Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mai12

Idiossincrasias

Maria do Rosário Pedreira

Todos nós temos manias – é verdade –, uns mais do que outros; mas, se estas nos afectam apenas a nós próprios, que ninguém nos venha criticar por causa delas. (O pior é quando não é assim.) Os escritores não fogem à regra e, por vezes, desenvolvem idiossincrasias que se vão tornando doentias ao longo da carreira. Enquanto decorria, na última Feira do Livro de Lisboa, uma daquelas longas tardes de autógrafos, com as mesas completamente cheias de autores de todos os géneros e idades, estava eu a acompanhar quatro escritores quando fui abordada por uma das colaboradoras da LeYa num tom ciciante. Vinha averiguar se eu, por acaso, tinha uma esferográfica (e nem valia a pena perguntar, porque ando sempre munida de duas ou três, já para evitar que um leitor apareça e os autores não tenham como autografar-lhe o livro). Mas, desta feita, havia uma especificação: a esferográfica tinha de escrever a preto. O autor em causa usa sempre esta cor, e a caneta que tinha levado, quiçá à conta de muitas e longas dedicatórias, dera as últimas. Porém, nem naquela emergência ele aceitava escrever a azul e tinha sido categórico: se ninguém lhe arranjasse uma caneta preta, ir-se-ia embora e não daria mais autógrafos, mesmo que diante da sua mesa engrossasse a fila de pessoas em busca de uma assinatura. Pareceu-me um bocado exagerado pôr tal condição para continuar ali. Talvez estivesse farto e quisesse apenas arranjar pretexto para ir para casa. A sorte foi que, entre as várias canetas que eu trazia na carteira, uma era, de facto, preta. Não ma devolveram até hoje, mas isso até é o menos. Pior teria sido deixar tantos leitores à míngua...

16
Mai12

Nomes literários

Maria do Rosário Pedreira

Muitos autores preferem assinar as suas obras com pseudónimo, o que faz algum sentido se tiverem nomes pouco afeiçoados à literatura (como o poeta Eugénio de Andrade, que se chamava José Fontinhas) ou se toda a vida foram conhecidos por alcunhas (como Mia Couto, que se chama António Emílio). Outros ainda assinam com os apelidos dos cônjuges, que guardaram por casamento, e o mantêm mesmo quando o casamento se desfaz. Mas esta opção por vezes é uma carga de trabalhos ou alvo de confusões em termos práticos. Lembro-me, por exemplo, de que, quando Portugal foi país convidado numa Bienal do Livro em Genebra, os quartos de hotel das duas autoras da colecção Uma Aventura tinham sido reservados nos seus nomes literários, mas os nomes dos passaportes não coincidiam (Ana Maria Magalhães tem o apelido Martinho – é, de resto, irmã do actor Tozé Martinho; e Isabel Alçada – sendo, creio, Veiga de solteira – agora, casada com Rui Vilar, chama-se Isabel Vilar). Também o meu autor Miguel Real tem um nome bem diferente desse; e, quando damos o seu telefone a jornalistas e nos esquecemos de os avisar, ligam-nos por vezes a dizer que nos enganámos no número, porque a gravação acusa a propriedade daquele telefone de um certo Luís Martins. Mas a história mais engraçada que conheço a este respeito prende-se com Mia Couto, que foi convidado para participar nos Estados Unidos num encontro sobre questões feministas. Quando chegou ao aeroporto, ficou uma eternidade a aguardar que alguém aparecesse para o vir buscar; já um pouco desesperado, reparou, porém, que havia alguém ali há quase tanto tempo como ele e resolveu perguntar-lhe se, por acaso, não estaria à sua espera. E estava! Só que com a surpresa estampada no rosto: é que, sendo Mia moçambicano, pensavam que era negro; e, além disso, estavam convencidos de que era mulher...

