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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jul12

Atlas de escritores

Maria do Rosário Pedreira

O suplemento cultural do jornal Público – o «Ípsilon» – iniciou no último dia 13 de Julho uma secção dedicada aos mapas de escrita de dez autores internacionais, que é uma espécie de volta ao mundo a partir de livros importantes. O primeiro trabalho, assinado por Isabel Lucas (que, creio, será a responsável por cartografar os territórios de todos os outros escritores), era dedicado ao catalão Enrique Vila-Matas (de quem se publicou recentemente Ar de Dylan), cujas deambulações entre Barcelona, Paris e Nova Iorque são, segundo a jornalista, de endoidecer qualquer GPS que se preze. Mas teremos direito nas próximas sextas-feiras a outras geografias bastante atraentes: o Japão de Murakami, o Peru de Vargas Llosa, a Big Apple de Paul Auster, a África do Sul de Coetzee, o Israel de Amos Oz e mesmo a África francófona de Le Clézio. Cada escritor é marcado por lugares próprios e a sua literatura reflecte naturalmente o seu modo de estar em cada um deles. Fiquem por isso atentos a estes excelentes artigos, até porque podemos viajar com grandes escritores sem sair do lugar. Uma bela ideia para estas férias.

16
Jul12

Tristeza

Maria do Rosário Pedreira

Hoje vou falar de um dos melhores livros que li nos últimos tempos (imperdoável não o ter lido antes) e que, se pensar bem, é também um dos livros mais bonitos que li na vida. Chama-se Almas Cinzentas e escreveu-o o francês Phillipe Claudel, tendo com ele arrebatado o Prémio Renaudot (mas merecia todos os outros, que são muitos, em França). E, para além de bonito, é um livro inteligente, com uma particularidade rara, que é a de só sabermos quem é o narrador já a história vai a meio. História triste esta, que parte de uma morte – ainda por cima de uma criança – para contar a vida de uma pequena cidade do Norte de França e dos seus habitantes – o procurador, o juiz, o presidente de Câmara, a professora, o dono do restaurante... – durante a Primeira Guerra Mundial, num cenário quase sempre triste e cinzento, quase sempre frio e miserável, no qual os ricos são sempre os mesmos e os pobres muitos e cheios de medo. Mas há um crime hediondo que é preciso perceber – ainda que alguém já tenha sido condenado por ele à pena capital – e o narrador tem quase a certeza de que o criminoso continua à solta. Por esse crime, perderá ele o pouco que tem, assemelhando-se nisto ao seu adversário, a quem uma jovem e bonita professora chama Tristeza num tom de carinhosa compaixão. Retrato magnífico de um tempo e de um lugar, com personagens muito bem desenhadas, cheias de humanidade, este romance vale cada página que tem; já não é novo e pode ser difícil de encontrar, mas é preciso andar por aí à procura dele porque não há muitos assim, que nos deixem uma pena imensa de chegar à última página.

13
Jul12

Títulos

Maria do Rosário Pedreira

Um bom título é importante, se queremos que leiam os livros que escrevemos – e já me aconteceu chegar um livro muito bom com um mau título (e o autor acabou por mudá-lo); chegar a um livro com um título excelente que não correspondia ao que o livro tinha dentro (e não o publiquei); e até haver um título que foi alterado à última hora porque incluía uma palavra «difícil» que cerca de 70 por cento das pessoas que então trabalhavam na editora não conheciam, e a administração achou melhor não correr riscos... Mas há que reconhecer que temos na nossa terra alguns bons escritores com grande talento para intitular. Entre os meus títulos preferidos, está Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, de António Lobo Antunes, que sempre achei genial, ou Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto, de Mário de Carvalho, que sabe nomear um romance na perfeição e também já nos brindou com Um Deus Passeando na Brisa da Tarde. De outra geração é o autor que nos tem habituado a querer ler os seus livros só pelos títulos, José Eduardo Agualusa, que tem um trio perfeito: As Mulheres do Meu Pai, Barroco Tropical e Milagrário Pessoal – e que recentemente fez jus ao seu jeito e inteligência e escreveu Teoria Geral do Esquecimento, que apetece logo ler (assim que possa, fá-lo-ei) mesmo sem se saber de que trata. Mas a arte não é para todos, e tenho pena daqueles que escrevem livros belíssimos e que depois, no título, deitam tudo ou quase tudo a perder. No caso de serem autores reconhecidos, com leitores fiéis, ainda vá que não vá; o problema é quando se estreiam com romances muito fortes em que ninguém pega por causa de um título menos apelativo...

