Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Set12

Reler

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, a jornalista Teresa Sampaio do programa Ler+ convidou-me a falar sobre um dos meus livros preferidos. A lista é grande, como a de todos os leitores deste blogue, tenho a certeza; mas, certamente porque saberia das minhas hesitações, a jornalista sugeriu que eu falasse de um romance que fora objecto de um post bem elogioso aqui no blogue, provavelmente porque também ela o achava merecedor de divulgação e leitura. Falo de O Amante, de Marguerite Duras, vencedor do prémio Goncourt em 1984, sobre um episódio assumidamente biográfico, a relação que a escritora manteve, aos quinze anos e meio, com um chinês milionário de vinte e sete na exótica Indochina onde então vivia. Aceitei o desafio, mas, como já não lia o romance havia anos, disse cá para mim que o melhor era relê-lo, sentir-lhe de novo o cheiro e ter tudo mais fresco. Tratando-se, porém, de um desses romances que cremos terem mudado a nossa vida, estava aterrada com o que poderia vir a achar tantos anos depois. Já me acontecera regressar a um livro que tinha amado e não conseguir sequer perceber o que me atraíra nele da primeira vez e, quanto a este, não queria que se quebrasse o encanto. Porém, assim que abri a velhinha edição e li aquela frase «Muito cedo na minha vida foi tarde demais», percebi que o feitiço era para sempre e que não corria, afinal, qualquer risco. Reli-o num virote e fiquei outra vez com pena quando acabou. Tenho a certeza de que todos temos paixões assim.

 

 

27
Set12

Edição com editor

Maria do Rosário Pedreira

Há já por todo o mundo muitos autores que se autopublicam. Conhecendo as manhas, divulgam na Internet os seus textos e usam a Amazon ou outras livrarias virtuais para comercializarem as versões digitais dos seus livros. Li, porém, recentemente um interessante testemunho de um autor, Michael Marshall, que, um pouco triste por ter visto desaparecer dos escaparates as suas colectâneas de contos com alguns anos, resolveu organizar-se e vendê-las ele próprio pela Internet. Não foi completamente mal sucedido, mas encontrou alguns entraves nas áreas do marketing, do design, da promoção... E começou a reflectir sobre que outros problemas surgiriam se, na edição em papel, não tivesse contado com a ajuda de profissionais, que lhe deram preciosas segundas opiniões e o ajudaram a fazer melhor do que fazia sem eles. Confessa: «Uma das coisas mais irritantes sobre os conselhos é que muitas vezes… são completamente acertados.» Para ler no link abaixo. Haja quem defenda o editor numa época em que tanta gente acha que ele é descartável.

 

http://www.futurebook.net/content/why-writers-will-always-need-publishers

26
Set12

À espera de uma carta

Maria do Rosário Pedreira

O grande Juan Marsé sabe como ninguém compor personagens delirantes e cheias de humanidade (capazes também, portanto, de muitas maldades). E, em Caligrafia dos Sonhos, uma delas guarda um pouco do próprio autor que, segundo reza a biografia, foi abandonado à nascença e, como Ringo, o protagonista desta história, cresceu com uma família que não era a biológica. Centrado em Barcelona no período pós-Segunda Guerra Mundial, este romance fala de um rapaz pobre que queria ser pianista, mas a quem o destino prega uma valente partida – o que não chega, mesmo assim, para o domar na sua rebeldia nem na sua atitude para com a fabulosa senhora Mir (que espera uma carta demasiado importante e não pára de perguntar por ela) ou a filha Violeta (por quem está apaixonado, mas que trata como se ela lhe fosse indiferente). O contrabando, a actividade política clandestina, as conversas no bar Rosales, que é o lugar onde tudo se sabe, o comportamento dos adolescentes e a descrição das fricções e massagens da senhora Mir (uma espécie de curandeira sentimentalona e dada à chacota) são tudo matéria irresistível numa narrativa que não tem um verbo a mais e que acaba da forma mais surpreendente que é possível imaginar (com um fim depois de outro fim). Se a carta chega ou não à destinatária, é preciso ler para descobrir…

