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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Set12

E vão três

Maria do Rosário Pedreira

Pedro Garcia Rosado é dos poucos autores portugueses de thrillers e, além de alguns livros independentes, começou há três anos uma série intitulada «Não Matarás», de que acaba de sair o terceiro título: Triângulo. Retomando as investigações do inspector da Judiciária Joel Franco sobre uma misteriosa morte a que assistiu na infância e nunca foi resolvida, vai precisar de ir a três sítios e falar com três pessoas, até porque um triângulo é composto de três lados (embora nem sempre tão perigosos). As fotografias e os documentos levá-lo-ão por caminhos insondáveis, e desta feita a coisa vai ser violenta e mexer com a memória e o futuro do herói, embora os cães da Serra lhe vão dar uma boa ajuda. A procura da verdade e a missão de castigar os culpados hão-de trazer-lhe, porém, ossos bem duros de roer e mortes de que não será fácil recuperar. Um belo livro para amantes do género.

 

 

13
Set12

Mouzinho e Gungunhana

Maria do Rosário Pedreira

Nos finais do século XIX, o oficial de cavalaria Joaquim Mouzinho de Albuquerque interna-se, ao serviço do rei D. Carlos, no coração de África com o objectivo de subjugar as tribos à administração colonial portuguesa; para isso, porém, queima aldeias inteiras, mata os insubmissos e, desobedecendo a ordens superiores, captura com espectacularidade o detentor de um império vastíssimo, Gungunhana, que traz para Portugal como troféu e acaba exilado nos Açores até ao fim dos seus dias, onde, recolhido na floresta do Monte Brasil, sabe do suicídio do militar (ao que parece, apaixonado loucamente pela rainha D. Amélia). Em O Rei de Monte Brasil, Ana Cristina Silva – autora de romance psicológico – alterna as vozes destes dois inimigos para nos apresentar versões distintas do mesmo conflito e fazer uma reflexão sobre a decadência e a glória perdida das grandes figuras. Uma boa forma de conhecer a nossa História.

 

 

12
Set12

Nobel em Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

Não é todos os dias que um Prémio Nobel da Literatura nos visita e, como tal, é missão de quem gosta de livros publicitar a iniciativa. Tanto mais se, como é o meu caso, sou admiradora da autora nobelizada e gostaria que ela tivesse mais leitores em Portugal. Estou a falar de Herta Müller, de quem li os primeiro dois livros que foram traduzidos no nosso país – Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo (o meu preferido dos dois) e Hoje Preferia não Me Ter Encontrado – e que vem ao Goethe Institut de Lisboa amanhã às 18h30 falar do recém-lançado em Portugal Já então a Raposa Era o Caçador, que conto ler em breve, prometendo desde já um post a propósito. Se já é um admirador da obra, ou simplesmente quer conhecer a autora, não perca a apresentação. Eu tive a felicidade de a ouvir no ano passado na Feira de Guadalajara, no México, na mesma mesa de Mário Vargas Llosa, e achei que ela fez melhor figura do que ele. É nestas alturas, aliás, que tenho pena de ter esquecido o alemão que aprendi. A tradução simultânea, de qualquer modo, está prometida.

 

Em tempo: Fui informada agora mesmo por um leitor atento que o primeiro livro de Herta Müller publicado em Portugal foi A Terra das Ameixas Verdes, pela Difel. Obrigada ao Bruno Amaral. Peço desculpa pelo lapso.

 

Em tempo de novo: o escritor Sandro William Junqueira, apreciador da autora, diz-me via Facebook que crê que o primeiro livro de Müller publicado em Portugal é O Homem É Um Grande Faisão sobre a Terra, da Cotovia (1993). Agradeço de novo e de novo peço desculpa.

 

 

 

11
Set12

As três Índias

Maria do Rosário Pedreira

Na sexta-feira falei aqui de um belo livro de viagens sobre a Índia – mas também há ficção passada neste país misterioso. O mais recente romance de Miguel Real, lançado há poucos dias no mercado, chama-se justamente O Feitiço da Índia e conta a história de três homens que se deixaram encantar não só por esse país, mas pelas suas mulheres irresistíveis. Um deles foi com o Gama e as primeiras naus e por lá ficou. O segundo deixou a família em Lisboa, partiu para Goa para fazer dinheiro e apaixonou-se pela filha de um brâmane. E o terceiro é o seu filho, que parte à procura do progenitor desaparecido e acaba enredado na mesma teia. Retrato fascinante de Goa e da Costa do Malabar em três épocas marcantes, esta é uma obra bela e cruel, ousada e sensual.

