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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Mar13

Escola-Benetton

Maria do Rosário Pedreira

Quando escrevia livros juvenis (e quantas viagens ao estrangeiro fiz à conta deles, que tão bem se vendiam nesses tempos...), visitava regularmente escolas para conversar com os leitores de palmo e meio, umas vezes genuinamente interessados e preparados para esse encontro, outras vezes apenas barulhentos e irrequietos, nunca ouvindo as perguntas dos colegas e repetindo-as a cada dois minutos, levando-me a concluir que o professor queria era uma folga durante o tempo em que eu estivesse na escola e nada se dera ao trabalho de preparar com os alunos. Mas foi literalmente uma volta a Portugal e uma viagem em vários tempos, no decurso dos quais iam mudando sobretudo os nomes das crianças que pediam autógrafos no final das apresentações de Carla, Sandra, Igor e Ivan para Marias, Joanas, Pedros e Joões (como quando eu era pequena). Deixei de ir a escolas há bastante tempo, seja porque os meus livros passaram de moda e há outros mais interessantes para os miúdos de agora (desde que leiam, não me queixo), seja porque também disponho de menos tempo. Recentemente, porém, aceitei um convite para estar com duas turmas de alunos em Sesimbra (fui à hora do almoço e antes das cinco já estava de volta ao trabalho) e, ao olhar aquelas carinhas que tinha à frente, senti-me num anúncio da Benetton. Em primeiro lugar, porque havia bastantes crianças orientais (chinesas, por certo, mas também uma japonesa), o que dantes não acontecia. Depois, porque os loiros eram muito mais (e não do Norte de Portugal, mas do Norte da Europa: ucranianos, moldavos, russos). Por fim, porque filhos de africanos nascidos em Portugal também são já em número considerável e com vários matizes. Resultado: gostei. Sempre achei que nas turmas que frequentei em miúda éramos todos demasiado feios e parecidos, e assim sempre se quebra a monotonia!

27
Mar13

A Figueira dá figos

Maria do Rosário Pedreira

O mais recente vencedor do Prémio LeYa – Nuno Camarneiro –, de quem publiquei em 2011 um primeiro romance intitulado No Meu Peito não Cabem Pássaros, é um escritor nascido, como João de Barros, na Figueira da Foz. Quando pus pela primeira vez os olhos na sua biografia, pensei que seria o único escritor contemporâneo figueirense que conhecia, mas logo me desenganei. A verdade é que Afonso Cruz, um outro romancista (e não só) talentosíssimo, de cujos livros já aqui falei (e que venceu recentemente o Prémio da União Europeia para a Literatura com o livro A Boneca de Kokoschka), é igualmente oriundo daquela bela cidade. Há umas semanas, descobri que a escritora e tradutora Maria Manuel Viana (cujo último livro é O Verão de Todos os Silêncios) era, do mesmo modo, uma filha da Figueira da Foz. E bem assim Gonçalo Cadilhe, o escritor de viagens que começou por descrever nos jornais as suas andanças e hoje tem um público fidelíssimo para os seus vários títulos publicados. Esta Figueira dá figos, está visto. E não só na literatura: tanto João Mário Grilo como João César Monteiro são de lá…

26
Mar13

Compra-Venda

Maria do Rosário Pedreira

No mundo inteiro, como dizia o nosso querido Padre Vieira, os peixes grandes comeram os peixes pequenos. Falo, embora não pareça, de edição. Grandes casas editoriais compraram editoras interessantes mais pequenas e somaram-nas a outras, construindo verdadeiros impérios. Mas não só: às vezes a compra partiu de indústrias que nada tinham que ver com os livros – como em França, por exemplo, onde uma empresa originalmente ligada às águas, a Vivendi, se tornou proprietária de muitas editoras, entre as quais a Belfond, as Presses de la Renaissance, a Plon, a Larousse e a Nathan. Diz-se que, quando assim é, o que os novos proprietários desejam é engordar o porco para o vender mais à frente... O problema é que, para poderem recuperar o investimento, sacrificam muitos autores que não vendem assim tão bem e os substituem por sucessos importados, que vendem imenso no ano de lançamento mas uns anos depois já ninguém sabe o que são (quem se recordará daqui por cinco anos de Ronda Byrne e O Segredo?). Só que, para vender o porco gordo, não importa apenas a conta bancária, mas também o relevo dos autores que constam do catálogo – e, com esta dinâmica, o catálogo esvazia-se em três tempos. Fará então sentido deixar de publicar autores que vendem lentamente, mas pingam sempre, e substituí-los por sucessos-relâmpago, descaracterizando as chancelas e tornando os catálogos um imenso vazio? Francamente, acho que não.

