Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Mar12

Outro olhar

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais à tarde, pelas 18h30, estarei na Livraria Bertrand do Chiado para uma conversa com José Luís Peixoto, de quem fui orgulhosamente editora durante uns quantos anos e uns quantos livros (e cuja produção literária continuo, evidentemente, a acompanhar). O convite partiu dele, mas, fosse como fosse, não podia recusar, uma vez que estaremos ambos ali para falar de Nenhum Olhar, o seu primeiro romance – vencedor do Prémio Literário José Saramago –, que agora terá a sua estreia em versão digital. Acredito que esta nova forma de olhar o texto gere também novos leitores, embora não me consiga separar do papel, pois foi em livros com capa e folhas reais que fiz toda a minha aprendizagem. Mas esse será apenas um dos tópicos da conversa, já que muito mais haverá a dizer sobre este livro que de certa forma mudou a minha vida enquanto editora. Se não tiver planos, apareça por lá.

29
Mar12

Ler Eduardo

Maria do Rosário Pedreira

Hoje Eduardo Prado Coelho faria 68 anos. Infelizmente, por uma dessas partidas do destino, saiu cedo demais da sua vida e da nossa. Faz uma falta tremenda a quem o conheceu de perto e teve a sorte de privar com ele, pela sua inteligência, pelo seu sentido de humor e por uma vontade desinteresseira de partilhar os seus conhecimentos; e faz falta a muitos que não chegaram a conhecê-lo e que, se ele estivesse entre nós, teriam sido seguramente brindados com um texto seu, uma vez que era um espectador atento de tudo quanto que se fazia de bom e adorava dar a sua opinião fundamentada. Até à data, não temos um substituto à altura, ninguém que tenha a capacidade de acompanhar com o mesmo entusiasmo a literatura e a dança, a moda e a política, o cinema e a filosofia. A cultura portuguesa ficou, por isso, mais coxa sem este seu observador e divulgador. Neste dia 29 de Março, a Casa Fernando Pessoa organiza uma leitura de textos seus a partir das 14h30. Eu vou ler um fragmento sobre o prazer da leitura, mas haverá textos sobre as mais diversas temáticas desta figura culta e ecléctica. Basta passar por lá e ouvir.

28
Mar12

Espectáculo, ou talvez não

Maria do Rosário Pedreira

Poucos leitores deste blogue saberão que, em tempos idos, nem interessa bem quando, escrevi duas colecções de livros juvenis para a então famosa Verbo, tendo ultrapassado os quarenta títulos publicados e vendido mais de um milhão de exemplares; nada de especial, se comparada com Enid Blyton, mas muito bom, se me lembrar de que foi assim que viajei durante muitos anos e pude meter o nariz nos cinco continentes (em alguns deles, foi mesmo só a pontinha do nariz). Depois dessa experiência (é talvez mais correcto dizer «durante»), escrevi também um romance e três livros de poesia e, embora a imprensa me tenha dado alguma atenção, nunca a televisão me convidou para falar deles (exagero: fui a um programa que Bárbara Guimarães manteve na SIC num período em que a Nação atravessava melhores dias e tive direito a uma edição inteirinha do Ler+, apresentado por Teresa Sampaio, no âmbito do Plano Nacional de Leitura). Nos últimos anos, chamaram-me umas quantas vezes para falar de edição e de livros que tinha publicado, mas, ainda assim, sempre em horários ditos pouco nobres e canais com menos audiências. Ora, desde que escrevo letras para fados, os convites para ir falar da canção portuguesa ou dos seus intérpretes, sobretudo depois da elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade, multiplicam-se; e, só numa semana, foram três os pedidos para participar em programas e documentários. Fiquei a pensar que é uma pena que a literatura não tenha esta dimensão de espectáculo para poder aproveitar este meio que é a televisão e chegar a mais gente. Não por mim, que já quase não dou à pluma fora deste blogue («pluma» é força de expressão), mas porque gostava que alguns autores tivessem mais leitores, todos os leitores que (os) merecem. O problema é que sempre que um escritor consegue um certo grau de mediatismo também há logo quem desconfie...