12
Jul12

Ser e parecer

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, apostei em Milan Kundera para o Nobel da Literatura, pois houve movimentações que o faziam supor, das quais fazia parte a edição da sua obra em França na Pléiade, que é só mesmo para os autores especiais de corrida. E numa noite destas li um livro seu muitíssimo curioso – A Identidade. Conta a história de um casal que se ama e que, se não (se) questionasse, poderia ser o casal perfeito. Mas, às tantas, o medo instala-se. O medo do envelhecimento e de deixar de atrair a atenção dos homens (da parte dela, porque o amante é uns anos mais novo); o medo de ter estado enganado sobre ela e de perder a ligação ao mundo (da parte dele, pois Chantal é o elo que o une à vida). As questões do sexo e das fantasias eróticas, a sedução das cartas anónimas de um estranho admirador, os mortos e os vivos de um passado que parecia remoto – mas afinal regressa –, a descoberta de que a pessoa amada não é exactamente quem pensávamos e ainda uma frieza em relação à morte de uma criança, que é, simultaneamente, uma ardência que permite o encontro de ambos, conduzem o par a uma experiência de ruptura e a uma espécie de arrependimento. Mas não será demasiado tarde para recuperar o que já se perdeu? Pouco mais de cem páginas, mas sempre profundas, como é habitual em Kundera. Talvez este ano lhe dêem o Nobel, veremos.

11
Jul12

A cultura é chata?

Maria do Rosário Pedreira

A caminho do emprego, ouço todas as manhãs a TSF. E, nos dias em que me atraso um bocadinho, logo que entro no carro começa o Tubo de Ensaio, de Bruno Nogueira e João Quadros. Nem sempre tem graça, ou a mesma graça, mas já lá ouvi piadas muito boas, entre as quais destaco a ideia de os olhos de Maria José Morgado serem pintados todas as manhãs por Paula Rego (o que achei muito bem visto). Mas é difícil fazer humor todos os dias, embora em Portugal haja qualquer coisa que, apesar da desgraça, nos puxa facilmente para a anedota. E, no Tubo de Ensaio, a propósito do jogo em que Portugal foi eliminado do Euro, Bruno Nogueira disse que os espanhóis tinham um futebol tão, mas tão chato que só devia passar no Câmara Clara da RTP2. Confesso que também não gostei nada do desafio e que, por isso, na altura, me ri com a ideia estapafúrdia. Mas depois, pensando no assunto, ocorreu-me que os programas culturais portugueses talvez pareçam desde sempre, pelo menos aos que não trabalham nas áreas culturais, um pouco chatos – ou porque muito certinhos, com o formato de noticiários, ou porque, em geral, muito sérios, com um entrevistado falando do seu trabalho. Confesso que estas opções podem ser bastante interessantes para quem quer ouvir determinada pessoa que já conhece; mas para um perfeito leigo na matéria serão, efectivamente, a melhor escolha? Lembro-me de que aqui há tempos havia um programa que ensinava as pessoas a corrigirem erros comuns na língua portuguesa, animado por sketches representados por Diogo Infante e outras personalidades mediáticas e baseado numa pseudo-narrativa minimamente coerente e interessante. Não sei se tinha grandes audiências, mas talvez convocasse mais espectadores. Seria possível fazer alguma coisa do género sobre a literatura ou as artes em geral?

