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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Jun12

Menores maiores

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, fui a uma escola secundária falar com adolescentes sobre poesia e criação literária em geral. Fizeram-me perguntas bem interessantes, deram opiniões muito curiosas e, no seu todo, a sessão foi mais produtiva do que muitas em que participei para leitores adultos. Nem sempre corre assim tão bem, mas, em regra, as crianças e os adolescentes ainda não perderam uma certa vergonha de se expor e costumam ser mais sinceros. Um dia destes, divertimo-nos bastante com uma colega que trabalha na área infantil da Oficina do Livro e que recebe vários e-mails de miúdos. Uma menina de 11 anos andava a ler As Mulherzinhas e, ao terminar o primeiro capítulo, escreveu a dizer que tinha encontrado uma gralha, que a seguir identificava, indicando a página e a linha respectivas, e corrigia. Um rapazinho ainda mais novo, de 8 anos, mandou uma longa mensagem a explicar que se tinha posto a ler um livro de Miguel Sousa Tavares (já não me lembro qual) e, porque estava a gostar muito, queria agradecer à «iditora» que o tinha publicado, avisando que, quando se encontrasse mais adiantado na leitura, daria uma opinião detalhada. Fantástico. Quando eu escrevia livros juvenis, recebia muitas cartas de leitores – algumas com críticas completamente justificadas e o elenco das gralhas que depois se corrigiam nas edições seguintes. Valham-nos estes pequenos intelectuais, que serão provavelmente os leitores de amanhã, se tivermos a sorte de não se perderem pelo caminho com outros objectos lúdicos ou, claro, vícios piores.

14
Jun12

Incompreensão inteligente

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me, na idade do armanço, de ir ao cinema Quarteto e ao Estúdio 444 ver filmes difíceis (sobretudo de línguas esquisitas) e, em muitos casos, não perceber patavina, mas achar mesmo assim que tinha valido a pena, pela beleza, pela imagem, por me fazer pensar. Mais tarde, um amigo que foi comigo ver Os Livros de Próspero, de Peter Greenaway, saiu a dizer que não tinha pescado nada, mas que as imagens eram tão belas que, naquele caso, buscar um sentido para o filme era completamente secundário. Um dia destes contaram-me uma história muito bonita que tem algo que ver com este tipo de «incompreensão». O escritor Vitorino Nemésio tinha, no início dos anos 1970, um programa de televisão chamado Se bem me lembro, no qual divagava sobre, basicamente, o que lhe apetecia (alguns dos leitores deste blogue devem lembrar-se, outros não terão nenhuma ideia de como era, mas vale a pena procurar no YouTube). Ora, parece que ia um dia Nemésio na rua e uma mulher se aproximou dele para lhe dizer que não perdia um só dos seus programas; e, no entanto, acrescentou: «Claro que não percebo nada, mas gosto muito.» Esta história foi-me contada por António Manuel Baptista, o físico que também tinha na época um programa televisivo chamado Física Moderna, e a quem aconteceu o mesmo num mercado alentejano: as peixeiras vieram todas cumprimentá-lo e disseram que saíam da praça a correr para irem assistir ao seu programa; não percebiam nada, mas isso não tinha importância, porque ouvi-lo era maravilhoso.

12
Jun12

50 anos de poesia

Maria do Rosário Pedreira

Vasco Graça Moura escreve poesia há meio século, razão para se dizer: é obra... Apesar de saber que tem muitos livros publicados (romances também), não pensei já fosse há tanto tempo que publicava e fui surpreendida pela efeméride no caderno «Actual», do Expresso, no sábado 26 de Maio, no qual o escritor (e grande tradutor de poesia, de Dante a Rilke e Shakespeare) dava uma entrevista ao jornalista Valdemar Cruz. Às tantas, Vasco Graça Moura dizia que via sobretudo na escrita poética um «exercício técnico, uma aplicação de capacidades oficinais». A discussão sobre se a poesia resulta de um trabalho de ourives ou de mais qualquer coisa inexplicável é muito antiga, mas, no caso de Vasco Graça Moura, tenho de confessar que nunca vi ninguém tão dotado para a produção poética no imediato. Uma vez, numa viagem de avião que fiz com ele e outros poetas até Madrid, vi-o traduzir (com rima e métrica) dois sonetos de Petrarca (que ficaram quase tão bons como os originais); e nessa cidade espanhola, depois de um jantar em casa do escritor João de Melo, que era o Conselheiro Cultural português na época, o poeta que comemora o seu 50.º aniversário este ano fez um soneto ali em menos de nada sobre o jantar e o anfitrião que não ficava nada a dever a muita da poesia publicada em Portugal. Mas essa facilidade para compor tem de ser uma capacidade rara, não pode ser só oficina...

