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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Dez12

Wanted, alive

Maria do Rosário Pedreira

Três dias antes de a extraordinária Isabel ter aqui expressado por escrito a sua preocupação com a falta de comparência de Cláudia da Silva Tomazi, que foi durante um largo período leitora e comentadora assídua deste blogue, escrevi um post (o que foi publicado no dia 1 de Dezembro) que tinha um post scriptum, entretanto apagado. Coincidência, telepatia ou outra coisa qualquer, a verdade é que esse P.S. era exactamente uma chamada de atenção para o vazio deixado pela brasileira, intempestivamente desaparecida. Não foi, é óbvio, a única que preferiu ir «pregar para outra freguesia»; lembro com facilidade outros nomes que foram muito constantes numa certa altura e depois quiçá desistiram de perder o seu tempo com as minhas bagatelas... Alguns até compreendo porquê, uma vez que chegaram ao blogue no mesmo mês em que me mandaram um livro que haviam escrito e o deixaram um ou dois dias depois de eu o ter recusado. Outros, também desconfio porquê, mesmo que já não os compreenda tão bem (mas é desconfiança que agora não vale a pena partilhar). Com a Cláudia, porém, estou completamente segura de que, se houve pedra no seu sapato, não fui eu que lá a pus – o mais provável é que os meus assuntos tenham deixado pura e simplesmente de lhe interessar. Tenho pena, porque um blogue nunca é feito apenas por quem deixa o post todas as manhãs; mas saber que ela está viva e de boa saúde comentando noutros locais da blogosfera já me aliviou. Pode ser que regresse, sobretudo se chegar a saber que sentimos tanto a sua falta… Em todo o caso, este post serve também para agradecer aos que o frequentam, comentem ou não, e sobretudo aos que se afeiçoam aos outros frequentadores, prova de que são de carne e osso e não olham apenas para o seu umbigo. Obrigada!

07
Dez12

Belvedere

Maria do Rosário Pedreira

Delícia suprema é ler um escritor que, muito além de saber inventar uma boa intriga e de lhe dar o mais surpreendente desfecho, conhece e usa palavras estranhas e deliciosas, que precisam mesmo de que alguém as resgate do desuso para não fugirem dos dicionários nos próximos tempos (nestes em que vivemos, há uma pobreza nos discursos e nos escritos em geral que é de bradar aos céus). Estou a saborear Mário de Carvalho em duas novelas – O Varandim e Ocaso em Carvangel –, ambas no mesmo volume recentemente publicado (um 2 em 1 muito apropriado à época de poupança e falta de desafogo financeiro que atravessamos). E que felicidade é poder entrar assim, pela mão de um escritor que muito sabe e, ainda por cima, gosta de partilhar, na casa do senhor Zoltan, com dois filhos impossíveis e um sogro moribundo que ocupa demasiado espaço (até porque grunhe bastante), na qual um varandim quase esquecido (para o qual dão janelas que se encontravam entaipadas) se torna de um momento para o outro mirador privilegiado de fidalgos e matronas, decididos a não perder pitada de um castigo que o grão-duque, embora levemente contrariado, acabou por concordar em infligir a meia dúzia de anarquistas. Pobre homem sensato e discreto este senhor Zoltan, que é contra a pena de morte e o espectáculo do sadismo e com quem a sorte vai ser – pois claro – injusta, como seria de esperar da ironia de Mário de Carvalho, mestre na dita e noutros equipamentos literários para gáudio dos seus leitores. Agora, lambo os beiços, saciada, e guardo para amanhã Ocaso em Carvangel, sobre um jovem notário numa terra onde todos aguardam um navio (sei lá se virá), porque duas novelas tão boas num só dia podem habituar-me mal, e quem já leu o volume inteiro diz que esta segunda é ainda melhor. Em tempos de escassez, é bom conservarmos pelo menos um kit de sobrevivência para o dia seguinte.

06
Dez12

De luto

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada chegou o anúncio oficial: o programa Câmara Clara, versão diária e versão semanal, tinha os dias contados – e esses dias acabam no fim do mês. Já havia zunzuns sobre o assunto, é verdade, sobretudo desde que a venda de um dos canais da RTP deu parangonas nos jornais e o ministro que comprou o curso na Farinha Amparo declarou que a RTP2 era um canal desinteressante para os investidores (para os quais, certamente, os números contam mais do que as letras). Antes disso, a TVI tinha acabado com os seus dois programas culturais, a Livraria Ideal e o Cartaz das Artes; e, assim, em menos de três meses, ficámos privados de qualquer espaço televisivo, público ou privado, que nos apresente livros, exposições, concertos e outras manifestações interessantes e, simultaneamente, nos traga uma vez por semana a voz e as ideias de escritores e artistas sempre prontos a ilustrar-nos e a acrescentar algo de útil à nossa bagagem. Um buraco negro, diria eu, que aceito cada vez pior que uma nação cuja população escolarizada cresceu exponencialmente desde que eu saí do liceu passe agora a cultivar-se televisivamente apenas à custa de concursos tolos com perguntas de escolha múltipla. Mas, bem vistas as coisas, vinda de quem vem, outra coisa não seria de esperar: pois se o primeiro-ministro sugere que emigrem os jovens licenciados (e, com a situação crítica que nos espera, é natural que volte a aumentar o abandono escolar, pois muitos terão de ajudar os pais desempregados), para que vão servir de facto programas culturais daqui a uns tempos? Estamos, pois, de luto. De luto carregado. E não o vamos poder aliviar tão cedo.

