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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Abr12

Mais vidas

Maria do Rosário Pedreira

Em 2009, João Tordo foi galardoado com o Prémio Literário José Saramago com o romance As Três Vidas. O título nasceu do nome de uma livraria nova-iorquina (Three Lives) aonde o protagonista vai procurar informação sobre o paradeiro de Camila, a neta do patrão que sonhava ser funâmbula e por quem ele estava perdidamente apaixonado.  No final do ano passado, a edição brasileira deste mesmo romance, publicada pela editora Língua Geral (que tem divulgado no país irmão muitos autores portugueses), foi finalista do Prémio Portugal Telecom, um dos dois mais importantes galardões literários do Brasil. Estava, pois, na hora de disponibilizar de novo ao público português este livro que, tendo como pretexto a história de três gerações de uma estranha família,  atravessa praticamente o século XX e os seus mais relevantes episódios, como a Guerra Civil de Espanha, a Segunda Guerra Mundial e o famigerado 11 de Setembro. Mais vidas, pois, para um romance a não perder.

 

 

12
Abr12

E se alguém de repente...

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns anos, havia um anúncio um bocado parvo (mas devia ser bom, pois de outro modo não me recordaria dele) em que uma voz dizia à rapariga que ia pela rua que, se um desconhecido de repente lhe oferecesse flores, isso era Impulse (a marca do desodorizante que se pretendia anunciar). Quando fui trabalhar para a LeYa, dei-me conta de que na equipa comercial havia uma pessoa que se dedicava exclusivamente às vendas por impulso – e tenho ideia de que tomava conta de clientes específicos como as bombas de gasolina, entre outros, aonde as pessoas não vão especificamente comprar livros, mas podem levá-los «por impulso». Com o fecho de muitas livrarias no País e a ameaça de que outras irão pelo mesmo caminho, os leitores que vivem longe dos centros urbanos ficarão certamente mais pobres; porém, os optimistas defendem que é sobretudo para esses que servem as livrarias virtuais (que, ainda por cima, lhes farão chegar os livros directamente a casa). Estas desenvolver-se-ão em Portugal, estou certa, até porque o número de e-books comprados aumentará com os novos dispositivos; mas significarão, muito provavelmente, a perda das tais vendas por impulso. A página de abertura de uma Amazon já poucos livros tem e, ainda que as congéneres portuguesas não se tenham posto até agora a vender roupas de marca e electrodomésticos, a verdade é que o número de livros no écran inicial corresponde, quando muito, ao que está na montra de uma livraria, mas os restantes livros estão mais ou menos escondidos e é difícil, desse modo, impulsionarem alguém...

11
Abr12

Estranheza

Maria do Rosário Pedreira

No dia 29 de Março, realizou-se o funeral do escritor mais português de todos os italianos: Antonio Tabucchi, o autor de livros de ficção como A Mulher de Porto Pim, Nocturno Indiano, O Fio do Horizonte ou Afirma Pereira, mas também um grande estudioso e apaixonado de Pessoa, com ensaios publicados sobre a matéria. Não concordo com a hipocrisia dos que, só porque uma pessoa morre, lhe tecem elogios rasgados que nunca lhe expressaram em vida. Mas não posso deixar de confessar que foi com alguma estranheza que li os comentários de Zita Seabra (que trabalhou na Quetzal quando Maria da Piedade Ferreira publicava as obras do romancista nessa chancela) no dia seguinte à morte de Tabucchi. Pois dizia coisas como «era o autor que nenhum de nós gostaria de ter» ou «quando chegava a Lisboa e não funcionava o aspirador... era insuportável de feitio». Acredito que Tabucchi não fosse um santo (já não há disso, e muito menos entre escritores), mas no dia da morte de um senhor autor em qualquer parte do mundo brindar a família, os amigos e os admiradores que lêem jornais com afirmações como estas parece-me simplesmente excessivo. Claro que há gente de quem não podemos esperar nada de sensato. Mas mesmo assim...