11
Jun12

Écran grande

Maria do Rosário Pedreira

A Internet e a venda de DVD de filmes recentes veio mudar os hábitos dos portugueses em relação ao cinema. Há hoje imensa gente que não se importa de ver filmes no monitor de um computador, mesmo portátil, e quem já nem frequente as salas de cinema com o argumento de que o DVD do filme fica disponível pouco depois e pode ser visto no televisor lá de casa, sem cheiro a pipoca, à hora que se quiser e até com um chichi pelo meio, com recurso ao botão de Pausa. Mas conheci ao longo da minha vida imensa gente que dizia que ver filmes na televisão era completamente diferente de os ver no écran grande, de preferência às escuras, nas filas da frente, com som a sério e sem interrupções. E não estou a falar desses maluquinhos do cinema que sabem tudo de cor e só frequentam a Cinemateca e as salas que passam filmes independentes. Estou a falar de apreciadores da sétima arte que acham que a tela de grande dimensão faz parte do espectáculo. Pois bem, os defensores do livro em papel (os que recusam a ideia de ler um romance num dispositivo digital, porque precisam do cheiro da tinta e de virar as páginas a sério, e não virtualmente) lembram-me os cinéfilos que não se rendem aos pequenos écrans. Embora saibam que as árvores fazem muita falta para respirarmos, não se convencem com esses pequenos aparelhos que nos dispensam de andar com uma carga às costas (basta ver o peso dos livros escolares nas mochilas dos estudantes) e querem mexer, sublinhar com marcadores, dobrar o cantinho da página e folhear à vontade. Talvez o livro impresso seja o seu écran grande.

08
Jun12

Os leitores mais velhos

Maria do Rosário Pedreira

Penso muitas vezes que, se ainda tiver direito a reforma (o que é cada vez menos certo), terei imenso tempo para ler todos os livros que, por qualquer razão, ficaram quietos na estante ou interrompidos sem esperança de serem retomados. Mas a verdade é que também pode acontecer querer essa disponibilidade para outras coisas, eventualmente farta de não fazer outra coisa senão ler. O pai de uma amiga do Manel, que era um leitor voraz com uma biblioteca de fazer inveja a qualquer (leitor) mortal, quando se reformou acabou por tornar-se um espectador assíduo de telenovelas e perder a paciência para a leitura (que, já se sabe, exige muito mais de uma pessoa). O escritor António Alçada Baptista escreveu uma vez uma crónica sobre o assunto, dizendo que guardara os clássicos que não lera para a velhice, mas que, velho, não tinha vontade de os ler. Tenho esperança de, nisso, sair à minha mãe: é que todas as semanas tenho de lhe levar um livro diferente; e não só ela o papa rapidamente, como ainda se dá ao luxo de o criticar – e me criticar – se lhe levo um romance com menos sumo. Como já tem quase 88 anos, pode ser que eu lhe siga as pisadas...

06
Jun12

Química para poetas

Maria do Rosário Pedreira

Parece que o poeta romântico Samuel Taylor Coleridge – autor, com Wordsworth, das famosas Lyrical Ballads (1798) – era bastante crítico das ciências, com as quais tinha uma relação tudo menos pacífica. E, porém, conta-se que foi com enorme surpresa que o viram assistir na universidade às aulas de Humphry Davy, um conceituadíssimo professor catedrático de Química. E não só foi estranha para todos a sua presença assídua no anfiteatro, como ninguém queria acreditar quando o viram tomar notas furiosamente, enchendo aproximadamente 60 páginas de um caderno enquanto o professor falava. Alguém mais corajoso terá então ido ter com ele para saber o que fazia ali um homem que, afinal, não parecia apreciar por aí além os cientistas. Mas Coleridge não se deixou abater com a interpelação e explicou que o seu objectivo era, simplesmente, aumentar o número de metáforas na sua obra.