 

 

10
Set12

Entrevistas

Maria do Rosário Pedreira

No fim-de-semana tive de ir e vir ao Porto, o que faz perder, como calculam, bastante tempo. Tinham-me convidado para estar sábado logo de manhã no programa Bom Dia, Portugal, da RTP 1, que é gravado nos estúdios do Monte da Virgem e, por isso, tive de ir na véspera, até porque, para além de uma entrevista sobre a minha carreira e os meus livros, eu teria de comentar a actualidade nacional e internacional e só teria acesso aos temas da revista de imprensa quando chegasse ao hotel (convinha preparar-me, evidentemente). Como fiquei com muito menos tempo para o blogue, deixo-vos aqui o resultado da entrevista, na qual falei de livros e edição, disse o que pensava das medidas de Passos Coelho e de outras matérias e ainda consegui, de caminho, «mandar Relvas estudar». Amanhã, juro, haverá um post como deve ser.

 

 

07
Set12

A Índia revisitada

Maria do Rosário Pedreira

O Centro Nacional de Cultura organiza uma viagem anual a um país ou região por onde os Portugueses andaram, deixando a sua marca. Visita-se o património com guias que o conhecem bem e ainda se tem a sorte de ter como companhia um escritor e um artista plástico que, posteriormente, produzem um texto e imagem para um livro. Publiquei há uns anos o que resultou de uma «expedição» ao que ficou das Missões na América Latina, cujo autor foi Miguel Real, e acabo de ler O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria, com desenhos de Bárbara Assis Pacheco, que configura uma viagem à Índia, mormente a Goa e a outras paragens dos nossos antepassados. É, de resto, do cruzamento do texto do autor e dos de muitos outros autores (Camões incluído) que se faz a beleza e a intensidade deste livro. Ele não só relata os aspectos mais assinaláveis de uma visita (ou revisita) pessoal, mas olha-os com o desencanto de uma inescapável comparação com a Índia da época dos Gamas e dos Cabrais, dos Albuquerques e dos Franciscos Xavier. E não lhe escapa um toque de ficção, um fantasma que interpela o narrador e partilha com ele relatos e vivências, lembrando-nos, aliás, o grande ficcionista que é Almeida Faria. Os desenhos são também belíssimos.

06
Set12

Desemprego literário

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, pode parecer que não ouço (leio) o que dizem os leitores destas Horas Extraordinárias, mas a verdade é que foi por causa de um deles que levei para férias um livro cuja leitura se encontrava havia muito em stand-by Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares. Trata-se, antes de mais, de um objecto artístico singular, muito cuidado, no qual não importa apenas o texto, mas também o conjunto de fotografias de manequins que representam os protagonistas das curtas ficções (com nomes de A a M – Matteo é o último), quase todos do sexo masculino, e bem assim uma tabela periódica de cidades, e não de elementos, embora a de Mendeleev também apareça no livro, na forma de uma tatuagem em Braille nas costas de um prostituto que é amante de um cego. Mas este não é um livro de contos no sentido tradicional, uma vez que, a seguir à história de Matteo (que é, de certa forma, a mais desenvolvida), temos um curiosíssimo posfácio que é a exegese do que acabámos de ler, feita pelo autor como se por alguém que não ele. E a verdade é que esse «ensaio» nos leva de novo às narrativas, num movimento mais ou menos circular – como é o dos textos, pois cada um deles liga ao seguinte através de um nome novo (o do protagonista da história que se segue) e, curiosamente, o último nome que aparece (e cuja história nunca saberemos) é o de alguém que assistiu à morte do protagonista da primeira história. Livro sobre a ordem e o caos, sobre o indivíduo e o colectivo, sobre o império da racionalidade sobre a emoção (tudo aqui é bastante frio), Matteo Perdeu o Emprego é uma obra que nos deixa permanentemente a pensar.

