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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Jan13

O miolo e a côdea

Maria do Rosário Pedreira

Há pouco tempo, descobri que os livros juvenis que mais sucesso faziam na LeYa eram, estranhamente, livros do meu tempo de miúda. A verdadeiramente prolixa Enid Blyton não fora, pelos vistos, ultrapassada pelos autores mais recentes, e a sua colecção As Gémeas continuava (e continua) imbatível. Achei curioso, porque já quase ninguém anda em colégios internos como as gémeas e o mais provável seria os leitores actuais não se identificarem com as suas histórias; mas, ao que parece, ainda são as partidas inocentes (como pôr aranhas na cama das colegas) a cativarem meninos e meninas, uma forma de poder fazer maldades sem ser mau (já chega de violência a sério nas escolas, com tanto bullying e cenas de pancadaria). Há também quem diga que o sucesso das Cinquenta Sombras não é, ao contrário do que eu pensava, a suposta pornografia, mas o facto de a história ser entre um trintão rico e uma rapariga pobre, receita que, pelos vistos, nunca se gasta e funciona sempre (e isso explica, até certo ponto, por que razão as obras do mesmo tipo publicadas no rasto da trilogia de E. L. James se vendem muito menos). Haverá então, por parte dos leitores de todas as idades, uma maior predilecção por um miolo antigo, familiar, confortável e desejável, sendo a côdea mais ou menos indiferente? Quereremos, no fundo, as coisas inocentes ou bonitinhas de sempre, e o resto é mero revestimento?

30
Jan13

Post mortem

Maria do Rosário Pedreira

Quando morre alguém conhecido, não raro nos dias e semanas seguintes os jornais e televisões dedicam páginas e horas de encómio à figura quando, frequentemente, se esqueceram dela enquanto estava viva. Muitos escritores esquecidos tornaram-se, pela morte, autores incontornáveis e determinantes na história da literatura dos seus países. Muitos escritores médios, se não medíocres, apareceram depois de mortos como figuras de proa no contexto da época e grandes visionários. Lembro-me, por exemplo, de um autor que os «confrades» consideravam bastante mediano (embora vendesse muitos livros) ser brindado, depois da morte, com cinco páginas de elogios num só jornal, para espanto de muita gente que sabia o que se pensava dele. Mas, nisto de post mortem, o contrário é também possível e, passado o período do luto, há quem retire prazer de bater no ceguinho, pôr a nu a sua vida e dizer que andámos todos enganados achando que esse homem ou essa mulher eram excepcionais. Recentemente, a «vítima» foi Steve Jobs que, enquanto foi vivo era praticamente só um génio da informática, mas depois de morto se transformou num personagem verdadeiramente disgusting, que tratava mal as namoradas e era até avesso a tomar banho. Enfim, lembro-me de a grande Agustina ter escrito um álbum sobre a sua vida e não ter incluído nele o marido. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu, muito simplesmente, que ele ainda estava vivo... Quem sabe sabe.

29
Jan13

Desfrutar do sofrimento alheio

Maria do Rosário Pedreira

Li há muito tempo (e quem me dera ter tomado nota desse texto a que um dia gostaria de voltar, mas perdi completamente as referências) que Freud teria dito (ou escrito, mas vai dar no mesmo) que, no tempo em que a ópera era um espectáculo popular, o povo não a perdia porque gostava de ver sofrer em palco. Não sei se o génio austríaco estava certo quanto à ópera, porque o povo deixou de a frequentar; mas a verdade é que os nossos telejornais cheios de coisas de fazer peninha e causar horror (com velhos, crianças e tudo isso que faz chorar e doer) não param de conquistar audiências (quanto mais horríveis, mais espectadores têm) – e o mesmo vale para os livros de testemunhos pungentes do tipo Queimada Viva, que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo desde que saiu e desencadeou, de resto, em Portugal, a publicação de muitos livros afins (todos eles com bastante sucesso). Não me admiraria nada que estivesse neste momento a discutir-se nas grandes agências literárias e editoras norte-americanas e inglesas a publicação da história trágica da indiana de 23 anos violada por seis crápulas num autocarro – e morta na sequência desse crime hediondo. E tenho a certeza de que seria best seller para figurar nos primeiros lugares dos Top de vendas em positivamente todos os países, independentemente do grau de repulsa de todos nós pelo sucedido. Teria então o mestre Sigmund razão ao dizer que as pessoas gostam de ver sofrer, mesmo que o palco se tenha transformado em página? É bem possível.