27
Mar12

O rapaz das contas gosta de letras

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes estive a falar com um rapaz de quem não sei a idade (chamo-lhe rapaz por causa disso, mas pode ter perto de trinta anos). Pelas poucas conversas que já trocámos, descobri que, embora seja um «escravo» das contas, gosta das letras de um modo muito sério e tem, além disso, bom gosto literário. Na verdade, talvez seja exactamente por trabalhar com números que a sua experiência de leitura é muito diferente da minha – começou pelos autores vivos e agora anda a degustar alguns mortos de respeito, Borges, por exemplo. Sugeri-lhe que lesse Pedro Páramo, de Juan Rulfo, pois pareceu-me que fazia o seu género, mas, como não nos conhecemos bem, espero não ter feito asneira. Sei, contudo, que o lerá mais cedo ou mais tarde, porque me confidenciou que descobriu uma imensidão de autores assim, através de um mero conselho. De qualquer modo, achei graça quando um leitor como ele me contou que começou a interessar-se por livros muito tarde, explicando que uma das suas professoras de Português chegou a expulsá-lo da sala de aula por falta de interesse e que a família não tinha hábitos de leitura, embora comprasse livros do Círculo de Leitores para decorar as estantes. E aqui acrescentou um detalhe fabuloso: que o pai uma vez lhe bateu por ele ter retirado o celofane que cobria um volume de uma dessas colecções (e, violência à parte, vejo nesse acto um respeito enorme pelo livro, que não se podia estragar de maneira nenhuma); ao ouvi-lo narrar esse episódio, consegui ver o rapaz em miúdo a fazer aquela «patifaria»; e depois fui para casa a perguntar-me se não terá sido nesse preciso instante que começou o seu fascínio pela leitura, um mistério que era preciso desvendar: que estaria ali dentro de tão intocável? Já no fim da conversa, ele disse-me uma coisa belíssima: que não entendia como é que algumas pessoas podiam recusar um acto tão generoso como o de um autor ao escrever um livro para tanta gente que não conhece. Ora, é dessa dádiva de tantos que tenho feito as minhas Horas Extraordinárias, mas nunca me tinha ocorrido esta formulação tão simples. Agradeço-a ao rapaz. Se o seu trabalho fossem as letras, em vez dos números, se calhar não teria sido tão claro.

26
Mar12

Boas e más notícias

Maria do Rosário Pedreira

Li nos jornais uma notícia a que muitos vão decerto chamar demagógica (ou já chamaram), mas que me pareceu uma coisa positiva e, até certo ponto, indicadora da importância dada à formação cultural pelos nossos políticos (alguns, pelo menos). Dizia a dita que as pessoas desempregadas passarão a dispor e descontos ou borlas em museus e outros espaços culturais e que não há-de ser por não poderem comprar a entrada que se verão privadas de os visitar e desfrutar. Mas eis que, a seguir a esta decisão salutar, foi suspenso um festival de escritores agendado já para Abril e organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos (CMM), o LeV, Literatura em Viagem, ignorando eu no momento em que escrevo este post se haverá uma reconsideração, se, pelo contrário, o acontecimento anual se vai tornar bienal ou mesmo desaparecer enquanto a Troika quiser. Estão, porém, marcadas as viagens de alguns autores (e sabemos que, com os bilhetes emitidos, a CMM vai provavelmente ter de os pagar); e, sendo alguns deles nomes importantes (como Paul Theroux), desconvidá-los dará uma imagem de irresponsabilidade que dificilmente se conseguirá sanar. Percebo que as autarquias se têm esticado e que a sua despesa foi muito além do que deveria, mas não tenho a memória tão curta que não me recorde de que há pouco tempo saíram notícias atestando justamente que o Município de Matosinhos tinha as contas em dia. E fico sem perceber nada. Então a cultura interessa ou não interessa? É valorizada por uns e desvalorizada por outros dentro do mesmo governo? E esta opção de suspender o LeV será o exemplo que precisam para acabar com outras coisas do género e nos inibirem de assistir a encontros de gente inteligente? Alguém que me elucide, por favor.

23
Mar12

Se alguém se engana com seu ar sisudo

Maria do Rosário Pedreira

Por razões que não interessa aqui aprofundar – mas que se prendem com o negócio dos livros, e não, garanto, com qualquer assomo tardio de religiosidade –, o Manel andou vários dias a acompanhar um padre brasileiro católico, autor de um livro chamado Ágape que, no seu país natal, já vendeu mais de sete milhões de exemplares. Ora, num dos dias em que partilharam uma refeição, o padre contou-lhe uma boa piada sobre um bispo que se deslocou, um belo dia, à igreja matriz de determinada terra da sua diocese, encontrando o prior bastante consternado. Indagando a razão daquela tão sincera preocupação, disse-lhe o pároco que a igreja estava cheia de morcegos e que já tinha feito de tudo para se livrar deles, mas infelizmente nada resultara. Parece, então, que o bispo, mais experiente, lhe comunicou ter a solução para o problema: «Baptize-os e crisme-os», disse, «e vai ver como eles desamparam a loja num abrir e fechar de olhos». Não li o livro do padre Marcelo Rossi, mas, pelo menos, sentido de humor não lhe falta...

22
Mar12

A Vida ao vivo

Maria do Rosário Pedreira

Hoje à noite, pelas 21h00, faremos o lançamento do livro A Vida Passou por Aqui, de Luís Francisco, na Livraria Barata, em Lisboa. Trata-se do primeiro romance de um jornalista do Público, que conta uma história urbana cheia de nós, com vários narradores que nem sonham como estão ligados uns aos outros. Sem nunca perder o pé e com vozes absolutamente inconfundíveis, o autor mostra-nos através deste romance como gestos aparentemente só nossos podem, afinal, influenciar decisivamente a vida de terceiros. A apresentação estará a cargo do também jornalista e escritor (mas um pouco arredado dos livros há uns anos) Rodrigo Guedes de Carvalho. Apesar da Greve Geral, espero que consiga aparecer por lá.