15
Mai12

Erros com graça

Maria do Rosário Pedreira

Quem, como eu, passa a vida a ler originais encontra erros recorrentemente (alguns até ajudam a identificar a geração do respectivo autor) e, além disso, anacronismos e asneiras de criar bicho; quem revê traduções tem também histórias deliciosas para contar (uma vez descobri a expressão «sacudir as mãos» por «shake hands», calculem). No entanto, ninguém encontrou de certeza tanta matéria risível colectável como os professores que ensinaram ao longo de anos (um deles coligiu em tempos, de resto, uma História de Portugal em Disparates, que foi best-seller). Um destes dias, uma amiga francesa professora reencaminhou-me uma mensagem de uma colega que era de ir às lágrimas; mas, porque alguns dos disparates não têm graça senão em francês, deixo aqui apenas uma amostra para se divertirem – tudo respostas de alunos: «A um homem que tem várias mulheres, chama-se polígono.» «Quando alguém tem prisão de ventre, deve pôr um supositório de nitroglicerina.» «O tecido celular é o que os prisioneiros fabricam nas próprias celas.» «O osso do ombro denomina-se canícula.» «Quando uma mulher deixa de ter a menstruação entra na mesopotâmia.» «O álcool é mau para a circulação: os bêbados causam acidentes frequentemente.» «Na Idade Média, a mortalidade infantil era muito elevada, excepto entre os velhos.» «A fome era um problema para quem não tinha de comer [na mesma época].» «O nome de Joana d’Arc vem do arco com que ela atirava mais depressa do que a própria sombra [Confusão com Lucky Luke?].» «O cavalo-vapor é a força de um cavalo que arrasta ao longo de um quilómetro um litro de água a ferver.» «Esta figura geométrica chama-se trapézio porque nela se pode suspender qualquer pessoa.» «Quando um rapaz está apaixonado pela mãe, sofre de complexo adiposo.» Houve ainda um aluno que declarou que o «jeune homme» se encontra nos cromossomas. Era o «genoma», entenda-se... 

14
Mai12

A casa dos loucos

Maria do Rosário Pedreira

Ficamos sempre incrédulos quando alguém que anda ao nosso lado há anos, ou nos habituámos a ver na televisão com um comportamento absolutamente «normal», acaba por revelar-se capaz de certos actos que cremos pertenceram apenas a gente doida ou psiquicamente muito perturbada. Foi assim que seguramente se sentiu a maioria de nós quando Carlos Cruz foi acusado de pedofilia, por exemplo; e, seja ele condenado ou não, a verdade é que haverá sempre gente que acreditará na sua inocência e jurará a pés juntos que foi vítima de uma maquinação. Pois aquilo em que creio ao fim de mais de cinquenta anos de vida – em que vi tantas pessoas serem, afinal, aquilo que não esperava (não necessariamente criminosas, entenda-se) – é que a linha que separa a loucura da sanidade é mesmo ténue, podendo quebrar-se a qualquer momento e desvendar um lado obscuro e estranho em alguém que parecia aos nossos olhos inofensivo e transparente. Assim, os hospitais psiquiátricos não estarão cheios de loucos ferozes, como no nosso imaginário infantil e adolescente, mas de muita gente que, provavelmente, pareceria completamente sã se andasse na rua ao nosso lado. A este título, António Lobo Antunes – escritor e psiquiatra – disse, de resto, um dia destes uma coisa muito curiosa, referindo-se ao que tinha sentido depois de acabar o curso de Medicina e ao entrar pela primeira vez num hospital psiquiátrico: «Uma mistura entre um filme de Fellini e a casa da minha avó!»