10
Abr12

Dez anos depois

Maria do Rosário Pedreira

Quando comecei a editar literatura portuguesa na Temas e Debates, Paulo Moreiras foi um dos meus primeiros autores. Fora selecionado, entre muitos candidatos, pelo Instituto do Livro e das Bibliotecas para uma bolsa de criação literária, que durante uns meses o aliviou na compra de muitos livros antigos em alfarrabistas e lhe permitiu escrever o seu primeiro romance picaresco, intitulado A Demanda de D. Fuas Bragatela. Trata-se de um texto absolutamente excepcional, que lhe valeu críticas muito elogiosas, entre as quais a do «melhor romance histórico da década»; é, de facto, um notável retrato do Portugal medieval feito com um humor contagiante – e recuperando uma linguagem que, infelizmente, caiu em desuso – que põe em cena um portuguesinho que não quis ser alfaiate e partiu à aventura, cruzando-se com alcoviteiras, meirinhos corruptos, padres que vendem parcelas de céu e muitas outras figuras que bem podiam ter saído de um auto de Gil Vicente. Recentemente, um grupo de teatro de Pombal levou à cena uma adaptação do livro feita pelo próprio autor, com casa cheia. Dez anos depois, aqui temos então de novo o Bragatela, havia muito esgotado, com uma capa que não fica nada atrás da primeira. (Permitam-me uma nota pessoal: Caro António Luiz Pacheco, este é daqueles livros que não pode perder.)

 

 

09
Abr12

Profissão: escritor

Maria do Rosário Pedreira

Não passaria pela cabeça de ninguém esperar que um pintor fizesse um desenho ou pintasse uma tela gratuitamente – a menos, claro, que se tratasse de um acto beneficente. Quando se convida um economista ou um político para fazer uma palestra, o pagamento combina-se previamente e há muito boa gente que recebe pela tarefa mais do que vários dos meus salários mensais. (Diz-se que Clinton vive actualmente de fazer conferências, por exemplo, mas há muitos outros na mesma situação.) Se quisermos um cantor para animar um qualquer acontecimento, é bom prever um cachet jeitoso, ou ele não se dará ao trabalho de lá pôr os pés. Ora, vem esta introdução a propósito de um interessante artigo da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho (ALC) no Público sobre o facto de em Portugal se partir do princípio de que um escritor não cobra senão os direitos de autor dos seus livros: se o querem num encontro, pagam-lhe, quando muito, as despesas de deslocação e, salvaguardadas as excepções (pouquíssimas), tudo o mais é por sua conta e risco, isentando-se quem encomenda o «serviço» de perguntar sequer quantos dias andou o pobre à volta do tema sobre o qual tem de dissertar ou escrever. O hábito instituiu-se e não é fácil corrigir a situação de uma hora para a outra, até porque, se um autor exigir ser pago por uma intervenção, haverá, diz ALC, uma dezena de outros que a farão de graça. Porém, numa altura em que cada vez há mais escritores a tempo inteiro, seria simpático pensar que a produção de um texto rouba se calhar tanto ou mais tempo do que um ensaio de meia dúzia de temas batidos a um cantor – e que por isso deve ser objecto de uma justa retribuição. De acordo com ALC, no Brasil o procedimento é já este. Está, pois, na hora de aprendermos com o lado de lá e batermos o pé.

05
Abr12

O perigo das metades

Maria do Rosário Pedreira

Costumo acompanhar a produção poética nacional e tento, na medida do possível, estar em dia com os poetas mais novos; porém, como as nossas livrarias têm prateleiras cada vez mais vazias ou pequenas no que toca ao género – e muitas das editoras de poesia são empresas quase domésticas que não conseguem chegar aos grandes livreiros –, nem sempre é fácil andar a par de tudo, tornando-se, por isso, fundamental a leitura das páginas de livros na imprensa para nos informarmos do que não devemos deixar passar em branco. Foi assim, de resto, que no dia 16 de Março último fui atraída para a leitura de uma crítica que tinha como subtítulo «É urgente conhecer e reconhecer a poesia de X» (o X substitui o nome do poeta). Como não conhecia X (mea culpa) e sei que quase sempre os críticos incluem no seu texto excertos da obra sobre a qual escrevem, corri as colunas à procura de aspas, mas as primeiras que encontrei deixaram-me algo perplexa. Os versos citados eram: «Gosto de foder: gosto muito de foder. Gosto mais mais de foder do que a maioria das pessoas.» Na coluna anterior, achei outro excerto de um poema chamado para foder que rezava assim: «Quartos. Salas, Cozinhas, Casas de banho. Terraços. Jardins. [...] Etc. Urgente, não importa onde.» Não costumo ter ideias feitas em poesia, mas a verdade é que não percebi pelas amostras lidas a urgência de conhecer ou reconhecer X (não estava assim tão carente). Nada daquilo me pareceu ir além de uma simples provocação e senti que devia estar a ficar velha ou, pior, que perdera definitivamente a sensibilidade poética. Porém, a minha incredulidade levou-me a ler toda a crítica e, pelo meio, encontrei um poema inteirinho onde a ironia era mais apetecível; ora, como detesto falar das coisas pela metade, espero encontrar a obra de X por aí um dia destes, lê-la com atenção e voltar a falar dela com conhecimento de causa – às vezes, as metades não chegam para se sentir o sabor.