05
Jun12

Livros Difíceis

Maria do Rosário Pedreira

Os nossos jornalistas da área da Cultura gostam de apanhar os políticos, especialmente os que desempenham funções governamentais, em falso. Lembro-me de que um dia perguntaram a Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, se lera Proust e de ele ter respondido com uma evasiva que lhe saiu muito mal, afirmando que lera mas já não se lembrava de quase nada. Proust é tido como autor difícil – e é quase sempre Em busca do Tempo Perdido que os jornalistas vão buscar para tramar os entrevistados. Mas há um outro livro dos ditos difíceis que também anda na boca de toda a gente quando se trata de entalar alguém (confesso que também nunca o consegui ler de fio a pavio). Trata-se de Ulisses, de James Joyce, e há muito boa gente que acha que o autor deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura por causa dele. Para espantar os papões, Gonçalo M. Tavares falará hoje mesmo dessa obra maior da literatura na Casa Fernando Pessoa, às 18h30. Quiçá não desfaz alguns mitos sobre a sua extrema dificuldade e nos convence a tomar coragem para lhe pegar pela primeira ou segunda vez...

04
Jun12

Obra de estreia

Maria do Rosário Pedreira

No meu local de trabalho, sempre que «preciso» de ir fumar um cigarrinho, atravesso um longo corredor, no qual se dispõem à minha direita as mesas dos responsáveis pela comunicação e promoção dos livros de todas as chancelas do grupo. Os livros amontoam-se ali como em mais nenhum lado, já que é necessário enviar a jornalistas um bom número de exemplares para garantir que saem notícias e críticas acerca deles. Mas as capas das obras de Philip Roth saltam à vista entre todas as outras, pelo grafismo particular, do extraordinário Rui Garrido, e pelas cores vivas e contrastantes. E foi assim, de passagem a caminho do vício, que um dia destes descobri que a Dom Quixote acabara de publicar o livro de estreia do escritor norte-americano, intitulado Goodbye, Columbus, um pequeno romance sobre um amor de Verão, publicado originalmente em 1959, que o catapultou imediatamente para o lugar dos grandes, granjeando-lhe prémios e uma reputação que nunca mais lhe fugiria. Em Portugal, a edição junta à novela cinco contos do autor (que eu saiba, nunca publicados) e conta com a tradução sempre excelente de Francisco Agarez (desta vez não podia esquecer-me de o referir, pois é um grande tradutor). Mais um que não é possível deixar de ler.

 

 

01
Jun12

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Resolvi fazer a vontade ao leitor deste blogue, ASeverino, e fazer um post neste primeiro dia útil do mês de Junho sobre o que ando a ler. Pois bem, o último livro que terminei chama-se Furacão, foi escrito por Laurent Gaudé, que já ganhou o prémio Goncourt, e é uma homenagem fascinante aos que sofreram os efeitos do Katrina em New Orleans. É, pois, um livro sobre os negros na América (os brancos puseram-se a andar antes da catástrofe ou tinham casas resistentes) e, se quisemos, também um livro sobre a divisão de classes, o racismo e a escravatura. Conta a história de uma velha de cem anos que cheira a tempestade assim que acorda; de um homem que trabalhou numa plataforma de petróleo e viu o melhor amigo ser queimado vivo (nunca mais pregou olho); de uma mulher desencantada com um filho de seis anos que não comunica; de um grupo de prisioneiros que ficam sozinhos numa cadeia onde a água entra aos borbotões; e, finalmente, de um padre que interpreta a tragédia como um sinal de Deus e acaba mal. Belíssimas as vidas de todos eles – e bem assim as descrições da chuva e dos remoinhos de vento que levam tudo pelos ares, destroem as moradas dos pobres, fazem transbordar os rios, entopem os esgotos, arruínam os diques e espalham pelo cemitério crocodilos que se misturam com os animais do Zoo e os mortos. Um romance a várias vozes comovente e em defesa dos fracos, que recomendo vivamente, mesmo aos leitores que têm por hábito desconfiar da literatura francesa.

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