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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Out12

Coisas do coração

Maria do Rosário Pedreira

A palavra de ordem deste governo é poupar, sobretudo nos bolsos dos outros... Tenho a certeza de que existem muitas fundações que se aproveitaram das regalias e pouco fizeram de relevante em prol do público durante os últimos anos; mas é escandaloso que se sugira a extinção de outras e se acabe com os apoios concedidos a organismos que contribuem decisivamente para o desenvolvimento cultural dos Portugueses. Fiquei zangada com a notícia, porque ainda temos demasiados analfabetos em Portugal para podermos prescindir de uma educação fora da escola (escola que também estará a poupar em tudo e, por isso, preparará cada vez pior os nossos jovens). Os exemplos são muitos, mas o meu coração bateu quando li, entre os nomes alinhados, o da Fundação Ciência e Desenvolvimento (FCD) – que gere, por exemplo, o Teatro do Campo Alegre, no Porto, onde decorrem todos os meses as Quintas de Leitura, um fenómeno em termos de divulgação de poesia, cujos espectáculos estão sempre a abarrotar de gente que paga voluntariamente o seu bilhete. Daqui do blogue mando um abraço solidário a João Gesta e a toda a sua equipa e desejo que nada de mal lhes aconteça. Tenho a certeza de que as Quintas se pagam a si próprias e seria uma tragédia que a proposta extinção da FCD obrigasse ao seu fim. Poderia citar outros casos, porque são muitos, mas este acertou-me em cheio no coração.

02
Out12

O Fugitivo

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se alguém se lembra de uma série de TV que fez bastante sucesso na minha adolescência, intitulada O Fugitivo, que contava a história de um médico injustamente acusado de ter matado a própria mulher que era obrigado a fugir. Pois bem, este livro que hoje vos trago aproxima-se dessa história, uma vez que o seu herói teve de andar fugido nove anos sem ter cometido qualquer crime senão o de ter escrito um romance – Os Versículos Satânicos – que a fatwa considerou anti-islâmico. Salman Rushdie soube por telefone que fora condenado à morte pelo aiatola Khomeini em 1989 no dia de S. Valentim (uma ironia) e foi obrigado a mudar de nome, de casa, de hábitos, a viver rodeado de polícias, a entrar na clandestinidade, a reconquistar a liberdade junto de governos, serviços de informação e jornalistas. É isso, de resto, que o contemplado com o Best of the Booker por Os Filhos da Meia-Noite nos conta em Joseph Anton - Uma memória, um relato franco e desapiedado da sua vida nesse tempo (o Joseph foi roubado a Conrad e o Anton a Tchékhov – dois autores que admirava – mas havia outras hipóteses para a sua falsa identidade, como Vladimir Joyce ou Marcel Beckett). O volume é longo e pesa (são mais de 700 páginas), mas não é preciso ler tudo de uma vez. Num momento em que a publicação de um cartoon sobre Maomé ou a divulgação de um filme doméstico grosseiro sobre o Profeta andam nas bocas do mundo e originam a perda de vidas humanas, este testemunho lembra que as hostilidades estão longe de desaparecer.

 

01
Out12

A ortografia

Maria do Rosário Pedreira

Tenho uma grande admiração pelos editores de livros escolares. E, se posso dizer que sou especialmente cuidadosa com os textos dos meus autores em termos de ortografia, sei que os meus colegas do escolar têm de ser de um rigor absoluto. Se num livro meu passa uma gralha chata, talvez o leitor perceba e me desculpe; se num livro escolar aparece um erro de ortografia resultante de uma distracção, ninguém desculpa e cai o Carmo e a Trindade. Imagino o stress com que os editores escolares trabalham todo o ano, sabendo que vão ter os olhos de todos os alunos, pais e professores em cima de si… E, porém, às vezes pessoas que deviam ser especialmente atentas falham redondamente nestas coisas. Por razões que não interessa estar aqui a desenvolver, pus recentemente os olhos num site de Explicações. Desenvolvido provavelmente para ocupar professores que ficaram desempregados e ajudar alunos cábulas ou com dificuldades, esta página promete resolver problemas e, ainda por cima, a preços especiais. Mas, infelizmente, é descuidada: «Todos os dias disponibiliza-mos vales de desconto.» Ups! Talvez tenha sido um erro de formatação (acontece muito, na transformação de um PDF em Word, os hífenes que estavam no fim da linha ficarem no meio das palavras), mas, com este susto, eu já não queria um filho meu a ter explicações de Português com estes senhores. Um bocadinho do stress que os meus colegas têm todo o ano não lhes teria feito mal…

 

P.S. Já tinha escrito este post quando me ocorreu que hoje é dia de dizermos o que andamos a ler. Pois eu vou começar daqui a nada Estação Central, de José Tolentino Mendonça, e escreverei a propósito deste livro daqui a uns dias.

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