28
Jan13

Boa viagem

Maria do Rosário Pedreira

No sábado 19 de Janeiro, a Revista do Expresso trazia um relato de viagem de Nuno Camarneiro à Grécia que, além de me aguçar o orgulho de ser sua editora, era de uma sinceridade desarmante que me comoveu. Gosto muito de livros e guias de viagem (tenho uma prateleira cheia deles, alguns de lugares aonde nunca fui, apesar dos planos nesse sentido), mas, por vezes, os seus textos são meramente objectivos e informativos – e este de que falo era um texto literário muito belo e, ainda por cima, ao alcance de todos, o que, em literatura, nem sempre acontece. Mas hoje estamos, por acaso, muito bem servidos em Portugal nesta matéria. O jornalista Carlos Vaz Marques (cuja voz Lobo Antunes elogia e cuja inteligência e cultura devemos todos elogiar) dirige, na Tinta-da-China, uma colecção, a todos os títulos exemplar, que reúne, por um lado, essa estupenda aventura que é a viagem e, por outro, a escrita literária dos viajantes-autores. Infelizmente, não consegui ler ainda todos os volumes (o tempo é curto e a colecção avança a bom ritmo), mas há alguns que me fizeram descobrir autores tão dotados como verdadeiros romancistas. O meu volume preferido foi Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, de que penso ter falado aqui há muito tempo. Se por acaso não o leu ainda, está sempre a tempo de emendar a mão.

25
Jan13

Dupla alegria

Maria do Rosário Pedreira

É já neste fim-de-semana que a maioria das livrarias começarão a expor e vender o primeiro romance que lanço este ano. Para dizer a verdade, começo bem – não só porque o faço com um dos meus autores mais fiéis (publiquei toda a obra de João Tordo desde que se estreou), mas porque O Ano Sabático, assim se chama o livro, é – tenho a certeza – um dos melhores do escritor. E, por se tratar de uma história de gémeos, a alegria é, ainda por cima, dupla! Por um lado, teremos Hugo, um contrabaixista alcoolizado que abandona o Canadá para fugir às dívidas, regressando a uma pátria onde deixou a família e reside agora a esperança de se poder tornar alguém, antes que seja tarde de mais. Por outro, Luís, um pianista de sucesso que, depois de um encontro perturbador, trocará Lisboa por Montreal em busca de uma vida que não é a sua. Pelo meio, um tema musical que existe apenas na cabeça de ambos, nunca escrito na pauta, e bem assim um sonho de um que é concretizado no outro, uma rapariga que sara as feridas dos instrumentos musicais e conhece ambos, uma mãe implacável, uma irmã conciliadora, uma criança com muita graça. E grandes surpresas, página a página, multiplicadas por dois. Ou três. Identidade e Fraternidade. Não vai dar para não ler.

 