04
Abr12

Um prémio merecido

Maria do Rosário Pedreira

Já se encontra à venda desde o dia 31 de Março o romance português que foi contemplado recentemente com o Prémio LeYa. Chama-se O Teu Rosto Será o Último e é da autoria de João Ricardo Pedro. Trata-se de uma estreia absolutamente invulgar que o júri quis distinguir sobretudo pela estrutura que, assim às primeiras, parece a de um conjunto de contos independentes, mas que, ao fim da primeira parte, se percebe ter sido uma opção mais do que reflectida e planeada. Lê-lo é o que faz falta, porque eu – que tive a felicidade de o ler três vezes – tenho a consciência de que tudo o que possa dizer sobre ele ficará sempre aquém da fruição que oferece a sua leitura. E, no entanto, para levantar a pontinha do véu, deixem-me contar que nele se fala de uma família – sobretudo de três gerações masculinas (mas também de uma mãe muito especial, de uma mulher que já foi uma menina muito especial e de outras figuras exteriores à família que não deixam de ser personagens muito especiais) – num contexto que abarca o Portugal da ditadura, da Guerra Colonial, da Revolução de Abril e da contemporaneidade; e existe uma maturidade literária rara num estreante que, ainda por cima, tem um tipo de humor bastante raro nas nossas letras, aplicado curiosamente nas cenas que nos poderiam indispor por uma certa crueldade e frieza, mas produzem, dessa maneira, uma espécie de baque seco e desarmante. Conheçam, pois, Augusto (o avô, médico no Interior), António (o pai, marcado pela guerra), Duarte (o neto, genial ao piano) e, acima de todos, o autor, que ainda nos vai dar muitas alegrias com este livro e os outros que queremos que ele escreva. Serão, prometo, horas extraordinárias.

 

03
Abr12

Vá lá, não custa nada

Maria do Rosário Pedreira

Há pessoas que detestam separar-se dos seus livros e nem aos amigos os emprestam. Talvez reconsiderem quando já lhes faltar o espaço para os guardar e então pensem melhor. De qualquer modo, todos temos livros que não vamos ler, ou porque não apreciamos o género, ou porque não gostamos do autor, ou simplesmente porque já não temos idade para histórias da Carochinha. Está a decorrer até 15 de Abril uma campanha de recolha de livros para Timor chamada Um Livro, Um Sorriso. A iniciativa conta com a organização de uma ONG com um nome esquisitíssimo em cooperação com  o Governo de Timor, e tem os CTT como parceiros. Basta, pois, ir a um balcão dos correios e depositar um desses livros que estão a mais lá em casa, desde manuais escolares a livros para crianças. Eles enviá-los-ão para Timor sem encargos para quem oferece. Vá lá, já falta pouco.

02
Abr12

Portugal em conversa

Maria do Rosário Pedreira

Por ocasião da publicação de dois livros de ensaio – Nova Teoria do Mal, de Miguel Real (Dom Quixote), e Representações da Portugalidade, organizado por André Barata, António Santos Pereira e José Ricardo Carvalheiro (Caminho)–, está marcada para amanhã às 18h30 uma conversa com a presença de André Barata e Miguel Real na FNAC do Colombo. Mas não será uma mera apresentação de livros, esperando-se que o público interpele os autores sobre o que os moveu para a escrita e edição das respectivas obras num momento especialmente ingrato para o País, em que se torna importante assacar responsabilidades pelo estado em que nos encontramos, sejam elas alheias à nossa singularidade enquanto povo, sejam elas fruto de marcas vincadamente portuguesas, porque, como se diz em Representações da Portugalidade, “a identidade não tem a ver apenas com o que somos, mas também com o que queremos fazer com aquilo de que dispomos”. Apareçam.

 

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