25
Mar13

A escritora e o soldado

Maria do Rosário Pedreira

Falei-vos há tempos de que, neste ano, iria ter duas boas escritoras na minha lista (mulheres, pois!). O romance da primeira, Cristina Drios, acaba de sair e vale mesmo a pena ser lido. Fala-nos, em dois tempos distintos, de uma escritora cansada do seu casamento que toma a descoberta da fotografia de um avô desconhecido – e fardado – como pretexto para escrever um livro e se afastar da rotina; e da sua personagem, Mateus Mateus, um homem estranho e corpulento, aparentemente insensível, que fez parte do contingente português que combateu em França durante a Primeira Guerra Mundial. Mas, muita atenção, apesar de a História ser cenário, este não é decididamente um romance histórico. Porque o que aqui interessa não é o destino dos combatentes nem as circunstâncias da guerra, mas a densidade psicológica dos intervenientes na narrativa – o avô-soldado, a enfermeira que enviuvou antes de se casar, o médico alemão, o órfão que sabe truques de ilusionismo e faz aparecer ovos para os pudins, o militar albino que serve de cobaia a estranhas experiências freudianas e, obviamente, a própria escritora, que os faz caminhar numa história profundamente original, na qual também ela é várias coisas ao mesmo tempo. Finalista do Prémio LeYa em 2012, Os Olhos de Tirésias é um romance muito maduro para quem só recentemente começou a escrever para os outros, uma obra de análise psicológica com assinalável profundidade e uma boa promessa para o futuro.

 

22
Mar13

Blimunda e Eu

Maria do Rosário Pedreira

Nas últimas Correntes d’Escritas, fui convidada a dissertar sobre um verso de um dos poetas finalistas do Prémio Correntes d’Escritas-Casino da Póvoa, José Agostinho Baptista. O verso era «Desse país arranquei todos os cravos» e usei-o como ponto de partida para um texto sobre as razões cómicas e trágicas que me tornaram leitora e escritora. Muita gente que lá estava (e outros que não estavam) me tem pedido que o publique aqui no blogue, mas as Horas Extraordinárias não são o sítio indicado, quanto a mim, para postar textos assim longos e com objectivos específicos. Eis senão quando a jornalista Sara Figueiredo Costa me pede que a deixe publicar o texto na revista Blimunda, da Fundação José Saramago, num número dedicado às Correntes. Assim, ficou tudo mais fácil e limpo. Até porque a Blimunda tem muito mais que ler para além do meu texto e assim saímos todos beneficiados. O link, para os curiosos, aí vai. O download é grátis.

 

http://www.scribd.com/doc/131230713/Blimunda-N-%C2%BA-10-marco-2013

21
Mar13

Dia da Poesia

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é Dia da Poesia em Portugal e, por esse País fora, multiplicam-se as sessões de leitura poética com presença de autores ou dedicadas a poetas já desaparecidos. Dedico também hoje, por isso, o meu post a livros de poesia recentemente postos a circular nas nossas livrarias. O primeiro é uma reedição de O Problema da Habitação, de Ruy Belo, originalmente publicado em 1962 e agora prefaciado pelo também poeta (e professor universitário) Fernando Pinto do Amaral, que o considera um dos mais marcantes do autor, no qual se responde, numa dezena de textos (sete longos e três mais curtos), à interrogação sobre o papel que o homem desempenha neste mundo. O segundo é uma novidade. Trata-se de Fogo, o mais recente livro de poemas de Gastão Cruz, cujo texto inicial aqui reproduzo. Para festejar.

 

Há dias em que em ti talvez não pense

a morte mata um pouco a memória dos vivos

é todavia claro e fotográfico o teu rosto

caído não na terra mas no fogo

e se houver dia em que não pense em ti

estarei contigo dentro do vazio

20
Mar13

Granta

Maria do Rosário Pedreira

A Granta é uma reputadíssima revista britânica que, desde 1983 e uma vez em cada década, lança um número especial dedicado aos autores que constituem as verdadeiras promessas literárias do futuro. Muitos dos escritores anglo-saxónicos que hoje são consagrados apareceram nestes números especiais quando ainda ninguém sabia as boas surpresas que nos reservavam (o primeiro que me ocorre, da primeiríssima leva, é Martin Amis). Em 2003, por exemplo, lembro-me de que Alan Hollinghurst estava entre as promessas da Granta – e, como ele, Monica Ali e David Mitchell. O número de 2013 está quase a chegar (suponho que em 15 de Abril) e será seguramente um bom termómetro da nova literatura britânica. Saíram também números dedicados aos romancistas com menos de 40 anos nos EUA – e Jonathan Safran Foer, que já aqui mencionei a propósito de dois romances (Está Tudo Iluminado e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, ambos adaptados ao cinema) foi um dos escolhidos; depois foi a vez da literatura de língua espanhola e da literatura brasileira. Mas, além dos números especiais, a revista sai regularmente com um tema específico, à volta do qual se publicam textos de ficção e não-ficção de autores de vários países. E tudo leva a crer que em breve teremos a nossa própria Granta, dirigida pelo jornalista Carlos Vaz Marques e publicada pela Tinta-da-China, pois o anúncio já foi feito por ambos. Se quiser, pode desde já tornar-se assinante. A Granta portuguesa até já tem uma página no Facebook.