24
Set12

Lutos em vida

Maria do Rosário Pedreira

Digamos que A Caixa Negra, de Amos Oz, não será exactamente o livro mais indicado para as férias – se nas férias devemos ler coisas diferentes das que lemos o resto do ano, claro, de preferência menos deprimentes (mas as deprimentes, bem sei, às vezes são as melhores); é, no entanto, um livro que, a partir de cartas e outros materiais escritos (notas para um ensaio, telegramas, etc.), faz uma radiografia à relação de um casal divorciado (Ilana e Alec) e, por extensão, também ao conflito israelo-palestiniano. Notável na forma como nos revela no decurso da história quem são, efectivamente, as personagens (por exemplo, o bonzinho actual marido de Ilana, que é, afinal, um bom ladrão e um bom fanático) e no modo como um advogado judeu alemão tão depressa nos parece apenas um oportunista como o melhor amigo do seu cliente, este romance epistolar é também uma lição sobre o poder da argumentação, o luto impossível de certos relacionamentos, o medo e a coragem para seguir em frente. Mas é um livro triste e escuro (o último terço é belíssimo), tal como a caixa negra de um avião, que nos mostra o que estava podre e conduziu ao desastre.

21
Set12

Livro como objecto de arte

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, para variar, vou falar de uma exposição intitulada Tarefas Infinitas. Na verdade, porém, esta exposição entronca no tema central do blogue, uma vez que é uma exposição de livros. O seu subtema, por assim dizer, é «Quando a arte e o livro se ilimitam» e, tratando-se de uma mostra relativamente pequena, nem é preciso programar uma manhã ou tarde inteira para a ir ver. A fotografia que a anuncia nos jornais é uma estante muito curiosa de Fernanda Fragateiro, que acolhe um certo número de livros em cada prateleira. Nada de aparentemente muito original, pois todos nós, que gostamos de ler, temos estantes em casa e com muitos mais livros do que aquela. Mas, se visitar a exposição e puder ler de perto os títulos e autores nas lombadas que se alinham na estante, perceberá onde se aninha a arte naquela proposta (não vou contar para não perderem o prazer da descoberta). E, para além deste objecto artístico, haverá muitos outros para serem vistos, desde livros de iluminuras absolutamente magníficos até um livro de infinitos poemas da autoria de Raymond Queneau (de quem li o notável Exercícios de Estilo), que me lembrou um pouco aqueles livros infantis nos quais podemos juntar a cabeça de um elefante ao corpo de uma rã e às patas de uma girafa. Não espere nada de sobrenatural, mas vale a pena ir ver. Até 21 de Outubro no Museu Calouste Gulbenkian.

20
Set12

Brasil em Portugal

Maria do Rosário Pedreira

Acaba de começar o Ano do Brasil em Portugal (e o Ano de Portugal no Brasil), que incluirá um diálogo permanente entre os dois países em todas as áreas – e a literatura é uma delas. Além de se prever a edição no Brasil de vários livros de autores portugueses, alguns ainda jovens, que serão apresentados aos leitores do lado de lá do mar, estão previstas várias acções, entre as quais, já a partir de amanhã, uma feira do livro no Rossio, que estará aberta por três dias (trata-se de um evento promovido pela LeYa). Na praça lisboeta, além da venda de livros, decorrerão todos os dias mesas-redondas que reunirão escritores brasileiros e portugueses para debaterem temas como A Minha Pátria É a Língua Portuguesa, Os Desafios da Nova Literatura de Língua Portuguesa, História e Estórias de Portugal e Brasil (sobre o romance histórico) e ainda outros temas aliciantes. No domingo 23, pelas 18h30, estarei a moderar a mesa dos autores mais jovens (Amílcar Bettega, João Paulo Cuenca, Paulo Lins, João Ricardo Pedro e João Tordo). Espero por si!