10
Jul12

Loucura argentina

Maria do Rosário Pedreira

Muitas vezes, quando sai um livro de determinado autor consagrado, compramo-lo imediatamente, mesmo sem ainda termos lido o que foi publicado antes desse. Ora, uma editora na Argentina considerou que, se isso não é um problema para um escritor reconhecido, é-o claramente para um estreante que, se não for lido rapidamente – e objecto de crítica e recensão –, dificilmente terá oportunidade de publicar uma segunda obra. Então, para apressar críticos e leitores – e num acto ligeiramente suicidário –, resolveu imprimir uma antologia de jovens autores latino-americanos com uma tinta especial que, assim que o livro é aberto, desaparece ao fim de dois meses. Ofereceu toda a primeira edição a pessoas que escrevem habitualmente sobre literatura, forçando-as a ler a obra rapidamente – antes que já não seja mesmo possível. A editora chama-se Eterna Cadencia e, ao que parece, a sua estratégia funcionou e não param de chegar pedidos d’«o livro que não pode esperar». A campanha tem um vídeo cujo link vai aí abaixo para o nosso anónimo do costume não pensar que estou apenas a querer ser original:

 

09
Jul12

Confissões

Maria do Rosário Pedreira

Não é, nem de perto nem de longe, o meu livro favorito do autor, mas, impelida pelo entusiasmo de alguns leitores deste blogue – mais do que todos, Ana B. e Isabel –, lá me apressei a «ouvir» A Confissão da Leoa, de Mia Couto, um romance baseado em acontecimentos reais que se prendem com o aparecimento de leões numa aldeia moçambicana, onde foram devoradas algumas pessoas. O assunto não é fácil porque o ponto de partida parece até demasiado ficcional para poder dar certo, mas as duas personagens que dão conta do drama – Mariamar e o caçador – são muito bem desenhadas e têm, efectivamente, vidas que valem a pena ser narradas. A primeira é a irmã mais nova da última vítima dos leões e foi proibida de sair de casa, não por causa da proximidade das feras, mas justamente para que o caçador não a leve consigo quando, enfim, conseguir dar cabo delas; o segundo é um homem apaixonado pela mulher do irmão, internado num hospital psiquiátrico desde que disparou contra o pai de ambos, em circunstâncias tão ambíguas que nunca se chegou a saber se foi um acidente. E, com a ajuda deste duo improvável – caçador e presa –, acompanharemos o dia-a-dia numa aldeia atrasada e machista, onde há quem pense que os homens são muito mais perigosos do que os leões, sendo alguns deles capazes, inclusivamente, de os fabricar. Embora a primeira metade do livro me tenha parecido bastante mais conseguida do que a segunda (com algumas coisas mais ou menos previsíveis), este é um bom livro sobre as feras que os homens trazem dentro deles, sobre as superstições e como servem o poder dos homens, sobre as feridas e o desejo da cura.

 

 

06
Jul12

O monge faz o hábito?

Maria do Rosário Pedreira

Todos conhecem a história do ovo de Colombo – mas ninguém sabe responder se o ovo existiu antes ou depois da galinha. Ora, um dia destes, pensando no Prémio Literário José Saramago por causa da publicação de um novo livro do seu primeiro vencedor – As Filhas, de Paulo José Miranda (que lerei e comentarei oportunamente, assim o tempo mo permita) –, surgiu-me uma questão que se aparenta à do ovo de Colombo. Constatando que este último autor não teve, apesar do galardão, o mesmo destaque dos seus sucessores, perguntei-me porquê, se era evidentemente um bom livro (Natureza Morta) aquele que lhe mereceu a distinção. Com efeito, depois de terem recebido o prémio em causa, os outros autores «abençoados» saltaram para um patamar de visibilidade completamente diferente do que tinham e, regra geral, os seus livros começaram a ser referidos como o que de melhor estava a ser escrito em termos de literatura portuguesa (José Luís Peixoto, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, João Tordo). Pareceu-me, pois, relativamente injusto que Paulo José Miranda tenha sido a excepção portuguesa (porque, com os autores brasileiros, é mais fácil perceber porquê) e então ocorreu-me que, se o Prémio Saramago fez muito pelos seus autores, é também possível que os seus vencedores (alguns, pelo menos) tenham feito bastante pelo prémio. Senão, vejamos: José Luís Peixoto (o primeiro autor a conseguir um êxito estrondoso depois de o ter ganho), assim que saiu o seu romance Nenhum Olhar, recebeu elogios de todos os críticos importantes (entre eles, Prado Coelho) e a sua presença em escolas e bibliotecas foi assídua, como então não se usava; o livro chegou a ser finalista do prémio da APE nesse ano (feito raro com um romance de estreia), pelo que, para ele, o Prémio pode ter sido apenas o empurrãozinho que faltava. Também Gonçalo M. Tavares já tinha recebido um outro prémio de relevo quando, no ano seguinte a Peixoto, recebeu o Saramago por Jerusalém (mais tarde igualmente galardoado com o Prémio PT no Brasil), consolidando-se como um dos maiores escritores portugueses actuais. E, a partir destas duas vitórias, o prémio ganhou claramente importância e passou a contribuir claramente, em termos de vendas e visibilidade, para o sucesso dos autores distinguidos – o mesmo acontecendo quiçá a Paulo José Miranda se tivesse concorrido depois, e não antes, de Peixoto e Tavares. Será que, neste caso, o monge também fez o hábito?

