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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jul12

Ça bouge

Maria do Rosário Pedreira

Nas últimas férias grandes, reparei que muitos estrangeiros que escolheram as praias do Algarve levavam com eles um e-reader, quase sempre um Kindle, poupando-se ao peso dos livros que iam na minha pasta – e que, por me deslocar de carro, pude levar comigo. Porém, eram ainda muito poucos os portugueses que se serviam desses dispositivos para ler, talvez porque a crise instalada não desse para mais do que o hotel, a gasolina e as refeições (que este ano, sem subsídios, muitos já não poderão pagar). No final do ano passado, pedi, por curiosidade, os números de vendas de ebooks de um dos autores que publico, parecendo-me que, pelas suas características, seria dos que teriam mais leitores com e-readers. Surpreendi-me com a parca meia dúzia de exemplares vendidos e, até há pouco, rendi-me à evidência de que ainda estávamos um bocado atrasados ou falidos para podermos concorrer com suecos e holandeses (os estrangeiros de que atrás falei) nesta matéria. Contudo, há dias chegou-me uma informação sobre as vendas do romance vencedor do Prémio LeYa e, ao contrário do que pensava, neste caso os ebooks ultrapassavam os 120, quase todos na versão para iPad. Será que também em Portugal as coisas estão decididamente a mexer e as pessoas não resistiram, apesar de andarem mais apertadas de dinheiro, ao gadget da Apple, mas pouparam no preço do livro, que é mais barato na versão electrónica?

02
Jul12

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de dizer o que andamos a ler (não me esqueci) – e a verdade é que gostava de ter lido mais livros publicados, mas, nos últimos tempos, tenho-me dedicado sobretudo à leitura de provas e de originais de autores portugueses. No entanto, nas míseras horas que sobraram na semana passada, tive a sorte de pôr os olhos numa maravilha alemã, provando que, apesar do actual preconceito europeu, há bem mais nesse país do que a senhora Merkel, a equipa de futebol que tinha as pernas mais compridas do Euro (e, claro, a nossa comentadora Cristina Torrão). Por exemplo, um escritor maior da literatura mundial, W. G. Sebald, já falecido, cuja obra de estreia (aos 44 anos) se chama Do Natural Um Poema Elementar e acaba de ser traduzida por Telma Costa e publicada pela Quetzal. E nem se atrevam a ter medo da palavra «poema» porque, garanto, o texto se lê com a fluência da prosa – pelo menos, da prosa de Sebald, autor de livros bastante atípicos e bons como Austerlitz ou Os Anéis de Saturno. Dividido em três partes – que correspondem a três personagens (Grünewald, um pintor do século XVI; Steller, um cientista do século XVIII que parte na expedição de Bering, o que deu o nome ao estreito; e o próprio autor) – este longo poema é, entre outras coisas, um hino à natureza (bela a cena em que o pintor ensina o filho no atelier, mas também nos campos verdes; belíssima a descrição do eclipse do Sol em 1502 ou a visita de Sebald com a filha a um moinho, fugindo da cidade; maravilhosa a passagem em que alguém tem a ideia louca, mas imaginativa, de domesticar baleias como animais de carga). Além disso, é um texto que merece ser lido com a ajuda de histórias de arte e atlas, pois, apesar de pequeno, está cheio de referências que engrandecem, ilustram e nos tornam mais cultos e melhores. Aconselho-o vivamente a todos os que adoram literatura e não têm medo dela.

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