19
Mar13

Autopublicar

Maria do Rosário Pedreira

Em Portugal, ainda não é significativo o número de autores que se autopublicam e, sobretudo, ainda não é de modo nenhum mensurável o sucesso que alcançam com os respectivos livros. Às vezes, há textos que se destacam em blogues e as editoras tradicionais contactam os seus autores com vista à publicação de um livro em papel, mas, na generalidade, nenhum editor (e faço aqui o meu mea culpa) está suficientemente atento aos livros autopublicados digitalmente e anda à procura de autores nesse espaço infindo que é a Internet (falta de hábito e falta de tempo, diria eu). Noutros países, porém, essa prática é comum (nos países anglo-saxónicos, sobretudo) e as fatídicas 50 Sombras de Grey são apenas um de muitos exemplos de obras autopublicadas, e posteriormente descobertas por grandes editoras, que atingiram níveis de sucesso incalculáveis. Pensava que todos os escritores que se autopublicam queriam, no fundo, chegar um dia a ser publicados por uma chancela de renome. Leio, porém, num site de notícias sobre edição digital que nem todos procuram o reconhecimento que uma editora consolidada lhes pode oferecer, uma vez que se sentem confortáveis por controlar em tempo real as vendas dos seus livros e receber, se for o caso diariamente, os proveitos delas decorrentes. Têm igualmente a ideia de que, sendo os únicos proprietários dos direitos, estão livres de baixar o preço quando bem o entenderem se, por exemplo, verificarem que a obra não está a ser comprada – o que, de modo nenhum, poderiam fazer se a editora tivesse fixado ela própria um preço (menos ainda se nesse país houvesse a lei do preço fixo). Julguei que era importante para os escritores o reconhecimento do interesse e da qualidade dos seus livros por alguém reputado; mas, pelos vistos, neste mundo de números em que vivemos, o dinheiro conta mais...

18
Mar13

Uma vida nos livros

Maria do Rosário Pedreira

Leio no blogue de um amigo espanhol editor e escritor, Adolfo García Ortega, uma história belíssima de uma chilena, Susi Armendáriz, que, vivendo perto do Cabo Horn, apenas conseguiu ver o seu farol aos noventa anos, pois desde pequena que praticamente não saía da aldeia onde nascera. Aos dezoito anos, foi para casa de uma senhora rica e cega ler-lhe diariamente romances, onde ficou até aos trinta e quatro, altura em que a patroa morreu. Mas poucas semanas depois ofereceram-lhe um novo emprego como leitora noutra casa próxima. Desta feita, a senhora não era tão rica, mas estava também cega, e foi com ela que passou os quinze anos seguintes, lendo continuamente. Aos sessenta e sete anos, Susi fizera da leitura em voz alta a sua única profissão e, quando a nova patroa morreu, conseguiu outros trabalhos do mesmo tipo até ser ela própria muito velhinha. Nos últimos tempos em que trabalhou, já nem sequer lia, repetindo à sua maneira as histórias que conhecia desde a juventude. Quando praticamente cegou, contava a si mesma essas histórias, como se fossem recordações da própria vida, acabando por confundir a realidade com a ficção: sem ter saído da sua aldeia, acreditava que já estivera em muitos locais que serviam de cenário aos romances que lera e que protagonizara muitos dos episódios ali contados. Quando, aos noventa anos, a levaram finalmente a ver o farol do Cabo Horn, essa foi a sua última recordação.

15
Mar13

Ser feliz

Maria do Rosário Pedreira

Daqui por uns dias comemora-se o Dia Mundial da Felicidade – e é por isso uma boa altura para ler o novo ensaio de Miguel Real, escrito no seguimento de Nova Teoria do Mal, que foi publicado no ano passado e acendeu a polémica. Nova Teoria da Felicidade não é menos controverso, tendo em conta que aponta mais uma vez o dedo a uma classe política enriquecida à custa de benesses e subsídios, que manda os jovens emigrarem e acentua diariamente as desigualdades sociais, chamando «piegas» aos Portugueses. Miguel Real, num estudo filosófico sobre a felicidade – isso que todos buscamos incansavelmente –, reflecte sobre o poder, o desejo, a necessidade e o prazer em cerca de centena e meia de páginas e acusa uma classe dirigente de chicos-espertos, oportunistas e carreiristas de impedir a realização pessoal dos outros e, consequentemente, a possibilidade de esses serem felizes. Revisitando os filósofos antigos e as suas teorias, esta é também uma obra sobre o presente e, por isso, ainda mais imperdível e oportuna.



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