05
Jul12

Metáfora da mestiçagem

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, publiquei um livro que é uma delícia e cuja leitura, antes de falar de coisas mais profundas, dispõe bem – o que, numa época em que andamos um bocado zangados com o mundo, não deixa de ser importante mencionar. Trata-se de O Legado de Nhô Filili, de Luís Urgais, um romance que, podendo denominar-se «histórico» por se referir a um episódio histórico de relevo – a abolição da escravatura em Portugal –, vai claramente além de um relato dos factos que podem ser conhecidos através de ensaios ou manuais, construindo uma ficção primorosa à roda de um casal bastante improvável (e da sua descendência): o branco João Bento Rodrigues, funcionário régio nascido na ilha do Fogo de família minhota (conhecido como Nhô Filili) e a guineense Maguika, uma escrava negra como o carvão, trazida por negreiros para Cabo Verde já depois da proibição do tráfico. Mas não se pense que é a história de amor, como nas telenovelas, que aqui importa (embora seja de uma ternura extraordinária e suscite uma inegável empatia por parte do leitor), pois o romance atravessa quase um século de história e traz-nos, de mão beijada, ao embrião dos primeiros movimentos pela independência das Colónias, bem como à história da mestiçagem cultural e biológica e à questão do racismo, protagonizada não só pela elite branca da cidade da Praia (escandalizada com o casamento misto), mas, de forma bastante mais inovadora, pelos mulatos emergentes e interesseiros (e, note-se, nem sempre bastardos). Uma série de histórias e lendas locais, excelentemente articulada com a intriga do romance, fazem dele uma leitura de grande prazer.

 

04
Jul12

O sentido artístico

Maria do Rosário Pedreira

Para escrever um livro decente, sabemo-lo bem, não é preciso ser um artista. Há por aí muitos títulos no mercado – e não estou a falar só, ou principalmente, de estudos e ensaios – que, por muito «correctos» que se apresentem ao leitor, não podem considerar-se exactamente objectos artísticos, mas são obviamente legíveis; enquanto outros, nem que seja por ruptura ou descontinuidade, inauguram novos caminhos literários que se aparentam, de certa forma, com as vanguardas na música e na pintura. Pergunto-me, aliás, se os seus autores, ao contrário de todas as outras pessoas que escrevem e publicam, não terão uma espécie de sentido artístico inato que acabou por se desenvolver na escrita, mas que, se as circunstâncias e a formação tivessem sido outras, bem poderia ter «degenerado» em outras formas artísticas igualmente interessantes. Digo isto ao descobrir que vários autores que publiquei (e outros que gostaria de ter publicado), muito embora se tenham tornado conhecidos através dos seus livros, se dedicam (ou dedicaram) – ainda que por vezes «domesticamente» – às artes plásticas, ao vídeo e ao cinema, ao canto, a um instrumento musical, à representação teatral. E fico a pensar que, se calhar, a arte já estava toda dentro deles antes de escreverem a primeira linha e que, não saindo por esse poro, sairia por outro qualquer, destacando-os, de qualquer modo, entre os seus pares. Afonso Cruz, por exemplo, de que acabam de sair duas obras – Jesus Cristo Bebia Cerveja e Enciclopédia de História Universal: Recolha de Alexandria –, é um desses casos: fez filmes de animação, é músico e ilustrador. Mas há mais, na vida de Afonso Cruz e na de outros escritores-artistas.