11
Mai12

Histórias da censura

Maria do Rosário Pedreira

Muitos escritores portugueses sentiram na pele a repressão do Estado Novo e viram os seus livros proibidos ou riscados pelo lápis azul da censura. Mário Soares, que na época escrevia nos jornais com pseudónimo, apercebeu-se, porém, de que alguns dos censores eram bastante burros e conseguia dar-lhes a volta com uns truques estilísticos, poupando alguns dos seus artigos a cortes ou à simples proibição de serem publicados. Mas, pelos vistos, não foi só em Portugal que a censura teve agentes que não conseguiam ir mais longe do que a sua fraca inteligência. Juan Marsé esteve recentemente em Portugal para lançar Caligrafia dos Sonhos, a que voltarei quando a leitura estiver feita, e a uma pergunta do público sobre os incómodos da censura na Espanha franquista, respondeu com uma maravilhosa revelação. Tinha escrito um romance que era claramente contra o regime e decidira publicá-lo no México, consciente de que, se o fizesse no seu país, arranjaria seguramente problemas com a Polícia política. Porém, os seus receios acabaram por parecer-lhe injustificados quando os censores o chamaram mais tarde e, curiosamente, aquilo que tinham para lhe apontar era o facto de abusar das palavras «mamas» e «coxas»...

10
Mai12

De filho para pai

Maria do Rosário Pedreira

Hoje faria anos o meu pai, que amava e admirava e de quem sinto diariamente a falta desde que morreu. Fui, também por isso, especialmente sensível a um texto maravilhoso que o jornalista Tiago Bartolomeu Costa escreveu para o Público do dia 25 de Abril sobre o seu pai, que por acaso era furriel miliciano no Quartel de Santarém e acompanhou Salgueiro Maia na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 (não ponho aqui o link, porque só os assinantes do jornal têm autorização para ler o texto na Internet, mas sugiro que procurem o jornal desse dia e leiam). Era um texto de uma beleza extraordinária, raro nos dias que correm nos jornais (nos quais a escrita é hoje mais apressada e os assuntos nem sempre piscam o olho à escrita literária), e uma homenagem sentida e comovente de um filho a um pai (eu cá chorei). Na mesma linha, é também assinalável o primeiro texto que José Luís Peixoto publicou, ainda em edição de autor, intitulado Morreste-me, que fala da sua experiência e dos seus sentimentos após a morte do pai – um tributo lírico e belo que muita gente continua a considerar o seu melhor texto. Embora o texto do jornalista tivesse como objectivo contar a história de um companheiro de Salgueiro Maia, os dois textos acabam por confluir na saudade e na admiração dos filhos por pais simultaneamente muito simples e muito especiais.

09
Mai12

A química da literatura

Maria do Rosário Pedreira

Prometi voltar a falar de Primo Levi e da sua «autobiografia», que traduzi no final dos anos 80 e agora volta a estar disponível para os leitores portugueses. Intitula-se O Sistema Periódico e é uma obra-prima do escritor italiano que esteve num campo de concentração nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial (era judeu) e se suicidou mais tarde, deixando-nos, porém, livros magníficos e inesquecíveis. Um deles é, de resto, este maravilhoso conjunto de memórias da sua vida como químico (e quanta literatura há nesta profissão), que foi considerado o melhor livro de ciência de sempre pela Royal Institution of Great Britain em 2006. Nele, a vida de Levi é-nos contada através de episódios cronológicos, cada um dos quais associado a um dos elementos da Tabela Periódica. E assim assistiremos à relação de Levi com a química desde a infância no Piemonte ou no laboratório do liceu, até ao estratagema que encontrou para sobreviver em Auschwitz ou a sua experiência nas minas ou na indústria de resinas. Mas, se assim à partida pode parecer prosaico, o facto é que é tudo menos isso: mais poético, aliás, do que muito romance que anda por aí. E para Levi o amor não está de forma alguma isento de química, pelo que assistiremos igualmente à sua vida amorosa a par da profissional (e bem assim à sua vida literária, pois fazem parte do livro dois contos que escreveu na juventude e não tinham sido publicados antes de este livro ter sido dado à estampa). Um primor de inteligência, humor e autocrítica a não perder.