24
Jan13

A vida e a obra

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, tivemos a trabalhar connosco uma rapariga que estava a fazer o mestrado em Teoria da Literatura. Tendo-se posto a ler Borges, encontrava-se absolutamente fascinada com o génio argentino (como é, de resto, perfeitamente justificável). Porém, a sua admiração ficou bastante afectada quando lhe falámos da pessoa por detrás do escritor e das suas posições um tanto ou quanto discutíveis. Talvez não o devêssemos ter feito, porque, naquele caso, ferimos o deslumbramento genuíno pela literatura do mestre e, diga-se o que se disser, uma obra pode ser lida e apreciada independentemente da vida do seu autor. Vem isto a propósito do grande Céline – o escritor – que, ao que se sabe, também não era, enquanto gente, flor que se cheirasse. E, contudo, quão absurdamente admirável é a sua Viagem ao Fim da Noite, um grito de arte numa noite que não podia ser mais escura do que a da Primeira Guerra Mundial, na qual tudo é podre, e fede, e está cheio de vómitos, sangue e merda. Esqueçamo-nos da vida de Louis Ferdinand, o homem, e concentremo-nos em Bardamu, a personagem, um soldado borrado de medo, assistindo à destruição e pilhagem de aldeias, à morte de soldados e civis, à frieza das altas patentes militares numa guerra de chacina, metido depois na África colonizada, e na América da indústria automóvel, e atirado, no fim, para um subúrbio da pátria a trabalhar num manicómio. A narração visceral desta vida, em linguagem certamente revolucionária para a época (ainda hoje rasga o ouvido e incomoda), tem de ser lida sem se pensar nos actos de Céline, mesmo que ele tenha dado os mesmos passos do protagonista e saiba, por isso, do que está a falar. E, com Borges ou qualquer outro, idem! Leiam-se as obras ignorando as vidas.

23
Jan13

Letras e poemas

Maria do Rosário Pedreira

Quando em Setembro saiu a minha Poesia Reunida, muitos foram os que se espantaram por não ter incluído nesse volume as letras que tenho feito de há uns anos para cá, seja para fadistas – como Aldina Duarte ou Carlos do Carmo –, seja para intérpretes de outros géneros musicais – como António Zambujo ou mesmo a Naifa. Pois bem, aproveitando que hoje me vou ouvir cantar de novo pela Aldina na Culturgest (acompanhada ao piano pelo fantástico Júlio Resende), quero aqui frisar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa; que, no que respeita à poesia, ela – no meu caso – vem quando quer; e que as letras, pelo contrário, vêm quando quero eu. Se bem que estas últimas tenham algo que ver com o que eu escrevia na adolescência (quadras e sonetos com rima e métrica definidas), a verdade é que o espartilho da música me obriga a fazer delas uma história que possa ser entendida por todos enquanto o intérprete interpreta. Na poesia, a liberdade é maior, e o leitor pode ler muitas vezes o mesmo poema e voltar atrás quantas quiser, sem que isso prejudique a leitura e a compreensão (pode até beneficiá-las). Tenho também consciência de que uma letra malandra como Flagrante (que fiz a pensar na juventude e na personalidade de Zambujo) não tem a profundidade de um poema – quiçá porque este (no meu caso, de novo) venha sempre de um lugar misterioso que não domino, que está fora da minha alçada, que tem qualquer coisa de transcendente. Por isso já sabem: se me pedirem letras, eu faço. Se me pedirem poemas, não sei.

22
Jan13

Mudam-se os tempos

Maria do Rosário Pedreira

Dou comigo a pensar que, quando era mais nova, me entusiasmava com alguns livros a ponto de, como um verdadeiro cruzado, obrigar toda a gente que conhecia a lê-los. Hoje, não sei se pela idade, se pela quantidade de livros lidos, já me é difícil encontrar uma obra que justifique tal empenho. Mesmo autores que, no passado, me encheram as medidas parecem escrever actualmente obras menos profundas ou empáticas (senti isto, recentemente, com o último romance de McEwan, por exemplo, mas calculo que o problema seja meu, e não do livro). Em todo o caso, acredito que, para além do «envelhecimento», haja um certo número de obras que, no seu tempo, foram fulcrais, mas que, num contexto e época diferentes, já pouco dizem aos leitores. Falo disto porque, recentemente, desencantei da estante do Manel um clássico que queria muito ler (e dele falarei noutro dia), inserido numa colecção da Editorial O Século que prometia «As Maiores Obras do Nosso Tempo». Só que esse «Nosso Tempo» já não é este tempo que agora é o nosso, porque da lista de livros publicados e a publicar na colecção constavam apenas cinco títulos que hoje ninguém lê (para não dizer que quase ninguém sabe sequer que existem). Senão, vejamos: Vitória Quatro e Meia, A Glória de Don Ramiro ou A Solteira dizem-vos alguma coisa? Ou, se preferirem, Enrique Larreta ou Louis Bromfield são escritores que se encontram nas vossas estantes? Senti-me um bocado ignorante, devo confessar, e só me aliviou saber que não era a única a não conseguir identificar senão Thomas Hardy entre os autores da lista. Talvez daqui a uns anos ninguém se lembre dos livros que, entusiasmadíssima, li na juventude e obriguei toda a gente a ler. Há sempre demasiados livros condenados ao esquecimento.