05
Set12

Sandokan & Bakunine

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã faremos o lançamento público de um livro no qual faço muita fé e que espero agrade aos que gostam de boa literatura. É a história de um escritor a quem roubaram um computador portátil e cujo romance incompleto aparece na Internet, mas é também a história contada nesse romance: a das férias de Artur – um adolescente asmático e apaixonado –, marcadas pelo desaparecimento misterioso de uma rapariga. E é enfim a história do explorador irlandês B. A. Barrow, mordido por uma mariposa-vampiro na Papua-Nova Guiné, a partir dos seus próprios diários. (Mas é muito mais, que não posso contar aqui.) Com uma estrutura intricada a lembrar filmes como Magnólia ou Mulholland Drive, Sandokan & Bakunine pode ser lido e relido sem se esgotar, oferecendo sempre novas e surpreendentes perspectivas. O autor, que vive em Itália, estará connosco amanhã. Apareça.

 

04
Set12

Jesus no Alentejo

Maria do Rosário Pedreira

Comecei as minhas férias com dias ventosos e cinzentos em Viana do Castelo – valeram-me as paisagens e, como sempre, a leitura. Mergulhei, pois, na cerveja, perdão, em Jesus Cristo Bebia Cerveja, o último romance de Afonso Cruz, cujo cenário é o Alentejo das raparigas pobres, dos pastores e dos velhos sozinhos, mas também uma região imaginária onde uma milionária inglesa compra uma aldeia inteira, que povoa depois com estranhas criaturas, entre as quais um professor-filósofo-cientista que mancha muros com versos arcaicos e se apaixona por Rosa, a menina protagonista que gosta de livros de cowboys e crescerá de forma bastante enviesada ao longo das páginas (e não acabará bem). Afonso Cruz é um escritor culto (dá gosto ver tudo o que sabe e o humor com que o revela) e por isso, embora possam parecer um pouco estranhos nas bocas de algumas personagens, os seus diálogos estão cheios de referências e ideias interessantes, como, aliás, a tese de que Jesus bebia cerveja, e não vinho (o da Última Ceia). A intriga que a contracapa anuncia (a recriação da Terra Santa em pleno Alentejo para satisfazer o último desejo da avó moribunda de Rosa) é que só começa já o livro vai a meio, tendo-me parecido o seu desfecho um pouco previsível quando nada mais o é no romance. Não nego que prefiro o Afonso Cruz da Enciclopédia da Estória Universal (que tem uma dose fascinante da herança de Borges), mas aconselho este delírio ficcional aos que gostam de personagens bem desenhadas, enredos inventivos, escritores com coluna vertebral e, porque não?, uma cervejinha gelada, mesmo em dias que parecem de Inverno.

03
Set12

Está aí alguém?

Maria do Rosário Pedreira

Depois de um mês inteiro de silêncio, é caso para perguntar se os leitores deste blogue não terão decidido mudar-se para outra casa… Por isso, hoje isto é uma espécie de chamada, embora sirva também para cumprir uma promessa feita há tempos de cada um (eu incluída) indicar no primeiro dia útil do mês o que anda a ler. Pois o livro que tenho agora em mãos é Adoecer, de Hélia Correia, mas já tive de o interromper duas vezes por causa do trabalho, razão pela qual só falarei mais detalhadamente sobre ele quando conseguir chegar ao fim. Hoje é só mesmo para levantar o dedo e dizer que as férias foram boas e vi, felizmente, muita gente a ler – mães e tudo, que são as que têm sempre os olhos nos miúdos e, por isso, quase nunca podem estender-se descansadas com o seu livrinho; claro que a maioria se ocupava com o best-seller pretensamente pornográfico As Cinquenta Sombras de Gray em várias línguas, mas também havia quem se dedicasse a biografias, ensaios e romances mais suculentos. Voltar ao trabalho e às leituras obrigatórias é que foi difícil, mas hei-de sobreviver. Se estiverem aí desse lado, vai ser, garanto, muito mais fácil. Obrigada por não se terem esquecido deste blogue.

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