19
Set12

Fado para pequeninos

Maria do Rosário Pedreira

No próximo fim-de-semana estará disponível nas livrarias um livro que escrevi para os leitores mais novos, ilustrado por esse superior artista que é João Fazenda. Chama-se A Minha Primeira Amália e foi a minha resposta a um convite para apresentar a nossa maior fadista de sempre a quem nasceu já depois da sua morte. Para dizer a verdade, eu – que ouço fado desde pequena e até me atrevo a escrever letras para alguns fadistas – também não conhecia suficientemente bem a vida desta grande senhora que levou o fado ao mundo, foi capaz de nele introduzir mudanças marcantes e contribuiu decisivamente para que, depois da sua passagem pela vida, ele fosse considerado Património Imaterial da Humanidade. Tive, por isso, de ler biografias e muitas outras coisas e, com cuidado, seleccionar os factos que se poderiam revelar atraentes e informativos para as crianças. Não sei se fiz um bom trabalho, embora tenha dado o meu melhor. João Fazenda foi, no entanto, o génio que gostaria de ter ao meu lado nesta aventura, ilustrando brilhantemente o texto. Se tem miúdos em casa, já lhes pode dizer quem foi Amália.

 

 

18
Set12

Dramalhão

Maria do Rosário Pedreira

Há de certeza boas razões para lermos alguns livros em determinada idade, e não noutra. E isto é válido para aqueles que só compreendemos inteiramente na maturidade, como o é para os que, depois de lida tanta coisa, acabam por nos parecer de alguma forma datados, pueris ou exacerbados demais para o nosso gosto adulto. Porém, não queria sair deste mundo sem ler O Monte dos Vendavais (sei lá eu bem agora porque não o li em adolescente), de Emily Brontë, e decidi fazê-lo nas últimas férias com a sensação de que os clássicos são leituras seguras e nunca nos desapontam. Mas, oh, o dramalhão de faca e alguidar que me esperava estava bastante longe dos meus planos estivais… Amores arrebatados e castigadores, vinganças que incluem violência verbal e física constante, humilhações de toda a espécie (sobretudo por parte de quem já foi humilhado), mortes camilianas ou semelhantes, enfim, quase conseguimos visualizar as cenas no palco de um teatro e ouvir os pontos de exclamação no fim das falas, de tal forma tudo está carregado de drama pungente. Confesso que, ao contrário do que Clara Ferreira Alves vaticinava um dia destes no Expresso, não me apaixonei por Heathcliff, o mau da fita, embora me tenha interessado esta abordagem da luta de classes, escrita no princípio do século XIX por uma mulher educada com mão de ferro e até por isso corajosíssima. Mas preferia tê-lo lido aos quinze anos, confesso, pois a verdade é que não me encheu as medidas…

17
Set12

Reunião

Maria do Rosário Pedreira

Agora, já se pode dizer: a minha Poesia Reunida está pronta e à venda desde sexta-feira (o que permite, de resto, um post egocêntrico e algo preguiçoso). Agradeço-a antes de mais à editora Lúcia Pinho e Melo, da Quetzal, que acolheu o projecto com entusiasmo e profissionalismo, mas agradeço-a também a todos os que, nestes últimos anos, me têm escrito e abordado, perguntando onde podem encontrar os meus livros (se calhar, se não fossem estes últimos, não me tinha mexido). O livro está lindo (é, pelo menos, a minha opinião) e inclui um prefácio de Pedro Mexia, os três livros esgotados e um livro novo que dá pelo nome de «A Ideia do Fim». Aqui fica então dada a notícia a todos os interessados (que me desculpem os que não gostam de poesia). A sessão de lançamento, para a qual convidarei oportunamente os leitores deste blogue, será no dia 26, às 18h30, na Ler Devagar da LX Factory.

 

 

Pág. 1/2