08
Mai12

Literatura e desemprego

Maria do Rosário Pedreira

Li uma interessante entrevista dada ao DN Magazine por dois vencedores de Prémios Literários com romances de estreia: João Ricardo Pedro, que arrecadou o Prémio LeYa com O Teu Rosto Será o Último, já em terceira edição, e Tiago Patrício, que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís, da Sociedade Estoril-Sol, com o romance Trás-os-Montes (ignoro se já está publicado e por quem). O primeiro é engenheiro e o segundo farmacêutico – nenhum portanto homem de letras, embora ambos provavelmente leitores experimentados. Tradicionalmente, embora com excepções (Namora, Torga...), o grosso dos autores portugueses vinha da chamada formação humanista (sobretudo de Filosofia e Literatura, embora também de Direito). Hoje, porém, quando olho para as badanas dos livros que tenho vindo a publicar, descubro vários com formação na área das ciências: David Machado, por exemplo, licenciou-se em Economia, e Nuno Camarneiro em Engenharia Física. Dizem-me alguns professores das Faculdades de Letras de Lisboa e do Porto que são cada vez menos os alunos inscritos nos seus cursos (e é bem possível que a falta de vagas para professor tenha alguma coisa que ver com isto). Será, no entanto, que fogem para os cursos mais técnicos alunos que seriam tendencialmente de Humanidades, apenas porque lhes parece mais fácil arranjar emprego? Espero que não. A verdade é que os dois autores premiados que referi no início estão actualmente desempregados...

07
Mai12

Um ou dois séculos, tanto faz?

Maria do Rosário Pedreira

Comemora-se este ano o bicentenário do nascimento de Charles Dickens, um dos autores com quem decerto aprendi a ler literatura e de que tenho pena que muitos adolescentes deixem passar em branco, porque estou convencida de que é um desses escritores que fazem leitores entre as camadas mais jovens. Tempos Difíceis, David Copperfield ou heróis como o avarento Scrooge de Conto de Natal ficam para sempre pregados à memória de quem os conheceu. A imprensa portuguesa dedicou, bem sei, algumas páginas à efeméride, mas ou as livrarias se fizeram desentendidas ou realmente não tinham as obras para destacar, porque por onde andei não vi nada da festa que Dickens merecia. Este é também o ano do centenário do naufrágio do Titanic, e não sei se o Homem é mesmo mórbido, mas a verdade é que as páginas dos jornais e os documentários sobre o navio chique que chocou contra um icebergue são muitos – e quase adivinho que os livros a mostrarem as loiças, os talheres e todas as outras mariquices a bordo estão por aí a romper para consolarem os que gostam de luxos, mesmo no fundo do mar. Bem sei que a miséria nunca encheu o olho, ainda assim tenho pena do pobre Charles, que se afundou na infância a trabalhar numa fábrica e veio ao de cima a escrever histórias em fascículos com um êxito enorme – e a quem se liga bem menos do que devia.

04
Mai12

O karma da adolescência

Maria do Rosário Pedreira

«O grande romancista americano», como lhe chamou a revista Time assinalando a saída de Liberdade, o seu mais recente romance (pelo menos, em Portugal), escreveu um livro de não-ficção extraordinário (fica bem dizer a palavra neste blogue). Jonathan Franzen, como todos nós, foi adolescente – e, se pensamos que a nossa adolescência foi um período complicado e cheio de contrariedades, vale bem a pena acompanhar a dele em A Zona de Desconforto, publicado há cerca de um mês pela Dom Quixote. Franzen nasceu no mesmo ano que eu e, embora a Europa e os Estados Unidos favoreçam experiências de vida bastante distintas, as pessoas dos 10 aos 18 anos são adolescentes onde quer que morem e encontrei neste relato dos dramas e conquistas do escritor americano muita coisa que vi e senti exactamente do mesmo modo. Aliás, as discussões dos pais sobre se o ar condicionado devia ou não estar na zona de conforto lembraram-me algumas das que assisti entre os meus progenitores à beira da separação. Mas há muito mais pontos em comum, como a adoração pelos Peanuts, de Charles Schultz (Charlie Brown é uma espécie de alma gémea do Franzen adolescente) e a invenção de asneiras colectivas, como retirar badalos de sinos, que a minha irmã também levou a cabo no colégio para fazer durar mais o intervalo. Não é, no entanto, a identificação que importa – e feliz será quem não se identifique com nada, digo eu – mas a circunstância de este ser um livro profundo, sincero, justo e gerador de razões para Jonathan Franzen ser hoje um grande escritor do mundo inteiro.