 

21
Mar12

Primeiros romances

Maria do Rosário Pedreira

É muito difícil a um autor afirmar-se através de um romance de estreia no seu país – às vezes são precisos dois ou três e um bom prémio para o público dar, efectivamente, por ele, às vezes vive toda a sua carreira numa espécie de estranho anonimato e, quase a largar a vida, um qualquer estudioso descobre-o e recupera-o. Publiquei em 2010 o primeiro romance do actor André Gago, Rio Homem, e este foi afortunadamente galardoado com o Prémio PEN para primeira obra, mas isso não significou uma aproximação imediata do público ao escritor; em 2011, publiquei a obra de estreia de Nuno Camarneiro na ficção, No Meu Peito não Cabem Pássaros, que, apesar de ter sido objecto de várias críticas, ainda está a fazer o seu lento caminho na conquista dos leitores portugueses. No entanto, lá fora já parecem ter dado por estes dois autores – e ambos acabam de ser convidados para dois festivais do Primeiro Romance. André Gago vai dentro de poucos dias a Budapeste e Nuno Camarneiro será o representante português no Festival de Chambéry, em França, no próximo mês de Maio, depois de ter sido escolhido por cerca de 3000 leitores não profissionais entre muitos nomes possíveis. Haja uma boa notícia de vez em quando.

20
Mar12

Bons ventos do México

Maria do Rosário Pedreira

É bom quando nos passa pela mão o livro de um jovem – neste caso, uma jovem – especialmente dotado. O romance de estreia de Valeria Luiselli, mexicana a doutorar-se nos Estados Unidos, é um bom exemplo da obra de um escritor que já se vê que vai ser alguém no mundo das letras. Embora a sua intervenção nas Correntes d'Escritas não tenha sido extraordinariamente brilhante (foi, apesar de tudo, bastante aceitável), Rostos na Multidão é um livro de respeito, não só profundamente original na sua estrutura – que segue, a par e passo, narrativas distintas que se vão confundindo à medida que as páginas avançam – como profundamente informado sobre uma época (a que antecede imediatamente a Grande Depressão nos Estados Unidos) e alguns dos seus poetas: Ezra Pound, William Carlos Williams, o mexicano Gilberto Owen e o espanhol García Lorca, os dois últimos a residirem nesse tempo na Grande Maçã. Cruzando a história de uma rapariga mexicana que trabalha numa editora de Brooklyn e convence o chefe a publicar a obra de Gilberto Owen, cujo fantasma vê várias vezes no metro, a história do próprio Owen, que vê no metro uma rapariga que deve ser aquela no futuro, a história da mulher que escreve a história de Owen e pode ser a rapariga que trabalhou em jovem na editora de Brooklyn, enfim, este romance, muito elogiado por Vila-Matas, vai certamente dar que falar e agradará aos leitores que apreciam livros com alguma exigência e nos quais há qualquer coisa de duro e cruel sem que o tom e a linguagem percam beleza e contenção. Uma descoberta, em suma, muito feliz.

19
Mar12

Personalidades duplas

Maria do Rosário Pedreira

O músico e intérprete Gilberto Gil foi, como todos sabem, ministro da Cultura do Brasil no primeiro governo de Lula da Silva. Mas, se a memória não me engana, numa entrevista que deu a uma televisão portuguesa disse que, embora tivesse tido de abrandar a actividade artística, nunca deixou de dar concertos dentro e fora do seu país. O «meu» autor Mário Lúcio Sousa, actual ministro da Cultura de Cabo Verde, é também músico, mas, assim que tomou posse, anunciou que, durante o tempo em que estivesse a exercer o cargo, a música ficaria, infelizmente, de lado; pensei que também a sua veia de escritor estivesse impedida de sangrar, mas, quanto a isso, não houve alterações – e sei-o porque recentemente me comunicou ter terminado mais um romance. Ora, numa edição do semanário Expresso, naquela secção em que as pessoas são reduzidas a setas para cima e para baixo, o nosso Secretário de Estado da Cultura levou uma flechada das más por ter aceitado um convite para participar enquanto escritor no Festival Literário da Madeira (aonde, aliás, não foi). Esta questão das personalidades com vidas duplas parece criar dificuldades aos próprios e aos alheios. Será, porém, lícito pedir a alguém que se esqueça de uma das suas facetas – quiçá a permanente – só porque aceitou um cargo político? Ou até pode continuar a escrever e a cantar, desde que não se mostre ao público?

Pág. 1/3