21
Jan13

Estavas linda, Inês, posta em sossego

Maria do Rosário Pedreira

Sim, foi mais ou menos como no poema. Estava eu posta em sossego – se é que alguma vez consigo sossegar no meio desta crise e com o stress que carrego há anos – quando tocou o telefone. Devo desde já avisar que este post é muito egocêntrico e que, se não quiserem assistir à minha vaidade, podem parar já de o ler e regressar amanhã para algo mais interessante. Mas, como ia dizendo, tocou o telefone – e, por acaso, umas horas antes, uma alma misteriosa viera dizer-me que tinha dado nessa manhã o meu número a uma pessoa, que não podia dizer porquê, mas que era imperioso que eu atendesse as chamadas, ainda que não identificasse quem estivesse a ligar. Não percebi grande coisa, mas estava com muito trabalho e só voltei a lembrar-me do recado quando ouvi a campainha e nenhum nome apareceu a piscar no pequeno ecrã. Pois bem, a notícia era boa: o meu último livro de poesia ganhara o prémio literário da Fundação Inês de Castro – e por unanimidade!, o que dá alguma segurança. O júri, composto por nomes de peso – Fernando Guimarães, Frederico Lourenço, José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio e Pedro Mexia – parece ter engraçado com A Ideia do Fim e achado que a sua temática era suficientemente inesiana para merecer o galardão. Uma coisa boa, para variar, num ano triste como este – e a reedição da Poesia Reunida já está a caminho!

 

P.S. Desculpem-me aqueles que já me deram os parabéns, mas, assim que soube do prémio, escrevi o que vai acima e achei que não devia desperdiçar...

18
Jan13

2013

Maria do Rosário Pedreira

Uma colega editora passou-me um artigo muito interessante – e assustador – sobre os números de 2012 em Espanha em matéria de vendas de livros (julgo que do jornal ABC). Fiquei deprimida: não só aquilo que safou o mercado é de um nível confrangedor (nem vale a pena citar títulos, porque são os mesmos em todo o lado) como já nem os livros médios (Isabel Allende ou Antonio Gala, por exemplo, que eram best sellers assumidos) ultrapassam os 2500 exemplares em três ou quatro meses – e estamos a falar de um país com cerca de 40 milhões de habitantes... Esta razia, se ainda cá não chegou, deve colher-nos em 2013 e mandar-nos ao tapete – e, além dos naturais constrangimentos (melhor nem pensar nisso), a situação aborrece-me especialmente porque, desde que comecei a trabalhar na LeYa, não tive nenhum ano que fosse literariamente tão rico como o que se avizinha. Pois é, pela minha mão, passam neste momento as páginas de muitos romances extraordinários – alguns de mulheres, para quebrar a rotina, e já não era sem tempo! E não consigo deixar de pensar na injustiça que é conseguir juntar tanto livro bom e tanto talento num só ano e saber que esse ano vai ser, infelizmente para quase toda a gente, de contenção, quando não de penúria. Quero, por isso, perdendo completamente a vergonha (mas é por uma boa causa), pedir que se guardem (ou que guardem uns trocos) para algumas obras que porei à vossa disposição em 2013 – para começar, O Ano Sabático, de João Tordo, que será o meu primeiro lançamento deste ano. Aos poucos, falarei de cada uma das obras em pormenor – e juro não juntar muitas no mesmo mês para vos facilitar a vida. Fiquem atentos.

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