05
Dez12

O futuro é sombrio

Maria do Rosário Pedreira

Andamos tristes lá em casa, o Manel um pouco menos do que eu, é certo, porque gosta mais da vida e, além disso, já era crescidinho quando o doutor Salazar caiu da cadeira e, como tal, o retrato que tem à frente é-lhe, de algum modo, familiar. Mesmo assim, às vezes damos connosco, à noite, a olhar um para o outro bastante macambúzios: à nossa porta (maneira de falar), há cada vez mais homens com fome – e não da que se mata com um prato de comida, que aí ainda poderíamos ajudar (embora a caridade não seja solução), mas da que só se sacia com um trabalho que não existe, independentemente de os braços terem força para tudo e vontade de fazer. E nós, no meio dessa tristeza, publicando livros. Pobres livros... Depois da ilusão do Natal (e já será para poucos, bem sei), quem vai realmente poder comprar livros, goste ou não de ler, quando as mangas dos casacos dos filhos ficarem curtas e os sapatos apertados, apesar dos pés pequenos? Quem cometerá a ousadia de ler um livro novo quando Janeiro se eriçar de frio e a conta da electricidade começar aos gritos de alarme? Quantos dos nossos amigos e conhecidos, muitos deles grandes leitores, gente dos jornais e das televisões, individual e colectivamente despedidos, começarão o ano de 2013 (o 13 do azar) desempregados, ainda para mais com a consciência de que, na sua idade, pode ser (des)ocupação para muitos anos, enquanto o subsídio de desemprego – esse, sim – tem os anos contados? E que será então dos tradutores e revisores, das pessoas que trabalham nas gráficas, nas livrarias e nas editoras? Que será de mim e do Manel, por exemplo, se aquilo em que trabalhámos toda a vida, além de não pôr comida no prato de ninguém, fizer de nós mais dois com fome (maneira de falar), iguais a esses que todos os dias se vão acrescentando à nossa porta? A preto e branco vejo o retrato do futuro próximo. O Manel, que já viveu a sépia, entristece-se menos, aconselha-me a preocupar-me apenas quando (e se) esta ceifeira moderna bater à nossa porta. Sim, ainda temos casa e porta, é um facto. Muitos já as perderam.

04
Dez12

O feitiço da Índia

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei recentemente um romance de Miguel Real com o título deste post, mas não é dele que pretendo falar aqui hoje. Há uns anos, quando estava na QuidNovi, comprámos os direitos de um romance (na verdade, tratava-se de um relato autobiográfico, e não exactamente de uma ficção, mas era «vendido» como romance) cujos direitos de adaptação ao cinema tinham sido adquiridos por uma grande produtora que prometia Johnny Depp no papel do protagonista (mas, que eu saiba, o projecto não foi avante). Ressuscitado agora por qualquer razão que desconheço, Shantaram, de Gregory David Roberts, voltou às livrarias com bastante destaque e tenho-o visto nas mãos de muitos leitores em esplanadas e salas de espera. Fazendo jus ao título de Miguel Real, este é o livro que define, efectivamente, o feitiço que a Índia exerce nos estrangeiros. O autor, um australiano em fuga de uma prisão de alta segurança depois de condenado pelos crimes de tráfico de armas, posse de droga e assalto à mão armada, viaja com um passaporte falso para Bombaim onde, depois de um encontro com um guia turístico, o inesquecível Prabaker, e muitas outras personagens que contribuem para o tal encanto da Índia, se torna um homem completamente diferente – generoso, altruísta, merecedor do nome Shantaram, que significa «homem de paz». Mas não se pense que o livro é uma dessas obras melosas de autoconhecimento ou armada em exemplo moralista para os leitores. Nele, a Índia é retratada no seu melhor e no seu pior, e não faltam descrições dos bairros miseráveis e nauseabundos de Bombaim, das ruas imundas cheias de cães esfomeados que atacam de noite, das aldeias de um atraso indizível onde se morre de fome mas as vacas engordam. Um relato realista, pungente e, às vezes, hilariante faz deste livro um autêntico feitiço, pois, quando se começa a ler, já não se consegue largar.

03
Dez12

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Nos últimos tempos, por uma coincidência inexplicável, li três romances que falam de gémeos, da questão do duplo e do problema da identidade. Nesses romances, os gémeos eram tão depressa do mesmo óvulo como de óvulos diferentes e, num deles, até havia gémeos de ambos os tipos. Dois desses livros eram, curiosamente, de autores brasileiros – e é de um deles que hoje falarei, o que tem por título Dois Rios e vem assinado por Tatiana Salem Levy, uma escritora de quem li há uns anos o magnífico A Chave de Casa. Desta feita, temos uma obra partida ao meio: de um lado, fala-nos Joana, do outro Antonio, gémeos que viveram juntos uma história secreta que nos é contada veladamente, na qual o pai morreu de enfarte, lançando uma sombra de culpa nos irmãos, e a mãe, mais ainda desde que enviuvou, sofre de um distúrbio psíquico que obrigou Joana a ficar com ela depois da partida intempestiva da sua metade masculina. Em ambas as partes, porém, está a irresistível Marie-Ange, uma francesa que entorta a boca quando expele o fumo do cigarro e que tem um dilema cuja resolução recairá ou em Joana, ou em Antonio, ambos loucamente apaixonados por ela e capazes de mudar as respectivas vidas por esse amor. Cada metade do livro é, pois, um rio, o rio por onde Maria-Ange desaparecerá da vista dos amantes num barco de pesca, deixando-os insuportavelmente sozinhos com as suas memórias. Engenhoso e algo transgressor, Dois Rios constrói-se numa sequência de pequenas narrativas na primeira pessoa, ora cruas, ora poéticas, e foi um dos romances finalistas do prémio PT no Brasil.

 

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