diariamente sobre a realidade.

 

16
Fev12

Cinema e leitura

Maria do Rosário Pedreira

Diz-se muitas vezes que os jovens lêem pouco porque têm hoje uma variedade de coisas à sua disposição que, no imediato, são menos exigentes e lhes oferecem entretenimento garantido: televisão, jogos de computador e consola, Internet, chats, filmes que, frequentemente, são pirateados e vistos no computador. Estes últimos, porém, podem fazer alguma coisa pela leitura. Parece que, desde que foram distribuídos os filmes da série Millenium (primeiro, os suecos e, agora, a versão norte-americana do volume inicial), a leitura de policiais e afins está a aumentar em todo o mundo, diminuindo na mesma proporção as vendas de livros xaroposos ou de testemunhos algo demagógicos de mulheres e crianças maltratadas, que os especialistas crêem estar a dar as últimas. Sendo a literatura policial de qualidade, entre outras coisas, um excelente espelho das sociedades e seus problemas, pode ser que isto também queira dizer que a indiferença vivida por uma certa juventude em tempos recentes se esteja a transformar, com os contratempos da crise mundial, num interesse genuíno pelo colectivo. Tomara.

15
Fev12

Tome nota e arquive

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, estava em Lisboa Mário Lúcio Sousa – actual ministro da Cultura de Cabo Verde e autor do livro O Novíssimo Testamento –, fizemos em Leiria, na Livraria Arquivo, uma bonita sessão sobre a nova literatura lusófona, também com a presença de João Tordo e Vasco Luís Curado. A Arquivo é uma livraria muito especial, de gente que gosta mesmo de livros, e estas conversas têm sempre público interessado e, graças a Deus, perguntador. Amanhã repetiremos a dose às 18h30, de novo com a ajuda de João Tordo – que falará de Anatomia dos Mártires – e com a preciosa colaboração de David Machado e Nuno Camarneiro, cujos romances Deixem Falar as Pedras e No Meu Peito não Cabem Pássaros saíram em 2011. Se estiverem por perto, não percam as vozes da nova geração. Caso contrário, leiam-nas e não se arrependerão.

 

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